Matzatea , O começo do fim,
Capítulo Um, Uma Quartafeira
No firmamento sem nuvens a lua visível corta o céu da manhã fria, dona do espaço
suavemente deslizando em direção ao poente, quase plena, quase cheia, crescente, surgindo
tarde adentrando a madrugada, saudando o dia, empenhada em ciclos mais antigos que
qualquer pensamento humano, influenciando mares e humores, tudo que é líquido é
instigado pela lua, tudo que é tempo é persuadido por seu movimento. Gravitando este
longínquo pedaço de rocha cuja crosta por atmosfera protegida sustenta a vida, a luaMatzatea , O começo do fim,
Capítulo Um, Uma Quartafeira
No firmamento sem nuvens a lua visível corta o céu da manhã fria, dona do espaço
suavemente deslizando em direção ao poente, quase plena, quase cheia, crescente, surgindo
tarde adentrando a madrugada, saudando o dia, empenhada em ciclos mais antigos que
qualquer pensamento humano, influenciando mares e humores, tudo que é líquido é
instigado pela lua, tudo que é tempo é persuadido por seu movimento. Gravitando este
longínquo pedaço de rocha cuja crosta por atmosfera protegida sustenta a vida, a lua não
gosta de contar, mas tem inveja da terra, mais precisamente, inveja esta atmosfera que
tantas peculiaridades a vizinha confere, e quando lá do alto a lua observa o mundo
terráqueo, faz o possível para ser sentida, o possível para ser vista.
Entre os seres que neste momento a lua observam, está o jovem humano Abelardo,
sentado na poltrona desconfortável do ônibus em movimento, com os braços cruzados
distraidamente olhando para o céu, trocando olhares com a lua enquanto o velho ônibus da
linha quatrocentos e quatro corta acelerado as ruas da zona norte do Rio de Janeiro. A visão
da lua é interrompida pelos prédios obstruindo a imagem do firmamento, o barulho do
trânsito, o engarrafamento ordinário de cada dia, massa lenta rumando ao labor. Trajeto
arrastado e truncado, o pescoço pesado, por vezes Abelardo dormita, acordando com o
solavanco de uma freada brusca entre a orquestra disfônica de buzinas e xingamentos
quando um motoqueiro após bater com a perna no retrovisor de um carro perde o equilíbrio
quase caindo na frente do ônibus freando bruscamente a poucos centímetros do impacto, o
motoqueiro mostra o dedo para o motorista furioso rebatendo com longas buzinadas e
impropérios, tudo dentro da mais perfeita normalidade.
O ônibus está cheio, todos os lugares ocupados, acima da capacidade os passageiros
em pé espremidos procurando espaço, procurando abrir um corredor em direção a saída.
Abelardo deixa a janela, olha para dentro, aliviado por sempre conseguir um lugar sentado,
vantagem de morar próximo ao ponto final, é um dos primeiros a entrar, garantindo um
lugar na janela do lado direito perto da porta de saída.
Parada solicitada, chegada a hora do desembarque, Abelardo levanta, com outros
que no mesmo ponto descem, no começo do aterro do Flamengo. Abelardo se mistura a
massa de homens e mulheres, em ternos bem passados, em uniformes de redes de fast food,
em trajes militares de serviço público, variadas idades cores tamanhos jeitos aspirações em
tudo diferentes, em quase tudo, em comum a expressão desanimada do acordar contrariado
que só aqueles que todos os dias pegam ônibus sentem. Nessa massa em movimento
Abelardo espera o sinal, para atravessar o aterro até o canteiro de onde as passarelas passam
por cima das vias rápidas onde o trânsito segue ininterrupto, repara no caminhão da
prefeitura com os farois piscando enquanto um homem faz sinal para desviar os veículos
durante o tempo em que dispõe cones fechando uma parte da rua, o caminhão tem uma gruaoperada por um trabalhador com um lata de tinta e um grosso pincel, um homem de longos
bigodes e grossas sobrancelhas vestido com colete e boné verde e amarelo, pintando de
verde e amarelo cada poste ao longo da longa avenida, nesse momento ele longamente
suspira, alongando o desejo com a lembrança de um dia à toa, os passantes na passarela
destes detalhes não sabem, sem prestar atenção seguindo em marcha. Hoje é quinze de
março de mil novecentos e noventa e quatro, na semana que vem, no feriado de primeiro de
abril, será comemorado o aniversário de trinta anos da Revolução Militar. Assim como
Edilson Souza, auxiliar de serviços externos e paisagístico da prefeitura do Rio de Janeiro,
tantos outros trabalhadores empenhados estão na ornamentação da cidade, avenidas e ruas,
prédios públicos e privados, o sentimento patriotico toma conta da nação.
Parece não haver forma de escapar das rédeas decorativas do verde e amarelo.
Ainda que as comemorações da revolução não sejam unanimidade entre pares da nação,
outro detalhe contribui para o nacionalismo, esse sentimento, bem mais forte e vigoroso
que a política, é ano de Copa do Mundo. Parece não haver forma de escapar das
bandeirinhas e faixas, e mesmo os modernos prédios da orla do Flamengo exibem a
indumentária com as cores da pátria. Em um destes edifícios modernos recém construídos,
ocupando cinco andares, está localizada a Conta Conta Contabilidade. No vigésimo
primeiro andar está o setor de Conferências Contábeis. Cléston Coimbra, gerente geral do
setor de Conferências Contábeis da Conta Conta Contabilidade, tem orgulho de manter um
ambiente, abre aspas, Descontraído e produtivo, fecha aspas, uma das medidas, pelo
gerente geral tomadas, a qual se diz que, quiçá a melhor medida já tomada, foi a reforma da
antiga cafeteria do andar em um ambiente aconchegante e descontraído com cafeteiras
novas e variados quitutes açucarados. Neste momento, quase às nove da manhã, Cléston
ainda dorme, não gosta de chegar cedo, ainda assim o nome do gerente é evocado, por
Jefferson, que neste momento deixa escorrer pelos lábios o café quente tomado em grande
gole na tentativa de engolir um pedaço de sonho entalado na garganta, tosse, o pedaço
cheio de creme volta para boca, dessa vez é mastigado antes de ser engolido. Abelardo de
longe presencia esta cena enquanto outros companheiros de escritório riem e Jefferson
vermelho do engasgo volta ao assunto, agora feliz em ter plateia para ouvilo.
Abelardo gostaria de um café caso tanta gente na cafeteria não houvesse, situação
essa que em breve será instalada, enquanto isso, segue para a baía vinte e um, cubículo
melancólico e asséptico, onde na confortável cadeira senta, onde o corpo encontra a posição
costumeira, de onde vê a tela, agora aberta nas mesmas abas com as mesmas planilhas onde
executa a função de analista técnico contábil. Função esta que sempre, como agora, faz rir
Abelardo, nomenclatura que nada quer dizer, da mesma forma, o trabalho sem sentido, a
maior parte do tempo Abelardo executa a tarefa, considerada de máxima importância, de
reconferir as planilhas que já foram conferidas. Um rosto aparece na meia parede direita
quando Tamaru com um copo de isopor fumegando aroma achocolatado chega ao olfato
antes das palavras do cubículo vizinho, Está preparado para hoje. A pergunta vem com tom
desafiador, entretanto, por conhecer Tamaru, provavelmente é alguma piada, nunca
inventando, mas sempre exagerando uma situação real, respondendo a pergunta com o
mesmo tom Abelardo diz, E deveria estar preparado para que. Tamaru sopra a fumaça e
depois de um gole na bebida quente diz, Hoje é aniversário do Carlinhos da repartição deindexamento, parece que Cléston vai até liberar o andar inteiro mais cedo para começar o
happy hour. Abelardo havia esquecido, colocado a informação em alguma gaveta onde não
pretendia procurar, pensa no que dizer, sabe que qualquer resposta negativa, ou mesmo que
pareça negativa, fará Tamaru passar o dia em insistente tentativa de convencimento, o
melhor a ser feito é demonstrar interesse, e caso não indo, o que é o mais provável, partir
discretamente pós expediente, diz, Pois é, tô sabendo, e parece que Antunes prometeu uma
rodada de chopp pra todo mundo. O comentário faz Tamaru sorrir, acaba de obter nova
informação, com um largo sorriso diz, Já volto. Enquanto para a cafeteria ruma.
Resto de manhã arrastada, conferências devidamente conferidas, estômago
roncando, ainda nem são onze horas, mas tantos minutos parecem passados que dentro da
manhã cabem dois dias, alongados no tédio, no trabalho automático sem qualquer interesse,
na maior parte do tempo Abelardo sequer sabe sobre o que se tratam as planilhas, todos os
números fórmulas siglas, que conhece mas desconhece qualquer sentido, e assim segue, e
por esse desinteresse faz o trabalho prescrito com tamanho precisão que aos agrados dos
superiores conquistou uma boa posição.
Outra vez está lembrando a mesma cena que com rotina lembra, cinco anos atrás,
um amigo dizendo, Cara, pega essa vaga de estágio, você tá sem grana, e daí não tem a ver
com o que você quer fazer, fica numa posição financeira mais tranquila que vai ser mais
fácil seguir outra carreira. O processo seletivo, dinâmica de grupo e entrevista, o contrato
de estagiário vinte horas por semana por um ano, passou rápido, contrato renovado por
outro ano, tão rápido quanto, e precisa decidir ser contratado ou deixar a empresa, o salário
é bom e tem perspectiva de melhorar, tem plano de saúde, as horas de trabalho são tediosas
entretanto tranquilas, os amigos do mesmo andar, e assim os anos até o agora, onde sentado
frente a tela com trabalho pronto às onze horas sozinho sai para almoçar.Capítulo Dois, Flâneur
Pelo bairro patriotico um espectro anda alheio às querelas mundanas. Mente vaga
em pensamentos sem imagem atribuída, acompanhado de desconforto contínuo, misto
orgânico psíquico, náusea constante, tribulações sem cessar instante, simultaneamente,
suave paz, acompanhada de tédio. Correria, um cachorro de apartamento fugindo correndo
arrastando a coleira no chão seguido pelos passos pesados pedindo ajuda, Alguém segura o
Juninho. O Juninho recém tosado com laços nas orelhas corre pertubado pelo odor do
banho, procurando pelo faro um cheiro que lhe seja de mais agrado, não consegue
atravessar a rua, uma moça segura a coleira olhando nos olhos do fujão, Que meninho mais
danado. Um jovem com um cartaz se aproxima dobrando a cartolina debaixo das axilas
deixando as mãos livres para acariciar Juninho com seu semblante frustrado. Assim como
este jovem outros tantos do outro lado da rua com cartazes e gritos protestando na frente do
edifício onde reside o senador Alcimar Carneiro. Manifestações e protestos em vias
públicas e na frente de prédios do governo agora são tratados como crime nível 2, sendo
assim, encaminhamento direto para unidades prisionais. Achando uma brecha, protestos são
organizados em horário diurno direcionados a ambientes privados, como a entrada do
edifício onde neste momento o senador acompanha da cobertura a movimentação na
calçada. O cheiro de hortelã vem do restaurante árabe, apetecendo Abelardo quase parando,
continuando andando, rumando ao restaurante atrás da praça, entrada discreta, porta de
madeira, corredor comprido, escadaria, espaço amplo escondido, self service com arroz e
feijão, yakisoba e sushi, lá chegará em breve, atravessando as ruas em bom humor peculiar,
gosta de andar pelo Rio de Janeiro, mais aprecia esse caminho entre prédios que paisagens
rurais, nas poucas vezes no campo, a preferência pelo caos urbano, pelo sentido único da
cidade através da aparente falta de sentido da urbe caótica. A confusão da rua sufoca os
pensamentos, permitindo a suave liberdade de ignorar o que incomoda.
Só que agora o prato está vazio, e o restaurante silencioso, e nesta atmosfera os
ecos podem ser ouvidos, a mão brinca com o garfo na superfície suja onde outra vez a
lembrança surge, outra vez são cinco anos no passado, outra vez escutou o amigo que
também emprestou a roupa quando disse, Se for pra ir na entrevista com esse tênis sujo é
melhor nem ir. Coloca o sapato emprestado, e camisa dentro da calça, e senta na recepção
onde outros aguardam, outros que a vestimenta parecem ter combinado, variam as cores,
um pouco, mas a intenção é a mesma, exceto, Olivia, é nesse dia que vê Olívia pela
primeira vez, e a lembrança faz sorrir, enquanto algumas lembranças apressa outras quer
desacelerar, como esta, quando olhando ao redor observa os sapatos dos concorrentes
quando os olhos encontram o par de tênis com detalhes coloridos, impecavelmente limpos,
bem amarrados, entretanto tênis esportivos são, e tão bem combinam com o Tailleur azul
escuro com suaves riscas realçando o cobre da pele bronzeada. Naquele dia intimidado,
agora ri lembrando, pensa em Olivia, como tem certeza, quando voltar e com ela encontrar
reclamações ouvirá. Dito havia que com ela hoje almoçaria, mais um fato obliterado.
Incomodado pela perseguição da melancolia deixa o garfo no prato, paga a conta, sorri para
o flerte da atendente, indo embora com a sensação gostosa provocada pelo olhar de uma
mulher interessante e interessada, agora a rua está cheia, início do pico do meio dia e meio.Sonoridades amontoadas, todavia agora não suficientes para sufocar pensamentos, tomando
forma, ganhando palavra, quase expelidos, conscientemente negados enquanto
inconscientemente indagados, som de sirenes, pedestre quase atropelado, ciclista sobe na
calçada deixando passar as viaturas, estão indo na mesma direção que Abelardo, as viaturas
têm bandeiras do Brasil penduradas nas janelas onde estão apoiados os canos dos fuzis dos
policiais em serviço.
Uma voz, E aí cara. Pescoço em direção ao dito, reconhecimento do rosto
conhecido, familiaridade da amizade, a resposta, E aí, gostei da camisa. Para entender a
resposta e o tom de Abelardo, é preciso ter conhecimento de dois fatos, fato um, o
interlocutor está usando uma camisa da seleção brasileira de futebol, fato dois, o
interlocutor é crítico ferrenho do regime. Estes dois fatos explicam a risada de
Maltizebeque frente ao comentario do amigo, a resposta vem recomposta, Pois é, descobri
que é só colocar essa camisa que fico invisível, facilita muito pra fazer a cobertura dos
movimentos de protesto, desde que passei a trabalhar de uniforme da seleção, não tomei
mais dura da polícia, nem mesmo fui incomodado. Abelardo balança a cabeça em
entendimento, Foi esperto, tá cobrindo o protesto na casa do senador, É isso mesmo, tô sim,
mas saí de lá a pouco, tá prestes a ficar feio, e aí com ou sem camisa da seleção não é bom
tá perto. Os dois amigos seguem andando, fazendo um caminho diferente, evitando a rua da
manifestação sem comentar o assunto. Falam sobre trivialidades e planos, Maltizebeque
trabalha para um portal de notícias independente, de Abelardo é colega da faculdade,
tomando na vida rumos diferentes, da mesma forma, no próximo rua, enquanto um tomará
a esquina da direita, o outro, seguirá pela esquerda. Agora já, sem a presença física, ainda
carrega a presença do amigo, tantas aulas juntos, discussões na sala e nas mesas de bar, na
mesma época do início do estágio, Maltizebeque começou de freelancer, fotos e fatos,
como ele diz brincando sobre a carreira, em tempos conturbados, imagens suaves da
violência fazem sucesso, e nas lentes que a captam Abelardo lembra da época que almejava
outra carreira, em um passado tão distantante que não tem certeza se aconteceu ou apenas
deseja ter acontecido, a realidade é tão diferente da memória que o atual é perdido na
neblina íntima dos desejos escondidos mas não esquecidos. V olta o cheiro de hortelã,
mesmo de barriga cheia o aroma apetitoso de tal maneira que quase entra para comprar um
kibe, cheiros da memória, limpando a mente, esquecendo pensamentos recorrentes,
preparando o espírito enquanto os pés no percurso automático atravessam a porta giratória
do edifício onde no dia a dia passa a maior parte do tempo.Capítulo Três, Eras da tarde
Com a cabeça apoiada no punho direito inclina os olhos para observar a caneta
vermelha sem tampa sendo girada entre os dedos da mão esquerda. Parte lateral da testa
sustentada pelo braço com o cotovelo sobre a mesa, a mesa é larga e espaçosa, espaço
realçado pela falta de objetos revelando o brilho do tampo lustrado. A tela, o mouse, o
teclado, sem fio, o caderno, sem pauta, no mesmo lugar, a tanto tempo, a caneca de time
transformada em porta caneta, o celular, o chaveiro com as chaves, uma delas quase
quebrada. Outro giro completo da caneta passando do mindinho para o anelar, a parte mais
difícil do movimento, agora entre os dedos maiores duas voltas rápidas e a caneta cai sobre
a mesa deslizando até esbarrar no celular, atenção passa da caneta para o celular, pega o
aparelho e no momento que a tela é aberta uma voz suave para o instante, o desperta, Não
te vi sair para almoçar, achei que iria com a gente. Quem está dizendo é Olívia, veste um
terninho preto com blusa de botões com tecido fino, indumentária utilizada como uniforme
não oficial pelas mulheres da Conta Conta Contabilidade. Entre os funcionários reinam
regras não ditas, regras de etiqueta e vestimenta, passadas hierarquicamente, com coesão
absorvidas e seguidas. A roupa bem veste Olívia, que bem misturar as formalidades do
escritório com sua própria vontade sabe, vestimenta com uma modelagem clássica, camisa
social de cor sóbria, brincos de um metal lilás retorcido, conjunto com a discreta presilha
entre os cachos, combinando com a cor das listras do tênis esportivo. Abelardo olha para o
tênis de Olivia e sorri, reconhecendo detalhes que apenas bons amigos conhecem, a linha
idiossincrática de um traço de estilo entendido como qualidade ímpar frente ao código que
lhe imputa defeito.
Abelardo deixa sobre a mesa o celular e a caneta, roda a cadeira ficando de frente
para Olívia para quem levanta os olhos enquanto diz, Saí mais cedo. A resposta curta põe
no semblante de Olivia olhar repreensivo, como uma professora que repreende o aluno por
algo errado que não deveria ser feito, mas que ao mesmo tempo acha graça e não consegue
manter a seriedade da reprimenda, Olívia diz, Tudo bem, falando sério, se eu soubesse que
Cléston iria junto, teria dado um perdido. Olivia olha para os lados para ter certeza que
ninguém ouvirá o que em sussurro será dito, Ele é insuportável. Abelardo solta uma
corrente de ar pelo nariz, sem nada dizer balançando duas vezes a cabeça, Olívia entende a
concordância e continua, Mas deixa isso pra lá, só que, hoje, você vai comigo no happy
hour, eu quero ir, mas não quero chegar lá sozinha, e nem sei quem vai. Abelardo roda a
cadeira, ficando de frente para o computador finge mexer o mouse enquanto finge ler algo
que finge ser importante enquanto finge ignorar Olívia que enquanto isso espera a resposta,
já sabendo que o amigo irá junto, mesmo que ainda tenha que convencelo. Abelardo deixa
o fingimento e volta os olhos para o olhar que o encara, Tudo bem, vou sim, mas você me
deve dois chopes. Olivia sorri aliviada por não ter que gastar lábia em convencimento,
Ótimo, dois chopes, mas você vai embora na hora que eu quiser. Neste momento as
sobrancelhas de Abelardo sobem de modo involuntário revelando traços de espanto que
fazem Olivia rir enquanto diz, Não precisa se preocupar, não vai ser tarde, amanhã ainda é
dia útil, e sem ressaca já tenho dificuldade de levantar na hora certa. Abelardo ruboriza com
a risada frente a careta involuntária, buscando algo para desviar diz, Mas você nem precisa
que eu vá, suas amigas não perdem um happy hour. Neste momento o semblante de Olivia
muda, já não é mais a repreensão lisonjeira, agora é a seriedade de quem observa algo quenão deveria ser feito e não tem graça, Não vem com essa, você já disse que vai comigo, não
tem como voltar atrás.
Sorrindo satisfeito acha graça Abelardo, com as sobrancelhas levantadas em uma
nova expressão de olhos arregalados, confirmando estar brincando. Olívia percebe a
pilhéria, da mesma forma que percebe a reação que mesmo suavizando o tom de voz
mantém a mesma expressão severa, Eu sei disso, mas elas ficam até tarde, sempre, vai ver
Abigail então, é inimiga do fim, enquanto tiver alguém acompanhando a saideira, a
próxima cerveja é sempre a última, e se eu estiver sozinha vou acabar bebendo mais, com
você eu fico mais tranquila. A última frase dita destoa do restante do tom da conversa,
ambos percebem, reconhecendo este momento onde a amizade é corrompida por outro tipo
de relação, neste caso e atual momento, a última frase por Olivia dita em ambos da mesma
forma ressoa, o conforto que sentem apenas quando estão na companhia um do outro,
sentimento este raro, e por isso mesmo especial. O silêncio neste momento instalado não
chega a ser insuportável, todavia é um plano de significado onde não há planos de entrar.
Silêncio quebrado pelo som alto de um grupo animado saindo do elevador, os
últimos retornam do almoço, alguns em direção a cafeteria, outros para suas baías seguem.
Entre os mais animados está Cléston, falando alto sobre algo que fará hoje a noite. Olivia
faz uma expressão que Abelardo exatamente entende o significado, sem mais nada dizer ela
parte.Capítulo Quatro, Happy hour
A cidade transborda história, nas gotas derramadas as vozes abafadas, ruas
centenárias, arquitetura do poder, na Praça Quinze a Câmara Municipal, agora não têm
plenário, os apressados correm em direção a estação das barcas, para cruzar a baía de
guanabara até Niterói, skatistas deslizando nas bordas dos monumentos, papelões
escondidos para a noite serem usados pelos moradores de rua durante o dia circulando,
particularidades do centro histórico do Rio de Janeiro, nas fachadas antigas e deterioradas,
exteriores pichados, o som das sirenes sempre presente, no fim da praça um arco, é contado
que séculos passados uma rica família aqui morou, grande residência entre duas ruas
importantes da então capital do império, uma passagem construída, veio o incêndio, os
abastados partiram, deixaram a miséria e a devassidão, a rua dos Santos Prazeres, de santas
e bruxas, hoje tem bares e clubes noturnos, caminho do fim de tarde, cheiro forte do vento
vindo das águas escuras da maré quieta, cruzando o arco do Telles passa um grupo, com
roupas sociais, de algum escritório, de alguma empresa, procurando um lugar com cerveja
gelada, e música animada para combinar com os ânimos destes seguindo animados pela
viela medieval. Circulando estão homens e mulheres oferecendo o menu dos restaurantes,
repetindo, Bom preço e cerveja gelada, Promoção da porção grande de camarão, Até as
nove drink em dobro. O grupo animado continua sem parar para o local programado, na
travessa do comércio, um antigo casarão, espaçoso e aconchegante, tacos compridos do
piso de madeira, vigas no teto criando a mesma sensação dos casarões das fazendas
cafeicultoras, janelas abertas por onde a noite entra, acústica abafada, som alto, agora para
conversar é preciso alto falar, um copo, um drink, um riso, riscando o estirar das horas,
quando alguma bebida melada cai no chão deixando as passadas pegajosas, mais gente
chegando, ainda longe de lotado o lugar agora está cheio, V ou pegar água, você quer, No
caminho preciso do banheiro, uma resposta não entendida entre risadas fala sobreposta
esbarrados por estes tentando cruzar o caminho até a pista de dança.
No banheiro ebrio o alivio, amarelo líquido dos orgãos sobrecarregados, atividade
sanguínea em extremidades quentes, todos os palavrões e pirocas discretamente ou não
desenhehandos nas paredes entre os mictorios, azulejos antigos, limpos, ainda assim ou
mesmo por isso, desgastados, como tudo, inexorabilidade do tempo, carrossel dos astros, da
mesma forma agindo nos azulejos e nas pessoas, a braguilha fechada, a pia e a água, as
mãos e o rosto, gotas escorrendo até a gola da camisa misturadas ao suor, ambiente quente,
teto de madeira, teto baixo, um antigo galpão comercial, no meio da rua do comércio, ponto
movimentado no comtemporaneo pela bohemia aproveitando, barulhos dos pés nos tacos, a
música agora animada, mais água no rosto, corpo reposto, vozes entrando no banheiro,
rindo alto, derramando bebida no chão, os olhos nas mãos segurando a sensenção pelo
alcool ampliada, contemplação interior, sentimento de tempo estagnado, ainda é jovem, tem
sonhos e a certeza juvenil da concretização, olhos abertos na palma das mãos, do corpo
cansado, reclamando por nunca ter tempo, desanimado grande parte do tempo, querendo ter
mais tempo, sem saber o que fazer com o tempo que tem, e o disparate deste conflito dos
olhos nas mãos sustentando, a sensação de dois eus, dois corpos, globos oculares
encaixados, secando a água no rosto com toalhas de papel, desenbasando a visão para olhar
no espelho, sabendo que será esta imagem a resulução do impasse, unindo os dois corpos
em uma imagem real e nitida, nesta imagem agora vista, do outro lado do espelho onde oego espera encontrar o eu, que aqui não está, nem lá, nem, ali. A decepção do
reconhecimento, sabe ser aquele que vê, nem novo nem velho, pouco idade com a
vivacidade sugada pelos vampiros cotidianos, eis que um terceiro corpo surge, sem juntar
os outros, apenas os sufocando, lembrando que acima de tudo é este deste lado do espelho,
este que os outros vem, este que responde prontamente quando lhe chamam o nome. Uma
ajeitada no cabelo, uma olhada nos azulejos, todos iguais, ao olhar distraído.
Na pista de dança, casais dançando forró, Abelardo evita o caminho, por um canto
entre pilastras em direção ao bar, no caminho é escoltado por Tamaru dizendo, Aí tá você,
to te procurando, chega aqui no bar, assunto importante. Desviando daqueles ao redor das
pilastras observando os pares dançarinos agora que o ritmo acelerado do xaxado deixa
apenas os mais ousados ou experientes. Na ponta do balcão conversando com o garçom
está Ailton, é nessa direção que estão indo. Tendo em vista fatores já conhecidos, Abelardo
na aproximação antecipa o assunto. Na Conta Conta Contabilidade a maior parte dos
funcionários é masculina. No setor contábil, onde estão a maior parte dos empregados,
noventa por cento da força de trabalho é de homens. A única exceção a esta estatística é o
setor de recursos humanos. Angela Tapitanga é gerente geral regional de recursos humanos
e estratégicos na Conta Conta Contabilidade, mulher com o cargo mais alto na hierarquia
da empresa. Desde que assumiu atual posição, tem tomado como prioridade não
comunicada recrutar mais mulheres, tarefa que não tem sido simples, já que muitas vezes
suas decisões são questionadas por superiores retrógrados com poder de veto, entretanto,
dentro de sua própria repartição tem poder total, e assim, o setor de recursos humanos e
estratégicos da Conta Conta Contabilidade na capital carioca, tem maioria de mulheres.
Abelardo é amigo próximo de Olívia, o que lhe permite circular livremente por este círculo
que conhece, outros, como Ailton e Tamaru, não tem este privilégio, por isso mesmo, neste
momento, Ailton irá fazer perguntas sobre as presentes mulheres, procurando as solteiras,
detalhes que talvez ajudem na aproximação, pleitear uma possível apresentação. Nestes
poucos metros antes do balcão tudo isso Abelardo antecipa, agora nesses segundos que o
contato antecede, planeja o que fará. Por um lado, Tamaru é um cara tranquilo gente boa,
que demasiadamente gosta de agradar, necessidade beirando o patológico de ser bem visto
e quisto, isto o torna amigo de muitos, alguns sinceros, outros, como Ailton, ainda que não
aproveitador um sujeito de labia leve aderido a uma vida boêmia em sua ética peculiar, e
hoje quer ir para casa com alguém, de preferência uma mocinha frívola e assanhada,
perfeita para uma distração gostosa e uma despedida rápida. Quando a poucos passos de
Ailton estão, um estridente chamado, não reconhece as palavras que percebe a si
direcionadas, antes que consiga olhar é tomado pelo braço por Abigail puxando, agora
consegue entender o que ela diz, Vem você vai dançar comigo.
Abelardo responde, Não não, tô indo no bar tomar alguma coisa. Ainda puxando em
direção a pista Abigail continua, Que nada, você sabe que eu te salvei, aquele
inconveniente do Ailton tava prestes a te alugar que eu sei. Abelardo ri enquanto procura
uma desculpa que lhe facilite a fuga da dança, pensa em reclamar da velocidade da música
atual, quando está prestes a falar, a música troca, começa um xote lento, uma melodia
conhecida, e muitos dos que olhavam tomam a pista obstruindo o caminho para qualquer
lado enquanto Abigail coloca o braço de Abelardo ao redor da cintura. Cadência dos corpos
familiares ao contorno e movimento. Abelardo é bom dançarino, com um estilo correto e de
pouca imaginação, entretanto firme na condução, o que com uma parceira experiente faz
parecer um verterano. Sabe que neste momento olhos sobre ele estão, a bela Abigail, depernas grossas e cintura fina onde os dedos ágeis agora deslizam indicando a direção,
nádegas firmes, agora roçando provocativas em um giro de noventa graus, ambos olhando
para frente, mão na barriga sobre o volume de uma suave dobra falanges deslizam, outros
noventa, círculo completo, braços sobre os ombros, Abigail sorrindo, V ocê dança bem, e
querendo fugir de mim. Abelardo sorri, excitado com o corpo quente na palma das mãos,
não sabe o que dizer, e sobre isso não quer saber, diz algo que vem à mente, Todo mundo
quer dançar com você. Olhar penetrante, os lábios indicam brincadeira, palavras quentes do
hálito de álcool, calórico pulso dos músculos em movimento, fala suave carregada de
sarcasmo, ela gracejando, E dançar com quem. Continuando a brincadeira, Abelardo cita
um nome que acredita fará graça a altura do sarcasmo, Pode ser o Ailton, acho que ele iria
gostar. Uma gargalhada e um giro, Nem deve saber dançar, vai ficar fingindo um dois só
pra me passar a mão. Agora é Abelardo quem gargalha, fazendo a parceira executar outra
vez o mesmo giro, voltando de frente um para o outro ela diz, Hoje não é o dia dele,
comigo com certeza não e nunca, e vendo quem tá aqui, as meninas já conhecem o papinho
dele, mas vai ver ele dá sorte e acha alguma desafortunada por aí. A música muda,
continuando na mesma vibe, a pista continua cheia, a nova canção é um clássico conhecido,
vozes cantando junto, tornando difícil a conversa dos dançarinos, Abigail puxa Abelardo,
corpos próximos, o cheiro dela é inebriante, doce perfume e amarescente suor, o ambiente
quente agora mais quente ainda, abafado pela respiração de tantos próximos, a respiração
dela tocando o lóbulo dizendo, Aposto com você que hoje ele não pega ninguém. Abelardo
previamente a dança em leve embriaguez, agora intoxicado pela sedução seguindo o
movimento da palma da mão aberta, os pés deslizam seguindo o ritmo, em determinados
momentos dobrando o movimento dentro do compasso, nesse passo encaixando as coxas de
Abigail sobre o alto do quadríceps, nestes instantes os seios espremidos contra o braço na
altura do ombro, ela ri e roda e se se deixa derreter, tem a musculatura de mercúrio,
brilhante e fluida, ao mesmo tempo metal e líquida, desfazendo no passo para solidificar no
giro, tocando e deixando ser tocada, quando outra vez volta completa o rosto colado diz
com voz provocante, E sabe quem mais eu aposto que não vai pegar ninguém, você.
Abelardo ruboriza além do vermelho já presente, sem perder o ritmo prepara uma resposta,
interrompida pelas palavras sedutoras, Só que você só não pega porque não quer. E o rubor
por um instante quase lhe tira o chão quando ainda sem encontrar a resposta anterior não
sabe palavras para a próxima, sem silêncio ela continua, Mas não se preocupe, eu sei
porque, e se eu te amassasse que nem eu quero, ela iria ficar devastada. O assunto muda de
forma inesperada, Abelardo procura os olhos para encarar indagativo, Abigail rindo arqueia
a testa em traços atrevidos que sabe lhe aumentar a provocação, V ocês dois são fofos, que
saco, chega de dançar, você já passou muito a mão na minha bunda por hoje. Abelardo
conhece Abigail, tem intimidade suficiente para conhecer esta que agora fala, atrevida e
insolente, diferente da figura pública, ainda assim, neste momento não consegue esconder a
timidez e envergonha como uma criança, o que agrada Abigail, que lhe beija o canto da
boca onde tanto pode se dizer que já são os lábios quanto apenas é o fim da bochecha.
Cortando a pista de dança puxa Abelardo em direção ao balcão.Capítulo Cinco, Resenha
No balcão, um grupo de cinco pessoas está conversando, o assunto, os boatos sobre
um novo cliente, o senador Alcimar Carneiro. Neste momento quem fala é Matias, com um
copo de caipirinha em uma mão roda o canudo com a outra enquanto diz, Já não bastasse
tudo que já temos que aturar, agora tem mais um desses pulíticu milicu, e o pior é não
poder falar nada e aceitar essa baixaria, eu sei muito bem, e muito bem sei que todos vocês
sabem porque o excelentíssimo senador está procurando os serviços da nossa
excelentíssima instituição. Horácio ri da afetação do amigo ao tocar no assunto, por um
lado entende os motivos da fúria e da frustração, por outro, entende ser essa uma batalha
previamente perdida, nada há que um baixo funcionário possa fazer frente às demandas
superiores, com o agravante, basta tais palavras tocarem os ouvidos da pessoa errada para
desencadear sérias consequências. Horácio olha para os lados, certificando que apenas
pessoas confiáveis estão próximas ao campo de escuta, olhando para Matias diz, V ocê tem
que controlar a língua, sabe que o Cléston tá por aí, ele e aquele cara que parece a sombra
dele, e se eles escutam essas merdas que você tá falando, roda você e provavelmente nos
por cumplicidade. Matias não tira os olhos do canudo enquanto mexe nos cubos de gelo
restando no copo quase vazio, Olha só eu falo mesmo e tenho noção, tô aqui falando pra
vocês que confio, ou não deveria falar, desculpe se as merda que eu falo são muito merda
pro seu ouvido sensível. Lola completa a frase com, Huuuu aí ficou sério. O riso perpassa o
grupo, alivio cômico acalmando Matias que volta a falar, Podem ficar tranquilos que não
vou sair por aí falando essas coisas, mas tô irritado com tudo isso, às vezes fico com
vontade de jogar a merda toda no ventilador, sei lá, procurar uma dessas mídias
independentes e mandar só uns papeizinhos anônimos, um pouco de tudo que fazemos,
seria um escândalo. É Aline quem toma a palavra, E de que isso vai adiantar, a gente escuta
por aí que o Brasil é livre, que os atos institucionais foram duros mas necessários, e que
agora as coisas estão melhor, tudo isso é balela, quem já tá mais tempo na Conta Conta sabe
a história do Osmar, ele tava assim tipo você, revoltado e com razão, não se fala muito mas
era sabido que ele tava mal com o trabalho, parece que ele participou da auditoria das
contas do governo municipal em oitenta e oito, e o que tinha de absurdo e discrepância não
era pouco, e o papel da empresa era o de sempre, colocar as contas no lugar, deixar tudo
dentro do correto, só que ele não aguentou, juntou uns documentos e mandou em carta
anônima pra um jornal que ele achou levaria a história ao público, o que aconteceu não foi
isso, a história nunca veio a tona e o Osmar simplesmente sumiu, oficialmente foi
comunicado que ele pediu demissão, mas todo mundo sabe que não foi isso, e aí, segue
nesse caminho que a única coisa que você vai conseguir é virar desaparecido. Olhares
pesados circulam, no fundo a música animada, no balcão o garçom entrega para Matias
outra caipirinha, um longo gole, lábios molhados tom triste, Eu sei disso, a coragem da
cachaça sobe rápido, mas é triste, tanta coisa errada acontecendo e nós assinando embaixo,
deixando tudo bonito com uma grossa camada de maquiagem. Percebendo o tom fúnebre
da conversa Horácio tenta amenizar o assunto, Mas nosso trabalho não é só isso, trabalhar
com os políticos é ruim, mas eles são uma parte dos clientes, de resto as coisas até que são
boas. Lola em tom brincalhão levanta a voz, Somos nós, deixando o país melhor uma
planilha de cada vez, deveríamos todos seguir o bom exemplo do grande Ricardo Poleno,
quem sabe assim no fim do ano ganhamos um bom bônus. Entre risos a voz de Matias, A
deusa me livre, se eu chegar nesse ponto alguém faz o favor e me empurra na frente dometrô, nenhum bônus compensa isso, apesar de que, certeza eu tenho que todos vocês só
estão na Conta Conta por dinheiro, pudera eu trabalhar com outra coisa, mas dependo do
salário, tenho que ajudar em casa, mãezinha já é velha e eu sou filho único, mas quem sabe,
um dia deixo isso tudo e mudo de vida. É Horácio quem diz, E vai fazer o que, pegar senha
na fila do desemprego ou arrumar um trabalho pior, na verdade, se não for a gente vai ser
outro, já passei da idade de acreditar em algum ideal, a coisa não tá boa pra ninguem, e do
jeito que tá não vai melhorar, vou fazer minha parte e ficar quieto, quer saber mesmo,
qualquer trabalho é ruim, tivesse dinheiro duvido que alguém aqui continuava trabalhando.
Enquanto a conversa segue, Olivia é uma presença desatenta. Observa Abelardo
caminhando ao lado de Tamaru, está vindo nesta direção, entretanto parece não percebêla.
Olívia vê o exato momento quando Abigail surge puxando Abelardo em direção a pista de
dança. Não consegue desviar os olhos, sugada por um sentimento de ciúme que prefere
ignorar, fingindo ser mera curiosidade. Abigail gosta de dançar com Abelardo, Olivia disto
sabe e nenhum problema vê, outros tantos dançando, e um pensamento surge, Ela poderia
dançar com outro. Espanta o pensamento, entende o lado da amiga, forró é uma dança
ousada, muitos homens se aproveitam da situação, ainda mais, sendo com Abigail, com as
pernas torneadas, o cabelo cacheado sempre em cascatas perfeitas, outros pensamentos,
Como será que ela faz pra deixar o cabelo tão bonito, o corpo é de academia, ela malha
cedo, todo dia antes do trabalho, que disposição. Os olhos acompanham o par até onde é
possível, a meia luz e a aglomeração os tira de vista. Por um momento volta a atenção para
a conversa do grupo onde está, quem está falando é Matias, mais uma vez revoltado com a
empresa, basta beber um pouco para soltar a língua, talvez até demais, Olívia observa ao
redor para ter certeza que estão seguros para continuar no assunto. Nesta observação o par
dançando entra no campo de visão, apenas por um instante, outra vez somem. A conversa
continua, Olivia não acompanha o assunto, sorri, imersa nos próprios pensamentos, mantém
a postura e a cordialidade, nos momentos oportunos rindo junto ou demonstrando surpresa.
Ainda que involuntariamente permanece na procura, conflitando com sensações, o campo
visual ofuscado por pensamentos, sem perceber estabelece contato visual com um homem
desconhecido, por alguns segundo sustenta o olhar na mesma direção, ainda sem perceber
permanecendo no linha do olhar do homem que agora se aproxima sorrindo. Olivia ao
perceber rapidamente vira o rosto e muda de lugar, ficando entre Lola e Matias. O homem
desconhecido para, entretanto permanece olhando, procurando outra vez estabelecer
contato, esperando a brecha para a oportunidade de puxar assunto.
O restante do grupo continua conversando, o colóquio exalta os ânimos,
principalmente de Matias que acaba de terminar outro copo e logo na sequência pede mais
um. Olívia também pede um drink, após a reflexão, É melhor não beber mais, não muito,
também ficar de mão vazia é tão ruim, vou pegar alguma coisa e beber devagar. O copo na
mão muda o centro de gravidade, o homem desconhecido não está mais a vista, o que gera
alívio, agora o assunto mudou, neste momento não consegue acompanhar a linha de
raciocínio, ainda assim mantém a atitude, manejando as ações para parecer presente ainda
que aqui não esteja a mente. Um toque na cintura, alguém lhe segura os quadris por trás,
Olivia se assusta, por um segundo imaginando ser o homem desconhecido, vira na direção
do toque pronta para atacar com o copo cheio, encontra o rosto atrevido de Abigail, Calma
moça, assim vai derramar seu drink.
Olivia sente uma onda de alívio percorrer o corpo, em primeiro lugar por dissipar a
sensação de invasão quando por um instante acha que um estranho tenta lhe agarrar, emsegundo lugar, um alívio maior que não percebe conscientemente, junto com a amiga está
Abelardo, com rosto vermelho e a camisa suada.
Capítulo Seis, Em retornoSão quase onze, alguns ficam, outros vão, o álcool dissipa a preocupação, o copo
vazio ressalta o cansaço. Olivia pondera tomar outro drink, entretanto encara o limite
demarcado pelo despertar marcado para às quinze para às sete da manhã. Bem poderia
colocar um pouco mais tarde, o que ainda daria tempo para chegar sem atraso, todavia
prefere postergar a vigília com a função soneca, rotineiramente por três vezes. Às quinze
para sete o despertador, adiado por mais quinze minutos onde letárgica muda de posição,
logo outra vez a melodia mecânica, outra vez adiada para quinze minutos a frente, desta vez
normalmente o travesseiro cobre o rosto, o tempo passa mais rápido e já é outra vez quando
de novo o despertador toca e com dificuldade zumbi levanta ainda meio sem vida, Como
são difíceis as manhãs, nisso pensa, refletindo sobre a hora, percebe ser o momento de
partir. E quando nesse instante, que é agora, decide ir embora, basta um olhar para o lado e
encontra Abelardo, respondendo com um sorriso o pensamento compartilhado. Sutilezas da
intimidade, roteiro de fim de noite repetido, quando discretamente deixam o lugar sem
serem vistos.
Descendo a escadaria estreita chegam a rua, agora mais calma, quartafeira a noitada
no centro carioca acaba cedo, os mais boêmios ainda permanecem, outros bem antes já
foram, a maioria vem pro happy hour para relaxar um pouco antes da volta para casa,
afinal, hoje é o meio da semana, antes do fim há ainda mais dois dias úteis. Um jovem com
boné de aba reta se aproxima do par, está levando uma bandeja de madeira sustentada por
uma tira de couro passando pelo pescoço, na bandeja balas, chiclete, seda, isqueiro e
cigarro, Boa noite casal, alguma coisa pra terminar a noite. Abelardo pergunta, Tem cigarro
varejo. O jovem responde, Tem sim, pode escolher, tá na promoção, levando dois você só
paga dois. Abelardo ri da piada, pega dois cigarros de um maço aberto e diz, Me empresta o
fogo. O jovem empreendedor tira do bolso um isqueiro e ajuda o cliente a acender o cigarro
dizendo, Tá na mão, e se quiser tem aquele outro também, aquele cheiroso que artista gosta.
Abelardo sorri, Só o careta mesmo já tá bom. O jovem responde ao sorriso sem desistir de
aumentar a venda, Não esquece de levar uma balinha, depois não vai beijar a moça com
gosto de cigarro. Olivia acompanhando a conversa ri enquanto pega na bandeja um drops
de bala sabor melancia, V ocê tá certo, ele é meio rude, vou pegar essa aqui e ele paga junto.
Abelardo com olhos inquiridores encara a amiga respondendo com olhar atrevido, nada é
dito, a conta é paga e o par parte andando de braços dados.
Olivia consulta a hora e pensa onde mora, do Arco do Telles até lá é uma
caminhada agradável no ar noturno carregado da brisa marinha refrescando o concreto,
assim como muda a temperatura a noite muda a paisagem da cidade. Sem a correria
engravatada do dia a bolsa de valores dorme sossegada sonhando com lucros alavancados,
as largas calçada das avenidas centrais transformadas em fileiras de papelão e colchões
onde dormem os moradores de rua que pelo dia metropolitano vagam, deixando escondido
seus pertences em becos ou embaixo de bancas de jornal, a noite muda a cidade, quase
nenhum carro, os ônibus circulando passam em vertiginosa velocidade tendo quatro pistas
vazias, uma cidade sem trânsito, onde de um ponto ao outro em curto tempo se chega,
todavia neste momento poucos fazem esse trajeto, os ônibus vertiginosos correm
praticamente vazios, apartamentos em outros pontos da cidade com luzes acesas, no centro
do Rio de Janeiro as calçadas estão animadas daqueles vizinhos de cama de papelão
conversando sobre o dia enquanto jantam uma garrafa de cachaça, um cachorro preso por
um cinto em uma caminha rasgada e bem cuidada em frente, o fundo de duas garrafas petes
transformadas em potinhos, um com água outro com ração, sirenes passando, os camburõesda polícia militar passando devagar, permitindo até a uma da madrugada o burburinho,
quando delicadamente pedem silêncio, e todos voluntariamente obedecem, embalando em
sonhos etílicos mal destilados. A cidade à noite tem uma estranha sensação de hostilidade e
segurança. O casal de braços dados andando, com um sentimento compartilhado ainda que
em elucubrações distintas pensando.
Abelardo lembra da dança, tanto do corpo quanto das palavras, ainda consegue
sentir o calor da virilha de Abigail na coxa, ao mesmo tempo não para de ouvir as frases
implicantes, e sentindo o calor de Olivia pensa em beijála, sabendo que seria tão normal
quanto este momento agora compartilhado, primeiro lhe beijar o alto da bochecha, quando
olhar para cima lhe beijar a boca, e ela se assustará ao mesmo tempo que o beijo retribuirá,
e tudo será tão normal quanto este momento agora, mas não a beija, principalmente porque
sabe que ela retribuirá o beijo, e isso implicará em cruzar uma linha onde ambos na borda
habitam, quase indo mas sem mudar de lado, e sabe que um passo para o outro lado é
irrevogável, algo mudará, algo que quer, mas tem a sensação que gosta tanto do que tem
que talvez não valha a pena arriscar, não agora, e se contenta em postergar enquanto aperta
forte o braço de Olivia que se aconchega no ombro mantendo o passo enquanto por um
momento some a sensação de querer sem querer beijar a boca de Abelardo apenas para ver
qual reação será. Tantos pensamentos os pés percorrem rápido tanto o espaço quanto o
tempo, chegando próximo a Estácio a cidade muda, nas calçadas pessoas com latas na mão,
na rua grande movimento de moto, algumas escandalosas com o escapamento cortado.
Passa uma corrente de vento, talvez uma descrição melhor seja uma bola de vento, já que é
mais arredondada do que rajada, um fenômeno da natureza assim sentido, um redemoinho
passando entre os pés de Olivia e Abelardo, sentido por ambos averiguando de onde vem
para onde vai sem conseguir ver o vento seguindo pela calçada, ziguezagueando, depois de
tropeçar na parede desliza o salto da menina bonita quase caindo segurando a saia inflada
com essa corrente de vento em peculiar formato, derrubando um guardachuva fechado,
jogando para o alto o banner de propaganda na porta da farmácia, vai pro alto o que tá no
caminho até que na esquina para, sumindo na encruzilhada. Abelardo e Olivia, assim como
os outros que nesta rua neste momento testemunham o fenômeno julgam a sua maneira, ou
como a maioria, nem nisso pensa, arruma a roupa, ajeita a loja, e a noite vai embora, o que
para Abelardo é um peculiar fenômeno meteorológico não entende quando Olvia diz,
Passou um exu. Abelardo indaga com os olhos ainda que não precisem se olhar, motivado
esta pelo fato de não conhecer em Olivia religião ou religiosidade, enquanto para Olivia um
sentido específico lhe aparece, uma memória atualizada em fração de segundo, está na
cena, o avô ainda vivo, sentando na varanda, como na maior parte do dia, torcendo para
alguém ficar um pouco e prestar atenção, histórias do lugar, de tantos anos atrás quando
tudo era mato, e a terra ainda era cheia de saci, outro pensamento, tem certeza que o avô
chamaria esse vento de exu, é também por isso essa solidão, no distrito afastado de uma
cidade pequena de mentalidade burguesa, o velho na varanda falando de saci e exu não é
bem visto. E isso Olívia não entende, como no fim o vô ficou tão sozinho, como a vida com
ele foi injusta, como queria ter mais tempo com ele, como quer agora, contar para ele que
viu um exu passar, todavia não é possível, e voltando ao presente nada é dito, aperta o
braço de Abelardo, ele entende que algo se passa, dessas coisas que precisam do silêncio
compartilhado para não se afogar., Pode me deixar aqui, Tem certeza, Tenho sim, vou pegar o mototáxi, agora o
caminho é curto mas é só subida, Tá certo, bom que aqui já tô do lado da estação, Tá sim,
boa noite, Pra você também, até amanhã, Até.
Subindo o morro na garupa da moto, vento no cabelo, capacete no braço, mãos nas
laterais do banco, trajeto pequeno, está na entrada de casa, o mototáxi já tem outro cliente e
está descendo, tem bastante movimento de gente descendo, o morro não dorme, e no pé do
morro os dias e as noites são emendados, no constante da música ubiquamente brotando de
algum lugar, ou outro, dependendo do ritmo, depende do sentimento, do público e do
momento. Um pouco mais acima, onde Olívia está, a música é só uma batida distante que
não consegue reconhecer, mora em um sobrado, no andar debaixo tia Regina mora com os
três filhos, luzes apagadas, silêncio, apenas a luz da televisão é passível de ser entrevista
através da cortina fechada, olhando para cima, duas janelas, os dois quartos, o dos pais e o
que divide com a irmã, neste quarto, no peitoral da janela entreaberta embrulhado na
cortina como em veste solene um par de olhos, amarelos penetrantes e imóveis, acompanha
cada movimento de Olivia, observando ela abrir a porta que leva a escada em direção ao
segundo andar, outra porta, a sala, a tv ligada, a irmã dizendo, Chegou tarde. Em direção à
cozinha responde, Que horas são. A voz vindo da sala é de Helena, Também não sei, mas
deve ser tarde. Na cozinha um copo de água, na geladeira uma travessa com um resto de
salpicão, passando para um prato, cobrindo com batata palha. Segurando o prato chega à
sala onde no sofá a mãe e a irmã estão deitadas. A mãe está apagada, dormindo de boca
aberta ressoando, apoiada do outro lado está em parecida posição Helena, entretanto
acordada, Pelo visto você achou o resto do salpicão, é pra você mesmo, mas tava até
achando que você ia comer na rua e ia sobrar pra mim. Olivia ri enquanto segurando o prato
senta no braço do sofá onde a cabeça de Helena está apoiada, Pode deixar que deixo um
pouco pra você, tem muito. Helena sem mudar de posição levanta o braço e toca na irmã,
V ocê é minha irmã favorita. Olivia ri, a princípio nada diz enquanto presta atenção na
televisão e rapidamente come percebendo o quanto está com fome, as próximas palavras
serão ditas de boca cheia, Que filme é esse. A resposta vem prontamente, Não sei, quando
comecei a ver já tava passando, é meio doido, mas tó gostando, agora esse cara descalço tá
sozinho enfrentando os terroristas, só não sei como eles chegaram aí, parece que chegaram
de penetra na festa de natal.
O barulho do garfo no prato, o peso do sono nas pupilas, V ou deixar pra você na
mesa, tem bastante batata palha ainda. Helena sem qualquer movimento agradece. Prestes a
levantar Olivia algo pondera, exprimindo em palavras da seguinte forma, Amanhã tem aula
cedo, você deveria ir para cama. A resposta vem rápida, Amanhã vou chegar um pouco
mais tarde, o primeiro horário é educação física. A repreenda vem em tom calmo porém
firme, V ocê tem que parar com isso de matar tanta aula, vai acabar repetindo por falta.
Neste momento Helena se ajeita no sofá, do lado a mãe continua em sono pesado, Não vou
não, essa faltas de educação física tem justificativa, é só dizer que to com problemas
femininos ou naqueles dias que o professor não faz qualquer pergunta mais, você tem que
ver a cara dele, fica vermelho e nervoso e quer mudar de assunto, é até engraçado. Olivia
mais uma vez pondera, dessa vez sem exprimir em palavras, beija a cabeça da irmã, Boa
noite. Na cozinha deixa o prato, do lado da batata palha, toma um copo de água gelada,
troca a água do potinho do gato, passa pelo banheiro, higiene noturna e uma roupa velha
pendurada atrás da porta.Capítulo Sete, Fim de noite
Parado na calçada acompanha ela que na garupa da moto se distancia. Agora aqui,
nessa rua movimentada, na voz distante de alguém cordialmente xingando, no ônibus
diminuindo a velocidade para o motorista comprimentar os ambulantes, Deixa uma gelada
pra mim que eu tô voltando. Passos pesados, presente e passado, os pés tão longe do futuro,
parece uma distância intransponível, descendo as escadas para o subsolo, embaixo da praça,
embaixo da cidade, corredores iluminados, lojas, a maioria fechada, aberto está o quiosque
de sorvete, vazio, onde a atendente apoiada nos braços tenta disfarçar o cochilo, na tela
indicação o metrô sentido zona norte chega em oito minutos na estação, pensa na sorte,
depois deste seria de quarenta minutos a espera, atravessar a roleta, outra escada, descendo
para os corredores subterrâneos do transporte urbano, onde o chão é mais limpo que o da
cidade, onde o ar que sai dos climatizadores é mais puro, onde reina a assepsia do desejo
artificializado, onde perto da máquina de petiscos dois policiais militares conversaram
sobre a última rodada do campeonato, segurança certificada pelo contingente policial tanto
quanto pela propaganda no telão digital promovendo o nacionalismo e o governo, Afinal de
contas, tudo está melhor. E agora a minhoca de metal deslizando pelas veias urbanas aporta
na estação onde espectros humanoides embarcam para transporte intencionados a diferentes
destinos ainda que compartilhem o mesmo caminho. Abelardo outra vez solitário, quando
as portas automáticas abrem para o vagão vazio, um lugar à janela para ver passar as
paredes, propagandas, pinturas, pichações e fios, arquitetura tão feia quanto bela em sua
concretude coberta de chapisco e canos deteriorados, estações em sucessão, passando por
bairros, cortando o inverno, onde mora o verão, e a mente une de olhos abertos o agora e a
memória, tentando prever o futuro, toca a noite, o recente, o passeio de braços dados, o
beijo não acontecido, o sentimento outra vez repetido do conforto experimentado na
presença de alguém que mais que alguém é, e tem a vontade do dia seguinte, mas também
tem isso, isso que tanto é uma sensação quanto uma estação, movimento interrompido,
porta abertas, saem dois, ninguém entra, algo dito nos autofalantes, ignorado, portas
fechadas, força gravitacional empurrando o corpo deslizando no banco, outra vez parado,
ainda que dentro de um tubo metálico correndo acelerando, ainda que em uma rocha
flutuando no espaço girando em velocidade vertiginosa, ainda que em um universo em
constante expansão, se sente, parado, Como pode estar estagnado, reflete uma voz perto do
tímpano, outra vez essa sensação, esperando algo ou alguém, esperando um detalhe que
seja, que vire o interruptor do real e torne o presente algo que faça sentido.
, Próxima estação Grajaú, desembarque pelo lado direito.
Na calçada pelo canto, na vida coberta o manto, no saber cotidiano o contrário do
espanto, talvez não seja para tanto, entretanto, entre tantas possibilidades nesta tenta e
retenta algo mesmo para o qual não se atenta, e, ainda que não se contente, segue, tentando
menos ser exigente, e da vida seguir o rumo longe dos tes e das cruzes, aonde vai, onde
vaga, agora, atravessando a rua, vazia, sem carro, sem pedestres, quaresmeiras na frente do
prédio, flores esparsas respirando a noite, as pétalas olhando a lua fazem Abelardo olhar
para o céu, onde a lua não encontra, talvez atrás de algum prédio, as pétalas conseguem
vêla, sentem o cheiro, hoje a noite tem cheiro de lua. O nome do edifício é Ardósias aos Pés
da Torre, nome este, escrito em pedras portuguesas na calçada da entrada e, em letras de
ferro soldadas em arco acima do hall de entrada, quando se aproximando escuta o barulho
metálico elétrico do portão sendo aberto, entra, o porteiro Olegário Jucino é quemprontamente abre quando vê na rua aproximando o inquilino com ar perdido, Mas ele é
sempre assim, pensa**** Jucino, Mas hoje tá um pouco mais. Ponderações que poderiam pelos
astros procurar explicação, é a lua, nos últimos dias tão pesada, como cumprindo caminho
em direção algum cósmico evento, para o qual se dirige em prestígio e reserva, zelando
pelos humanos a quem presa.
Escadas a dentro o barulho da televisão ecoa, na aproximação à fala, Boas noites.
Quem fala é Jucino, hoje responsável pelo turno da noite. No prédio o movimento noturno
é pequeno, não são tantos apartamentos, a maior parte dos inquilinos são tranquilos, em
termos de suas vidas pacatas e rotinas, um desses lugares onde opera tranquila a
normalidade, segue dia passa noite e tudo bem vai, parece, o que virá ainda pelos mortais
não é sabido, ainda que, por alguns, possa ser pressentido, o que, não é o caso do momento
onde se desenrola esta cena, Abelardo subindo as escadas, atravessando a porta aberta, onde
é recebido pelos tiros explodindo nas paredes ecoando a televisão, mesmo em volume
baixo, amplificada na lisura do corredor frio, o filme de ação sendo visto, o trabalhador
tranquilo, pacato, noite sem surpresa. Os mesmos pormenores agora repetidos indicam com
precisão a cena e o tempo, o que bem justifica o Boas noites, no plural, como essa resposta
que virá, quando Abelardo sorrindo de forma distraída responder, Boas sim, também no
plural, e uma cadeira de escritório com uma bomba amarrada caindo pelo fosso do elevador
até os andares inferiores explodindo o grave nas paredes lisas, no teto limpo. Abaixando o
volume, enquanto na aproximação diz, Esse filme é bom mesmo, já vi mais de uma vez,
agora tô vendo outra. Abelardo observa a tevê e confirma com a cabeça, que até então
apenas agora aqui está, antes em outras tantas circunvoluções e pensamentos levemente
perturbados, entretanto sempre chega o momento em que se tem que responder pelo
presente, nessa hora apenas sorri. Olegário Jucino entende, conhece o inquilino a quem tem
real afeição, correspondida, na cordialidade cotidiana do tempo do trabalho, da rotina, na
polidez que deixa as coisa mais leves, e faz compreender, O elevador de serviço já ta aqui
em baixo, o elevador social tá desligado, teve um dia cheio. Frente a fala em tom de chiste,
em Abelardo uma resposta cômica surge, Até o elevador tá cansado. Dito isto pois é
conhecida a resposta, É assim mesmo, são muitos altos e baixos. Resposta sempre dita,
entretanto variada, como um ritornelo em um tema sempre encontrando uma variação.
Segue o elevador já no térreo, segue o filme, segue a hora, segue o vento, as bruxas e os
meteoros, seguem todos observados pela lua, entrevista agora que Abelardo entrando no
apartamento tira os sapatos e joga tudo que tem no bolso sobre a mesa, apoiado na janela, a
lua tão quase cheia, parece que a qualquer momento a última linha côncava sumirá
revelando a esfera completa, não agora, não hoje, nem tudo é momento como deve ser,
ainda que falte sempre um instante para completar o agora, e poucas coisas na vida sejam
tão boas como um copo de água gelada, recém saída da geladeira, em um copo de vidro de
boca fina, provavelmente limpo, em cima da pia, provavelmente utilizado para o mesmo
fim, derrubando a sede, averiguando uma homeostase imbuída de silêncio agudo, deixando
escapar um flerte com o que virá, deixando a cabeça encontrar o travesseiro, o lençol
amassado, não gosta de dormir descoberto, mesmo quando quente, refletindo e ligando o
ventilador, de maneira indireta, virado para parede de onde refletido vem o vento, alento
para o sono, cartas na manga da mente, pensamentos, talvez venha, talvez se torne, de
qualquer maneira, já será amanhã.Capítulo Oito, Contas e Caos
No espelho Abigail retoca o batom, deixando os lábios acobreados, cor escolhida
um tom acima da pele. Cada detalhe pensando, o cabelo sobre os ombros, perfeitamente
penteados deixando a mostra as delicadas argolas nos lóbulos penduradas. O banheiro está
vazio, para cá vem quando quer por um tempo fugir ou pensar, são poucas mulheres no
andar, o que torna o banheiro feminino o perfeito ambiente para colocar a mente no lugar.
A maquiagem retocada, o cabelo arrumado, a roupa alinhada, encara os olhos do outro lado
do espelho, respirando fundo, hoje o dia está cheio. Recentemente circula o boato de um
grande projeto contratado, hoje o boato foi confirmado, o Senador Alcimar Carneiro outra
vez contrata a Conta Conta Contabilidade para uma função de alta responsabilidade. Algo
comum, afinal de contas, a maior parte dos contratos da empresa são com o poder público.
A Conta Conta Contabilidade é conhecida pela eficiência e discrição, nos últimos anos
ganhou todas as licitações das quais participou, aliada a base governista presta serviços de
extrema necessidade para a nação. Além dos contratos diretos com o governo, é comum
que figuras públicas procurem a empresa, como no caso do senador, que além de político é
fazendeiro e empreendedor, conhecido pelos investimentos no país e no exterior. O contrato
não foi divulgado ao público, como a maioria dos serviços oferecidos pela empresa, corre
em sigilo. Todavia, mesmo sem saber ao certo o teor do trabalho, grande rebuliço toma os
funcionários.
Um contrato grande como este é chance certa para os arrivistas, buscando a
oportunidade de ampliar a influência, sonhando com um dia compor o governo, em uma
função de assessoria qualquer com alto rendimento. O boato sobre o novo contrato com o
senador Alcimar Carneiro já nas últimas semanas movimenta os funcionários, todos
desejosos em fazer parte, vendo uma grande oportunidade. Os dias passados e o boato sem
confirmação aos poucos perdendo força, até hoje, quando logo na primeira hora da manhã
chegou a comitiva com o próprio senador. Desde então, o rebuliço tomou conta do andar,
agitação e falatório, ligando para alguém, pedindo influência a outro, o sonho do
funcionário médio da Conta Conta é ter papel de destaque em um grande contrato. Ainda
que, ainda não seja sabido o teor do trabalho, uma fila de interessados logo cedo formada
na porta do setor de recursos humanos. Angela Tapitanga foi convocada para a reunião com
a diretoria e a comitiva, deixando o setor para a segunda em comando. É por isso que neste
momento no banheiro femininio Abigail enrola a hora. Uma última checada no espelho,
posiciona as sobrancelhas, mantendo levemente arqueadas, deixando o semblante
preparado para o mundo empresarial enfrentar.
A quietude do banheiro feminino é imediatamente quebrada pelo caos do andar, de
um lado para o outro correria e falatório, papeis voando, discussões ao telefone. Os
puxasaco pesquisam o gosto do senador, procurando o melhor presente para criar uma boa
imagem, um funcionário com um falcão peregrino no ombro passa orgulhoso, ave que
pretende presentear o senador, conhecido pelo gosto por animais exóticos, outro trouxe uma
caixa de madeira com um whisky raro, nessa ora esforços não podem ser contabilizados,pode ser o presente certo a diferença para um cargo que muda a vida. O que é muito bem
sabido, mais do que a competência, a atitude certa é recompensada.
Abigail caminha em direção ao setor, enquanto anda por muitos é interpelada,
elogios são feitos, flores oferecidas, belas trufas recheadas e bombons de licor, presentes
que dispensa. Segue à risca a cartilha de Angela Tapitanga, apenas respondendo com o
arqueado da sobrancelha que logo afasta os mais ousados. Dentro do setor de recursos
humanos uma discussão está em curso. Borges e Jorge trocam farpas em voz alta, Quão
absurdo é isso, recolha sua palavras e saia daqui, Absurdo digo eu, quem você acha que tem
mais experiência, Experiência de que e aonde eu não sei, você é um fracasso, ainda mais
com esse par de sapatos, Não me venha com seu veneno e não ouse falar mal do meu
sapato, sabe você quanto custa um par como esse, Não sei e não quero saber,
provavelmente comprados em bazar, deixa só Cléston ver isso, acha que ele vai deixar
alguém vestido assim compor uma equipe importante.
Abigail neste momento entra, fazendo com que a discussão venha em sua direção,
Aí está você, onde estão os gerentes, onde estão Cléston e Angela. Abigail em um primeiro
momento não responde, limitando a fazer um gesto com a sobrancelha enquanto se dirige
ao lado oposto onde Olivia acuada atentamente acompanha. Ignorando os dois homens, se
dirige a Olivia com a pergunta, O que eles querem. Olivia, quando tenta falar as palavras
saem picadas, respira e limpa a garganta reformulando a frase, Chegaram procurando
Angela, ambos estão dizendo a mesma coisa, que Cléston prometeu a liderança no projeto
do senador. Abigail carrega a experiência de outros momentos como esse, sabe como o
frenesi toma conta dos desejosos em galgar uma posição de destaque, um projeto como esse
pode significar uma vida segura de regalias. Ainda se dirigindo a Olívia pergunta, E onde
está Cléston. A resposta vem pronta, Ainda não chegou, e não está respondendo no telefone
da empresa. Abigail reflete, relembrando a noite anterior, pensando como provavelmente o
gerente ainda está em casa calmamente curando a ressaca, pronto para chegar depois do
almoço de cara lavada, Abigail diz, Deixa isso pra lá. Passos firmes, com a mesma firmeza
do olhar fixo nos dois homens agora em silêncio dando pequenos passos para trás,
sincronizados com os passos que se aproximam, um deles, Borges, engole a respiração e
diz, É melhor voltarmos em outra hora, quando Cléston estiver por aqui. Abigail sorri
condescendente enquanto responde, Aí está uma boa ideia. Os dois homens por alguns
segundos ficam paralisados, parecem esperar permissão para sair, mover ou falar, Abigail
apenas balança positivamente a cabeça enquanto mantém o peso das sobrancelhas no olhar
fixo, ambos em algo próximo de tremor concordando se movem a passos curtos para trás,
desviando o olhar apenas quando estão próximos a porta e rapidamente vão embora.
De onde está, Olivia acompanha a cena, observando a companheira de trabalho,
absorvendo sua atitude, presa em um encantamento, admirando como ela sozinha consegue
intimidar dois homens com o dobro de seu tamanho. Sente por Abigail profunda admiração,
misto de respeito e paixão, sentimento que apenas uma mulher pode sentir por outra. Em
cada detalhe foca, como a roupa lhe cai bem, nos movimentos ressaltando o corpo
torneado, como a voz não treme, como os olhos exercem pressão, principalmente,
encantada fica pelo movimento das sobrancelhas, tão expressivas, sua discrição
intimidante. Os inoportunos se retiram, quando estão sós Abigail ri, sorrindo leve, deixando
Olívia nervosa sem saber como responder, por um segundo envergonhada dos pensamentos
que a tomam. Abigail percebe, e o sentimento a envaidece, em passadas felinas
aproximando diz, Não se preocupe, aqui eles não voltam tão cedo. Olivia sem encontrar oque responder apenas sorri, o telefone está tocando. É Angela, solicitando uma pasta com
papeis cuja necessidade se apresenta, como neste momento a pasta na segunda gaveta da
mesa do escritório se encontra, Abigail a toma e entrega a Olivia dizendo, Preciso de um
favor seu, leve isso para Angela, ela está na sala da diretoria.
Aliviada por ter motivo para sair do andar, pensando em na volta parar para um café
tomar, com a pasta na mão sai para cumprir a missão. Abraça a pasta contra o peito, como
um escudo protegendo o coração acelerado. Tão confuso o ambiente, mesmo que não seja
tão calmo normalmente, hoje o caos é evidente. Anda firme, seguindo pelo corredor entre
as baias, para onde olha alguém parece nervoso, falando no telefone, discutindo, de um lado
para o outro os estagiários passam correndo carregando papeis, no fundo alguém chama, do
outro lado alguém responde, todos parecem demasiadamente interessados na possibilidade
de compor a equipe do novo projeto, seja em qual função for, os mais antigos procurando
posições de destaque, os mais novos ansiosos tentando entender o que podem fazer, todos
querem de alguma forma aproveitar a oportunidade, todos, exceto, Abelardo.
No caminho para o elevador, passando ao lado do cubículo de Abelardo, que
compenetrado trabalha. Parece ser o único no andar a não ser afetado, indiferente fazendo o
que todo dia faz, planilhas na tela, concentração displicente. Olivia pensa em parar para dar
um oi, porém lembra da pasta que carrega e decide apressar o cumprimento da missão.
Provavelmente na volta pare por ali, agora continua andando, sem no entanto conseguir
desviar o olhar, e mesmo quando o amigo some do campo de visão, na imaginação a
imagem permanece, com uma estranha sensação. Por um lado tem a compreensão da
indiferença, Abelardo não se submete aos jogos corporativos, trata o trabalho como
necessidade e não desejo, por outro, tem uma sensação a qual não consegue nomear, perto
do medo, um pouco de luto, saudade, algo estranho, um sentimento que por vezes o amigo
a faz sentir, quando seu olhar já distante mais ainda se distancia, indo cada vez mais longe,
procurando algo que não encontra, voltando para a realidade decepcionado. O elevador
sobe vazio, efetuando uma sensação de conforto, compreendendo Abelardo, empatizando
com sua frequência, algo que a agrada e simultaneamente preocupa. Agrada pela admiração
da indiferença frente às questões mundanas tão egoístas e mesquinhas, preocupa pelo
excesso, talvez não seja essa a palavra, mas é assim que está pensando, e entende porque
tem o medo de um dia perder o amigo. A porta abre, mais alguns passos e entregará a pasta,
na volta decide, tirará Abelardo de seu transe e o levará até a cafeteria para acompanhando
um café conversar sobre coisas triviais. Decidida sorri aliviada.Capítulo Nove, Quintafeira ainda
No espelho negro da tela o visliumbre do rosto, do canto do olho, do performativo
obtuso frente a inclinação, o celular desligado sem bateria, um pendulo parado em uma
irrelevância, precisa como a preguiça posprandial, duas da tarde, finalmente um pouco de
silêncio, o andar vazio, após a correira da manhã os nervos acalmados com o cair da tarde,
levados pelo almoço levados para um pouco de descanso ou do oficio a continuação, até a
onde vai o trabalho, quando repetido volta, abas na tela aberta, luz branca, analisar a
primeira linha de cada planilha, neste caso, são cento e setanta e uma, segundo consta, um
erro foi cometido na vigésima primeira, por algum motivo, alterado foi na primeira linha o
sinal de negativo para positivo em uma formula, assim em diante perpetuado o erro. Erro
encontrado em vias de correção, por diferentes mãos a verificação, bem conhecido bem
feito trabalho desta entediante empreitada, neste caso específico ajudando o poder público a
consertar um certo tipo de erro, mais normal do que se imagina, que faz supor que uma
determinada quantia negativa ficou positiva. E vão os olhos na tela, mais uma planilha
conferida, outra aberta, outro linha, outro dado, outra dimensão, onde conexões neurais
tomando caminhos próprios convergem ao insondável, sobrepondo memórias e criações em
circuitos ao consciente desconhecido, habitante dos olhos vazios, superficialmente
observador pela visão periférica, do movimento que aumenta, de vozes próximas a meias
paredes, tudo se escuta, diálogos e segredos, no caso e atual momento, começa a circular
um assunto, o tempo está virando, forte chuva esperada, estão falando de uma tempestade.
Ainda são quatro da tarde e do lado de fora o céu fechado esconde o sol antecipando a noite
dentro do prédio as luzes artificiais permanecem as mesmas, exceto pela estática
movimentando o ar, instinto ancestral procurando abrigo e segurança, memoria do
rombencéfalo, dos caminhos dendríticos mais primitivos, guiado pelo sistema nervoso
periférico, arrepiando a pele, como os pelos de Abelardo, agora pelo próprio observado,
eriçados, olhos curiosos tornados, caminhos inconscientes aos poucos chegando a
consciência, com um leve toque, sobrepondo o arrepio com uma lembrança arrepiada,
fazendo levantar o braço em direção a tela do computador, para ver os pelos completamente
eriçados ficar, e girar o braço, movimentando uma pequena coreografia dos folículos.
Estrondo de um trovão. Do lado de fora, ainda distante, não é a chuva, pelo menos ainda
não aqui, apenas um preâmbulo. V oltar ao trabalho, terminar a tarefa, organizar algo já
organizado para ter a certeza que organizado está, ou apenas uma tarefa sem sentido para
atropelar o tempo, que em certos momentos entediado faz questão de lento passar.
Movimento da hora que chega, aumenta o movimento de saída, cada um que parte
decidindo aonde quer chegar torcendo para a chuva esperar. Abelardo decide fazer o
mesmo, é hora de ir.Capítulo Dez, Noite Chuvosa
Chuva cai em torrentes, transformando ruas em camadas de cortinas sobrepostas,
vento empurra o tecido pluvial, deixando espremidas as pobres almas molhadas sob a
pequena cobertura do ponto de ônibus. Ao todo, sete indivíduos estão sob a estrutura
metálica que funciona como proteção parcial contra a chuva. Abelardo está entre estes.
Escuridão da hora precipitada no precipício do presente nublado, impaciência da espera
pesando pálpebras, olhos fechados contemplando o mundo, refletindo sobre a realidade
líquida descendo do céu, realidade opressora do ordinário de cada dia, acompanhando
sonhos moribundos perdendo força enquanto o cotidiano sufoca o desejo. Péssimo humor
das palmilhas alagadas. Neste momento observa a chuva enquanto mantém firme os pés,
disputando espaço com uma irritada senhora brigando com o vento para não levar o
guardachuva que tenta fechar. Abelardo está inquieto, depois de um longo dia deseja apenas
chuveiro quente e descanso. Todavia, a noite não tem saído como o planejado,
concomitante com o fim do expediente veio a chuva. A cidade despreparada não sabe o que
fazer. Água acumula em vias tornadas canais, veículos automotores, adaptados apenas para
uso terrestre, impotentes esperam. A metrópole para, sem nada poder fazer além de esperar.
Da mesma forma, Abelardo espera, inquieto, começando a sentir fome, roupas molhadas e
nenhuma perspectiva de que no futuro próximo chegue algum ônibus.
Água escorrendo por uma suave via de desespero na tristeza da cidade constipada,
atolada e sobrecarregada com o rio acumulando sobre a superfície vedada, sonhando com
dias de sol, astro que visto de longe parece frio, um mero ponto em movimento, seu fogo
distante, tanto quanto a água e o solo, e a cidade que transborda, deixando claro que não
mais suporta. Como pensamentos de seres ponderando em diferentes sabedorias, aqueles
que desejam a chuva, aqueles que a chuva deseja, aqueles que sentem o incômodo da noite
abrupta na tarde roubada, veloz no tempo, negociando pequenos fragmentos do próprio
tempo, feitos de agoras, que, da mesma forma que a matéria da qual são feitos, não existem.
Ou irão existir, ou, já não mais existem, existência pressuposta, da qual a vida é
feita, da qual não se foge e não se escolhe, andando pelos caminhos verdejantes de
pradarias formosas em pleno outono, de outro modo, parado em um ponto de ônibus,
procurando levantar os pés para fugir do vento chuvoso, corpo molhado, alma encharcada,
e um impulso adormecido, que depois de quase esquecido, sente um odor distante de um
instante ainda desconhecido, que virá, se desdobrará, e terá consequências ainda
desconhecidas por todas estas criaturas no ponto de ônibus em pleno temporal sem
paciência. O desconforto da situação é patente. Observa as outras almas desafortunadas que
neste momento dividem o mesmo espaçotempo. Abelardo retirado de um transe tem a
recomposição do momento, daquilo que como agora pode ser apreendido. Retoma a
consciência do presente.
O agora é amorfo, nunca é, sempre em vias de ser, o presente é sempre quase mas
não exatamente. A delicadeza da vida é lidar com isso, alguns experienciam como vazio,
outros como uma pura confusão, a maioria, não se importa, na vida segue reta ou torta, e
pelos caminhos tortuosos continuam lacrimejando o passado, de outro modo, aqueles que
olham para o futuro, superando um passado antiquado ou monumental, e mesmo sem
entender o presente agem no ímpeto, outros ainda de outros modos lidam, e, para Abelardo,
o agora é espera, o agora que se estende ao longo dos anos, atravessando as camadas das
eras que constituem o próprio corpo, Abelardo espera, um dia que chegará embalado poruma antiga música hipnótica sobre esperar, algo ou alguém. Esperar como um moto
inesperado onde desaguou a vida, como uma quintafeira qualquer que amanheceu
ensolarada e dentro de um cubículo foi passada. Esperar como anfíbio sobre uma vitória
régia nas costas do mundo no meio de um lago dentro de um parque municipal na babilônia
alagada. Espera e tédio, passa a reparar nos outros seres de parecido fortúnio.
Poucos passos de onde está, a senhora finalmente conseguiu fechar o guardachuva,
agora, o usa como bengala apoiando o peso da perna esquerda. Está falando sozinha, um
baixo cochicho de reclamação, franze a testa e um nome repete, diz para si o mantra da
contrariedade, um canto de decepção. O baixo murmúrio da velha soa fixo na visão sem
horizonte, entranhado na caótica melodia da chuva, servindo de trilha sonora para outro ser,
ao lado, um homem, na faixa dos quarenta, veste terno e gravata azul, em intervalos de
segundos olha para o relógio no pulso, a cada olhada um novo palavrão. Amaldiçoa a
chuva, amaldiçoa o vento, amaldiçoa não ter saído dois minutos antes, tem a indubitável
certeza que são estes minutos os responsáveis pelo atual inconveniente. Dois passos adiante
está um jovem casal, o rapaz transparece o mau humor que pela pele escorre carregado
pelas gotas invadindo a pretensa proteção em direção ao rosto. Está abraçando uma moça,
ela, parece entediada, sonolenta observando. Mesmo havendo um banco, nenhum dos
presentes está sentado, para fugir das rajadas de chuva empurradas pelo vento lateral estão
amontoados na pequena faixa entre o banco e a estrutura metálica que sustenta o teto ao
mesmo tempo em que serve de moldura para pôsteres comerciais. Do lado de dentro exibe
o heroi de um novo filme, enquanto, do lado de fora, mostra a propaganda de um conhecido
sabor de refrigerantes, Tem gostinho de verão, diz o anúncio em grandes letras amarelas
sem ninguém para no momento lêlas. Completando o grupo está uma mãe com seu rebento.
O garoto aparenta seis, talvez sete anos, está agarrado nas pernas da mãe.
Abelardo observa a criança, parece o único ser a não tomar a situação como
infortúnio, tem no rosto o sorriso das descobertas, com as costas da mão direita enxuga as
gotas arremessadas pela ventania a silvar, as gotículas acumuladas aumentam o sorriso.
Puxa a camisa da mãe, quer mostrar que conseguiu pegar um pouco de chuva. É ignorado.
A mulher balança a cabeça condescendente, fazendo sinal para que fique quieto. O garoto
parece não se importar, com a mão esquerda espalhando a água sobre a pele já molhada. A
singeleza da cena magnetiza a atenção. A atitude da criança, o cheiro pesado da chuva, o
barulho das buzinas e o manto da noite concatenam memórias. Já não está mais no ponto de
ônibus na cidade pluvial, está na janela do quarto andar do apartamento onde é possível
presenciar o maquinar do dia. Não tem altura suficiente para olhar pela janela, o que não é
problema, usando uma cadeira alcança o parapeito. Com os braços apoiados consegue
observar a rua, um de seus passatempos favoritos. A janela fica exatamente em frente a
praça Eurico Bandeiras, a movimentação rápida de passantes e veículos, as barracas dos
vendedores tomando toda a área próxima ao chafariz sem água. Gosta de olhar o mundo
pela segurança da janela, particularmente quando está chovendo. Quando as comportas se
abrem no céu, na terra os pés apressam as pessoas. Do lado seco do mundo a visão é
privilegiada, na janela a criança observa, no ponto de ônibus o adulto espera.
Está cansado de esperar, não apenas no que diz respeito a presente situação, esta,
emerge como metáfora concreta, atualizando antigas angústias. Perdeu a conta dos anos que
passa aguardando, no nível da razão tomados como etapa, o campo preparatório onde belas
sementes são plantadas, devidamente cultivadas, no futuro frutos virão, belos e suculentos,
prontos para serem colhidos. Os anos a passar, na concretização do tempo percebe otamanho do labirinto, as voltas desnecessárias, as linhas supérfluas, o futuro é o ponto
almejado ainda que invisível. Há tempos lapida a vontade de deixar o trabalho, necessário e
indesejado, repetitivo e entediante. Nos últimos tempos abandonou os hobbies, acima de
tudo tem cultivado a letargia. Entre diagnósticos pessimistas e prognósticos pouco
animadores, quanto a isto, o tempo dirá, como a tudo, resta esperar. No íntimo a esperança
de que alguma coisa, que, não sabe o que, irá acontecer, sendo a enzima catalizadora, o
limiar que permite a travessia. De algum ponto no horizonte o uivo do vento perpassa a
cidade, a chuva aumenta. O barulho da água caindo forma um único som contínuo, o
zunido constante abafa o som das buzinas, abafa os sons da calçada, da cidade, dos
pensamentos e de tudo que debaixo das nuvens se encontra. Então, por alguns segundos o
vento pára, e, a própria chuva para, como se a tempestade estivesse fazendo uma pausa para
respirar antes do próximo grande sopro, é nesse momento, como um lapso que percorre a
periferia do tempo, um impulso em cargas mergulha na corrente sanguínea chegando à
mente. Abelardo olha as roupas molhadas, as mãos estão tremendo de frio, a alma inquieta,
percebe a inutilidade de permanecer, está cansado de estar a esperar. Como alguém pulando
na corda em movimento, entra na rua decidido a chegar em casa o mais rápido possível,
disposto a andar todo o caminho, se necessário. Nos altos atmosféricos, indiferente às
serestas e questões humanas, a grande massa de ar que por alguns segundos havia parado
volta a cair com veemência sobre a crosta terrestre, especialmente, sobre uma metrópole em
particular, onde, agora, um homem molhando e deveras mal humorado está disposto a
enfrentar água e vento rumo a promessa de chuveiro quente e roupa seca.Capítulo Onze, Peripatético
No começo a forte chuva é um desconforto, contudo, logo que se está tão
encharcado que mais gotas não farão diferença, o corpo percebe o prazer do deslocamento
por entre a matéria líquida. Solto de devaneios o caminhar surpreende, dissolvendo
angústias e aflições pelo movimento dos pés através das águas, é o pequeno prazer que se
torna a totalidade do ser, feito de matéria fluida e movimento. Neste instante para o andante
o andar acaba de atingir estado de graça, o sombreado surreal que perpassa os doces
sonhos. Está leve, lavado de todos os pesos e estáticas negativas. A percepção parece
aguçada em aspectos normalmente ignorados, o mundo surge aberto em toda sua gloriosa
trama, esqueletos de concreto, artérias elétricas e pontos de luz, mares de símbolos e água,
o trânsito estagnado, as pessoas na janela dos ônibus parados olhando a figura solitária
vagando como um fantasma encharcado na metrópole suspensa. A medida que anda o
corpo assume o controle, relaxada, a mente tem a nítida impressão de estar vendo o mundo
pelos olhos de um desconhecido, vagando sozinho, sonhando arquétipos, fisicamente
solitário, contudo, sem a solidão que, mais que um sentimento, é de longa data
companheira.
Com trinta e quatro minutos de caminhada acaba de atingir pouco menos de um
terço do trajeto, a chuva diminui consideravelmente. Da mesma forma, a excitação sensória
arrefeceu. Ainda sente o pós efeito da descarga inicial, ainda a percepção diferenciada do
mundo, todavia, distante do estranho fantasma. Sente uma espécie de neblina onírica,
observa os detalhes da cidade, detalhes que passam despercebidos na corrida cotidiana da
vida em vigília. A chuva volta a aumentar, já não tem a força tempestuosa, é um volume
constante caindo reto sem vento. O trânsito parado virou lento, aos poucos, os veículos
adquirem movimento entre freadas e buzinas. Um dos ônibus parados pertence a linha
quatrocentos e quatro, ônibus que há anos é companheiro diário nos trajetos trabalho casa.
Acaba de perceber que esta é a primeira vez que caminha pelo itinerário que há tanto tempo
passa cotidianamente. Vantagens de morar próximo ao ponto final, é um dos primeiros
passageiros a entrar, normalmente escolhe um dos lugares no fundo, coloca os óculos
escuros e dormita a maior parte do trajeto. No fim da tarde, quando faz o caminho em
sentido inverso, pega o ônibus cheio, raramente consegue sentar. Em ambos os momentos,
pouco olha pela janela, e, quando o faz, pouca atenção presta.
Ao andar a velocidade dos detalhes é reduzida, facilitando a percepção daquilo que
em outros momentos não seria visto. A arquitetura urbana é antiga, resquícios de outra
época e seu estilo próprio, quando nas ruas ainda circulavam mais pessoas do que carros. O
prédio de trinta andares de vidro fosco é uma das exceções, ponto execrável da
presentificação do futuro, arquitetado de forma lisa e atemporal. Sua personalidade melhor
combina com o que é a cidade, Moloch em belos panos. A fachada do prédio toma a
calçada, a marquise iluminada separa o edifício e a chuva. No canto, próximo as latas
coloridas de lixo reciclável, um morador de rua dorme, outro, divide com dois cachorros
um sanduíche e restos de um saquinho de batatas fritas.
À medida que os passos percorrem o caminho, a paisagem gradativamente muda, já
não há edificações com fachada de outro século, as construções são de duas, talvez três
décadas passadas. Prédios de quatro andares sem elevador e sobrados são frequentes,
alguns transformados em lojas. A chuva parece ter assustado os comerciantes, mesmo os
restaurantes, portas fechadas, vitrines apagadas. Não espera encontrar estabelecimentoaberto, parece perfeitamente razoável frente a situação atual, o tempo nervoso, ao que
parece, continuará durante a noite sem trégua.
O caminhante continua, observa como a rua é estranhamente bela, pondera como
deve ser charmosa em um dia de sol claro, principalmente no outono, quando a temperatura
é amena e o céu sem nuvens ostenta o sol morno da estação. No momento, a realidade é o
oposto da imagem mental, entretanto, a caminhada na chuva deixou o humor com bela
disposição. A sintonia com o mundo é quase onírica, em determinados momentos chega
imaginar não estar mais na cidade apressada e melancólica, pondera que talvez esteja
sonhando. Reduz a velocidade dos passos, passa por uma sequência de lojas especializadas
em luminárias. Em uma, o mostruário está acesso, banhando a vitrine com a luz de
diferentes lâmpadas, formas e tons, contraste absoluto com as variações de cinza do
exterior. Abelardo está do lado de fora, tanto das lojas fechadas quanto de si, aproveitando
as sutilezas do inesperado provocado pela inusitada caminhada.
O sedentarismo começa a cobrar sua parte, as pernas apresentam os sinais do
cansaço, comedidas sussurram a queixa, são ouvidas, mas ignoradas. A comprida rua por
certo é um bom lugar para comprar mobiliário e decoração. Neste momento está passando
em frente a três lojas de móveis e antiguidades, todas fechadas. Observa, sem parar, até ser
cooptado por algo. O estabelecimento tem a fachada simples e bem cuidada, um refletor de
luz amarela posicionado em algum lugar escondido cria a sensação de que a luz emana do
chão, subindo em direção a vitrine. Do outro lado do vidro há o modelo de uma sala de
estar. Acolhedora e aconchegante, poucos móveis, muito bem arranjados, colocados em
posição para dar destaque a peça no centro. O sofá.Capítulo Doze, O sofá
A iluminação amarela indireta realça a cor marrom do couro, as taxas e os braços
languidamente arredondados, um antigo chesterfield repousa com uma elegância quase
predatória, sua presença reluzindo sob a luz oblíqua de segredos insuportáveis ao toque. O
tempo coagula em denso silêncio. As tachas de bronze, dispostas com precisão cirúrgica,
faíscam como pequenos olhos metálicos, fitando, incitando, hipnotizando. Um grito
silencioso pulsando através das camadas almofadadas abafando promessas de uma estranha
imobilidade luxuosa de algo que é mais do que um objeto. Um piscar de olhos, sensações
desaparecem, o vento retoma a realidade da noite chuvosa, despejando umidade nos olhos
observando os outros componentes da vitrine, uma antiga mesa de boticário, uma gaiola de
ferro fundido sustentada por um extravagante suporte, um abajur discreto sobre um criado
mudo de mogno maciço, peças bem posicionadas, em sua discrepância compondo de forma
harmônica o mostruário de um antiquário. Outra vez os olhos voltam para o sofá, um metro
e oitenta, extensão nada impressionante, que entretanto parece ocupar todo o espaço da
vitrine, um monarca calado irradiando algo entre o conforto e o abismo. Duas largas
almofadas retangulares sobre o assento, as pregas cuidadosas no couro legítimo de algum
animal antigo, as curvas robustas dos braços prolongados em um arquétipo suntuoso, tudo
convidando a um repouso absoluto.
O olhar desliza de um ponto a outro numa espécie de transe fragmentado, à espera
de que o sofá diga algo, rompendo o silêncio com uma revelação qualquer, um murmúrio
velho de outras eras. Enredado em pensamentos cada vez mais profundos sente o estranho
impulso de se aproximar, de se submeter a presença que embora imóvel o desafia a entrar, a
deitar, a desaparecer no mistério acolchoado feito de aconchego e tímida sensualidade.
Abelardo é envolto pela aura do algo e do momento, absorvendo os fatos como quem gira
uma xícara entre os dedos, esperando o café esfriar, em busca do momento onde os lábios
não são queimados, quando, apenas, sentem o comichão do calor no que ainda antes da dor
é prazer, e queima, os olhos, que agora olham, olham para o sofá, pensando no quão
confortável é, e pensam e suspiram em concordância a musculatura cansada, como deve ser
maravilhoso depois de um dia chuvoso deitar na maciez em passeio pelas etéreas nuvens de
couro. As especulações excedem o pensamento, são pequenos redemoinhos hipnóticos, está
magnetizado pela presença do sofá do outro lado dos centímetros de vidro que os separam.
Perdido em devaneios não percebe que um homem se aproxima. O homem que em
breve irá falar, Boa noite, e, tirar Abelardo de seu transe, é velho, e mesmo a aparência
idosa esconde a real idade de sua velhice. Os cabelos são completamente alvos, finos
parecem deslizar pelas rugas da testa morena. Veste calças de brim em tom ocre pastel e
camisa branca de botões. Ao contrário do homem encarando o sofá na vitrine, está
completamente seco. Com o cuidado e a lentidão da idade se aproxima, a mão esquerda a
cada passo apoia o corpo contra a bengala, feita de madeira escura com entalhes de animais
ao longo de toda a superfície. No seu lento caminhar o ancião se aproxima, está a distância
de uma conversa e, acaba de parar, diz, Boa noite, acrescenta, Parece que gostou do sofá.
A voz amistosa por um momento desliza pelo éter, Abelardo roda o pescoço em
direção ao som. O primeiro estranhamento é o quão seco o homem está, ao redor a chuva
continua sua incansável queda, da mesma forma, a temperatura e o vento, porém, o ancião
parece emergir do nada vestindo roupas leves e secas. O segundo estranhamento é algo cuja
compreensão não alcança, uma daquelas sensações mistas de intuição e observação,sensação onde a mente procura o significado e não encontra, não sabendo exatamente o que
é. O ancião permanece parado, imóvel esperando a resposta do interlocutor, Boa noite,
responde Abelardo polidamente, Sim, é um belo sofá. O velho parece gostar da resposta e
sorri largamente enquanto as palavras saem carregadas com sotaque, Mais do que belo,
uma obra prima, feito em primeiro lugar para deleitar os olhos, com a mesma artesania que
para deleitar o corpo, com uma mistura única uma peça única. Enquanto escuta, Abelardo
retoma posição de frente para a vitrine, olhando para o sofá, imaginando a sensação das
costas no suave contorno acolchoado, percebendo com estranhamento o quanto pelo objeto
se sente atraído. Um raio cruza o céu, quatro segundos depois o estrondo. Desanimado
lembra o caminho ainda a ser percorrido e decide partir, nesta altura, está decidido a chegar
ao ponto mais próximo e tomar o ônibus para finalizar o restante do trajeto. O ancião
percebe a intenção do movimento e diz com o mesmo tom agradável de um avô, Por que
não entra um pouco, alguns minutos para esperar a chuva passar enquanto olha mais perto o
sofá, apontando a bengala continua, Está encharcado, certamente uma bebida quente e um
lugar seco são a melhor ideia para esperar, a chuva não irá parar tão cedo, mas em breve
diminuirá consideravelmente. Abelardo avalia a situação, o primeiro pensamento que vem
é, O corpo está cansado, a poucos metros daqui há um ponto de ônibus, o melhor é esperar
um pouco, o tempo para melhorar o tempo, o trânsito estará melhor fluindo, rápido será o
trajeto. Outro pensamento imediatamente se concatena ao primeiro, Talvez experimentar o
sofá.
O ancião sorri, como se no silêncio acabe de receber uma resposta, com sorriso
amigável e movimentos lentos balançando a cabeça, colocandosse a caminho para o interior
da loja. Abelardo pouco espera, acompanhando o lento ritmo caminha com o relance do
olhar fixo no sofá.
Neste momento, Abelardo está a exatos dois passos de entrar no antiquário. Ainda
não tem noção de como os próximos momentos decisivamente irão afetar seu futuro, da
mesma maneira, não tem sequer vaga pista do que está prestes a encontrar, mesmo que,
tenha na mente uma imagem específica do que pretende encontrar. Em outros momentos,
em outros lugares, entrou ou viu imagens de lojas de móveis e antiguidades, das múltiplas
experiências construiu uma loja imaginária traçada de pontos comuns. Agora, ainda que
inconscientemente, tem essa imagem como expectativa de como será o interior que em
breve adentrará. Todavia, irá ficar estupefato, tirado de órbita por peças que pertencem a
diferentes quebracabeças, apenas, por alguma estranha coincidência, ocupando o mesmo
espaçotempo.
O passo derradeiro que deixa a rua colocando o primeiro pé dentro da loja vem
acompanhado de estranha e inusitada sensação, a mesma sensação mista de intuição e
observação de pouco antes, desta vez mais forte, contudo, logo esquecida pelo deslumbre
do momento que o cerca. A primeira coisa que vê é o grande relógio à direita, peça maciça
feita do tronco de uma única árvore, os números e ponteiros feitos com entalhes em formas
geométricas. Ao lado, o esqueleto de um animal, busca nos arquivos mentais algo que
corresponda a esta formação óssea, nada encontra. No teto, pássaros empalhados
pendurados. Alguns reconhece, outros, os maiores, parecem tirados de algum momento do
período jurássico. As informações chegam em pacotes de difícil assimilação, num estalo
chega a certeza, está sonhando, Nada disso pode ser real, pensa, Estou dormindo, a chuva, o
caminho, o homem e o cachorro dividindo fast food, é tudo sonho, da mesma forma, esse
momento, esse lugar, a qualquer instante irei acordar, sentado no banco desconfortável doônibus a caminho de casa, com a cabeça encostada na janela e a boca aberta. Antes que o
pensamento continue é puxado por uma espécie de razão, Não estás a sonhar. Isto sabe, por
mais onírica que seja a sensação e o ambiente, não é um sonho. Todavia, lembra de ter
sonhos onde não sabe que está sonhando, só sabendo depois, quando a vigília recebe as
informações noturnas. Sonhando ou não, é inegável a força da experiência, fazendo com
que esta questão suma em detrimento das percepções que o cercam.
Na medida em que a passos cuidadosos pela loja anda, objetos tão díspares quanto
inusitados aparecem empilhados por todos os lados. Um grande cacto de espinhos
vermelhos está ao lado da menor mesa de bilhar que já viu. Duas cadeiras estão fixadas na
parede a pouco menos de um metro do chão, posicionadas ao lado da mesa violeta onde
uma vitrola de aparência vitoriana paira reluzente. Com aspecto mais velho que a maior
parte dos objetos, uma estante de madeira marrom, do chão ao teto, abarrotada de livros,
alguns deles com as capas visivelmente danificadas. Do lado de fora, a loja parece pequena
e estreita, por outro lado, dentro, a sensação é de um lugar imensurável, repleto de artefatos
e luminosidade confusa.
O velho surge por trás do grande urso pardo empalhado com uma enguia na boca,
não está com a bengala, e, segura uma larga bandeja de prata onde duas xícaras e duas
toalhas dividem espaço com o bule que derrama no ambiente odores cítricos e aveludados.
A impressão inicial de fragilidade passada pelo ancião já não existe, dentro da loja se
locomove com estranha agilidade. Acaba de passar por Abelardo, fazendo sinal para ser
seguido. Percorrem o corredor de móveis até a vitrine onde está montada uma aconchegante
sala de estar. O anfitrião coloca a bandeja sobre a mesa de centro e serve às duas xícaras,
sorri para o convidado enquanto entrega a peça de porcelana de onde algo de ótimo cheiro
fumega, diz, Permita que me apresente, sou Ramon Ruiz, a fala é acompanhado por uma
mesura, com as mãos vazias tirando um chapéu imaginário.Capítulo Treze, Nos domínios de Ramon
Fatos de averiguação precisa, sensações orgânicas,. Fatos de averiguação incerta, o
que vai ao ponderável e subjetivo. A própria existência como um fato, em momentos
passível de questionamento. Será esta a realidade, será um sonho, serão fatos quando
consistindo em fendas sinápticas transformar códigos encadeados e palavras em cenas
compostas de imagem e sentido. Como agora, quando após o aceno de um chapéu
imaginário, Abelardo está sem palavras, mudo retribui o gesto, imitando sem realmente
prestar atenção no que está fazendo, quando a dúvida é assolada pela certeza, de algo que
não entende, que provavelmente não irá entender, que entretanto sente, nas vísceras,
naquele ponto entre o umbigo e o intestino onde nasce o eu. Os olhos são magnetizados
pelo sofá a poucos passos de distância. O ancião, que agora não parece tão velho, o homem
que se apresenta como Ramon Ruiz, continua, Percebo que gostou em particular desta peça,
com o indicador aponta, É sem dúvida um dos tesouros guardados nessa loja. Agora, Ruiz
caminha ao redor do sofá, vez ou outra tocando no objeto para dar ênfase ao que está
falando, A estrutura é antiga, de onde exatamente veio a história se perde um pouco, o que
é possível apurar, em algum momento foi um móvel maior, que por algum motivo ou
acidente foi danificado, sendo de rara madeira, incitou um artesão a transformálo em outra
peça, outra vez lhe conferindo vida, na parte de baixo, em um canto discreto na dobra do
estofado, está a assinatura do artesão, já não mais vivo, mas sua oficina ainda no mesmo
endereço continua administradas pela prole, mas voltando, o sofá logo pronto foi vendido,
comprado por um rico comerciante Veneziano para presentear o filho, mas parece que o
rapaz não gostou do presente, e deixou para o irmão como agrado de casamento, para os
recém casados a peça perfeita para a nova casa em Modena. O casamento acabou, o sofá,
assim como todo o mobiliário, vendidos. Ramon Ruiz pausa a fala, olhando para o
interlocutor buscando entender se este está ou não a atenção prestar, tendo certeza que capta
o público, continua no mesmo tom enquanto anda a passos curtos, A tristeza de uns, a
alegria de outros, às vezes para um negócio como o meu o fim do casamento de um rico
casal é uma oportunidade, neste caso, adquiri algumas peças de valor, mas confesso que
este sofá tem algo único, a primeira vez que a vi também fiquei estupefato, e, acredite,
assim que experimentála, não outra coisa quererá da vida fazer. As últimas palavras são
ditas em tom de malicia, Abelardo não percebe, está demasiado ocupado com sensações
que fogem a costumeira familiaridade. Ramon Ruiz acaba de pegar um par de alvas toalhas,
está estendendo sobre o assento, criando proteção, impedindo que um eventual corpo
molhado deixe sua marca no couro. Percebendo o que está sendo feito, Abelardo olha para
o ancião com o sorriso sem palavras que pergunta, Posso. Da mesma maneira vem a
resposta, o gesto que indica, Fique à vontade.
Sem a pequena espera que cria a cortesia, imediatamente senta no centro da toalha
esticada. Um pouco de medo e a sensação de se ter o corpo invadido, ainda que
suavemente. Sente o impulso de se jogar, mergulhar na superfície macia, encontrar posições
e fundir a existência com a bucólica tranquilidade que o objeto emana. De perto, Ramon
observa, segurando uma das xícaras de onde, em pequenos goles, sorve o líquido cujos
últimos resquícios de quentura esvaem em pequenos abanos de vapor. Mais um gole, por
alguns breves segundos permite que a bebida permaneça na boca antes de deixála escorrer
pela garganta e molhar as palavras que vem a seguir, Então, o que achou, tão bom ou
melhor do que imaginou. A última pergunta é acompanhada por um sorriso. Abelardo tentaformular uma resposta, não consegue formar uma frase. Está em uma espécie de êxtase,
todos os onirismos do ambiente somados a figura do ancião e o empuxo gravitacional que o
sofá exerce formam um intrincado labirinto sensível que o faz mais uma vez acreditar estar
sonhando. Fundo respira, recuperando a sensação de domínio do corpo, a mente ainda
oscilante volta ao eixo racional. O ancião está dizendo, Aqui um pouco de chá, é hortelã,
cascas de limão e canela, mel para adoçar. Ramon Ruiz entrega a xícara, que Abelardo
recebe, um gole, longo, o líquido morno, realçando a sensação do corpo molhado e frio.
Tem a experiência temporal marcada por cortes sujos, num instante está a centímetros da
vitrine olhando o exterior, no segundo seguinte está próximo a mesa de centro com uma
xícara na mão, tem a memória como lapsos, ações que se repetem em descontínuo,
tornando a alegada realidade influxa em tríades dispersas, O chá está ótimo, tem gosto de
dia claro e tranquilidade, como é possível, pensa, logo sendo cooptado pelo desconforto
metabólico que o corpo aflige, descida arterial. Sente fraqueza, o distanciamento dos
membros, o plano diminui à medida que o foco é perdido em um ponto distante, neurônios
e sinapses em guarda para o colapso iminente.
Entretanto, tão repentino como um rompante lupino, o corpo reencontra a
homeostase, devolvendo faculdades atentas e compreensivas. Meio aos estranhamentos e
incompreensões decide pela imediata partida. Deixa sobre o pires a xícara de traçados
carmim, levanta, estende a mão esperando o cumprimento, diz, Preciso ir, realmente não
estou em meu melhor estado, completa as palavras gesticulando os braços a evidenciar a
roupa molhada, Claro, não está nas melhores condições, brinca Ramon, Espero ter ao
menos amenizado e entretido, é bem vindo para voltar a qualquer momento, caso tenha
interesse, nesta ou em outra peça. As palavras mercantis pela primeira vez uma ideia
acendem, a possibilidade de adquirir o sofá, imediatamente levado a devanear. Ramon
atento percebe a sutileza do pensamento, Se imaginas em posse da peça, é sua, não se
preocupe, condições e formas de pagamento são discutíveis. Abelardo volta a sentir baixa a
pressão, não está em condições para formalizar o assunto. Ramon mais uma vez é assertivo
na compreensão dos nuances do visitante, diz, Permita que o ajude, irei chamar um táxi,
venha. As últimas palavras são complementadas pela gesticulação rumo ao interior da loja.
Neste momento Abelardo está aéreo, febril ainda que a temperatura corporal esteja baixa,
segue o ancião que fala sobre o sofá, pesca palavras do discurso sem alcançar compreensão
do que é dito. Anda mecanicamente, até sentar na cadeira indicada pelo anfitrião que
continua a dialogar ainda que o interlocutor esteja perdido.
A cena acontecendo no momento, o cenário, interior da loja de antiguidades, o som
da chuva cessou, sons de tintilar engrenageado de antigos relógios, um pio ecoando de um
pequeno animal engaiolado, um rapaz molhado sentado em uma cadeira, olheiras profundas
e olhar atento, ainda que, a mente vague distante sem prestar atenção no que diz o velho
senhor com sorriso gesticulando, chegando ao fim da fala e tomando o silêncio do visitante
molhado como concórdia. Ramon Ruiz toca uma pequena sineta de bronze ecoando um
som suave. Quase instantaneamente surge um homem, baixo, magro, com um enorme nariz
marcado por uma cicatriz que se estende até o meio da testa, se aproxima em passos tortos
com os braços cruzados nas costas, veste calças bem cortadas, bem alinhadas com o paletó
destacado por uma flor precisamente posicionada no bolso, nada diz, parado espera as
ordens, que logo vem, pronunciadas por Ramon, Veja bem, este jovem senhor tem a
felicidade de fazer negócios conosco, entretanto o mal tempo o pegou desprevenido, faça
nos o favor de chamar um táxi, ele lhe acompanhará e passará o endereço. Com andaresquisito as mãos estendidas chamando Abelardo que continua sem escutar o que é dito, o
novo ator na cena acentua a camada fantasiosa, parace saido dos salões de cortina vermelha
de outra dimensão, levanta, acha que está dizendo algo, agindo em agenciamentos caóticos,
confusão mental, desconforto físico. Outra vez a sineta de bronze, dessa vez tocada com
mais força, duas vezes, som do sino, o trilar perpassa o aparelho auricular, no cérebro,
acaba por encontrar algum interruptor, sendo sonho ou realidade, esvai a consciência.Capítulo Quatorze, Rotina e Realidade
A estranha sensação de acordar de sonhos intranquilos. Na mente sons artrópodes
entorpecem a realidade, trazendo em si a lembrança de outras manhãs, que, se embasam no
contínuo do hábito. Levanta da cama. O trajeto até o banheiro é feito no automatismo dos
passos a despertar. As engrenagens da consciência ainda preguiçosamente trabalham,
passando da primeira para a segunda marcha. Mais um dia, mais uma vez a rotina. Tédio,
café, trabalho. Enquanto os dentes escova, um leve pensamento atenua o peso matinal,
sendo diluído na espuma cuspida em espiral descendo pelo filete de água que leva ao ralo,
Hoje é sextafeira. O pensamento é uma pequena carga de ânimo para aturar o repetitivo
trabalho que nos últimos anos exerce. Com frequência pensa em abandonar o emprego, tão
tedioso quanto desgastante, sente como desperdício todas as horas passadas frente à tela e
planilhas, desperdiçando tempo e energia no sem sentido labor em troca da recompensa
financeira. No fundo deseja largar tudo, deixar o apartamento, deixar a cidade, no fundo, o
que sente é medo e a acomodação das pequenas certezas. No fim, continua fazendo o
mesmo, pois, sabe que nada fugirá do esperado, mais vale o conforto da certeza que os
perigos do desconhecido. Se a melancolia é o preço para o conforto e a estabilidade, que
seja.
O apartamento no sétimo andar é novo e bem conservado. Como a maior parte dos
edifícios residenciais é pequeno, ainda que a cozinha se estenda transformada na área de
serviço onde, sobre o tanque, a janela de correr abre para leste, direção onde os prédios a
frente são menores, o maior, à esquerda da linha de visão, tem cinco andares. De onde está
a janela tem a privilegiada visão do horizonte onde a cada manhã o sol levanta. Neste
momento, após esquentar no microondas um copo de café da véspera, se aproxima da
janela, que, jovialmente recebe, alegre pela companhia a mais uma vez partilhar a estrela
que traz o dia.
Nessa atmosfera matinal, naquele momento onde a racionalidade já engatada ainda
não tomou a frente, o momento onde com maior liberdade se comunica com o mundo
onírico, Abelardo rememora cenas de um sonho. A loja de antiguidades. No sonho anda
pela cidade, está chovendo, o corpo nitidamente rememora o prazer da caminhada. Em uma
rua de lojas fechadas é recebido por um homem peculiar, de olhos profundos. A loja é a
câmara secreta de mil tesouros, contudo, de alguma forma sabe que nenhum dos objetos ali
têm real importância, exceto, uma peça específica. A memória que irá, em muito breve,
tomar Abelardo, estará carregada de êxtase e tensão, irá colocar dúvida, e, a realidade em
questão. A imagem chega, o sofá, e todo o magnetismo desde o primeiro momento
exercido. A memória é tão nítida quanto real, tão real que, Talvez não seja um sonho. De
fato, não consegue lembrar como chegou em casa na véspera. Lembra ter deixado o
trabalho, um dilúvio caindo, o trânsito parado como canos entupidos, o ponto de ônibus
apertado, o vento, o cansaço, pombos molhados, batata frita e embalagens plásticas
entaladas nas grades dos bueiros. O ônibus lotado, o trajeto dormitado de mau humor
molhado. Sem tanta certeza, não consegue acesso a memórias precisas, as imagens feitas
resultam da rememoração que no momento a racionalidade consciente executa. Fatos em
lacunas. Depois deste momento não consegue ter a certeza exata do que ocorreu no
intervalo temporal entre o ponto de ônibus chuvoso e o conforto da cama. Pensa que,
Talvez seja o cansaço, a necessidade de sono, o estresse físico e mental, foi isso, devo ter
pego o ônibus e dormido todo o trajeto, o que aconteceu foi a mistura dos processosoníricos com o que era pela janela visto nos rápidos momentos em que do sono os olhos a
realidade retornam. Para ter certeza, enquanto o café termina, repete para si mesmo a
conclusão obtida, buscando ênfase para convencersse.
Tanto enredado em pensamentos persistentes, porta fechada, elevador vazio, na
névoa onde os olhos assimilam o mapa, seguindo o condicionamento logo sai assim que as
portas do elevador abrem, sem perceber, que, não está parando no térreo. Atento estivesse,
veria a luz no painel indicando um número e não a letra T que designa o piso inicial, assim,
quando distraidamente acelerado em passos retos ruma, bate de frente com uma mulher,
moradora do número duzentos e um, esperando o elevador, pronta para entrar, quando
quase é derrubada por Abelardo.
São trocadas desculpas e comentários constrangidos quando Abelardo percebendo o
que está acontecendo retoma ao elevador andando de costas, envergonhado pedindo
desculpas a Martinha Queluz. Esta, por sua vez, após o susto inicial está rindo, e agora tenta
apaziguar o rapaz, que conhece, dessa maneira superficial que se conhecem os vizinhos
condôminos, entre Bons dias, e comentários rotineiros. Faltando poucos andares o trajeto é
rápido, Abelardo outra vez pedindo desculpas, enquanto acompanha o passo em
justificativas sobre a distração, já não mais constrangido, percebendo que a vizinha levou a
situação pelo lado cômico, fazendo com que o susto acompanhado da leveza da comédia
expurgue divagações, alterando o humor.
Nesse momento depois dos primeiros passos depois do portão se separaram, tomam
cada um o seu caminho, o jovem preocupado segue a calçada olhando em sessenta graus o
horizonte, buscando na curvatura do queixo alcançar algum ponto além do horizonte, olhar
para longe é o mais próximo que se pode chegar de si, o momento que também é um ponto,
quando é onde, quando se vê com o íntimo distante que nos assusta, olhos rajados levados
em cacos, carregados por um enxame de tartarugas voando em outra realidade, livres em
acrobacias, tendo certeza que por ninguém são vistas. Enquanto isso, simultaneamente
neste espaçotempo, Martinha ri imaginando o que se passa na cabeça do rapaz preocupado
indo para o trabalho, enquanto, ela mesma, segue caminhando para o próximo capítulo.Capítulo Quinze, Mrs Queluz
Martinha indo para a padaria, caminhando pães de coco em pensamento, habitando
o antagonismo da própria solidão, escarpado e longo momento de epifania passageira,
costumeiramente efêmera, tanto quanto inconstante, passando a passos largos pela calçada
que desce a rua onde Judas carrega flores, provavelmente um pedido da floricultura, sempre
é de alguma mãe, ou desculpa ou declaração, aniversário, uma menina que faz quinze anos,
um namorado arrependido, sempre tem alguém que pela manhã precisa flores enviar, e lá
vai Judas levando as flores, um buquê de margaridas, grande com laços e babados, no braço
vai também uma cesta com guloseimas, parece pedido de desculpa de algum sujeito
travesso. Fica com vontade de apressar o passo e puxar assunto, Judas algo falaria, adora ter
alguém para falar dos clientes da floricultura, quem atravessa a rua é Helena pelo cachorro
sendo carregada, o bicho não aparenta tanta força, é ela que parece feita de gravetos, bate
um vento e sai voando, veja bem o trabalho, sair para buscar a moça sabe se lá onde,
tomara que caia no mar, ou que o cachorro que agora lhe puxa a segure em terra, qual é
tanta a pressa do bicho, de poste em poste, de muro em muro, e todo esse barulho, deve ser
surdo quem anda numa motocicleta de infernal trombeta, e agora já vamos perdidos
procurando sentidos, acompanhando, o passeio de Martinha, entre a casa e a padaria,
quando pouco antes fechou a porta de casa, com uma mão girando a chave, com a outra
segurando no peito o cordão, um resquicio de outra vida, que as vezes retorna, alterando o
humor, a deixando triste, enquanto com uma mão coloca a chave no bolso, enquanto com a
outra aperta contra o peito o cordão, uma corrente de ouro branco, fina, como um fio de
seda, com um fecho delicado escondido pelo cabelo, segurando um pingente, onde um
pequeno cristal azulado repousa sobre a pele entre os seios, quase ouvindo o coração,
quando a mão em concha sobre a blusa aperta o cristal contra o peito, quando com uma
mão aperta o botão chamando o elevador. As portas abrem soltando um apressado em
distração que quase a derruba, entretanto, efeito que agora é sentido mas não ponderado por
Martinha, o sujeito que quase a derrubou fisicamente, neste acidente, derrubou
pensamentos, enchendo a mente de graça, ainda mais quando rindo da situação o rapaz
enrubesce buscando justificativa, até, perceber a leveza do ocorrido, e agora o pensamento
é compartilhado com Martinha, voltando a pensar em Abelardo, imaginando para onde vai
tão apressado, ponderando o que vai naquela mente, talvez ele também tenha ficado mais
leve, assim como essa manhã, iniciada em peso, agora deslizando suave pela rua, neste
momento vazia, cortada pelo som de carros em paralelas, pelo ranger constante das
máquinas, pelos pés e mãos dos cidadãos, indo para seus afazeres, trabalhos,
compromissos, um pão doce de coco com creme, e um café quente, forte e sem açúcar, o
doce do pão já é suficiente, e talvez sejam dois, e talvez a vida seja um mundo habitável
quando se vai na tranquilidade, em paz com o momento.Capítulo Dezesseis, Um pouco mais do mesmo
Frente às planilhas na tela abertas sentado está. No total, oito abas estão abertas,
passando de uma para outra sem de fato prestar atenção. Tem uma série de tarefas a serem
cumpridas, sabe que no momento em que se propor a executálas terá em cerca de uma horae meia concluído, da mesma forma, sabe que, uma vez pronto e entregue, irá receber outra
série de tarefas, o que, no fim das contas, não deseja. É assim que neste momento está
Abelardo, a procrastinar. No mesmo andar, nas baias ao lado, alguns fazem o mesmo,
outros, trabalham, Ricardo Poleno é um dos que trabalha. Concentrado em longas fileiras
de dados procura discrepâncias nos resumos contábeis dos últimos treze anos, graças a este
exaustivo, porém, necessário trabalho, a empresa economizou no último semestre setenta e
sete centavos. Passos cruzam o corredor, é Alfredo, um dos gerentes da divisão de controle
contábil, tem quase dois metros e cento e dez quilos. Anda como se não soubesse o que está
fazendo, o olhar distraído e vago. Na empresa muitos não sabem exatamente qual é a
função de Alfredo, que, parece apenas andar entre as baías e a copa, onde passa a maior
parte do tempo comendo biscoitinhos amanteigados e tomando café. Alguns chegam a dizer
que o próprio Alfredo esqueceu o que realmente faz. Perto do bebedouro um grupo
conversa, ansiosos pelo fim do expediente que os levará para o sempre sonhado fim de
semana. No corredor, que leva aos banheiros, uma das lâmpadas está queimada, aconteceu
a quatro dias passados, desde então, uma aranha de pernas finas e compridas construiu suas
teias onde estão três mosquitos a se debater. Todas estas e outras coisas neste exato
momento a acontecer, e, na baía vinte e um do vigésimo primeiro andar, do setor de
Conferências Contábeis da Conta Conta Contabilidade, Abelardo continua a passar de aba
em aba, sendo entorpecido pela constante luminosidade da tela que deixa a mente em stand
by.
Passa a maior parte da manhã procrastinando, pouco antes do meio dia saí para
almoçar. Sai sozinho, esquivo sem ser visto. Tem um solene respeito pelo prazer de comer
só, apreciar a refeição em silêncio em seu próprio tempo, observando o mundo e
saboreando lembranças, as acontecidas e as inventadas, no intervalo garfado embalado no
ritmo contínuo da mastigação, papilas e neurônios, alfatividade gustativa e mnêmica,
rítmica do mundo no primitivo prazer pelo alimento propiciado, quando para além das
calorias o tempo é consumido, prolongado na textura bem crocante, amolecido na salivação
constante, digerindo fome e prazer. Findada refeição, volta e meia no quarteirão, nos passos
esticar o tempo antes de voltar, um infante que de tudo faz para enrolar, prorrogando até o
último instante a ida para escola, mas não era assim, a cena da memória corrige o
pensamento presente, projetando a felicidade do pequeno ser uniformizado, segurando a
lancheira de pé em frente a porta, fica na dúvida se todos os dias são assim, Abelardo com o
tempo tem percebido a inclinação da memória em focar no que é bom, pegar uma cena e
congelar em um curto vídeo que preenche todos os dias, provavelmente, como existem dias
felizes, carregam existência dias de choro, de vontades contrafeitas, Não tem jeito, meu
bem, hoje tem que ir para escola, chegando lá você vai ficar feliz. E assim contrariado é
obrigado a chegar na escola, as palavras ecoando com ternura, acompanhada da dúvida
sobre a felicidade alcançada. Naqueles tempos um adulto intervindo, na maioria das vezes
tia Glória, apressada na exagerada pontualidade, sempre temerosa em chegar atrasada,
levando a criança, mesmo contrafeita. Agora, o adulto que repreende é também a criança
que não quer ir, Abelardo experimenta, outra vez, a tristeza da resignação. Engole sonhos e
anseios enquanto apressa o passo soltando um arroto com gosto de farofa, alho e
melancolia.
Alimentado acaba de voltar Abelardo, anda em direção a mesa onde o computador
ligado aguarda. O andar está vazio, o que de alguma forma o deixa feliz. Filho único, criado
em apartamento, acostumado ao conforto da própria presença. A mãe com frequência dizia,Desde cedo independente e imaginativo. O bordão foi repetido com orgulho, formando
características cuidadosamente cultivadas. Na vida teve poucos amigos, da mesma forma
poucos amores. Nas delineações citadinas optou pela solidão, aos dramas humanos avulso,
da complexa entranha sapien a compreensão ermitã. A movimentação aumenta, o fim do
horário de almoço, logo o andar estará cheio novamente. V olta às planilhas, desta vez
decidido a dar seguimento a tarefa. Passando pelo corredor Everton acena, um metro e
setenta, magro como um graveto e sorriso sempre aberto. Parece estar constantemente rindo
de alguma piada ou ter acabado de receber boas notícias. Não sente simpatia pelo sujeito,
tem a sensação de que a constante felicidade que demonstra é a máscara superficial que
algo esconde. Responde ao aceno forçando os lábios a mostrar sorriso e cortesia.
Absorto na tela não percebe Olivia aproximar, neste momento, se surpreende
quando ouve a voz suave implicante apontando para o computador, Mais um belo dia no
sempre atarefado universo da contabilidade. Abelardo sorri, em frente a bela de cabelos
esvoaçados e olhar distante. São duas almas que compartilham a tranquila intimidade
entrelaçada de outras dimensões. Na esfera relacional, no que tange ao pequeno grupo de
amigos íntimos, Olivia tem posição destacada. Motivos para isso corroboram. O mesmo
ambiente de trabalho dividem, poucos metros os separam, é certo que funções distintas
exercem, entretanto, no nem sempre movimentado cotidiano do seleto grupo de
funcionários da Conta Conta Contabilidade há espaço para pausas esfumaçadas e alguns
minutos de prosa próxima a cafeteira. No mais, é a maneira como ela no mundo se
posiciona, em sua própria alteridade alheia ao funcionamento da máquina, ainda que,
ciente, neste posicionamento de próprias regras simbólicas. Por motivos diferentes, por
histórias diferentes, de maneiras diferentes, ainda assim, na primeira ligação molecular
vibrados na mesma frequência.
Abelardo aponta para o volume que Oliva carrega e retruca, Talvez não tão
atarefado quanto no recursos humanos. O volume é composto por gordos envelopes, com
disfarçado sarcasmo diz Olivia, Alguém precisa entregar as fichas pros chefões, pelo que
parece, cabeças vão rolar. Dois pares de olhares se encontram, observa os olhos fundos do
amigo, a tez abatida, V ocê não parece bem, mesmo para alguém com profundas olheiras,
tem bolsas enormes embaixo dos olhos. Abelardo reflexamente esfrega as pálpebras antes
de dizer, Não tive boa noite de sono, essa semana sem fim não me deixa dormir bem,
preciso, uma boa noite sem hora para acordar. Olivia sorri no mesmo tom, Para sua sorte
amanhã é sábado. Ao falar sobre a noite, o sonho vem à mente, a estranha loja e o sofá, a
imagem em movimento passa e esvai deixando arrepiada a percepção. É Olivia quem
continua falando, Amanhã é a estreia da peça do Nilo, ele está super animado, você vai?
Sem responder prontamente a cara que diz Talvez é resposta suficiente. Olivia ri, Certo, se
animar nos vemos lá, vou indo, não é bom deixar os superiores ansiosos. Se despedem. De
volta a solitude das planilhas, o árido e eterno intervalo entre os números, por ainda alguns
minutos a consciência irá persistir, até, ser sugada pela monomania do trabalho.Capítulo Dezessete, Adiante
Poucas coisas são mais claustrofóbicas que um elevador, uma caixa de aço fechada
com um único ponto de ventilação no teto, suspensa por cabos de aço em um grande fosso.
Abelardo está dentro de uma destas caixas, indiferente a suas nuances, indiferente a suas
questões, seus altos e baixos são apenas a forma expressiva de sua existência. E nessa
indiferença osmótica continua o trajeto descendente em direção ao térreo.
O saguão está cheio de corpos apressados, deixando o prédio, procurando a rua,
entre eles, um específico tem um plano. Pretende pegar a linha quatrocentos e quatro,
direção zona norte, se posicionar do lado esquerdo, onde, durante o trajeto, pretende
averiguar a existência, ou não, de um lugar específico, onde, na véspera encontrou, seja em
sonho ou realidade, a loja de antiguidades e seu dono.
Até então, todo o plano corre conforme o planejado. O ônibus não demora a chegar,
está cheio, todos os assentos ocupados. Se posiciona em uma clareira pouco tomada,
articulando o corpo de maneira a ter clara a visão da janela do lado esquerdo. Não está
chovendo, na véspera estava, ainda assim, a sensação é deja vu. Poucos minutos passados,
alguns pontos percorridos, logo estará chegando a rua General Hostes Bento. Desta
memória tem grande nitidez, por um longo momento anda pela avenida, uma das artérias
cinzentas que compõem a cidade, até, virar à esquerda, na veia auxiliar que leva aos
membros. Na mente as lembranças são embaladas pelo corpo percorrendo os conhecidos
caminhos sobre rodas, mais uma vez confluências cansadas relaxam a musculatura e
libertam a mente, mais uma vez a consciência está prestes a escapar, mais uma vez de
dantes, no costumeiro recitar das córneas pisca, a paisagem entrecortada pelo movimento,
pisca, a luz amarela e forte no interior do veículo, pisca, pessoas sentadas e pessoas em pé,
a maioria, sonolenta, pisca, do lado de fora o trânsito está parado, o sinal está vermelho,
está dormindo.
Gravidade, ininterrupta e equitativa. Da mesma maneira age em humanos e
elevadores. A fechada curva a direita age sobre os corpos dentro do veículo. Já não são
tantos, desceram ao longo do caminho, os restantes, exceto Abelardo, estão todos sentados,
empurrados pela força gravitacional seguram como podem para evitar a queda. Quase
arremessado, Abelardo desperta, usando as pernas e a mão esquerda para segurar o corpo
sonolento. A curva passa. Senta em um dos assentos disponíveis. Agora acordado, lamenta
ter adormecido, lamenta ter perdido a visão que acredita sanaria a questão. Sacode a
cabeça, procurando espantar aquilo que o aflige, hábito na vida adulta adquirido. Tempos
depois da época quando criança sozinho admirava pela janela o movimento da rua. O pai
sempre ocupado, Agora não, estou atarefado até o pescoço. A mãe, ao contrário, sempre
disponível, com meigo sorriso no rosto e taça na mão. Em todas as lembranças a taça está
presente, exceto nas manhãs onde de mau humor e olhos caídos a voz meio rouca repete,
São essas manhãs terríveis que me farão parar de beber. Não fizeram. Nunca entendeu
como os pais permaneceram tanto tempo juntos, nunca entendeu como em algum momento
tiveram a ideia de ficar juntos, sustentados por uma espécie de polidez mais próxima de
distantes amigos do que cônjuges. Um quadro na parede da memória, está chegando em
casa, tem quinze anos, abre a porta, o pai está sentado vendo televisão, não percebe que ofilho entra, ou, o mais provável, finge não perceber, Boa noite senhor, diz pelo protocolo da
educação, Boa noite meu filho, vem a resposta no mesmo tom. Deixa a sala. São dezenove
horas, já é noite, dentro de casa todas as luzes estão acesas, passa pela cozinha vazia, anda
até o quarto onde a mãe deitada na cama assiste novela, olha para porta onde o recém
chegado está, Boa noite meu filho, como foi seu dia, Legal. Ela ri, está levantando da cama,
usando a mão esquerda como apoio enquanto com a direita segura a taça, Ótimo, você deve
estar com fome. Sem esperar resposta contínua, Estava te esperando para jantar, não
aguento essa novela. Com o braço ao redor dos ombros do filho caminham em direção a
cozinha. Tem a impressão que essa memória tantas vezes aconteceu, tantas vez
materializada em pequenas variações, mais do que o replay do desejo agarrando memórias
boas, repetições da rotina, cena tantas vezes encenada que, de alguma forma, representa o
cerne da dinâmica familiar, a distância do pai e a delicadeza ébria da mãe. O ônibus acaba
de fazer a última curva antes do ponto onde irá descer, Apenas mais duas paradas, pensa
cansado. Olha para os pés calçados, o calo no dedão esquerdo está doendo. Poucos
passageiros restam no interior do veículo. Um garoto com grandes fones de ouvido, um
velho de olhos amargurados, uma mulher de óculos escuros, um jovem ébrio com a mente
envolta em questões urgentes. Sentados sozinhos espalhados por diferentes pontos do
grande espaço vazio. O fim da linha se aproxima, e, de seus destinos, os últimos
passageiros.Capítulo Dezoito, Martinha e a Janela
A moldura de madeira fende o mundo, separando a realidade, fendido corpo cuja
visão o intocável contempla, como sendo o agora, sucessivamente perdido na sucessão do
tempo, postos termos, coração, quase parado, em frente a janela Martinha parada, fendida a
ficção do instantante, friccionando o presente com a visão do fora. O percurso refeito, o
feitiço desfeito, deixada a janela, tantos quantos quilômetros cabem em um apartamento.
Outra vez envolta na solidão, na costumeira agonia sussurrada por memórias e
pensamentos, sempre refeitos, por isso mesmo outra vez sentidos, repetir é sempre fazer
outra coisa, ainda que seja a mesma, não a é, e assim, quando relembra, o corpo sente como
se outra vez vivesse.
Tão acostumada a situação, vaga entre a visão exterior e as milhas entre os móveis,
entrando na cozinha para outra vez fazer café na cafeteira outra vez vazia, pó no lixo, pó
novo no pote, põe o pó na máquina, outra vez podendo prosseguir seu sussurro, de poderes
vaporizados em água quente, fazendo subir o cheiro, tomando de aroma todo o
apartamento, dentro da xícara, nas narinas, após o sopro descendo, aquecendo o corpo, no
peito um aperto, já conhecido, persistente, agora mais insistente, algo acontece
diferentemente, deixa a xícara, aperta o peito, um calor estranho, que não emana do corpo,
levemente aquecendo a pele. O cristal. Este que carrega no peito, este mesmo que trata
como único resquício de uma outra vida que tem audácia de usar, ainda que bem escondido,
por debaixo da blusa, preso no sutiã, escondido pelo cabelo, e agora este calor que aumenta,
tira o cristal do pescoço, segurando pela corrente de metal. Visivelmente a pedra está
aquecida, sua cor oscila, levemente, porém indubitavelmente visível. Neste primeiro
momento assustada, refletindo como agir, sobre a mesa coloca o cristal. Está pulsando, é
bem leve, e indubitável, algo energiza o cristal de uma maneira até então por Martinha não
vista. Observa, curiosa, perto leva os ouvidos, nada escuta, puro silêncio, calor agora
estabilizado, é possível tocar, com a ponta dos dedos o gira, o girado por algumas voltas
segue até começar a perder força, deixando possível perceber que a ponta para uma direção
específica aponta, agora está parada apontando para a janela, vibrando com mais força.
Outra vez o cristal Martinha gira, outra vez termina na direção da janela, como uma
bússola. Para a janela Martinha segue, do outro lado da rua um caminhão está parado, sem
ninguém por perto.Capítulo Dezenove, A Encomenda
Está caminhando os últimos passos para atravessar os pesados portões do edifício
Ardósia aos Pés da Torre, rumo à promessa de descanso e televisivo entretenimento,
quando, por uma voz indagativa os devaneios são interrompidos, Com licença, por acaso é
o senhor Abelardo Fagundes. Reconhecer o próprio nome na voz de um desconhecido é
uma estranha sensação. Por alguns segundos procura nos arquivos mnêmicos, homem
baixo, ostentando protuberante barriga, os cabelos que sobram das calvas são grossos e
escuros, da mesma cor dos olhos. Depois de uma segunda averiguação constata não
conhecer a figura que está repetindo a pergunta, Por acaso é o senhor Abelardo Fagundes.
Apenas balança positivamente a cabeça enquanto vê o homem tirar do bolso uma
minúscula prancheta e falar, Ótimo, faz algumas horas que estamos esperando o senhor, já
havíamos decidido ir embora quando o Juca apontou para você e disse, Esse cara tem cara
de Abelardo. O que segue é uma alta gargalhada, o homem baixo parece de ótimo humor,
grita em direção ao velho caminhão azul parado do outro lado da rua, É ele mesmo.
Sentado na direção do caminhão, um homem de longos cabelos desbotados levanta o
polegar da mão direita.
Acaba de ser tomado pela mesma sensação onírica do fatídico encontro com a loja
de antiguidades. Está parado, e, assim, permanece. Os músculos catatônicos, a cabeça
etérea, observa. O homem que levanta o polegar deixa a boleia do caminhão. É o oposto de
seu companheiro, demasiadamente alto, demasiadamente magro, longos e ralos cabelos
escorrendo até os ombros. Está usando um feio macacão azul, agora, Abelardo percebe, é o
mesmo que o outro homem traja. Nas costas do macacão em letras cursivas está escrito o
mesmo que na lateral do baú do caminhão, Dom Genaro Logística e Transporte.
O homem alto abre o baú do caminhão, o outro aguarda. Uma grande caixa de
madeira desliza sobre a cabeça do homem baixo. Ele está atravessando a rua, equilibrando
o enorme volume que aparenta grande peso. Parece ter dificuldade em manter o equilíbrio,
faz com a cabeça gesticulações para Abelardo, Vamos rapaz, depois daqui ainda tenho
trabalho e quero jantar em casa. O entregador impaciente frente a falta de resposta ou
movimento repete, Vamos rapaz, enquanto com as sobrancelhas aponta para a grande caixa
em cima da cabeça. Por alguns segundos nada acontece, Abelardo pergunta, O que tem
dentro da caixa. O entregador começa a dar indícios de que está no fim da paciência, coloca
a caixa no chão, retira do bolso a minúscula prancheta, com o movimento do punho destaca
o papel que a Abelardo entrega. O documento é uma pequena folha azulada, no cabeçalho
está escrito Abelardo M. Fagundes, seguido pelo endereço, no centro da folha um espaço
retangular onde está escrito uma única palavra, Sofá. No fim da folha dois espaços para
assinaturas, um está em branco, o outro exibe uma floreada assinatura.
O entregador impaciente diz, Vamos logo rapaz, já disse, tá ficando tarde. Abelardo
devolve a prancheta enquanto calmamente responde, Não me lembro de ter comprado sofá,
na verdade, tenho quase certeza que não comprei. O entregador sorri, enquanto tira do
bolso o lenço quadriculado que usa para secar a testa, Rapaz, se você não comprou, ou não
lembra, ou o que for, ou o que que, o que que eu sei é que, hoje é sextafeira, o depósito jáfechou, entregaremos a entrega, e depois você reclama, ou não, ou o que que achar melhor.
O fim das palavras é seguido por um largo sorriso. Abelardo olha para o homem à sua
frente, olha para o outro que encostado no caminhão espera, olha para caixa onde, ao que
tudo indica, está o sofá, Que seja, diz, e completa, Vamos logo com isso.
Rapidamente a grande caixa está depositada no centro da sala. Agora, os dois
homens da Dom Genaro Logística e Transporte partem. Deixando sozinho em casa o ser
humano que não se sente só, reconhece uma outra presença, emanando da caixa de madeira.
Pensa em não abrir, nem mesmo averiguar o interior, manter intacta até o dia seguinte
quando entrará em contato para a devolução imediata, por outro lado, escorrendo em outra
linha de pensamento, com naturalidade ignora qualquer estranheza da situação, afirmando o
momento e a vontade de continuar o curso dos fatos, compor com a casa o sofá. Arrasta os
móveis, abrindo espaço, a sala retangular agora um novo componente recebe. Apesar de
grande a caixa é surpreendentemente leve, facilmente arrastada, em seguida aberta,
revelando os contornos conhecidos cobertos por um manto. Em pedaços a caixa
desmontada, deixados no canto próximo à janela, para no dia propicio descartadas serem,
envolto revelado, semirevelado, ainda coberto, manto retirado, logo, vê surgir na frente dos
olhos a inexorável presença do sofá, o mesmo onde na véspera repousou molhado. Por um
lado, não acredita no que vê, por outro, é inegável a concretude do acontecimento. Está
absorto em ondulações oníricas, e, mais uma vez, não tem certeza se o que acontece é real
ou apenas fruto da imaginação desejosa. Com um estalo todas as dúvidas somem, o sofá é
real, assim como todos os acontecimentos da véspera, exceto por não lembrar como chegou
em casa, todo o resto surge com nitidez, Ramon Ruiz, o ancião dono da loja de mil
estranhezas, o mesmo nome assinado com finos floreios. Assumida a realidade em uma
probabilidade específica de um acontecimento raro quebrando a cadeia de blocos da rotina,
no livro caixa do universo criando a ordem logo aceita, onde o que se adquire é a
materialidade de algo que é novo, desconhecido e excitante.Capítulo Vinte, Fantasias e Fantasmas
Abelardo não se sente só, parado no centro da sala olha para nova peça de mobília e
sua presença quase humana. De certa forma, está em choque, estupefato com a estranheza
dos acontecimentos. Sabe não estar sonhando, não há mais dúvida, na verdade, no fundo é
o que deseja, a mais fácil das justificativas, todavia, a realidade do objeto a frente é
inquestionável, além de sua materialidade, emite uma espécie de magnetismo difuso, como
um animal, ou, outro organismo vivo, carismático ao ponto de ter algo o que se possa
chamar de personalidade, traços expressivos da própria subjetividade, habitando a mais
tênue das linhas entre um objeto inanimado e o mundo vivo.
A noite está silenciosa, particularmente silenciosa. Mesmo os barulhentos vizinhos
do andar de cima estão quietos. O som alto vindo da televisão no apartamento ao lado é
apenas uma lembrança. Sem vento a cortina imóvel observa a janela aberta. No centro da
sala um homem habita a periferia dos próprios pensamentos, e, com suaves passos de quem
procura não acordar os que dormem, está se aproximando do sofá, depositando sobre o
couro o corpo tenso. Com algumas mexidas encontra a posição que liquefaz a rigidez dos
músculos e pesa as pálpebras, em segundos arremessado no rio que desce o sono. Uma vez
caleidoscópado está em múltiplas micro sensações, desfragmentado da própria imagem, os
traços de seu próprio nome transformados no palimpsesto do tempo. Por três eternidades e
meia vaga pelo fórum do abismo entre a magnitude dos seres imortais, antes de chegar a
quarta é assaltado pela transposição de uma visão, particularmente vivida, particularmente
vidente.
Na visão está sentado no canto direito do sofá, a peça ocupa espaço de destaque na
bela e ampla sala, bem iluminada, parece saída de alguma pintura burguesa do século
dezoito. É possível sentir o cheiro da brisa marinha. Um homem de aparência jovem anda
de um lado para o outro, aparenta tristeza e preocupação. Os passos nervosos se sucedem a
olhares na direção da bela mulher entre almofadas vermelhas, languidamente encostada no
braço esquerdo do sofá, também aparenta tristeza, ainda que seja de uma espécie diferente.
Enquanto a tristeza do homem é preocupada e pesada, a dela, é complacente e leve, como a
aceitação do fim. Um nada ao outro diz. Ela tem cabelos ondulados e finos cachos
desgrenhados como os olhos castanhos, a pele pálida e a boca rúbia, a tez fina e o
semblante despreocupado, olha o mundo com tom indiferente blasé. O homem continua
seus pesados passos, tem pesados olhos, têm pesada presença. Ele vaga em círculos, ela
deitada observa. A cena se prolonga, tanto quanto podem as miragens. Finalmente a mulher
irá dizer algo, está prestes a falar, a boca aberta pronta para soltar as palavras que logo
virão, no último instante desiste, rearranja as almofadas, pousa a cabeça, fecha os olhos.
Abelardo volta à realidade do presente apartamento.
O corpo está relaxado e a mente esférica, habitando aquele instante onde não se
sabe ao certo se foram passados oito minutos ou oito horas. No bolso toma o celular onde
olha as horas, é madrugada, as horas não surpreendem, está sem sono. Vai até a cozinha naintenção de preparar algo para comer. As opções são poucas, no armário, pacotes de massa
instantânea, sachês de molho de tomate temperado e um pacote de biscoitos de limão
aberto. Pega um dos biscoitos. O primeiro do pacote está mole, é dispensado, os restantes
continuam crocantes. Sabe que três biscoitos não são suficientes para a fome, abre a
geladeira, a primeira coisa em que coloca os olhos é o recipiente de isopor meio aberto,
contendo o que sobrou do sanduíche da antevéspera, apetece, rapidamente e gelado é
devorado. Está distraído, inconsciente ao caminho pelos pés em direção a sala, desatento
não percebe a atmosfera mudada. Um fino nevoeiro tomou conta do ambiente, o vapor
como vidro liso transformando a reflexão luminosa do recinto. É o odor que chama atenção
para o que está acontecendo, o cheiro delgado da brisa marinha correndo delicada pela sala.
Acaba de perceber as camadas do quase invisível vapor que densa o recinto. Ao fundo, no
sofá, sentada entre almofadas irreais, a mulher da visão, está ali, a poucos metros,
fantasmática e ectoplasmática, indiferente ao mundo, em um holograma translúcido apática
a sua condição.
A sensação inicial é espanto, seguida por incredulidade. O pouco de medo que surge
é logo esvaído. Inicialmente assustado, tem o estado de espírito alternado. A presença irreal
da burguesa de cabelos cacheados atrai alma e corpo ao ponto de estar hipnotizado. Com
lento passo se aproxima, no mesmo ritmo a neblina desvanece, tão delicada quanto aparece,
tão etérea voa, o nevoeiro e suas imagens são engolidos pelas dobras dos botões do sofá.
Acontece muito rápido, em um segundo lá está, tão concreta quanto podem ser as
aparições, no seguinte, em um simples trocar de frame, desaparece, sugada para o interior
das dobras.
Neste momento, todo o aparato sensório mental de Abelardo está em
funcionamento. Sem estar acostumado com tais experiências, não possui registros,
memórias possíveis de serem usadas em comparação, os símbolos que possui para
significar o que experimenta carregam o peso de seus adjetivos, irreal, sobrenatural.
Buscando qualificar os acontecimentos utiliza o que tem para unir sensações e sentidos em
um conjunto compatível com a realidade. Certeza tem, O sofá tem a anima de uma
existência, alguma forma de vida. Lembra os primeiros momentos na presença do objeto, a
fascinação sentida mesmo do outro lado da vitrine, lembra a visão com a mulher no sofá
deitada, confunde a imagem com a vista a seguir, o nevoeiro na sala, o vapor emanando do
sofá, não compreende, e, mesmo sem entender, talvez por isto acentuado, sente atração pelo
sofá, pela fantasma, pela situação, misto de incredulidade e volição.
Olha para o sofá, olha para si, olha para os últimos acontecimentos, olha para o
amplo espectro de tempo na vida acumulado. A garganta arranha pedindo cigarro. Vai até o
quarto, onde, na primeira gaveta da escrivaninha está um maço amassado, três quartos estão
cheios. O pacote há dez dias está aguardando, não é mais o fumante diário de outrora,
hábito que mesmo tendo diminuído consideravelmente não consegue abandonar por
completo. Entende que certas ocasiões pedem um cigarro, outras, exigem. A situação que
no momento está instaurada é do segundo tipo. Na boca o cigarro, na mão o isqueiro, no
movimento o fogo. Entre tragos volta para sala, no umbral que separa o ambiente está
parado, observando a nova configuração tomada com a chegada da nova mobília. Está
incomodado, não gosta da maneira como o ambiente ficou organizado, demasiadamente
carregado. Primeiro, remove os móveis, tralhas, quadros e tapete para outros cômodos, na
sala, além do sofá, deixa apenas a mesa com uma cadeira e a cortina aberta respirando o ar
da madrugada. Com o ambiente esvaziado varre o chão e tira a poeira, em seguidaposiciona a mesa no centro, em linha reta com o sofá. Coloca sobre a mesa o cinzeiro e o
maço, coloca sobre a vida o maçarico da existência, medindo o futuro pelos passos do
agora, preso ao passado, do acontecido, do inventado, do repetido, da frustração constante
por ser humano. Por habitar um corpo limitado, por aspirações desejantes inconcretizáveis,
por dúvida constante, todavia entretanto, o acento naquilo que é mais aflitivo, naquilo que
não faz sangrar mas mata, a quem mesmo o tempo os joelhos dobra, acima do divino e do
mundano, sem nome, sem uma explicação possível, habitando o hábito dentro de cada um,
hábito de ser finito e orgânico, estando aqui, delimitando a existência com um aparato
sensorial limitado, frente a respostas inapto a propor perguntas, assim criando narrativas e
sentidos, ainda sem entender esse sentimento de olhar a morte. Olhar nos olhos, dentro dos
olhos do que não existe, de alguém que não existe, que não é alguém, que não é de osso e
túnica e anda por aí de moto carregando uma foice maneira, não ele, não é ela, talvez
mesmo o santo espírito não seja, é a finitude ela própria, em consistência crua, sem algo
que possa ser palpável, sendo o fim, e paradoxalmente, o próprio sentido.
Abelardo contempla a realidade, revolve pensamentos, admira o sofá, percebe o
instante. Na nova configuração local o sofá está na parede oposta à porta de entrada. A
direita está a janela, a esquerda a parede nua e o pequeno corredor que leva aos outros
ambientes do apartamento. No centro deste cubo está Abelardo, sentado na cadeira de
frente para o sofá, com o segundo cigarro aceso, observando, torcendo para que o fantasma
apareça.
Capítulo Vinte e Um, Incurso
Uma jovem formiga se desprendeu da colônia, no momento está vagando pelo
porcelanato frio procurando odores que levem de volta ao cordão. Um cheiro diferente
acaba de seduzila, ao mesmo tempo que parece doce como um cristal de açúcar é
magnético como uma emoção. O cheiro mistura suor e tecido em uma vibração, pulsando
em ritmo constante. Está cooptada, atraída, segue em direção a fonte. Cruza solitária e
destemida o percurso até o sofá, o leve corpo sem com a gravidade lutar toma sentido
ascendente, escalando a lateral até encontrar os vincos indicados pelo inebriante cheiro. Ao
redor dos botões órbita, tendo certeza de triunfo ter encontrado, procura um lugar para
continuar o caminho, adentrar as entranhas do pulsar emanado, agora finalizado, silêncio,
odores desaparecidos. Com a certeza do encontro a formiga refaz o caminho, mapeando
como voltar, parte a procura das companheiras a quem a maravilhosa descoberta quer
relatar.Abelardo desconhece a presença da formiga, tão pouco chegará a saber que ambos
estão intimamente atraídos pelo mesmo objeto. À medida que a madrugada avança chega a
cochilar sem da cadeira se mover. O cinzeiro cheio, do lado de fora a luz já não é mais a
calma obscura que amanhece o dia. A vigília é infrutífera, a fantasma não aparece. Em certa
medida está frustrado, em outra inquieto, tem sono ao mesmo tempo em que está indisposto
a dormir, a péssima combinação que tanto assola as noites insones. Deixa a cadeira, no
banheiro escova os dentes, retirando da boca o gosto de carbono e sono. A urina
excessivamente amarela, a garganta seca arranhada pela fumaça, os órgãos vazios, sente
sede, sente fome. Lembra que, a duas quadras, descendo a rua, virando à esquerda antes de
chegar à praça, está a padaria da Dona Chica. Elegante em seus sessenta e tantos anos,
corpo esbelto e pele escura a fazem aparentar jovem como quarenta e poucos, está sempre
atrás do balcão, coordenando o que começou nos fundos de casa fazendo pães de coco.
Iguaria que continua sendo o carro chefe do ampliado estabelecimento. Pensamentos sobre
a maciez frutada na boca fazem as pernas procurar o caminho que levará o desejo ao corpo.
Depois de três pães de coco acompanhados de café com leite as células estão
energizadas e o humor insaturado. Claramente vê para onde deve ir, perguntas que quer
fazer, respostas que acredita irá obter. Hoje tem o estado de espírito e mental em muito
diferente daquele em que estava na quintafeira à noite. Quando encontrou Ramon Ruiz e o
antiquário, estava em uma espécie de ebriedade onírica, agora, passado o acontecido,
consegue refletir melhor sobre a situação, Naquela noite, o caminho feito pela chuva
limpou as estáticas negativas, levando pelo pluvio as pesadas correntes da mente, ainda que
temporariamente, experimentando o estado de graça lisérgica que abre as portas da
percepção. Ao entrar na loja, a estranheza dos objetos acentua a euforia sensória, fazendo
vagar por uma realidade familiar ao sonho, a ponto de confundilas. A mente na presença do
desconhecido é vulnerável, olha para o céu sem perceber todas as naves interplanetárias em
voo constante, olha para o mar e não consegue ver as ninfas brincando nas ondas, olha para
o granulado do cotidiano e não consegue ver o sagrado. Mente cooptada as amarras do
sistema operacional, sempre alimentada e atualizada nas constantes normas do sistema
vigente, esmagada por regras sintáticas que indicam os limites da visão e do desejo. Assim
como muitos, Abelardo é vítima passiva do sistema, a cada passada do cartão de crédito
aceitando a inevitabilidade do consumo, vivendo o viver ocupado, na maior parte do tempo
despropositado, em standby até o processo imperativo, até a próxima pontada da libido.
Quando despido da consciência rotineira, Abelardo encontra a porta dos fundos, onde a
programação escapa, e os olhos atentos veem além da algorítmica da realidade, talvez a
caminhada, talvez o efeito da chuva fria no corpo quente, talvez a borda da afirmação,
talvez a saturação do tempo, talvez um pouco disto e muito mais deste que mesmo com
uma lupa somos incapazes de enxergar. Percepções escancaradas trazendo a dúvida, Estou
sonhando. Dúvida que Abelardo oscilou entre as respostas afirmativas e negativas, agora, o
ponto da certeza, Não é um sonho, ainda que se aproxime da loucura. Revelação criadora,
sabe agora com qual realidade está lidando. Aos poucos conexões neuronais e fatos são
ramificados, pontos em busca de sentido, faltante este, pela lacuna na memória. Por mais
que rememore, o antiquário parece um sonho, mesmo a certeza do real parece não ser
suficiente, fazendo com que as memórias quase desvaneçam da forma como fazem os
pensamentos noturnos na lagoa da aurora. Agora, armado da familiaridade, envolto em
racionalidade, planeja Ramon Ruiz encontrar.Deixa a padaria, andando com o guardanapo limpa os dedos, anda contra o fluxo do
tráfego, o veículo amarelo vem descendo a rua, faz sinal, o táxi para.
Capítulo Vinte e dois, Retorno
Neste momento está em frente ao antiquário de Ramon Ruiz. É uma agradável
manhã de sábado, o sol sustenta calor morno. Está a dois passos de entrar, desta vez,
diferente da primeira, está minimamente preparado para o que irá encontrar no interior, está
centrado, pretende evitar toda a confusão mental, não saber se está ou não sonhando, agora,
já não tem mais dúvida, e, assim, pretende continuar.
O interior com seus incríveis e disparatados objetos é aberto ao visitante. Ramon
Ruiz em pé atende um cliente, ambos parecem de mau humor, principalmente o cliente que,
neste momento diz, São quatro semanas de atraso, claro, você diz, isso nunca aconteceu
antes, concordo, entretanto, há de convir que tenho mais do que motivos para estar irritado.
Ramon responde, Mais uma vez peço desculpas, navios que atravessam o Pacífico por
vezes encontram problemas, nada há que possa ser feito além do que sendo feito está. O
cliente com olhos irritados suspira enquanto negativamente a cabeça balança, sem nada
mais dizer deixa a loja.
Ramon Ruiz que a dois instantes aparentava o pior dos humores, agora sorri, Bom
dia, outra vez seja bem vindo. Abelardo automaticamente retribui, Bom dia. Enquanto as
cortesias habituais são trocadas, os olhos pousam em detalhes apenas percebíveis em
segundos encontros, é o sorriso do ancião que toma a curiosidade da percepção, ao mesmo
tempo é doce e familiar como de um avô, também, é malandro e mercantil. A idade tornou
a pele ao redor da boca flácida, fazendo o canto esquerdo da mandíbula a intervalos tremer,
a musculatura cansada ainda exerce seu papel, da mesma forma, ao redor dos graves olhos
castanhos as bolsas são escuras e pesadas, carregadas de antigos segredos. Sob as
bochechas a pele é lisa, destacando a formação óssea das magras maçãs. Ramon se
aproxima, é quem toma a palavra, Não esperava vêlo tão rápido, algum problema com a
entrega, a pergunta segue a resposta, Não exatamente. Ramon sorri, o mesmo sorriso de
mercador que o tempo todo sustenta, Espero poder ajudálo. A cabeça acena positivamente
para o ancião, os pés levam Abelardo a andar pela loja, aparentando distração enquanto os
olhos atentos escaneiam os objetos, um, em particular, acaba de prender a atenção, um vaso
com filigranas em relevo ostentando bela caligrafia coreana, por um instalo do tempo tem a
sensação do vaso, assim como o sofá, carrega alguma qualidade sobrenatural, Bonito este
vaso, o que significam os caracteres, pergunta apontando com o olhar. O ancião se
aproxima forçando os olhos para ler a medida que os cílios praticamente encostam na
inscrição, Contam a história de um poeta cujas belas palavras alcançaram os ouvidos do
Supremo Rei do céu Noturno, deslumbrado com as palavras, o soberano convocou o
mortal, lhe concedeu a imortalidade e uma das filhas como esposa. Da maneira como estão
posicionados, ambos de frente para o vaso, Abelardo não tem a visão do rosto do ancião,
que no momento volta a falar, Imagine campos bucólicos e lagos com tartarugas e pássarosmandarim, as cerejeiras ao fundo, outro reino, outro tempo, outra era, quando as letras aos
deuses levaram os homens, É uma bela imagem, Sim, bela é antiga, esta peça tem mais de
seiscentos anos. Por dois segundos silêncio, observa o velho, algo incomoda, procura ver
por trás do sorriso e nada encontra, lábios e dentes são a silhueta do quadro cujo tempo e a
sabedoria mostrou como as verdadeiras intenções camuflar, continuam andando, Abelardo
já não tem o vaso na linha de visão quando indaga em tom de brincadeira, Algum antigo
fantasma coreano reside no jarro. A pergunta causa na face de Ramon três segundos de
inesperada mudança, por um momento revela estar surpreendido, logo voltando ao habitual
sorriso, Até onde meus conhecimentos chegam, esta peça não possui características
sobrenaturais, embora, confesso, no meu tipo de negócio o sobrenatural não é raro, ainda
que, não seja comum, imagino, a interrogação não vem por acaso.
Abelardo não consegue esconder o incômodo que perpassa. A laca que cobre os
lábios bem esconde o que não passa pela cortesia, algo na figura de Ramon Ruiz é
desconfortável. O ancião faz sinal para ser seguido, anda até a mesa de mogno com quatro
cadeiras em volta, senta em uma e faz sinal para que o visitante faça o mesmo, sem esperar
começa a falar, Esta loja pertence a minha família há algumas gerações, ainda que nem
sempre neste endereço de agora, desde pequeno ajudo, cultivo este legado, nestes anos
muitas pessoas trouxeram objetos acreditando ser amaldiçoados, assombrados, as palavras
variam, o sentido é o mesmo, na maioria dos casos paranormalidade não há, fenômenos da
natureza ainda que estranhos possam ser são passíveis de explicação, entretanto, vez ou
outra, alguma coisa há que de explicação científica carece, fenômenos incomuns, variados
todavia carregando a marca do sobrenatural. O ancião silencia, pausadamente respirando,
voltando em tom firme a falar, Quanto ao sofá, dito foi ser assombrado, entretanto, por
tanto tempo por aqui ficou sem nada apresentar que essa possibilidade não passei a
suspeitar, ainda que seja claro que tenha uma presença única, um magnetismo entre uma
peça de verdadeira arte e desejo animal, segundo o que pude apurar, uma mulher, cujo a
peça como presente ganhou, passou por uma tragédia familiar, a irmã mais nova
inesperadamente faleceu, o fato a tomou de tal forma que adoeceu, os efeitos foram
rápidos, melancólica, ao longo de meio ano pouco comendo, passou a maior parte do tempo
deitada entre almofadas, ao que parece, o corpo sem forças partiu, deixando a pobre alma
que no sofá encontrou descanso. Abelardo escuta a história atentamente, E quando isso
aconteceu, indaga, Ramon responde, Não sei dizer exatamente, cem, talvez cento e
cinquenta anos atrás, faz algum tempo que a peça chegou a loja, o objeto é raro, a estrutura
é sólida e o estofamento é tanto uma obra de arte que leva a assinatura do artesão, assim
descobri a história e a tragédia, o artista está morto, mas a oficina continua no mesmo
endereço, enviei fotos, confirmaram a autenticidade da peça junto com parte de sua história.
Ramon aguarda, sem qualquer fala ou menção do interlocutor continua, Quando se lida
com peças raras e antigas não é incomum encontrar atividades que, digamos, podemos
chamar de fora da normalidade, a maior parte do que chamamos de sobrenatural são
detalhes ordinários cuja existência vivemos ignorando, falamos, pensamos, por aí andamos
com nossas certezas, vivendo dentro de um espectro limitado da experiência, um espectro
confortável, claro, por isso tantos aceitam a realidade que desde a tenra infância somos
ensinados, mas muito além existe, muito além nos cerca e nos forma, não por ignorálos que
os faremos deixar de existir, mas bem, desculpe a divagação, por exemplo, algo mais
específico, algo que poderíamos chamar de fantasma, na maioria das vezes, fantasmas são
almas, manifestação da vida em dimensão própria, entre o mundo dos vivos e os reinos dosmortos, a maior parte nada faz além de vez ou outra aparecer, como imagem virtual
projetada.
Abelardo atento escuta, atento absorve, atento respira o ambiente estalar mexendo
com capilares e raízes, olhos esbugalhados de um animal empalhado, olhos empalados de
algum ser despedaçado, olhos gracejosos e torturadores contando histórias de fantasmas,
Abelardo atento escuta sentindo que o relato tem tom verdadeiro ao mesmo tempo em que
omite ou distorce importantes fatos. A situação é desconfortável ao mesmo tempo, as
decisões parecem confusas, de maneira que, não sabe exatamente o que fazer, e ter vindo ao
encontro do ancião parece não ter sentido. Procurando organizar linhas de pensamento
abordando questões práticas, Quando estive aqui pela primeira vez, não estava me sentindo
bem, pode parecer estranho, mas não lembro ter comprado o sofá. Ramon Ruiz sorri com o
mesmo sorriso de negociante, o que deixa Abelardo irritado. Olha para o jovem e diz,
Claro, bem me lembro, estava molhado e pálido, a chuva teve grande efeito sobre você,
parecia com baixa pressão, quando sentou achei que iria desmaiar, não o fez, foi então que
preocupado propôs que fosse para casa e como cortesia enviaria a peça para ser apreciada,
como disse antes, gosto de mudar a vitrine, lhe sugeri que nas próximas semanas o belo
sofá fique sob seus cuidados, já que outro modo estaria confinado no depósito, e como já
mencionei, caso tenha interesse em adquirir a peça, condições de pagamento são
negociáveis. Uma risada costura o dito fazendo o interlocutor atenção elevar na situação
buscar o que irá considerar a verdade, imbuído das primeiras palavras que lhe sente o
corpo, Não estou confortável com isso, na verdade é sim tudo estranho. Impedindo a fala do
outro, Ramon, retoma o discurso, Bem, claro que não é a política da loja, bem sei que não
haveria lucro caso por ai saísse distribuindo móveis, foi algum tipo de compaixão pela
situação, podemos dizer assim, seu estado molhado e cansado talvez tenha me lembrado
algo de outro tempo, bem, veja só que outra vez emendo em divagações, faremos o
seguinte, hoje e amanhã a transportadora já não fará mais serviços, segunda sem falta será
para eles irem até sua residência buscar o sofá. Silêncio, acompanhado das reflexões de um
e do sorriso mercantil do outro, voltando a falar em tom descontraído, Claro, caso mude de
ideia, aviseme. Abelardo sentido que uma solução encontra sente a leveza da descontração
e o sono chegando à vontade, neste tom de espírito tem quase tudo resolvido, exceto o
detalhe sobre chegar em casa não lembrar, interrompendo o riso coloca a pergunta, Tem
uma coisa ainda, na verdade eu não lembro exatamente como sai daqui, acho que estava
com um pouco de febre, Claro, bem lembro, parecia sim pela chuva resfriado, após nossa
conversa daqui chamamos um táxi, acredito que tenha chego bem. Escuta, procurando ligar
algum lastro mnêmico, as palavras não trazem memória. A mesma sensação. Ao mesmo
tempo em que o ancião parece a todo tempo falar a verdade, o discurso tem rastro de fatos
escondidos, fugidos e camuflados. Abelardo muda a conversa para outro lado
exteriorizando um pensamento que acaba de ser domado, Imagino que uma peça rara e
antiga possua valor elevado. Antes que termine a frase é interrompido por Ramon, De fato,
não revelei valores, de fato, tão exuberante mobília tem valor elevado, ainda assim, acredito
que exceda etiquetas monetárias, todavia para lá deixemos isso, que tal aproveitarmos um
pequeno passeio pela loja, quanto as cifras, tenho certeza que, caso seja real o interesse,
podemos chegar ao consenso que a ambas as partes irá agradar.
Neste instante, duas mulheres entram na loja. Com vozes animadas dialogam. De
onde estão não é possível vêlas, Ramon levanta, Com a sua licença. Abelardo observa
Ramon seguir pelo labirinto de peças sobrepostas em direção aos novos clientes.Capítulo Vinte e Três, Reverberações
Certa vez, Martinha Queluz ganhou de presente uma bela cortina. Chegou pelos
correios, dentro de uma grande caixa cuidadosamente embalada, preocupação excessiva,
dada a natureza pouco frágil do objeto. Um presente há muito esperado, promessa de um
amigo expatriado em terras distantes. Ao receber o presente é tomada por grande felicidade,
o tecido fino, agradável em charmoso tom verde. Não perde tempo, a janela ganha nova
companheira, o pano volumoso e maleável delicadamente filtrando as luzes do exterior.
Logo percebe que, de acordo com as horas do dia e a iluminação interna, a cortina muda de
cor, bonito espetáculo, agradável aos olhos observar o transformar das matizes em
diferentes expressões tonais. A cortina não é verde turquesa fosco, de alguma forma, suas
moléculas constitutivas têm menor ou maior afinidade com determinados comprimentos de
onda, o tecido, o pano, o corpo, a pele, os pelos, as rugas, as cicatrizes, as paredes, as flores,
as árvores, os oceanos, as espirais, ainda que, possuidores de características singulares, ao
mundo se apresentam como reflexão luminosa. Esta constatação altera por completo a
forma como Martinha vê o mundo. A experiência com a nova cortina delicadamente altera
a percepção, percebe que não apenas ela, a cortina, mas, todos os objetos carecem de luz
própria, são reflexos de quantas exteriores. É nesta época quando algo abre, para uma visão
desconhecida, nova, estranha, parecendo tão certa quando sentida. No peito o calor do
cristal sobre a pele, resquícios desse outro momento, dessa outra vida, quando adentra o
corpo no novo, nas descobertas. Lembra como tentou compartilhar esse novo momento
com a família, mas as filhas na época pequenas demais para entender, o marido distante
demais para poder entender, os pais religiosos demais para querer entender. Assim convive
com o segredo de uma vida dupla, carregada da excitação que devem superherois sentir,
vida dupla, uma comum e ordinária, outra extraordinária, pouco compreensível para a
maioria, assim entende, assim vive, e por um tempo se experimenta feliz e completa, até
que,
, neste momento o cadeia de pensamentos é interrompida, uma lágrima escorre,
esfrega os olhos, um pouco de café, um pouco de ar, todos os sentimentos retornando, o
calor do cristal parece aumentar, coisas parecem voltar, tudo aquilo que recalcado deve
ficar entretanto insiste em retornar. Não está preparada, não agora, com tudo isso terá que
lidar, não quer, respira fundo, coloca o cristal no fundo da gaveta de meias, liga a televisão,
desliga a mente.Capítulo Vinte e Quatro, Continuando
Abelardo conhece Martinha Queluz, conhecimento entre vizinhos, cordialidade e
educação, conhecimento superficial, desconhecimento de sua história, entretanto, no
momento compartilham índices sensoriais deveras similares. Abelardo acaba de deixar a
loja, anda sem rumo, observando todos os objetos mundanos, o movimento dos transeuntes,
os veículos, as construções, sons, odores, todos representações de si próprios, escondidos
entre camadas de moléculas e vibrações. Rememora sentimentos companheiros, o desejo
que tomba em paz desinteressada, os anseios da alma intangível degolando o ordinário. É
como se sente, reflexo de si próprio. Da mesma maneira que olha para a frondosa árvore
crescida no concreto da calçada, mergulha os olhos para o próprio interior, nele tem antigas
sensações e imagens que não reconhece. Olha para os galhos a balançar folhas, procura ver
para além da luz refletida, enxergar para além dos olhos, sentir para além do toque, quanto
mais avança no exercício desconstrutivo mais percebe como tudo, e aqui se inclui, é a
formação semi aleatória de pedaços díspares, peças e engrenagens mais ou menos coesas
que fazem os organismos funcionar, as únicas constantes da vida são o caos e o acaso. O
vento e o tempo tocando os cílios embalam memórias tomando a consciência, anos
passados, tarde em quase pôr do sol, pés na areia, praia cheia, o sol tem tons tombados ao
alaranjado, radiação cósmica no teto diurno refletido buscando a noite, dedos pequenos de
ser criança, andando na areia, pés na areia, praia cheia, visão pela luz do horizonte
ofuscado, magnetizado anda, procurando alguém, um tio ou primo, ou outro alguém, neste
ponto a memória em lacuna desliza, voltando para o momento em cobre gravado, pés na
areia, praia cheia, sem vento, sensação abafada, sol poente, andando, a mãe ao lado em
onipresença, sem olhar sabe, perde a visão guiado pelo toque, seguindo a mãe como se
segue o par guiando a dança, com toques sutis indicando onde pisar, para qual lado mover o
corpo, areia entre os dedos cria a sensação do mundo fugindo, o delicado toque no ombro
mostra o caminho, quando criança sem preocupação, admirando o horizonte sem olhar o
trajeto pela certeza de estar sendo guiado na segurança se amparo for necessário.
A lembrança traz a paz que apenas o passado propicia, mas o presente para esta
sensação não deixa espaço, tem a sensação do mundo fugindo debaixo dos pés, entretanto,
experiencía o vácuo vindo da falta do toque guiando o caminho. Está andando em linha
reta, sem saber como parar, sem noção de como o caminho mudar, voltam as cenas recém
acontecidas no antiquário, Abelardo percebe o quanto a situação é estranha, reflete, pensa,
Ao que parece, o velho foi com a minha cara e me emprestou um sofá, um sofáassombrado, e essa história, muito parece que naquele instante inventou, ou no mínimo
exagerou, não vi uma goteira na loja, cada troço esquisito, outros de muito bom gosto, será
que ele está de alguma forma tentando aplicar um golpe, me empurrar uma peça contando
histórias e depois cobrar um alto preço me deixando na situação de ter que de alguma forma
arcar com o prejuízo, aquele chá, que cheiro era aquele, um sabor marcante, passando a
língua no céu da boca consigo lembrar, mas não conheço, será que tinha o que naquele chá,
ainda não tinha pensado nisso, mas antes disso já me senti estranho, provavelmente aquela
chuva realmente não me faz bem, um pouco febril, talvez, resultado do corpo quente na
chuva fria, pode ser, um pouco febril um pouco delirante, assim a realidade parece sonho. E
assim vai a mente em ritmo acelerado, em misto de dúvida e frustração. À medida que o sol
avança em direção ao meio do céu sente sede. Normalmente solitário por opção precisa de
companhia, alguém para quem possa contar, alguém que apare as arestas do caos e permita
que volte a viver a vida monótona e tranquila que leva. Troca mensagens com Olivia.
Combinam de almoçar juntos.
O bar Atilia e Gomes serve refeições quentes e saborosas a preços justos. Enquanto
aguarda, a segunda cerveja chega a metade e os humores mudam. O álcool dissipa a
ansiedade e clareia as ideias, permitindo por uma janela no tempo desvencilhar pesos e
preocupações, sal no horizonte e saltos no céu, acima das nuvens há um deserto sobre o
mundo, tão longe quanto o vento, tão longo quanto às aspirações, tão frágil quanto o afeto,
tão irreal quanto a realidade. Graduação alcoólica no corpo humano, mudança de estado
perceptivo, percepção da mudança perceptiva, Abelardo sorri para o tempo, brincando com
a ponta dos dedos, refletindo, como poucos minutos atrás estava em péssimo humor, agora,
pós ingestão alcoólica, está leve, sentindo o mundo equilibrado, conversando com o
percepto, entretido em como o mecanismo da realidade é delicado, o humano depende do
aparato orgânico para conhecer o mundo, e o corpo pode ser facilmente enganado, bacias
infinitas de químicas entre axônios e dendritos, alquimia orgânica. Abelardo lembra da
sensação onírica de andar na rua, não havia bebido, ou outra substância ingerido,
provavelmente o corpo pouco acostumado com a mistura de adrenalina e dopamina em
determinados níveis passou a acessar detalhes despercebidos, do grande volume da
realidade o foco alterando, em ângulos aproximados da coisa mesma. O mundo depende
dos olhos de quem vê, e, agora, com olhos ébrios Abelardo vê tons tranquilos enquanto
segue os trilhos do pensamento, tentando desfazer o emaranhado, buscando o fio da certeza,
o pilar da racionalidade. Não encontra. Continua difuso, outro copo vazio, logo a clareza do
início da onda será substituída por outro estado que acompanha o aumento da graduação
alcoólica no sangue. Outra vez a realidade será outra. Todavia, neste estado ainda não está,
esta percepção atual será sustentada até o próximo copo, que findado, coincidirá com a
chegada de Olívia, antes disto, os olhos abertos vasculham o passado.
Tão real como o agora vive o presente, com sorriso temeroso, mistos de sentido e
sensações, o confronto com o desconhecido, fora do costumeiro, alguém que até a pouco
tão certo de tudo estava, agora, reflete sobre a realidade do real enquanto lembra da
fantasma que a essa hora provavelmente no sofá está deitada apreciando o clima agradável
em uma dimensão paralela que com a nossa esbarra. Mão no rosto tapando a boca na
tentativa de segurar a gargalhada, que vem, toma espaço, nasce do ventre e sai pela boca,
acompanhada de sorriso com palavras entre riso e sussurro, Estou ficando louco. Tenta
rememorar a semana passada, parece tão distante, o mês passado, parece com a semana
passada, que de alguma forma se confunde com o semestre passado, não lembra o que fezno último aniversário, ou lembra, mas parece que foi o aniversário de três anos passados, e
tudo tão monótono, tão rotineiro, tão preso, tão insuportável, sentimentos cuidadosamente
guardados no baú das resignações, escondidos em algum canto do inconsciente, no mesmo
armário dos traumas ocultos apenas vez ou outra em um sintoma visto, tudo bem guardado,
selado, criptografado. Todavia, tudo tranquilo, o marasmo da certeza, vantagens da
resignação, conforto e sensação de segurança. O bálsamo da resignação, efeito do sim
passivo, vivido na idealização dos cortes, da infância, para escola, para o emprego, para a
vida adulta, para os boletos, para os ideais de aparência e consumo. Vido autômato de uma
realidade estabelecida que pela presença do sofá é quebrada.
Já não mais o mesmo se sente, essa certeza afirmativa plenamente difere do sim que
que carregou pela existência, e, pela primeira vez, sente vontade de dizer não. De deixar o
que tem, ainda que do outro lado exista o nada, onde mora a incerteza, feita de recomeço
encarado apenas depois do fim. Sacode a cabeça, procurando no movimento do crânio
derrubar pensamentos intrusivos. Pensamentos novos, de uma ordem desconhecida, vindos
de outro lugar, distante, perdido no longínquo espaço, comunicado de outra dimensão,
entretanto, são tão íntimos quanto a solidão, um sussurro que vem do inconsciente, de
caixas transbordando depois de anos empanturradas. Outra vez a mão na boca escondendo
o riso, as mesmas palavras afirmadas, Estou ficando louco. Desta vez interrompe a
sequência do pensamento, diz para si mesmo, V ocê é um cara sensato, não tem motivo para
ficar abalado, nada sobrenatural, naquele dia a chuva te deixou com febre e vulnerável, essa
história de sofá é estranha, quando foi que começou a acreditar em fantasma, alguma coisa
mexeu com a sua percepção, é só parar um pouco para pensar e vamos encontrar alguma
resposta lógica, a primeira reação da percepção é procurar um sentido, o sobrenatural é só
uma resposta preguiçosa, É isso, onde estive com a cabeça, os últimos dias estão sendo
estranhos, mas é um momento, só preciso organizar a cabeça, talvez seja o momento de
procurar outro emprego, Exato, só que com calma, sem essa loucura de ficar louco.
Dialogar com si mesmo benéfico pode ser, mas Abelardo apenas fingi concordar com a voz
interior, busca a calma mas reina a dúvida, tem a clareza que é por isso que chamou Olivia,
sabe que se ela acreditar, mesmo que seja apenas um pouco, a loucura se tornara história, o
delírio se faz realidade quando pode ser compartilhado. Abelardo acredita no que
presenciou, visão sobrenatural, real e concreta, uma paisagem, uma mulher, uma entidade,
uma certeza. A carruagem constante das horas passa despercebida ao ser na leve
embriaguez do estômago vazio. Copo vazio. Olivia acaba de chegar, está na entrada do
estabelecimento procurando o amigo.Capítulo Vinte e Cinco, Há algumas horas mais cedo
Quando um pouco antes em horas atrás no fim da manhã Olivia acorda, olhos
abertos sobre o ombro encarando a parede onde a luz diurna entra, voz da rua, barulho
constante das motos subindo e descendo, o carro do gás gritando promoção. Sonoridades
costumeiras no cotidiano da ladeira, ruas vivas na vintequatroalidade do dia. Sono pesado
que não é afetado, pela madrugada de quem não consegue cedo dormir, e com dificuldade
acorda o cedo necessário para o trabalho, vira cento e oitenta graus, sobre o ombro direito
os olhos seguem pela porta aberta passando pela sala atravessando uma segunda porta para
a cozinha onde no fim o basculhante entreaberto prisma a luz do sol no vidro esverdeado,
um pequeno prisma estampado por poucos segundos apenas, exatidão da coincidência de
um raio de sol solitário deixando um carimbo desviante no ordinário, por coincidência, por
Olivia presenciado.
Olívia não tem ideia do tamanho da cadeia de eventos e coincidências necessários
para que nesta hora da manhã em um ponto específico do espaçotempo um prisma
esverdeado na parede nasça, e por poucos segundos tenha existência antes de morrer.
Imovel mesmo piscar evita, encara o ponto na parede onde o prisma uma vez viveu,
aguarda, atenta, esperando que volte, que outra vez no mundo derrame sua beleza. Nas
ondas vindas do sono aos poucos no solo desperto aterrisa enquanto permanece imovel
neste estado contemplativo, e, assim permaneceria por tempo indeterminado, não fossem as
necessidades fisiológicas no ponto onde não mais podem ser reprimidas.
Deixando o banheiro encontra a mensagem de Abelardo, e almoço vem a soar como
uma ótima ideia. Na sala anda, anda ate a janela, é quase meiodia, sol forte e temperatura
amena, como adora essa clima, raro na metropole a beira mar onde reina o calor, hoje com
trinta e poucos graus é praticamente frio, motos sobem e descem, pelas ruas estreitas e
íngremes reinam os motoboys, apressados com escapamentos escandalosos e capacete no
cotovelo, hoje não tem escola, dias úteis a essas horas estaria a barulheira de quem vai para
o turno da tarde e de quem volta do turno da manhã, hoje é outro dia, tem movimento de
quem volta da feira, sacolas cheias de verde, cena bonita recortada pelas postes apinhados
de fio fazendo sombra na calçada sobre as mesas com litrão gelado, música vindo de mais
de um lugar, sempre tem alguém gritando, passando falando alto no rádio com uma arma na
mão, a banca do tráfico hoje fica mais embaixo, cheiro forte de churrasco, quando agordura da linguiça cai no carvão começando a virar brasa, deixa a janela, pega o celular,
coloca uma música, fecha a janela e a cortina, muda o ambiente, lembra de um livro que
está lendo, lembra com pesar que ficou na gaveta do trabalho, agora leria um capitulo que
apenas na segunda lerá, outra roupa, a música parou, a internet caiu, não é isso, quando a
intenet cai a música não para, é alguem ligando, número desconhecido, ignora e o som
retorna quando o ar virar brisa o vestido no tecido leve as bordas de um ipe em flora, casa
fechada deu a hora em direção rua a fora.
Andando para tirar a cara amassada que sobrou apesar de já não ter o sono,
chegando no metrô sem necessidade de espera, vagão vazio do fim de semana, sentada a
cabeça encostada olhos abertos, receptores endocanábicos ativados possibilitando a
sobreposição de três dimensões. Na primeira dimensão está aqui agora, no instante, do
metrô em movimento, parando na estação vazia onde poucos entram e ninguém sai,
continuando o movimento pelo subsolo urbano, indo na direção oposta as praias, dia
ensolarado, lá em cima, aqui embaixo está frio e toca de vez em quando a musiquinha antes
da voz robótica pronunciando o nome de cada estação. Na segunda dimensão está no
enredo fantástico dos últimos capítulos lidos, a trama e a complexidade dos personagens,
em particular uma, com quem se identifica. Na terceira dimensão está na casa dos avós no
interior fluminense, nas montanhas da serra, nos pastos longos cheios de picão grudando
nas roupas. Três dimensões sobrepostas no metrô contornando vacas pastando na montanha
sitiada por arqueiros e feiticeiros montados em bestas aladas, Próxima estação, Praça
Francisco Pena.
Deixando a estação ficam os devaneios, razão assumindo a realidade, está quase
chegando, daqui já consegue ver o bar.Capítulo Vinte e Seis, Molhando as palavras
Olhos encontrados, Abelardo do outro lado, mesas pelo caminho, passos, passadas,
passados, um garçom passa correndo com uma bandeja carregada de copos, pratos,
travessas, garfos, tudo empilhado, uma pirâmide de utensílios sujos sendo levados para
cozinha, no topo da pilha uma tulipa sustenta uma faca, que quase cai quando o homem
apressado perde o equilíbrio ao passar sem diminuir a velocidade pela jovem de olhos
apertados acompanhando a cena lentamente, continuando o caminho, encontrando o amigo,
Bom dia, ouvindo a resposta gaiata, Na verdade boa tarde, Bom dia serve para o dia todo, e
para quem acordou a pouco boa tarde não parece fazer muito sentido. Olivia beija a
bochecha do amigo, que, esboça um sorriso mas tem o olhar distante, percebe que ao
chegar lhe interrompe profundos pensamentos, arrasta a cadeira e senta, ainda que de frente
desviando o olhar, deixando que a mente distante aterrise. Quando recebeu a mensagem de
Abelardo convidando para almoçar, agiu dentro dos roteiros da normalidade, algo
comumente feito, agora, no entanto, o olhar do amigo é discrepante em relação aos
parâmetros comumente esperados, costumeiramente tem um olhar vago, mas vago apenas
por disfarce, detalhes da introversão que esconde a perspicácia no auge do olhar periférico,
atento e sem intromissão, agora, a única descrição precisa parece ser distante. Poucos
segundos se passaram desde que Olivia a mesa sentou, todavia a velocidade do raciocínio
imputa a sensação de tempo estendido, tornando incômodo o silêncio do amigo apenas em
corpo presente. Delicadamente vira o pescoço procurando ângulos para que os olhares se
encontrem e o pergunte, Está tudo bem.
Quando os olhares se encontram e a pergunta está prestes a ser pronunciada, do
nada surge o garçon de colete e gravata borboleta segurando uma bandeja vazia em uma
mão e uma caneta na outra. Tem escuros olhos estrábicos, biótipo magro e grosso bigode. É
educado, cortês ao ponto de fazer rir os clientes sem perder a eficiência da velocidade que o
trabalho exige. De maneira clara recita os pratos do dia e faz sugestões, particularmente
indica as lascas de bacalhau, acrescenta que, Ficam ótimas com algumas gotas de pimenta.
A sugestão é educadamente recusada enquanto outro prato é pedido. O garçom que até
então imbuído de alegria e simpatia, parece contrariado, diz, Sim, também, são boas
escolhas, todos os pratos da casa são deliciosos, digo isso, como alguém que todos os dias
os devora, pausa esperando o riso para em seguida continuar falando de maneira a manter o
entretenimento dos clientes, Particularmente, adoro as lascas de bacalhau, saborosas, com
tão saborosas quanto, batatas coradas, o que acham, peço para cozinha caprichar, não se
preocupem se sobrar coloco em uma quentinha, já fica pra janta, outra vez a pausa, desta
vez interrompida por Olivia respondendo, Obrigado, parece realmente delicioso, uma
próxima vez, mas hoje não acordei com essa vontade, pode ser o que pedimos mesmo.
A resposta, ainda que educada, deixa o garçom ainda mais contrariado, ainda assim,
sorri, deixa a mesa em direção a cozinha. Olívia diz, Tomara que seja rápido, estou cheia de
fome, quando recebi sua mensagem estava decidindo o que comer no café da manhã,
almoçar pareceu uma ideia melhor, Costuma não demorar, Na última vez em que ouvi essas
mesmas palavras acabamos esperando o que pareceu uma eternidade pra comer aipimmurcho, Isso foi diferente, de qualquer maneira, se estiver com tanta fome, servem bolinho
e pastel, já fica pronto, é só pedir, Não precisa, se tá dizendo que não demora, sinto fome
quando acordo, São duas horas da tarde, E acordei a pouco, quando acordo não quero
comer nada, depois vem uma fome avassaladora, Não entendo como consegue dormir até
tão tarde, Acho que é porque você acorda muito cedo, Acordar pela manhã não é cedo, é o
normal que se espera, Vai ver é isso, fico meio chateada de fazer o normal que se espera,
Então acordar tarde é um ato de rebeldia, Isso é você dizendo, na verdade, acho que tem
mais com dormir tarde, não consigo dormir cedo nem nos dias da semana, pra levantar é
uma luta, quando tenho oportunidade não deixo de aproveitar. O diálogo finda e no fim das
palavras os olhares se encontram, Olívia percebe que o amigo aterrissou, de onde quer que
estivesse, parece exausto. No silêncio do olhar direto Abelardo escuta a indagação, engole
uma respiração, e, sem delongas detalhadamente conta a cadeia de eventos que teve início
na última quintafeira. Fala dos personagens e a forma como se encadeiam, o sofá, o ancião,
a fantasma. Agentes que têm fundido circunstâncias deveras diferentes das habituais.
O relato é contado e escutado. Olivia sorri, presta atenção em todas as minúcias,
está dizendo, Estranho esse senhor, Ramon Ruiz, é a primeira vez que tenho notícias de
donos de antiquário que permitem teste drive de seus produtos. Ela ri, Abelardo faz o
mesmo, ela continua, Estou curiosa para ver esse sofá mal assombrado, o que mais Ramon
disse sobre a aparição, algo sobre quem foi, Nada além do que contei, apesar de que, tenho
certeza que sabe mais do que fala, está escondendo fatos e informações, talvez, até mesmo
esteja a mentir, ele tem um jeito que desperta conforto familiar, risada forte e um sotaque
que parece mineiro, fala pausado, fica difcil não acreditar no que diz, e dito com confiancia,
acho que foi isso que despertou o incomodo, sempre que penso nele falando fica essa coisa
quase teatral, parece aqueles apresentadores de programa de venda, e nessa envolve com
uma história fantasiosa que de tão confiante ele fala fica difícil não acreditar, Vai ver a
história não é fantasiosa, você mesmo disse que viu a mulher sentada no sofá, que tinha
uma neblina, como se a sala estivesse tocando uma outra dimensão, Eu sei, disse isso, só
fico pensando se não estou apenas confuso, acho que desde de lá estou com um pouco de
febre, e nem um antitérmico tomei, to me deixando levar nessa história, talvez descanso e
paracetamol resolva tudo isso, e, e, e
Abelardo pretendia continuar falando, mas o fio da meada perdeu, o encadeamento
das ideias levou para uma situação resolvida outra vez nos parâmetros do rotina, e quando
nessa conjunção esbarra uma adição não desejada, a fala falha no exato momento onde a
palavra no desejo esbarra. Respira e outra vez os pensamentos sacode, permanecendo em
silêncio, olhando para Olívia, que, também em silêncio está, ela, também encadeia
pensamentos, entretanto, sem deles procurar escapar, deixa o fluxo associativo das palavras
e do silêncio, principalmente este último, momento averbalizado, onde num fio empático o
sentido escorrega prescindindo de significante, e pela vibração se entende, encadeando
memórias de antigas vivências funcionando como figura intrafórica, Olivia está contando
uma história, Quando era pequena, costumávamos passar os feriados no sítio de meus avós
na serra, principalmente na páscoa a casa ficava cheia, meu vô contava muita história,
muita história sobre o lugar, sobre a floresta, sobre o clima, tudo tinha história, e em frente
a casa tinha uma montanha, ficava em frente de casa mas era distante, de tão grande ela
parecia perto, mas pra chegar nela mesmo eram umas duas horas andando, e nós sempre
fazíamos esse caminho, era bonito, a maior parte era pasto, cheio de vaca e bezerro, o
riacho cruzando o caminho, mas quando ia chegando perto da montanha ainda tinhafloresta, no pé da montanha tem uma pedra, linda, enorme, parece uma mulher sentada, as
pessoas chamam essa pedra de Mãe de Vento, na história do meu vô essa pedra é uma índia,
que há muito tempo se apaixonou pela montanha, e foi amor recíproco, a montanha também
se apaixonou por ela, e durante anos viveram esse amor, mas a mulher envelhecia, e para a
montanha algumas anos são um pensamento, para a mulher chega a hora do fim, a
montanha então pediu ao vento que ajudasse, e o vento esculpiu a mulher em pedra, meu vô
dizia e jurava que mais de uma vez andando por aquela parte da floresta escutou alguém
cantando uma música, e seguindo a melodia até a pedra, e no lugar da pedra, cantando ao
lado da montanha a mulher com cabelos longos e pele escura, pra continuar ouvindo ele se
escondia, mas não durava muito tempo, ninguém acreditava nele, eu acredito, algumas
outras pessoas dizem que também já viram, mas são poucos, tem quem acredita tem que
não, mas todo mundo conhece a lenda da Mãe de Vento, ela tem esse nome também porque
faz um barulho quando o vento mais forte passa entre a pedra e a montanha, é daí que
dizem que vem o canto que tem gente que escuta, e tem quem diz que esse é o barulho da
montanha cantando junto, eu sempre acreditei, não tanto pela história, mas pelo meu vô, ele
dizia com olho de quem acredita no que fala, e mesmo quando riam e zuavam ele
permanecia bem humorado, sabendo que não dependia se outros acreditam ou não, ele viu a
lenda e sabe que não é só história, eu sempre quis ver, mas nunca consegui, já até ouvi o
vento forte cantando com a montanha, e corri pra ver alguma coisa e nada encontrei, achei
também que se fosse sozinha seria mais fácil, e nada vi, mas isso não me fez deixar de
acreditar, e um tempo atrás meu vô morreu, na verdade já tem alguns anos, mas parece que
tem gente que o luto é sempre recente, e uma das coisas que me deixa triste é quando ele
era vivo eu nunca tive uma experiência dessas, sobrenaturais, sei lá outro modo de chamar,
eu queria muito chegar um dia e quando estivessem rindo dele depois de uma história eu ia
dizer, É verdade sim, eu também vi, e tenho certeza, mas isso nunca aconteceu e conforme
o tempo passa parece que isso vai desfazendo a imagem dele, como se faltasse um elo pra
segurar, ou o tempo vai deteriorar, e logo e não serei muito diferente da pessoa que sempre
desacreditará, fico pensando, tomara que essa fantasma seja verdadeira, e esse sofá bem
mal assombrado.
A última frase faz Abelardo rir, percebe se sendo percebido, a amiga entende, ainda
que por motivos diferentes, uma conexão com destinatário traçado, o ânimo de Abelardo
está renovado, fazendo troça diz, Esquece o que disse sobre a comida não demorar.
É inegável que a comida muito tempo demorou a ser servida, ainda que deliciosa e
agora satisfeitos e cheios ainda nos pratos sobras, o tempo entre o pedido e a refeição foi
longo, beneficies da espera, planos feitos e decisões tomadas, agora almoço findado
preparam a partida, rumo ao apartamento de Abelardo, onde fatos serão encarados e um
sofá mal assombrado interrogado.
Pouco mais no bar ficam, neste momento estão a caminho do apartamento de
Abelardo, estão em silêncio, imersos nos próprios pensamentos, Olivia sustenta a curiosa
imagem criada a partir dos relatos do amigo, tem de um lado o peso do ceticismo,
fantasmas e outros seres do gênero são inexistências, vivendo apenas nos mundos
imaginários, literários e fílmicos, por outro lado, e, este, é o que no momento exerce maior
peso, tem a vontade de que sejam reais. Acumula relatos sobre o sobrenatural, entretanto,
não teve a oportunidade de experienciar. Difícil acreditar em algo no qual a experiência
sensória é nula, são os sentidos que criam os parâmetros e coordenadas que edificam a
realidade, os alicerces do mundo são os órgãos que nos relacionam com aquilo que de forade nós nos forma. Matéria concreta e amorfa de sentido até o momento em que é nominada.
A perna dura cuja musculatura em vias de câimbrar estala os últimos resquícios de potássio
armazenado. De todos os filmes vistos, dos variados livros lidos, dos relatos escutados, tem
pronto o mundo onde seres e eres sobrenaturais habitam, o limítrofe entre o que crê e a
realidade. Discrepâncias mirabolantes e as tediosas expressões da realidade cotidiana. Outra
vez pensa no avô, e na certeza com que já acreditou, como parece distante essa sensação,
mesmo que ainda resista, é difícil acreditar em algo não experimentado.
Enquanto isso, a mente de Abelardo vaga por antigas memórias, buscando qualquer
imagem ou lembrança que possa tirar da consciência, ainda que momentaneamente, os
incomuns acontecimentos que tem passado. Tem lampejos vazios e cenas banais. A mente
consciente se esforça para manter distância de incômodos paramentos.
Estão atravessando a porta para o cheiro adocicado que toma conta do apartamento,
está quieto e silencioso, de tal maneira que os dois que o recinto adentram
inconscientemente evitam fazer ruídos.Capítulo Vinte e Sete, Em casa
Na atmosfera silenciosa os pés percorrem o assoalho, Olivia no primeiro momento
estranha o ambiente, o que logo percebe é a ausência, mesmo da parede os quadros foram
retirados, a mesa no centro do cômodo está nua, ainda assim, o ambiente parece cheio,
imerso em algum tipo de completude, que, acaba de entender, no momento em que a visão
escapa para o sofá. É tão charmoso quanto absurdo, parado ostentando a presença
magnética que outros corpos convoca. Se assusta ao ver ao lado Abelardo, foi de tal
maneira abduzida que por um lapso esquece onde está, é a presença do amigo que retoma a
realidade, diz, Não vejo fantasmas, mas a presença de alguma coisa é palpável, os dois
ficam em silêncio antes de Olivia continuar, Está tão quieto, talvez ela esteja dormindo.
Sem combinação prévia solene silêncio é mantido, ambos parecem o mesmo
perceber, em passos leves deixam a sala, na cozinha estão posicionados de maneira a ver o
sofá a medida que inclinam o pescoço, podendo assim, permanecer em outro cômodo sem
serem vistos, aos sussurros conversam, é Olvia quem está dizendo, Porque estamos aqui
escondidos, Não estamos escondidos, Estamos sim, e sussurrando, Talvez um pouco, Tem
alguma coisa nesse sofá, sabe quando um gato está dormindo em cima de um móvel, parece
isso, como um bicho dormindo, meio atento, sem nem perceber comecei a falar baixo, mas
ainda prefiro falar assim. Outra vez quietos observando. Pela entre luz da janela
adormecido objeto de animalesca sensação, talvez hiberne ou meramente cochile, talvez
desperte, talvez nada aconteça e tudo siga a via costumeira, entretanto, a visão do sofá
mostra que de uma coisa é caso, e os dois curiosos atrás da porta da cozinha observam,
vendo algo que não entendem, olhando bem, nada demais o sofá tem, é uma peça comum, e
meio mal conservada, mas olhando bem, tem um algo, um troço que foge as palavras, uma
coisa que ainda que contada não será entendida, mas que, Abelardo e Olivia entendem, pois
neste exato momento veem, com os olhos dos poros escutam, uma suave vibração, aos
poucos levando o medo, deixando a perplexidade, indo de maneira sutil para o estado
hipnótico vizinho da febre e do delírio, ambos percebem, deixados sintonizar, ainda sim,
nada fora do normal, tudo ao redor é o mesmo e rotineiro, o sofá é objeto comum, não fosse
a certeza que agora temos, está vivo.
Os sussurros subiram o tom tornados conversa normal, os amigos na sala estão,
acostumados a presença se aproximam, acariciando o ser que permite ser acariciado, ainda
dormindo. Olivia cautelosa, sente a anima de violência, outra vez pensa em felinos, desta
vez em jaguatirica, fingindo estar domesticada, deixando tocar a mão humana, sabendo que
refeição irá receber. Enquanto a ponta dos dedos desliza por um vinco, ao lado, Abelardo
contemplativo tira os sapatos e escorrega o corpo pelas dobras e curvas do sofá. Olivia por
um instante fica indecisa, aspecto alterado quando vê o amigo sorrindo enquanto ajeita o
corpo, vírgulas difundidas em um instante acatado, Olivia de maneira quase reverencial
senta procurando com as costas apoio. Surpresa pela ausência de conforto tanto quanto
desconforto, um suave apaziguar, algo que diz aos músculos para relaxar, permitindo a
alma liquefazer entre os tecidos orgânicos.
Tão rápido quanto as areias que nos olhos evocam o sono, estão dormindo.Ambos sonham. Embora, quando acordarem, apenas Abelardo lembrará do sonho,
Olivia, passará dois dias até que motivos exteriores evoquem a memória guardada nas
gavetas oníricas.
O primeiro a acordar é Abelardo, deixa no sofá Olivia que ainda dorme. Liga o
chuveiro, deixando a água escorrer pelos olhos fechados. A pouco sonhou, no sonho está
outra vez no sofá, ao lado a bela mulher e suas uvas, desta vez está sozinha, distraída com o
cacho e um livro, o cheiro marinho é forte, o ambiente é ricamente mobiliado, as paredes
cercadas de quadros, no chão, um largo tapete com temática berbere segue até a janela.
Agora refletindo, sem espanto chega a conclusão criada pela nítida sensação, o que tem
visto são memórias, de alguma forma presas no sofá, De alguma maneira, os resquícios
mnêmicos da fantasma estão armazenados nas entranhas do tecido, talvez, ela própria não
passe da imagem refletida do passado. O último pensamento deixa Abelardo triste, de
alguma forma que ainda não entende sente forte sintonia com a fantasma, no íntimo habita
o desejo, a irrealidade sobrenatural presentificada na densidade sem corpo.
V olta a sala, Olívia está acordada, continua deitada, apenas melhor apoiou a cabeça
para usar o celular, está dizendo, Caso decida não ficar com o sofá, por favor, avise ao
bondoso senhor Ruiz que a próxima na fila para ter essa maravilha sou eu. Abelardo ri,
pensa em contar sobre o sonho e a conclusão a que chegou, antes que o faça é interrompido,
Esse cochilo acabou complicando meus planos, está em cima da hora para ir a peça.
Abelardo havia completamente obliterado tal evento, em nenhum momento a sério
cogitando no dia de hoje ir ao teatro. Olivia percebendo os pensamentos expressos no
semblante do amigo continua, Sem desculpas, comeremos algo no caminho, deixe um
pouco os assuntos sobrenaturais, aliás, tenho uma forte teoria sobre a fantasma, certamente
ela quis descansar em morte no lugar mais confortável que conheceu em vida,
compreensível.
Quinze minutos depois estão deixando o apartamento, tão silencioso como quando
chegaram. Rumam a residência de Olivia, planejam uma rápida parada, torcendo para o
trânsito cooperar e rapidamente ao teatro chegar.Capítulo Vinte e Oito, Valar
A peça se chama Valar. Conta a história de Valar, homem interiorano que não se
acostuma com o caos urbano. Dia após dia o cheiro pesado da poluição o incomoda, noite
após noite o barulho constante dos carros o impede de dormir, até a comida, refeição após
refeição passa a incomodar, todos os gostos artificiais, distantes dos complexos sabores das
memórias infantis. Certa noite, após um dia particularmente estafante e estressante, resolve
que precisa de um bom descanso, uma boa noite realmente bem dormida, para tal
empreitada é tomado por uma brilhante ideia, decide dormir sem os sentidos. Assim, em
um recipiente com água acomoda primeiro as orelhas, depois a língua, em seguida o nariz,
por último, os olhos. Usando apenas a percepção epitelial procura a cama, tateando se
embrulha nas cobertas como em um casulo, adormece, sem qualquer estímulo para
incomodar. O que não conta, por coincidência ou do destino brincadeira, dois ladrões
invadem a casa. Sem qualquer problema os bandidos levam todos os pertences que julgam
possuir algum valor, inclusive, o recipiente onde estão depositados os órgãos dos sentidos
de Valar. A partir deste ponto, a peça se desenrola na confusa experiência da escassez
sensorial que resta ao protagonista. Durante os desdobramentos de sua busca, passa a ser
observado por um dos ladrões, que, ciente do que roubou, olha Valar com curiosa piedade e
contemplação sádica. O dilema do ladrão é a pena que sente quanto ao homem que lamenta
as misérias da nova vida de silêncio e escuridão, e o prazer que retira da experiência
voyeur, minuciosamente observando os artifícios criados por Valar para lidar com o novo
estado. Em determinado momento, a pena vence, fazendo com que se compadeça do
sofredor protagonista e devolva os órgãos furtados. No fim, extasiado, os sentidos
recuperados e o deleite das sensações costumeiras, pode enxergar, escutar, apreciar odores e
sabores, contudo, o que sente é ódio, a peça chega ao fim em uma triste e comovente cena
onde Valar espera os dois ladrões dormirem e no silêncio da madrugada os rouba a vida.Capítulo Vinte e Nove, After
A luz amarela difundida entre as nuvens moldura a lua crescente, abaixo do zênite
deslizando sobre a cidade como os olhos manchados de uma grande coruja caolha. Neste
momento duas nuvens passam pelo arco lunar, fazendo com que o único olho da grande ave
pisque, suavidade âmbar do céu noturno, cometas e viajantes percorrendo a via láctea com
destino as vias ao sul de Andrômeda. No planeta cuja gravidade segura a lua, na grande
metrópole costeira acariciada pelo trópico de capricórnio, as marés, da mesma forma que os
homens, estão encantadas com a brilhante pedra parada no céu. Neste momento, um grupo
que há pouco deixou o teatro olha para o alto. Os olhares que procuram o objeto foram
alertados por uma frase dita por Heleno, Lua tão brilhante que parece cheia. Frase esta, dita
sem pretensões, dita como um pensamento escapulido, na trivial forma que apenas os
apaixonados podem emitir. Heleno está de particular bom humor, como há tempos não
lembra ser capaz. Chegou na metrópole vindo de outro estado, de uma pequena cidade no
interior do Espírito Santo. O filho único, criado nos preceitos bíblicos, guiado pela figura
austera do pai, presbítero em uma igreja protestante da localidade. Veio para o Rio de
Janeiro cursar teologia, assim, realizar o sonho do pai, ter um filho pastor, fato que
orgulhoso conta a todos os conterrâneos, O menino vai voltar do Rio pastor. Heleno por
vezes pensa como real possibilidade voltar para casa, realizar o sonho paterno, ser motivo
de orgulho. Com carinho lembra a figura materna, na época, entre o alvoroço e pressão
puxa o filho pela mão dizendo nos olhos que não tardam em deixar os últimos resquícios de
infância, Filho, a escolha é sua, fique ou vá, ou, que escolha tomar, estou do seu lado.
Decide ir, pesados e medidos, razões, coerências e sonhos, ainda que, teologia não seja o
plano que enche os olhos, é, o carimbo, o visto, a possibilidade de saída para todos os
outros mundos que a cidade grande significa. Os primeiros meses são mistos de excitação e
arrependimento, mais dificuldade do que o esperado, o cotidiano ocupado, a solidão das
almas citadinas, até, que, algo acontece, alguém acontece. Dona Juliana. Algo na matiz
castanha que combina as pupilas e os cabelos. Algo na maturidade das rugas que pesam os
olhos. Algo no corpo esbelto. Dona Juliana é tesoureira da faculdade de teologia. Dona
Juliana é esposa do Pastor Claudio. Hoje completam três semanas que Dona Juliana e
Heleno são amantes. Acenos, olhares, meias palavras, o inacreditável da concretização do
desejo. Hoje irá encontrála, mais uma vez se perder no experiente corpo, queimar nos
fogosos olhos. Neste momento, as nuvens passam, deixando a lua quase cheia exposta, nua,
brilhante e ardente. Na lua Heleno procura os olhos que logo pretende encontrar. A grande
coruja, o olhar irresistível da amante, a lembrança de alguém perto ou distante, a lua hoje
são todos, avatarizada no grande olho de um ser que observa o mundo. Sem forma, sem
corpo, indefinida e irruptiva.
A conversa foi multiplicada em pequenos focos à medida que outros ao grupo
agregam. Impressões sobre a peça e suas reverberações, comentários sobre a lua e a noite.
Abelardo está próximo a Lola, Bê e Olivia, escutando Maltizebeque falar sobre um bar na
Lapa, Exatamente, ali mesmo, os petiscos também são gostosos, e, hoje, vai rolar samba, a
galera que tem ido disse que tem ficado cheio. Dos quatro que neste momento escutam, trêsestão animados. Alguém se aproxima do grupo, fazendo com que os corpos se recoloquem
no espaço, Abelardo, desligado do momento, não percebe o movimento, sendo colocado a
parte da roda onde a conversa continua. Olha para os lados, onde sorrisos e animação
tomam conta das vozes deleitadas pela noite que apenas começa. Não sente estar aqui. A
presença foge a si, impedindo alguma forma de concretude que alimenta a relação com os
outros. A tal investimento não pretende, aproveita a deixa. Incógnito em passos
melancólicos parte sem despedidas.Capítulo Trinta, Outra nuvem margeando a lua
Deitado encara a mancha no teto, em um impulso pareidolico, por dois segundos,
enxerga uma face, logo a imagem esvai, o formato é demasiado deformado para um rosto.
Aperta os olhos, buscando forçar a percepção e indicar à mente a forma oculta, ali, ainda
que não vista. Como um jogo de imagens sobrepostas, onde, a visão de uma forma impede
a existência de outra. Está sonolento, em pouco estará dormindo, levado pela distração da
mancha iluminada pela luz que bruxuleia vinda de fora. Chegou em casa cansado, com dor
nos ombros devido ao trajeto dormindo torto no banco desconfortável do ônibus. Ao entrar
no apartamento vem sem a lembrança do sofá, é espantado que olha para o objeto, em bloco
lembrando os últimos acontecimentos. Parado espera, olha, tem a esperança de ver
novamente a fantasma. Impaciente para esperar vai para o quarto, onde está agora, entre a
brincadeira com a mancha e outros pensamentos passageiros, prestes a adormecer vira o
corpo, ajeita o travesseiro, os olhos estão fechados.
A mesma luz que no quarto revela a mancha entra pela janela da sala. Neste
momento a luz do espaço vinda ilumina o sofá, deixando cada pequeno intervalo eriçado,
circulando ar por espaços que vagarosamente ganham dilatação. O luar anima o maciço
objeto, ainda adormecido, bebendo cada quanta que a grande pedra reflete. Séculos
adormecidos, agora, aos poucos, o sofá acorda, faminto. Ainda não tem energia suficiente
para assumir a forma que permite se alimentar plenamente, o que acontecerá na noite
depois de amanhã quando a lua estiver completamente cheia. Ainda assim, neste estado
quase suspenso, pequenos animais, em sua maior parte insetos, são atraídos, é necessário
que sejam pequenos o suficiente para passar por entre as costuras. Tal alimentação possui
limitações energéticas, passados anos, sente fome, e o humano que no quarto ao lado
pesado dorme é o almejado banquete.Capítulo Trinta e Um, Lendas e Histórias
No limiar onde a noite metamorfoseia o dia, escorre a luz indecisa prenunciando
calor quando o sol for absoluto. Depois da última chuva as nuvens decidiram não aparecer,
talvez estejam vagando foz acima enchendo o Solimões, talvez absorvam a umidade salina
que sopra o Boreas, talvez estejam próximas, do outro lado da serra, esperando para descer,
o que é certo, neste momento aqui não estão. O sol acaba de aparecer, já não são seus
reflexos aparentes na luminosidade do despertar matutino, concreto no início do horizonte
mostra a força que sobre o mundo começa a inundar. É cedo, especialmente levando em
consideração a questão dominical, a oportunidade de na cama tardear.
Abelardo está acordado, deitado, pela janela observando o nascer do dia nas paredes
do prédio a frente, como um absurdo espelho fosco refletindo a luz no mundo. Vira para o
lado esquerdo, não encontra o sono, para o lado direito, não encontra, de barriga para baixo,
para cima, elevando vinte e sete graus a flexão da perna esquerda enquanto em oito graus o
tronco desce uma oitava em relação ao pescoço, não encontra o sono. Levanta, a
verticalidade aparece como melhor opção, não há sentido em buscar o sono perdido.
No cômodo anexo, outro ser dormita. Passou a noite sorvendo o luar. Abelardo
pouco sabe sobre a natureza e a história do sofá. As palavras de Ramon Ruiz muito omitem,
inventam. Não foi por meio de pesquisa e contatos que os fatos foram revelados. O ancião
possui outros nomes que prefere não usar, estes, tratam de sua antiga e amaldiçoada
linhagem. A loja de antiguidades guarda raros e poderosos objetos, o sofá está entre estes. É
a forma prisional de Matzatea uma entidade ancestral, trancafiada graças a poderosa magia.
As lendas contam, tão antigo quanto a floresta é o significado de seu nome.
Conhecida pelo canto hipnótico, pela tentadora melodia que leva humanos a serem
voluntariamente devorados. A criatura se alimenta de qualquer ser vivo, entretanto, apenas
humanos verdadeiramente sua fome saciam, deleita apetitosos corpos e intelectos, devora
mente e alma, cada aspecto da subjetividade humana devidamente apreciados.
Foi um poderoso feiticeiro, conhecido como Tupa Yogoco, reverenciado por, entre
outros feitos, ter aprisionado três dos filhos de Ryl. Matzatea é uma destes filhos. A terceira
a ser aprisionada, como é contado, Tupa Yogoco, um dos feiticeiros primordiais, seguia o
caminho de um riacho quando encontrou um homem e duas pequenas meninas chorando.
Compadecido dos prantos que verdadeiros soam, conspicuamente se aproxima. Pergunta o
motivo do choro, é a menina menor quem responde, Nossa mãe foi devorada por Matzatea,
esta manhã partiu para pegar água próximo a nascente do rio, onde o curso de água corre
antes de encontrar as habitações, onde a água é pura e vagam puros animais, há onze dias o
vento forte sopra na direção da aldeia, todos conhecem o perigo de subir a nascente, onde o
vento traz a música de Matzatea, já sem água para beber, foi corajosa nossa mãe. Silêncio.
O feiticeiro pede as coordenadas e caminha rumo ao maligno.
Diferentes versões existem sobre a batalha e a vitória do feiticeiro sobre a poderosa
entidade. O que todas concordam. Vencida, foi aprisionada em um baú de madeira. Mantida
sob custódia de Yogoco até o fim de sua vida. Demasiado poderosa para ser morta, foi
trancafiada no relicário que mantêm o destrutivo poder sob controle, é de máxima
necessidade manter a criatura alimentada, a fome catalisa o necessário para romper aprisão, assim, pequenas fissuras na madeira permitem a entrada de pequenos insetos, o
suficiente para tal estado. Contudo. De tempos em tempos, um específico alinhamento dos
astros gera a janela cósmica que temporariamente liberta a criatura em sua terrível forma. O
alinhamento poucos minutos dura, caso neste tempo tenha acesso a comida, voltará para a
caixa depois de saciada. Caso contrário. Faminta, passado o alinhamento, fugirá sem rumo,
demônio ancestral solto no mundo contemporâneo.
O sofá tem o baú em seu centro, envolto por uma série de madeiras e tecidos
enfeitiçados para reforçar os poderes do selo, todavia e principalmente, também servindo a
outro propósito. Foi a maneira encontrada para esconder o baú em um passado recente,
quando objetos desta natureza eram caçados.
Testamentalmente passada por incontáveis gerações, nesta atual, nas mãos do
homem que atualmente se apresenta como Ramon Ruiz. Na noite da última quintafeira,
enquanto em torrentes do lado de fora a chuva cai, o ancião discute as preocupações com a
chegada do evento astrológico, quando do lado de fora um jovem humano é cooptado pela
imagem do sofá, neste instante tem certeza, A criatura aos poucos desperta, já
suficientemente forte para escolher o que quer. O humano parece febril, talvez a chuva
tenha afetado sua saúde, deixando suscetível o entendimento, concordando com aquilo que
é sugestionado. Dentro do antiquário o jovem está perdido, atordoado com tudo que o
cerca, de tal maneira que quando ao sofá é apresentado age como inebriado. Matzataea
percebe, ainda em estado de dormencia a energia emitida pelo objeto tem um pico. É
visível o quanto é afetado Abelardo cujos olhos soam destoados.
Ramon Ruiz em sua experiência sem problema na lábia leva o garoto, com uma
história, palavras cantadas sobre vantagens e camaradagem, um ancião compadecido e um
jovem predisposto, entre eles um sofá precisando de um lugar.
No dia seguinte envia o objeto para o endereço obtido, desta maneira tendo certeza
que a proximidade permitirá que Matzatea sem problemas se alimente. A forma dura
poucos minutos, animada pela lua cheia, o alinhamento de Fobos e Deimos e o movimento
retrógrado de Titã. Quando as condições são atingidas, os feitiços são abertos, desfeitos os
cadeados, o selo rompido, a entidade emerge, transmutada. Neste momento, o incubo
acordará faminto, é necessário alimento para longa digestão na forma prisional, onde irá
permanecer por longo período até que, novamente, as condições específicas para libertação
sejam alcançadas. Matzatea lentamente digere, como nos tempos antigos, quando era a
própria caverna, emitindo um som suave, uma vibração que os humanos experienciam
como um canto, ainda que seja emitida em uma frequência abaixo da faixa de som audível,
um som invisível e silencioso, ouvido pela pele, comunicando com os talos profundos do
encéfalo primitivo. Quando hipnotizado, o humano segue em direção a caverna, a medida
que se aproxima aumentando o magnetismo, aos poucos a consciência some, o eu é diluído,
e uma suave onda de prazer passa pelo corpo que se entrega, lembrando a vida toda,
rememorando a partir do agora, regressando até a última memória. Memórias são
carregadas de sentimentos, e são estes que deleitam o paladar de Matzatea. Ainda que se
alimente de outros animais, e mesmo goste de saborear um pássaro, mesmo sendo
deliciosas as memórias de um velho pássaro, estas não se comparam a complexidade da
subjetividade humana, a delícia dos sentimentos ambíguos, a suculência das incertezas, a
picância das paixões, o amargo das desilusões, cada detalhe da composição a criatura
degusta, até que no fim, o que sobra é uma casca vazia, um resto biológico ainda vivo, sem
qualquer resquício de humanidade.Estas coisas todas Abelardo desconhece. E neste momento, o desconhecimento dos
fatos que traçam a história culminarão no, que, em última instância, serão para alguns a
ruína e o fim. Como intuído, a fantasma é algo entre espectro e memória, esta intuição
acertada será usada como base para todas as especulações futuras. O que não sabe, a
fantasma foi a última vítima da fome de Matzatea, seduzida pela criatura, agora, tem a
imagem utilizada para seduzir Abelardo, que, beira a paixão pela fantasma, tanto quanto
pela lascívia que do sofá emana.Capítulo Trinta e Dois, Ainda hoje
Desligado vulto da cama levanta, trajetos entre cômodos executados em frios
passos, chão transmite temperatura baixa elevando a intenção do fora, a casa tem cheiro
marinho, odor peculiar fora do rotineiro dada a distância entre o apartamento e a praia, por
vezes o vento mais forte salgado brisa, não na intensidade atual, é o cheiro da beiramar,
uma brisa forte vinda em corredor para a terra firme. Enquanto a periferia do despertar
percorre no automatismo da fisiologia matinal, vaga em pontos tornados firmes em certeza
cristalizadas, alcançado tem uma compreensão, ainda que parcial, da criatura em sofá
aparenciada. Da mesma forma parcialmente, sustenta a teoria da febre, onde desde de
quinta está começando um estado gripal que tem se intensificado, sobre a testa a palma da
mão e confirma estar quente, pensa em um termômetro que não tem, de mercúrio ou
eletrônico, talvez nem mesmo o de mercúrio fabriquem mais, um tipo de metal que
permanece líquido em temperatura ambiente, parece vindo de outro lugar, nessa dimensão
por acaso, pesado para o orgânico, envenena o corpo, como ancestral o veio e em qual
intenção, domesticado em um termômetro, que quando quebra forma bolhas no chão, com o
toque se juntam e separam, parece até vivo quando em movimento, mas não tem
termômetro, nem o eletrônico, que provavelmente estará a venda na farmácia, outra vez a
mão na testa, está quente, e esse cheiro de maresia, vem de onde, de fora, ou, de dentro,
será mesmo algo, Precisamos de cafeína, deixa um pouco isso e pega um café.
Abelardo escuta o conselho da mente, faz café, toma café, toma café em pé, em pé
na frente do sofá, que, olhando de um ângulo certo parece mover como se estivesse
respirando, cada vez que o sofá respira, na testa abelardo põe a mão onde tem certeza da
alucinação, seja esta real ou não. Sobre a mesa deixa a xícara meio cheia, chave e cartão no
bolso, chinelo no pé, sai rumo a farmácia, onde pretende comprar termômetro e
paracetamol.
A farmácia é próxima, no mesmo quarteirão, nem mesmo rua será preciso
atravessar, e nessa hora de domingo, o estabelecimento estará vazio, e na entrada haverá
caixas de remédio para gripe em promoção, Abelardo irá ler a embalagem, refletir sobre os
cinco benefícios na caixa apresentados, decidirá levar duas caixas que levará ao caixa onde
a caixa de olhos sonolentos irá receber e colocar junto na sacola com uma pastilha para
garganta. Depois disso voltará para casa, sem o termômetro, no entanto contra sintomas de
resfriado fortemente armado. Esse trajeto completo demorará cerca de trinta minutos,
grande parte deste tempo será gasto procurando a melhor pastilha para o caso. Enquanto
isso, aqui, na sala do apartamento, Matzatea está acordando.
À medida que a hora propícia se aproxima a força flui pelo ser enjaulado à medida
que as grades da prisão perdem força. Ainda não consegue tomar a forma plena, todavia o
ambiente vê, e começa a ter consciência, os selos a deixam em um estado de torpor, neste
momento tem o entendimento claro, percebe o lugar, tem dificuldade para entender o
tempo, a passagem e a manifestação do presente, retorna a memória primordial, da caverna
que foi e nasceu, busca energia para esta dimensão evocar, ainda pouco consegue, opta pela
força de acontecimentos recentes, o lar do humano, fosse em outro momento já o teria
devorado, mas ainda não é capaz, todavia sabe como seduzilo, para em breve, o
pensamento a faz salivar, liberando o cheiro salgado dos miasmas que aos pouco da
dimensão prisional se libertam. Matzatea com a força que tem cria a armadilha, feromônios
no ambiente, aos poucos a cavernosa forma, a constituição geográfica da essência,expandindo, metamorfoseando a realidade, reconstruindo uma arapuca primitiva, o
longínquo, o recente, a bela memória de olhos melancólicos no sofá estendida, rindo
enquanto come uvas, Matzatea lembra da mulher que sua ultima real refeição foi, com
apetite e ainda sem energia antecipa com excitação a futura refeição, tudo pronto, aguarda,
não precisa mais aguardar, a porta está sendo aberta Abelardo voltou.
Capítulo Trinta e Três, Entre sintomas e dimensões
Distraido, pelo corredor andando, olhos vagos em pensamentos variantes do exterior
desconectado, porta, que em breve será aberta, porta, em portal transmutada quando a sala
na caverna primordial transformada, chave na fechadura da, porta, sendo aberta, cheiro
salgado e pequeno limbrero correndo assustado, correndo em direção algo que, no lugar,
onde, o sofá, estava, agora pulsa, soltando fumaça como pus excretado em ventosas do que
parecem ser algo com a quasidade de tentaculos, que percorcorrem o ambiente, ora
tentáculos sendo, hora juntos de maneira ao ambiente ser, como carregados de propriedade
holografica, fazendo com que este ambiente que agora vemos em nada tenha de semelhante
com o passado experienciado, Abelardo, está parado, com um dos pés dentro do que
apartamento sido agora uma gruta é, olha, reconhece aquilo que desconhece, atinge
compreensão precisa do que acontece, medo sente, mais ainda, curiosidade, ultrapassada
apenas pelo desejo, emanando, das purulentas ventosas holográficas costurando o tecido da
realidade de uma caverna projetada, do cheiro salgado e carregado, da mulher memoria que
neste momento está sentada em um pedra lendo um livro, o que acontece, profusão emotivacom uma certeza, um dos pés tendo a porta portal atravessado enquanto outra sola obstante
ficando no corredor conhecido, angulos observados, cabeça virada, portas fechadas,
elevador, paredes desgastadas, extintor de incendio, um caminho conhecido, monotono e
previsivel, ali fica o botão do elevador, que leva, para outro lugar que é sempre o mesmo, e
continuará, absrorvendo o desgaste, esperando o próximo boleto enquanto as frutas
murcham na geladeira, entretanto, a pouco, enquanto caminhava de volta para casa, após
tomar dois comprimidos, com uma pastilha na boca, a pastilha deixa lingua e garganta
dormentes, febre não sente, a testa não parece quente, precurta algum sintoma, todos
ausentes, volta a refletir se esta sonhando, entende como essa questão foi superada, está
acordado, o que coloca apenas duas alternativas, uma, o que vê é a manifestação
sobrenatural de alguma entidade mística mágica o que seja sendo ela boa ou má o certo não
se sabe mas o incerto agora é conhecido, outra opção, loucura, delírio, a sanidade perdida e
presentemente uma outra realidade sendo experienciada.
Por alguns momentos nesta posição sustenta, permanece no entre, segurando
pensamentos, buscando uma decisão, que não tarda, é engolida com a respiração. Gostaria
de estar louco, ponderando prefere o atestado médico da convalescença, todavia, os
sentidos suspiram a realidade, sã, frente ao desconhecido, enigma cuja a força gravitacional
em sua órbita mantém Abelardo, atônito, sentindo os dedos fustigar e a coerência escapar.
Entra no apartamento, fecha a porta, agora dentro da gruta completamente está.
Os pés estão cobertos por uma neblina baixa, um tapete uniforme, cinzento e
espesso, escuridão quebrada apenas pela luz fraca que emana do exterior, vindo da entrada
da caverna, onde antes estava a janela. Abelardo pondera o que estarão vendo as pessoas no
prédio da frente, será que veem este ambiente antigo e putrefato, será que sentem o cheiro
doce e salgado, mistura de decomposição e odores selvagens, uma fresta de vento
percorrendo a floresta, tocando as pedras, umidade mineral, andar causa estranheza, o chão
tem consistência irregular, movediço e pedregoso, vez ou outra barulho de algo quebrando,
madeira ou osso. Olhos acostumados, pupilas com a dilatação precisa que permite a visão,
pessoas circulam, aspectos cadavéricos, andando a esmo, parecem não saber onde estão,
circulando o mesmo trajeto sem alterar expressão. Uma pedra emerge na neblina, e sobre
ela alguém lê, é uma mulher, Abelardo a reconhece, com passos cuidadosos se aproxima,
inconspícuo não é visto, agora próximo o suficiente para contemplar detalhes. Sem dúvida
é ela, entretanto parece mais velha e pálida, a pele fina cobre o rosto como uma fina seda
sobre o osso, o vestido longo parece novo, é difícil saber sua cor nesta iluminação, tem
rendas marcando o busto, outra vez Abelardo se espanta com o quanto parece novo, como
recém costurado e passado, ainda que pareça um pouco largo, as mangas param antes do
cotovelo revelando os braços finos causando espanto pela aparente fragilidade enquanto
sem esforço seguram um pesado livro.
Abelardo está no ponto exato onde antes o centro da sala, um ambiente comum,
como a maioria dos ambientes nos apartamentos modernos, utilitário e frio, agora, de onde
está olha ao redor sem acreditar, ao mesmo tempo, tendo plena convicção do que vê. O
lugar é enorme, uma câmara subterrânea, do teto alto estalactites lentamente escorrem gotas
mergulhando na neblina que parece um lago, sombras passam voando ligeiras, morcegos e
outros animais que na escuridão não reconhece, e, até onde consegue ver os mesmo seres
cadavéricos caminham, e tudo embalado por um silêncio suave acompanhado de uma
vibração melódica emanando de uma direção específica onde uma fumaça espessa emana,
mesmo com os olhos apertados é impossível ver além do pulsar opaco do outro lado daespessa cortina da neblina suavizando a medida que se espalha em casacata fazendo a visão
chegar a pedra, vazia, é quando Abelardo percebe ao lado a presença silenciosa que lhe
encara a alma.
Através do olhar tocando a profundeza do ser, ela nada diz, parece incapaz de dizer,
seus olhos são vazios, sem qualquer palavra, dedos finos e unhas quebradas. Abelardo
reposiciona o corpo, fazendo que fiquem de frente. Ela eleva o queixo, estão a poucos
centímetros do rosto um do outro. Ela respira lentamente, segura a mão de Abelardo e leva
até o próprio rosto, frio, levemente ruborizado ao toque da ponta dos dedos suados. Ela
aperta a mão de Abelardo, com força, mais força do que aparenta sua frágil constituição.
Abelardo procura algo para dizer, nada encontra, deixa de procurar, entende que nada
haverá que possa ser dito, os olhos dela comunicam tudo, eco de onde haveriam memórias
e agora vaga um último resquício de vida.
Mas ela ainda está aqui, Maria Teresa Fernanda solta a mão do recém chegado e,
com um gesto, indica o braço, para de braços dados caminharem. A proximidade dos
corpos, passos etéreos pela neblina flutuam, deslizando pela penumbra cavernosa aos
poucos diminuindo, os passos atravessam o espaço no tempo suspenso, deixam a caverna,
estão em uma sala, ampla e bem iluminada, andam até a janela, do outro lado canais
seguem em direção ao mar, estão em Veneza, andando pelo piso de madeira, polido como
um espelho ampliando as dimensões, no chão a figura de uma mulher refletida, reflexo de
uma pintura na parede. Abelardo está olhando a pintura, reconhece a mulher, no intuito de
uma pergunta fazer olha para o lado, quando se assusta, o olhar que recebe é vazio,
entretanto corado, lábios vivos, maçãs do rosto proeminentes.
Durante muito tempo, ou pelo menos o que para Abelardo parece muito tempo,
andando em círculos pelo cômodo, nos primeiros instantes tentando conversar, logo
percebendo ser vã qualquer tentativa, Maria Teresa Fernanda nada diz, e nem irá dizer,
ainda assim, ainda que mesmo no olhar lhe faltem significantes, nela persiste um certo tipo
de charme, um charme que pertence às criaturas melancólicas que flertam com o fim, que
com a finitude e o silêncio ficam a vontade, um tipo de charme que é também um traço de
caráter, nestes detalhes Abelardo encontra contemplação nos olhos tão profundos quanto
tudo o que na vida já viveu.
A materialidade da cena começa a se perder à medida que a solidez escorre como
tinta, outra vez estão no interior da caverna. O doce zumbido agora é audível como um
chamado. A neblina está sendo sugada, é possível sentir a corrente de vento que a carrega,
as figuras cadavéricas sincronizam seus passos, caminhando na mesma direção, morcegos e
criaturas voadoras em uníssono formam fila, tudo no ambiente está sendo puxado para a
espessa fumaça de onde a vibração emana. Paralisados o casal de braços dados no centro
observa, as criaturas voadoras mergulham em direção a fumaça onde desaparecem, a
neblina está sendo puxada como a correnteza de um rio fluindo em direção contrária,
sombras animalescas de diferente tamanho se agitam, a solidez da caverna revela as paredes
constituídas por tentáculos, agora sendo puxados desvelam o apartamento, as ventosas
chupam a neblina, já é possível ver o chão onde vermes e insetos são arrastados como
sujeira sendo puxada pelo aspirador de pó, só que, não há um eletrodoméstico, há alguma
coisa que se revela na fumaça dissipada.
É o sofá, indubitavelmente, é o mesmo sofá de a poucos dias na vitrine visto, para
entender o que neste momento Abelardo enxerga, basta evocar a memória deste sofá e,
acrescentar uma grande ventosa purulenta emergindo entre as almofadas sujas pela gosmaescorrendo de dezenas de tentáculos sendo tragados para o interior onde mergulha toda a
dimensão da caverna. Parecem lábios, lábios gigantescos purulentos e sensuais, sugando os
tentáculos da mesma forma que se come espaguete.
O real tende a realidade ordinária, o apartamento retorna, o ar carregado some
dando lugar ao ar pesado de poluição. O sofá aparenta um sofá ser, tudo para ele foi
sugado, exceto ela, está ao lado de Abelardo, um quase sorriso fino, com face serena. Os
braços dados voltam a revelar a frieza do corpo que começa a andar, Abelardo a
acompanha, temendo o que ela fará, imagina que a ventosa irá abrir, irá sugar, ambos.
Todavia isto não acontece. Matzatea está sem força. A cena há pouco findada é
apenas o prenúncio de sua liberdade, por alguns momentos conseguiu conectar as
dimensões de outrora com o agora, entrementes a força dos selos, para a forma prisional
retorna. A partir deste momento, nesta forma irá ficar até a hora exata, na noite de amanhã,
quando finalmente plena de seus poderes estará. Enquanto isso Maria Teresa Fernanda
retorna ao interior da besta, entretanto, pouca noção disso tem, pois pouco do que já foi lhe
resta. Todas suas memórias, todo seu desejo, todas as suas palavras, por Matzatea
devorados. O que lhe resta é uma centelha de vida sustentada pela dimensão onde o tempo
se divide em paradoxos, sustentando a longeva penitência.
Estes detalhes Abelardo desconhece, assim como o nome e a história desta mulher
que como fantasma categoriza. De alguma forma entende seu fortunio, imagina que ela pela
criatura sofá foi devorada, mas de alguma maneira não morreu, deixando de ser alguém,
sobrando apenas algo. Observando este algo, Abelardo reflete que deveria sentir medo e
agonia, entretanto, sente prazer, agora pensando nisso sente um tipo de vergonha. Perdido
em conjecturas, a visão da realidade familiar, repele a reflexão, passos em direção ao sofá,
onde aterrissa o corpo.
Sirene aguda e estridente, seguida por outra sob um coro de buzinas, sons do caos
costumeiro trazendo a mente a lente do ordinário. Fecha os olhos, com força, aperta as
pálpebras e com a palma das mãos exerce pressão nos globos oculares, assim por alguns
segundos. Sons do exterior, cachorros latindo, a promoção do caminhão do gás, buzinas,
um grito distante, palavrões em resposta, como é inflamável o ar da dúvida, começa como
uma sensação costumeira, como um som costumeiro chamando atenção, a cadeia do
pensamento deslizando para um ponto entrevisto, agora perseguido, encontrando uma
concatenação específica fazendo nascer uma fagulha, suficiente para iniciar uma reação em
cadeia, explosiva e decisiva. Está deitado, no sofá, sozinho, de olhos abertos, refletindo
sobre o cenário há pouco vivido, colocando em cheque a sanidade.
Quer levantar, sair dali, não tenta ou não consegue, o fato, neste momento ficar
deitado prefere, e que seja realidade ou sonho, razão ou loucura, cospe as indagações e
deixa a certeza que pronuncia sem nada dizer, permanecendo deitado, por um tempo de
olhos abertos, agora de olhos fechados, mergulhando em imagens antigas e aspirações não
concretizadas, e de tudo o que brota como certeza é a afirmação do acontecimento. Neste
momento pleno se sente, como nunca antes havia experienciado, flexiona a verbalização
passada, premiada pela falta de sentido, impotência perante ao mundo correndo à sua
revelia, ainda que tente, e, mais do que tudo, aguente, nada muda o que sente, até agora.
Olhando bem é possível ver como está confortável, satisfatoriamente deitado, ostentando o
sorriso pleno de quem com a paz está encontrado.Capítulo Trinta e Quatro, Outrora o presente
Ramon Ruiz com cuidado derrama a água quente no coador, em movimentos
circulares derramando lentamente o líquido quente sobre o café recém moído, quantidade
exata para uma xícara grande. Apreciador de um bom café cuida de cada detalhe, os grãos
vêm de Mogiana, pouco torrados, conservados em potes de vidro escuro escondidos da luz
e da umidade. Um dos aspectos fundamentais para um bom café é moer os grãos na hora, o
fino pó depositado no filtro de pano, o aroma sobe, o café cai na xícara, Ramon Ruiz segura
a xícara, invariavelmente lembra da avó dizendo, Forte e sem açúcar, assim pra acordar é o
que de melhor há. Nos domingos não trabalha, no andar de baixo o antiquário está fechado,
no andar de cima o café sendo apreciado enquanto a televisão ligada sozinha fala. Ramon
está triste, o que toma por coisa de velho que agora se comove com coisas do trabalho,
como não costumava. Anda até a mesa onde alguns papeis estão dispostos, olha a hora,
confere uma tabela, e pondera, Agora Matzatea deve estar consciente, ainda sem força para
se alimentar, mas deve conseguir alterar o ambiente, se alguém estiver suficientemente
próximo, pode ser cooptado pelo seu magnetismo. Continua a cadeia de pensamentos,
lembra de Abelardo, a impressão do garoto foi forte, completamente molhado, com olhos
carregados, dotado de estática .
Um gole de café saboroso e terroso, começando pelos lábios, quentura que num
primeiro momento é tudo, até o momento que cede espaço para o sabor descendo por baixo
da língua até alcançar com notas frutadas de amargor suavizado pelo adocicado mineral
subindo pelo céu da boca a descer quente pela garganta deixando nas papilas a acidez entre
os lábios em frutas partidas na terra. E a doçura saudosista do momento traz a imagem do
garoto molhado, para o velho ele parece tão novo, talvez seja essa sensação infantil
acentuando na consciência o peso antes inexistente.
Todavia precisa ser feito, e fica feliz por situações como esta não serem comuns,
ainda que o legado familiar seja árduo e algumas peças no antiquário tenham grande poder,
poucas são como Matzatea, um ser antigo e imortal, em um baú aprisionado. Neste
momento o velho Ramon Ruiz está rindo, quase entorna um pouco de café, controla o riso,
acha cômica a situação, um ser tão poderoso aprisionado dentro de um sofá, é uma longa
história, relembrando dos detalhes entende, ainda assim acha cômico, e fica pensando o que
estará acontecendo neste momento, volta a olhar para as tabelas, anota números no canto deuma folha usada para rascunho, algumas contas e com o resultado procura a página de um
antigo livro, tomando cuidado para passar a folhas, encontra o resultado, não lê, fecha o
livro, junta os papeis, coloca tudo em uma caixa de papelão, fecha a caixa, mas não
consegue guardar a imagem de Abelardo, precisa do sacrifício que há gerações mantém as
trancas, desta vez, calhou ao mortal Abelardo o destino de ser o cordeiro imolado. Suspira,
o café já esfriou, pensa em fazer outro, suspira, lembra do irmão dizendo, É o trabalho da
família.
Capítulo Trinta e Cinco, Cada um e cada café
Tosse de um cano derramando as últimas gotas de água sobre o pó de café, a antiga
cafeteira elétrica faz muito barulho mas funciona bem. Martinha Queluz gosta do barulho
da cafeteira, é como alguém dizendo, O café tá pronto. E nessas horas, por alguns instantes
não se sente sozinha, e quando enche a xícara e coloca três colheres de açúcar faz para a
cafeteira um gracejo, Uma delícia esse café, que cheirinho bom. A cafeteira responde com
o chiado de uma gota de água encostando na superfície quente do bule de vidro, Martinha
continua o diálogo, Daqui a pouco pego mais um pouco, diz enquanto deixa a cozinha,
deixando a luz acesa, e uma música no quarto, e um incenso na área de serviço, e as janelas
abertas, um livro na mão, não quer ler, uma revista, não quer ler, o celular uns cliques uns
deslizes, perde o interesse, e vaga, pela casa, entrando pelos cômodos a procurar alguém
que sabe não irá encontrar, volta para cozinha, pega mais café, dessa vez não conversa com
a cafeteira, nem mesmo responde quando ela entre ebulições e vapor pergunta se está tudo
bem.
Ainda que a intenção da cafeteira seja boa em perguntar a Martinha se tudo bem
está, sendo um eletrodoméstico antigo, sabe bem que a pergunta é meramente retórica, sabe
também que domingos são os dias mais difíceis, principalmente as manhãs, alguns anos
atrás em uma manhã de domingo comum chegava a fazer cinco bules de café, consegue
lembrar bem a época que chegou nova e reluzente, a novidade da cozinha, Aline e Cláudia
eram adolescentes, as duas adoravam café, na verdade, passaram a adorar café depois que a
cafeteira chegou, Aline sempre dizendo que, O café de vocês nem se compara com o dela.Como fica orgulhosa com esses elogios, fazendo questão de sempre cuidar muito bem do
tempo e da temperatura da água, cuidado para manter o bule aquecido, de jeito que mesmo
que demorem a beber o cafezinho tá sempre quente. Só que hoje em dia um bule dá e sobra,
sabe que o restante ficará até a tarde, normalmente ligada por horas, assim por mais que
consiga manter aquecido, o líquido fica com gosto requentado.
Na sala, Martinha está sentada tomando café, não é coincidência que seus
pensamentos sejam bem parecidos com os da cafeteira. Lembra de outro tempo que tem
saudade, e tais lembranças sempre levam pelo mesmo caminho de martírio e
arrependimento, a solidão de agora é consequência de seus próprios atos. Como de costume
o estado tenso de temor tingido, teme o que sente e o que queria sentir. Quando pensa no
passado, o que sempre aos domingos ocorre, volta para aquele que considera os capítulos
felizes da vida, volta para o casamento feliz, o marido atencioso, as duas filhas, agitadas e
inteligentes, sempre dando trabalho mas também muita alegria, essas memórias tem cheiro
de café, e da mesma forma que o amargor da bebida aumenta à medida que esfria, as
memórias se tornam amargas a medida que o tempo passa. Revolve as mesmas cenas do
começo ao fim conhecidas, sente a tristeza da saudade e neste ponto chega ao ponto
específico onde no pensamento precisa colocar um ponto. Quando começa a pensar que,
naquele momento, não era verdadeiramente feliz, ou, era e não sabia, e, agora, anos depois,
parece apenas uma sutil diferença, tão sutil sendo o detalhe que coloca a dúvida do
arrependimento. Lembra da vida e do vivido, as atitudes que tomou, como por um tempo
viveu uma vida secreta supondo que não seria entendida, talvez, pudesse ter evitado tudo se
com a família tivesse aberto tudo, mas sabe que não seria compreendida, nem mesmo se
compreende. O desfecho feito em uma série de infelicidades, claro, se soubesse tudo o que
aconteceria, neste ponto volta a impotência e tristeza, mais do que tudo, pela solidão atual.
Pega o telefone, procurando uma notificação, esperando uma mensagem de Claudia
dizendo, Oi mãe, estou com saudade, mande notícias. E mandaria notícias, não falaria de
tristeza mas contaria alguma felicidade trivial e convidaria para jantar, ou um passeio pela
praia, no fim de tarde, não gostam de entrar na água, mas apreciam o pôr do sol com os pés
na areia. Sem notificações, um apartamento vazio, clássicos da mpb tocando no quarto
vazio, na área de serviço o incenso chegou ao fim, na cabeça de Martinha Queluz
pensamentos conhecidos são repetidos em um cômodo vazio sem espectador.
Anda até a janela onde o dia segue com cara de domingo, o segundo andar é
próximo da rua, apoiada na esquadria observa o movimento da portaria pouco
movimentada. Um calafrio percorre a espinha, começando na base do crânio findando no
cóccix, por um segundo o corpo tem a sensação de verdadeiro perigo, a mesma sensação
que faz os elefantes correrem para as montanhas sentindo a aproximação de um tsunami.
Enquanto ainda a sensação persiste, Martinha vê na rua chegando o vizinho Abelardo, os
olhos se encontram, os olhares não. Talvez ele não tenha visto ou disfarce o contato, duvida
tirada quando outra vez os olhos se encontram, por uma fração de segundo, o suficiente
para Martinha ter certeza que não há um olhar. Abelardo com uma sacola na mão passa pela
portaria saindo da visão.
Um pensamento intrusivo, seguido de outros, acompanhado de ideias e
elucubrações. Martinha procura entender o que viu e o que sentiu, e, neste momento, uma
cadeia cognitiva à muito parada volta a entrar em atividade. Corre para o quarto, na frente
do guardaroupa coloca uma cadeira servindo como escada para alcançar as portas de cimaonde guarda as roupasdecama e por traz dos lençois uma caixa de madeira, do tamanho de
uma caixa de sapatos.
Dentro dessa caixa estão resquícios de uma vida que deseja esconder, uma vida
anterior, vida esta que também foi um dos motivos do fim do casamento, e, acima de tudo,
vida responsável pela tragédia de Aline.
Com força fecha a caixa, pula tentando na descarga muscular abafar a dor da mente,
sentimentos deveras fortes para serem encarados, e por isso mesmo no fundo do armário
guardados, e mesmo que os domingos estejam reservados para remoer o passado, existem
detalhes que não tem coragem para encarar. Deixa o quarto chorando, arrependida por ter
tirado a caixa do armário. Então. Outra vez sente o calafrio, tão forte que é impossível
ignorar. Engole o choro, volta para o quarto. Rapidamente revira a caixa sem olhar o
conteúdo, procurando algo específico que logo encontrará, assim que encontrado, fecha
caixa e outra vez a coloca no armário. Fica aliviada em ter outra vez guardado, mesmo que
agora tenha em mãos um saco de cetim azul, escuro como a noite.
Na sala há uma mesa pouco utilizada, no fim das contas funciona como uma estante
para tralhas diversas. Boletos abertos e notas fiscais de supermercado, sacolas plásticas
vazias, balinhas recebidas de troco, o jornalzinho distribuído pela igreja no fim da rua,
tampa de caneta, e outras coisas que não tem paciência para descobrir o que são enquanto
junta tudo dentro de uma das sacolas vazia. Sacola no lixo. Álcool e papel toalha, mesa
limpa.
Martinha Queluz está sentada de frente para o poente, no centro da mesa o saco de
cetim, por fora azul como o céu noturno, por dentro vermelho como sangue. O primeiro
objeto a ser retirado é um tecido, devidamente dobrado para caber no recipiente pequeno,
agora aberto sua forma circular ocupa o centro da mesa, sobre o tecido símbolos e formas
geométricas formam um intrincado labirinto com palavras em latim. Sobre o pano o
restante do conteúdo é delicadamente derramado, são sete pedras e quatro cristais. As
pedras são devolvidas para a bolsa de cetim, no momento não serão necessárias. Os cristais
são posicionados, o maior no centro, os outros três posicionados sobre os pontos que
formam o triângulo ao redor do círculo central. Os cristais posicionados, Martinha Queluz
sopra algumas palavras fazendo o cristal no centro emitir uma vibração suave acompanhada
de um brilho rosado.
Sem acreditar na força da vibração do cristal emanando Martinha levanta com um
salto quase tropeçando em pensamentos escorregadios. Atônita pela descarga de adrenalina
de um lado para o outro vaga medindo os próximos passos. Tomada pelo inesperado, quase
volta à caixa no armário mas decide outra abordagem.
Primeiro precisa verificar o que está acontecendo, está tão eufórica que ainda não
sabe do que se trata. Troca a roupa e prende o cabelo, deixa o apartamento, entra no
elevador, está na dúvida sobre qual o andar certo, também está na dúvida do que está
fazendo enquanto é movida por um impulso que prescinde de pensamento racional, lembra
de uma conversa a poucos dias com um vizinho, aperta o botão, a porta de metal fecha, o
elevador sobe, a porta de metal abre. No corredor, de um andar exatamente como o seu,
está quieto, nem um barulho, nenhum movimento. Cada andar tem seis apartamentos, dois
de frente para a rua, como o de Martinha, dois no meio, com visão da área externa do
edifício, dois nos fundos com visão do estacionamento e dos edifícios ao redor, o
apartamento onde Abelardo reside é um destes. Com passo atento em direção ao objetivado
apartamento, de algum lugar sons de explosões e tiros, alguém está assistindo um filme deação, o barulho ecoa pelo corredor, quebrando o silêncio, entretanto, à medida que da porta
de Abelardo se aproxima, o som some, de alguma forma estranha o ar parece rarefeito, e,
prestando atenção, uma fina corrente de ar escorre pelo chão até passar por debaixo da
porta. Alguma coisa está acontecendo, Martinha não sabe o que é, mesmo que tenha
algumas hipóteses. Anos de experiência guardados, uma antiga máquina escondida no
sótão, acumulando poeira, outra vez ligada, as engrenagens meio emperradas, descompasso
desafinado dos objetos parados que outra vez não deveriam ser ligados. Outra vez ligar esta
máquina é descumprir uma promessa que a si mesmo fez, quando decidiu esconder isto que
apenas consegue se referir como uma vida passada. Sobre este assunto com ninguém fala,
das pessoas com quem poderia conversar se afastou, com a família este assunto é tabu, de
tal maneira que agora em volta de pensamentos e atitudes impensadas na frente de uma
porta fechada está parada, sem saber o que fazer, por impulso agindo sem saber o que está
fazendo. Decide voltar para casa, provavelmente a melhor atitude, E também, o que fazer
agora, indaga a si mesma, Tocar a campainha e pedir informação, rindo em um sussurro
baixo diz imaginando o rapaz abrindo a porta, Olá, então, eu tive uma sensação estranha,
uma dessas coisas que não tem muita explicação, mas tenho praticamente certeza que
alguma coisa poderosa e antiga está se manifestando por aqui. Começa a rir, sem conseguir
segurar o riso solta uma alta gargalhada, e acrescenta, desta vez dizendo algo sem se
preocupar em diminuir o tom de voz, Minhas desculpas pela inconveniência, é que em
outra vida fui bruxa e essas coisas entendo. A risada morre, um pesado sentimento toma
conta do peito, apertando a boca do estômago. Respira fundo, decide ir embora quando em
um gesto impensado aperta a campainha.
A campainha não faz barulho, outra vez aperta, desta vez segurando por um longo
tempo sem soltar, nenhum som, deve estar quebrada, bate na porta, primeiro dois toques
suaves, espera, não é atendida, bate outra vez, agora três batidas mais fortes, nada acontece,
bate outra vez, agora com mais força, de tal maneira que a porta ao lado abre, é Simone
quem aparece, com cara amassada e cabelos desgrenhados na pequena fresta feita pela
corrente do trinco de segurança, está dizendo, Bom dia dona Martinha.
As fortes batidas deram a entender que no outro apartamento tocava, rindo diz, Oi
minha querida, desculpe o incomodo, estou chamando seu vizinho, não quis incomodar.
Simone sorri enquanto responde, Incomodo nenhum, achei que fosse aqui, está tudo bem,
pergunta enquanto faz menção de abrir o trinco. Martinha prontamente responde, Está sim,
não se preocupe, provavelmente ele não está aqui, depois eu volto, um bom domingo para
vocês. Simone, responde, Obrigado, enquanto com as mãos faz sinal de despedida e fecha a
porta.
Outra vez no corredor sozinha encosta a orelha na madeira, nada escuta. Olha para
os lados, com receio de começar a chamar atenção indevida, sendo colocada a responder
perguntas que provavelmente a resposta irá lhe enrolar. V olta para o elevador, em direção a
garagem.
No térreo da garagem, de onde está tem a visão das janelas do edifício Ardósias aos
Pés da Torre, com o dedo indicador conta as janelas e andares procurando uma específica,
que, logo tem certeza, acaba de encontrar.
No cenário ordinário de um edifício comum algo chama atenção. Olhando para o
alto é impossível ver dentro dos apartamentos, mas é justamente o que do lado de fora
observa que chama atenção. Com olhar passageiro tudo está como o que se espera
encontrar, todavia, quando com o canto do olho observa, uma nova visão surge. Logopercebe que o que vê não pode ser diretamente encarado, caso olhe para a janela de forma
direta vê apenas a construção civil comum, quando olha de relance o inesperado surge.
Espreme a visão em um olhar distraído, olhando quase por acaso encara uma floresta
suspensa, não exatamente uma floresta, algo como uma imagem projetada em parede
iluminada. Prestando atenção consegue mapear a paisagem, onde deveria estar à janela há a
entrada de uma caverna. Rocha sólida coberta de musgos na sombra de árvores baixas, a
paisagem sustentada em sobreposição de imagens, folhas de papel translúcido empilhadas,
deixando em dúvida em qual folha cada imagem está, ao mesmo tempo formando o todo
coeso. A visão ganha densidade e por alguns segundos mesmo de olhos abertos a entrada da
caverna está ali, indubitavelmente em um lugar onde não deveria estar, tremulando sem
física, alojada em um lugar impossível. A visão não dura muito tempo, em um segundo
desaparece, em velocidade sendo sugada para dentro da caverna outra vez em janela
transformada. Martinha mais uma vez tenta enxergar com a visão espremida, nada
consegue ver. Anda de um lado para o outro, propositalmente procurando algum ângulo
para sem querer observar. Nada. Decide voltar para casa. No curto caminho de retorno
pondera o visto, o sentido, e a luz do cristal, ainda está longe de uma certeza, entretanto,
começa a crescer dentro de si uma ideia.
Capítulo Trinta e Seis, Não plenamente pleno cotidiano
Acaba de abrir os olhos, semi dormindo, acordado pela luz do dia entrando pela
janela. Sistema mentais sendo iniciados, na mesma rotação de quando atualizado sem que
lhe altere o layout. Olhos abertos perto do pico, limite onde a realidade toca as franjas do
nagual. Posicionado em um ponto de entendimento pleno, no entre a lembrança dos dias
anteriores e a virtualidade dos dias vindouros. Talvez seja o momento logo após o despertar,
certamente também há influência da segundafeira, mais inclinado está para os dias
vindouros, de tal maneira que o peso do passado recente pouco influencia na solidezedipiana, olhando para frente, para o labor e o destino, com sentimentos disfarçados
buscando um tom de desdém para olhar o sofá, onde neste momento se percebe acordando,
narrativas mentais, da rotina atividades, iofrencia corpórea direcionada. Está levantando,
caminhando passos suficientes para virar o corpo em cento e sessenta e sete graus, ficando
de frente para o sofá, que, agora, parece tão normal. Então toda a lembrança volta e a
sensação rememora o corpo, como esta sala ontem uma antiga caverna era, uma caminho
mineral em direção ao centro da terra, como aquela mulher foi aliciada, aprisionada pela
entidade maligna dentro do sofá, como agora nada disso parece fazer sentido frente a velha
peça de mobília. Uma memória salta tomando os olhos, noite fria, campo aberto das
paisagens retas interioranas, fim de tarde, sol tombando a pele apenas indiretamente
tocando a medida que no céu duas linhas surgem, o céu escurecendo, se dilatando em
pontos esparsos sem o quando perceber transformando o teto do mundo em uma grande
concha feita de nácar, recheando a visão como se desde sempre estivessem ali, apenas não
sendo vistos pois ofuscados, e no momento em que a visão encontra a frequência luminosa
precisa, o antes invisível surge, como a concha salpicada de uma distância mineral, tão
mineral como um gruta estendia intra crosta terrestre até o centro da terra, onde mora uma
antiga besta, tão antiga que é a própria caverna, algo que não é visto, embora sempre aqui
esteja. Chega um momento que outra vez o sol nasce, a terra completa seu ciclo e a concha
some deixando a visão do céu diurno, chega a segundafeira quando a rotina seleciona os
detalhes ao invisível retornados.
Modo automático cotidiano iniciado, passos da rotinas, cronometração em precisão
algorítmica. Depois das sensações lisérgicas dos últimos dias, volta a experimentar o
mundo de causalidades em blocos encadeados e velocidades da imposta realidade. O
sistema operacional rodando liso, acordar na segundafeira fechou janelas impertinentes,
Abelardo segue a vida nos parâmetros da dúvida ausente.
O quartzo estala, está longe, ligado ao trajeto prescrito, agora, realidade mundana,
dos calendários e relógios digitais, entrando no elevador, saindo do elevador, atravessando
o andar movimentado em direção a baía vinte e um. Aperta o botão que o computador liga,
o deixa iniciando enquanto vai em busca de café.
A área da cafeteria sempre cheia, sem mesas ou cadeiras, arquitetura do movimento,
pensada para manter a necessidade de doces e bebidas quentes. Há muito no ramo contábil
é sabido que o bom funcionamento das engrenagens burocráticas precisa ter como
combustível a cafeína e como lubrificante o açúcar. Assim, disponibilidade constante destas
substâncias é indispensável, e nos minutos na cafeteria gastos aos bomdias trocados,
conversa pequena de começo de semana, mais uma que começa, Abelardo foge das
conversas e para seu próprio cubículo regressa, onde, em cima do teclado, bem
posicionado, está o envelope pardo retangular cujas palavras escritas em letras cursivas
indicam ser Abelardo o destinatário.
Logo reconhece o envelope, é a forma padrão de convocatórias, marcações e avisos.
O mesmo sistema antigo e antiquado, burocrático e truncado, que acima de tudo, constitui
os alicerces da empresa. Está sentado, abre o envelope, o conteúdo indica a presença sendo
solicitada logo que a mensagem for lida.Capítulo Trinta e Sete, Nova demanda
Está andando em direção à sala de Cléston, o gerente responsável por todas as
operações do vigésimo primeiro andar da Conta Conta Contabilidade. Figura alta,
levemente acima do peso, rosto sempre perfeitamente barbeado ostentado a lisa pele cobre
e os óculos de leve armação verde clara com pequenas filigranas em relevo verde, em tom
mais escuro. Sorriso largo e cativante sempre aberto e receptivo. Tem apenas vinte e nove
anos, é de longe em toda empresa o mais jovem a ocupar um cargo de tão grande
responsabilidade e importância. A aparência executiva, a lábia, os bons costumes e o belo
sorriso foram o necessário para galgar os degraus do sucesso, na realidade, pouca ou
nenhuma competência tem para exercer as funções que o cargo exige. Entrou na empresa
por acaso, precisava de dinheiro, precisava urgente. Sem nenhuma experiência e sem
qualquer conhecimento sobre contabilidade vai a entrevista de emprego. Logo de cara
ganha a simpatia do entrevistador, usam o mesmo par de sapatos, o mesmo bom gosto para
ternos, é o suficiente, na semana seguinte está sentado no cubículo com tarefas acumuladas
sem ter a menor ideia do que fazer. Pede ajuda a um colega de trabalho, antigo e experiente.
Com a ajuda consegue dar cabo de tudo o que precisa fazer. O padrão é instaurado, não se
preocupa em aprender mesmo o básico do ofício, por outro lado, a cada dia aprimora mais a
lábia, delegando por baixo dos panos as tarefas que precisa cumprir. Logo a diretoria está
encantada, o jovem prodígio, com pouquíssimo tempo de casa já possui experiência de
veterano. Com o passar do tempo, com o escalar das posições e o aumento dos zeros no
contracheque a estratégia é aprimorada e sua execução facilitada. A pouco promovido a
importante cargo de gerência, sabe exatamente a quem é melhor delegar cada tipo de tarefa,
podendo usar o tempo para coisas que considera mais úteis, longas horas de almoço e redes
sociais.
Abelardo acaba de bater na porta, Entre, diz a voz no fundo da sala. O ambiente é
amplo e pouco mobiliado. Frente a janela, com uma excessivamente grande xícara de café,
diz com sorriso largo e voz zombeteira, É incrível como a cada dia os senhores do andar de
cima criam novas siglas, enquanto fala anda até a mesa, onde pega um envelope que
entrega a Abelardo ao mesmo tempo que indica uma das cadeiras vazias. Sorve um longo
gole de café, senta do outro lado da mesa, a garrafa térmica é o maior objeto presente na
sala, seu exagero é quase decorativo, Cléston enche a xícara até a boca, esperando o líquido
esfriar observa o envelope ser aberto e o conteúdo manuseado, Chegou há alguns dias,
contudo, andei ocupado resolvendo algumas questões externas, acabou ficando misturado
com outra papelada, só hoje me deparei, confesso que fui pego de surpresa, amanhã às nove
da manhã em ponto os senhores do andar de cima convocaram uma reunião, e ao que tudo
indica esse envelope é bem importante. As últimas palavras são pronunciadas com ironia,
sopra a fumaça que deixa a xícara espalhando seu odor por todo o ambiente, com calma e
serenidade Cléston fala, Preciso de uma boa apresentação, coisa rápida, e, impactante, algo
bem visual, você sabe como é.Superficialmente Abelardo está calmo, mantém o semblante imutável e os olhos
fixos nos papeis que folheia, por dentro, é pura irritação, a alma de natureza tranquila
perpassa fúria, principalmente a repetição da situação. Pensa em recusar, dizer não com
uma boa justificativa, tenta o movimento que afirmará a posição, deixa o momento escapar.
Raiva e asco se misturam com a frustração, sabe que não há nada que possa fazer, é uma
briga que não pode se dar ao luxo de comprar, e que nem mesmo tem paciência para
encarar, parece mais uma destas questões sem sentido que a posição subalterna determina, o
que resta é aceitar. Há três semanas passadas, da mesma maneira foi chamado por Cléston,
na ocasião também preparou a apresentação de slides para uma reunião com importantes
clientes, ficou tentado a colocar gráficos sem sentido, ou resultados baixos, ou mesmo uma
figura pornográfica, ri imaginando a cara do fanfarrão tentado explicar o gráfico formado
por um pênis ereto com os dizeres, Resultados tão positivos que parecem uma ereção. No
fim, o prazer da vingança é deixado de lado. Resignado faz a apresentação da melhor
maneira que pode. Não ganha nenhum crédito, nenhum elogio, por outro lado, Cléston
ganha felicitações e um gordo bônus. Ao que tudo indica, a história está se repetindo.
Na xícara o café acabou, mesmo sendo enorme, dez ou doze vezes maior que uma
xícara comum, é rapidamente esvaziada por longos goles. O tamanho da xícara justifica o
tamanho da garrafa de onde vem o refil, entre a fumaça odorosa e as palavras enquanto
levanta da cadeira e senta sobre a mesa, A reunião é amanhã, é preciso apresentar
detalhadamente os resultados, uma grande risada, uma pausa, Preciso da sua mágica,
transformar estes números chatos em gráficos elegantes e pomposos, preciso de coisas bem
visuais, algo que possa apontar e isso ser o suficiente para ser entendido, outra risada, dessa
vez mais comedida, Os senhores do andar de cima adoram o efeito instantâneo de um bom
gráfico, tente colocar gráficos em estilos variados, alguns redondos, outros com picos
agressivos, e não precisa economizar nas cores, pode colocar bastante contraste. Abelardo
outra vez folheia o conteúdo do envelope, outra vez vai da primeira à última página sem
nada dizer. Em oposição ao silêncio de Abelardo, Cléston diz, Essa é a versão impressa, o
pendrive com o arquivo também está dentro do envelope, aí outra coisa que não
entendendo, os senhores do andar de cima são fissurados por papel, uma gargalhada
interrompe a fala, outro gole de café, continua, Tudo vem com uma versão impressa, e tente
dizer que não precisa, que na próxima é só enviar os arquivos por email, outra vez a
gargalhada, Passei por isso recentemente, na vez seguinte dentro do envelope, além das
versões digitais e impressas, havia outro pequeno envelope dentro, com uma carta sobre as
políticas da Conta Conta Contabilidade com relação ao uso dos meios digitais para troca de
informações, e sabe qual é a melhor parte, pergunta retoricamente, enquanto outra vez
gargalha, visivelmente se contendo para não exagerar, A tal carta veio com versão impressa
e digital.
Abelardo sem atenção às páginas continua a virar, não tem interesse pela história do
gerente, sempre se aproveitando de sua boa aparência e bom humor, passando adiante sem
deveres e no fim regozijando o bônus enquanto omite a construção do ônus. Abelardo
percebe que caso em silencio continue o monólogo ao infinito se extenderá, Cléston
contínua entre risos contando suas vinhetas, no raro momento de silêncio entre a gargalhada
e a próxima piada, Abelardo toma a palavra, em tom sério proferindo, É um longo trabalho,
preciso de dois dias, pelo menos, para fazer algo bem organizado. Cléston não se importa
com o argumento e rebate, Não se preocupe com bem organizado, organizado é o
suficiente, os senhores do andar de cima gostam de efeitos instantâneos, preciso de gráficosgrandes e coloridos, capriche no visual que fica tudo certo. Alguns segundos de silêncio,
Cléston complementa, Preciso que esteja pronto hoje, de preferência, antes das dezessete,
não quero ir embora tarde, segunda sempre tem muito trânsito.
Abelardo sente raiva pulsar, tanto pelo superior abusivo quanto por tudo que diz
respeito a profissão que sem qualquer vontade exerce, prefere estar longe, consegue em
segundos enumerar centenas de outros lugares onde preferiria no momento estar, contudo,
estando no indesejável precisa enfrentar da melhor maneira que pode, entre as muitas
palavras ponderadas, nenhuma seleciona, apenas balança positivamente a cabeça. O que
deixa Cléston visivelmente satisfeito enquanto diz, Ótimo, você vai longe rapaz, não
esqueça de acrescentar cores vibrantes aos gráficos, aquelas que parecem saltar da tela
causam um efeito fantástico.
Por fim deixa a sala, nas mãos a tarefa que resignado recebe. Enquanto a passos
pesados e arrastados caminha atravessando o escritório, com seus múltiplos cubículos de
metro e meio cercando cada indivíduo em sua tela. Papeis rascunhados e papeis
interpretados. No âmago do ser ressoa a inconformidade, a injustiça do chefe, mas também,
a própria condição, engrenagem aprisionada, continuando na esperança de que um dia no
futuro virá a recompensa, mesmo que, não saiba ao certo qual será, talvez tenha deixado de
acreditar, guardado em alguma gaveta esquecida, é o exatamente que a alma aflige, a falta
de perspectiva de que algo será diferente. Melancólico chega à estação de trabalho, senta,
joga o envelope sobre a mesa, na tela bolhas de sabão explodem, na mente uma ideia
arrebenta sendo em palavras pronunciada, Não quero estar aqui. O pequeno e claro
pensamento ecoa com três das bolhas saltando da tela para o ar onde são captadas pelas
vibrações desatentas que a mente harpeia. Claro e preciso, é a força necessária para colocar
em movimento o objeto inerte. Levanta. Toma o caminho em direção ao banheiro, é o que
todos veem, apenas mais um fantasma a circular. Próximo aos bebedouros vira a esquerda.
Entra no elevador que convenientemente no andar está parado. Dentro da caixa fechada
reflete, está rindo, a comicidade trágica da situação, os ombros leves a medida que os
andares descem, atravessa o saguão, está na rua, os passos são determinados, olha para trás,
o conhecido edifício, olha bem, firmando os detalhes de seu exterior e interior, sabe que é a
última vez que o olha, pensa em algo relevante para dizer, palavras de despedida, nada vem,
decide apenas acenar, acha melhor não, como nada mais vem à mente, os pés seguem o
caminho.Capítulo Trinta e Oito, Simultaneamente e próximo
Acontecimentos simultaneos costurando o tecido da realidade, no mundo da Conta
Conta Contabilidade vai tudo mais ou menos igual, sorvendo o aroma na borda da xicara
Cléston prepara o repertório de ditos espirituosos e gracejos para a aguardada reunião, duas
batidas na porta Hermeto entra casualmente falando sem cerimonia, do lado de fora da sala
o quadricilado triste das baias, paredes plasticas de um metro e meio permitindo ao andar
observar os corpos imoveis como parte da mobilia, tão vivos quanto uma cafeteira ou um
sofá, absorvidos em telas ou perdidos em documentos timbrados sobre a mesa acumulados,
depois da porta de vidro outros setores e portas fechadas, na antesala do setor de recursos
humanos está em pé Olivia ao lado de sua gerente, tomando notas da conversa com um dos
diretores do setor de setorizações setoriais contabeis, o homem vestido com um terno de
linho bem cortado, azul turquesa, talvez demasiado apertado embaixo dos braços roliços do
biotipo de um homem massudo de um metro e sesenta e cinco, com um lenço seca a testa
enquanto prossegue a história cujos detalhes considerados importantes estão sendo
anotados, um pedaço de fita crepe acaba de soltar da parede onde em algum momento
prendeu as pontas de um cartaz, atrás da fita a parede solta no instante em que uma mosca
pousada prende uma das pernas que é perdida quando levanta voo deixando o membro
tornando o voo erratico, caido sobre os cabelos de Aliane Lima ao caminho da rua onde o
vento forte leva a mosca, dentro do onibus Abelardo olha pela janela a paisagem de um
belo dia, pelas ruas sem transito o trajeto rápido, Abelardo aperta as mãos, sentido prazer
em experimentar o tonus do próprio corpo, experimenta um dos raros momentos onde o
agora é uma sensação de prazer e existir um deleite. Sabe as consequências do que fez, sabe
que Cléston ficará irritado o suficiente para querer demitilo por justa causa, e se for isso
mesmo o desfecho é, de alguma forma que não deixa de estranhar, positivo. E essa
serenidade acompanha esse momento, sem qualquer preocupação com o futuro, apenas,
uma simples e constante sensação de felicidade.
Acontecimentos simultâneos costurando o tecido da realidade, em um apartamento
no edifício Ardósias aos Pés da Torre, outros seres são atraídos pela presença da criatura
que do sofá desaprisiona.
Primeiro foram as formigas, começou quando uma pequena batedora foi cooptada
por certo aroma distante, algo que até então não havia experimentado. O odor, de alguma
forma doce, atrativo, mais do que um estímulo olfativo uma vibração magnética.
Identificada a fonte do cheiro, volta à colônia com a notícia e a expedição é armada. A fila
dos destemidos insetos deixa a brecha nos azulejos próximos à pia, escapando pela lateral
da parede tomam o chão, cruzando a sala, até, o sofá. Tão logo se aproximam todo o
batalhão pode sentir o doce cheiro, quanto mais próximo maior a intensidade, até se
transformar em rítmicas batidas de milhares de pequenos tambores magnéticos finamente
sincronizados com o marchar do batalhão que inicia a subida pelo flanco esquerdo,
escalando o sofá, entrando no espaço entre as dobras.
Atrás do vaso sanitário, uma aranha de longas pernas finas é despertada, as teias
estão vibrando, pela intensidade, mais de uma mosca foi pega, é o que inicialmente pensa,
contudo, nas teias nada há, a vibração vem através do ar. Com seus elegantes passos segue
o faro vibrátil que a sala a leva. Está hipnotizada, passa por uma fileira de formigas, e,
como elas, some nas dobras.Os canos que descem pelo ralo também vibram, levando por todos os dutos do
prédio o delicado convite, baratas, ratos, aranhas, percevejos, vermes, todos que no mundo
de canos habitam, seres criados nos labirintos esgóticos, mesmerizados seguem em direção
a fonte convocatória. Os roedores maiores gritam, presos, grandes demais para atravessar
os estreitos que levam ao apartamento. Do ralo ao lado do tanque brotam todos os pequenos
moradores dos subterrâneos que conseguem atravessar o intrincado caminho acima. Uma
nuvem de moscas acaba de adentrar ao recinto, espiralando em voo zunido através da
janela, onde, duas pombas acabam de pousar, seguidas por um grupo de rolinhas que invade
a sala. Outros pássaros que pela vizinhança passam sentem o convite, todos alvoroçados e
duvidosos, atraídos pela pulsação que vibra em tudo que é vivo, as mais profundas e
díspares sensações.
Na véspera, a manifestação presenciada por Abelardo, apenas uma breve brecha, um
pico de energia manifestada antes do alinhamento. Naquele momento os poderes de
Matzatea ainda estavam limitados, ainda que uma forte indicação do poder de transcender
as dimensões do espaçotempo, a força física necessária para saciar a fome apenas em breve
será alcançada. Aos poucos a energia bruta atrai tudo que tem vida e memória, logo a forma
plena estará liberta, e Matzatea, que neste momento saliva pensando no humano, outra vez
estará livre neste mundo.
Capítulo Trinta e Nove, Entrada
O trajeto para casa é rápido, no meio da manhã as vias citadinas sem o frenesi do
rush deixam deslizar os veículos e seus passageiros. Neste momento está prestes a inserir
na porta a chave, esta, vale notar, prestes a quebrar, que surpreendentemente mais uma vez
completa seu trabalho intacta. A porta é aberta, de dentro do apartamento vem um cheiro
frutado, suave e nocivo, não consegue identificar o odor, é fino e aprazível. Uma vez dentro
do recinto a porta é fechada, as células olfativas em cadência se acostumam com oambiente, que, emana uma espécie de encanto difuso misturado a forte cheiro de esgoto,
entrecrustado, sutil e violento. Tão específico odor obriga os nervos olfativos a decretar
perplexidade, sem outra solução encontrar, sinapeiam órgãos de outros sentidos, incluindo,
toda a molecularidade responsável pela visão. Os olhos não respondem ao chamado, na
mesma medida estão perplexos.
A cena que presenciam é tão esquisita quanto surpreendente. Na janela e pelo chão
toda uma miríade de criaturas estão paradas formando meia circunferência em volta do
sofá. Não se incomodam com a recém chegada presença, ignoram Abelardo, todos,
pássaros, insetos, pequenos camundongos, percevejos de casco oleado, aracnídeos de
protuberante prossoma, opiliões de glândulas repugnantes, escorpiões de aguilhões afiados,
anelídeos excitados, cilíndricos vermes se contorcendo na esférica massa em movimento, e
toda outra vasta gama tão surpreendente quanto incoerente.
Aqui, neste momento, pouco faz sentido, outro mundo nu, exposto, para outra
cadeia significante escorrega. A cena, agora grotesca tomada por todos os díspares seres
que respondem ao chamado de gozo e morte emitido por Matzatea.
Passada a dispersão inicial Abelardo finalmente olha na direção do que os convoca.
O sofá delicadamente vibra, toda a estrutura ressoa, está visivelmente expandindo. Entre
um grupo de percevejos e outro de aranhas Abelardo para, atentamente observando. A cor
da superfície é transmutada, agora é plasmática e espectral, vibrando em conjunto com o
ritmo que transforma o ordinário naquilo que é para além da simbolizável forma. Pelas
costuras borbulham fino nevoeiro de magma violeta, em movimento cadenciado escorrendo
por cada milímetro da superfície. A fina camada está viva, metamorfoseando novos e
indecifráveis contornos. A plateia grotesca continua observando, atenta, mesmo o ar está
parado, apenas o tempo continua a passar, inexoravelmente rumo às vinte horas e vinte dois
minutos, momento onde a transformação terá seu ápice, momento em que os astros
alcançarão o alinhamento adequado, momento quando Matzatea, a criatura aprisionada, terá
breve deleite com a liberdade, momento onde saciará a maldita fome.
Algo novo está acontecendo, a frequência borbulhar aumenta ao mesmo tempo em
que se torna inconstante, o pulsar suave agora é aflitivo. Os pássaros entram em alvoroço,
pela sala voam, sem rumo e sentido, acabam por colidir no ar, piam e gritam, os
camundongos emitem sibilos como uivos, os vermes se contorcem, insetos brigam. O
alvoroço é generalizado, no meio, de todo o caos, extasiado e confuso, Abelardo ignora
tudo o que acontece, exceto, o objeto a frente.
O nevoeiro violeta adquire solidez plástica, está visivelmente maior, os botões são
largas ventosas emitindo magma em forma de línguas, braços, bocas gritando. Pelo sofá
todas estas formas deslizam, espetáculo hediondo, ao redor, o caos permanece.
Eis que um pulso vindo das profundezas sacode a estrutura do espaço, todos os
seres param, voltam a atenção para o sofá. Por algum tempo o silêncio é absoluto no vácuo
instaurado. Outro pulso, desta vez, seguido por um segundo mais longo. Os pássaros, todos,
inclusive aqueles machucados durante as colisões, voam em círculo próximo ao teto, no
chão, toda a miríade de seres, dos maiores aos menores, formam pares de filas, de maneira
organizada e cadenciada começam a marchar. Todos no mesmo ritmo, andando, rastejando,
saltando, voando, mergulhando, todas as criaturas em direção a grande abertura ventosa
rugosa de onde emergem os tentáculos movimentando como dedos de uma mão em
convocatória. As criaturas em coreografia somem no nevoeiro à medida que continuamseguindo o caminho para o interior pulsante, os pássaros voando em espiral mergulham no
centro onde a grande ventosa abre como um buque de orquídeas eróticas.
O ato chega ao fim, a plateia foi engolida, exceto Abelardo. Procurando no que resta
de consciência entender o que está acontecendo, por certo está vivendo algo para além do
imaginável, furado o véu, o outro lado do espelho onde reina aquilo que foge ao reflexo. O
sofá está inchado, parece prestes a explodir, Abelardo afasta alguns passos. O sofá emite o
que apenas pode ser descrito como um monstruoso arroto. Nos tentáculos as ventosas em
conjunto emitindo vapores e refugos arremessados por todo o ambiente, o som colossal e o
cheiro fétido. Aliviado, o sofá volta a vibrar lentamente.
O pequeno banquete foi a entrada. Ainda que de todos os seres consiga retirar a
energia que alimenta, apenas dos seres humanos consegue extrair a real satisfação que sacia
a fome. Em outros tempos, longínquos no passado, se alimentando livremente, deliciosas
noites com um humano para trazer o doce sono da digestão. A forma prisional diminui a
fome, de maneira que passa a maior parte do tempo alimentada de pequenos seres,
entretanto, a fome, constitutiva daquilo que é o próprio ser, esta, permanece. É tão forte
que, alinhada com os astros, consegue a dádiva da libertação, neste momento podendo
saciarse de forma plena.
Após presenciar o recente ocorrido, Abelardo conecta com o desejo do sofá, e, pela
primeira vez, tem a real noção da situação. Sabe o que se aproxima, o momento próximo
onde será levado ao pulsante convite.
A criatura parece dormir, ao mesmo tempo permanece ininterrupto o ritmado pulso.
Alguns tentáculos espalhados em displicente arranjo, aos poucos o pesado vapor
derramando. Ainda é o apartamento, ainda é possível ir embora, sabido é que logo a
criatura despertará, este momento trará a impossibilidade da fuga, agora ainda é possível, e
Abelardo sabe disso. Um entretanto percorre a mente, lembra do dia anterior, do passeio
com a fantasma, e, principalmente, lembra da sensação de paz e plenitude nos olhos dela,
aparência vazia da tranquilidade adquirida, e tal sentimento de realização perpassa
Abelardo que o sente aqui, neste apartamento aos poucos sendo transmutado. Percebe ser
esta uma situação onde a inércia é uma decisão, pondera, ao mesmo, espera que a
impossibilidade não chegue, ou venha como uma suave desculpa. Ainda é o mesmo
momento, e um pensamento vindo de algum lugar toma a mente, chamando para si toda a
atenção. Abelardo de súbito entende, É a última chance, simplesmente sair, atravessar a
porta para algum lugar onde sofás não sejam antigos seres amaldiçoados, atravessar a porta,
deixar trancado dentro do apartamento o sofá, atravessar a porta, deixar toda essa loucura.
Parece um conselho da Razão, e, de fato o é, caso Abelardo estivesse olhando pela
janela, iria ver passar a Razão, está montada em Clapton, o unicórnio alado da oitava
dimensão. Presente situação, a Razão sussurrando de seus belos lábios as palavras sábias
que Abelardo pensa. O pensamento é multiplicado em díspares linhas de reflexões e
emoções. Um lado decide ir, outro, ficar, ir significa voltar para a mesma vida, ficar
significa deixar a vida. Não tem dúvida que o que aguarda no fim da atual sobrestranha
cadeia de eventos é a morte. Entende a fantasma, sabe que logo ela será como os outros
moribundos sem resquício de vida caminhando a esmo pela caverna, sente o sacrifício,
convocado por um estranho prazer, como um convite para o ato sexual que se encerra no
ápice que exaure a vida. A Razão está com pressa, é ocupada, ladainhas e indecisões não
interessam. Mais uma vez sussurra, deixa as palavras, aperta a crina de Clapton e parte para
outros paradoxos.Capítulo Quarenta, Voltando para Conta Conta Contabilidade
, A vista da janela não é grande coisa, conjectura Cléston admirando a paisagem e o
futuro, Boa são as vistas da filial de Santa Catarina, o horizontão aberto a borda das águas
que tangem o infindável. Desde que visitou a filial ambiciona a transferência. Gosta do Rio
de Janeiro, até pouco tempo não se via morando em outro lugar. Foi à vista, pensar que,
Todo dia os funcionários sentados em suas mesas bebem café vendo as nuvens pintando o
fim da tarde, coisa bonita de verdade. A xícara está vazia, não sente vontade de repor o
líquido. Olhar a frente é triste lembrança, com pontadas de inveja, Inveja, se pergunta, De
maneira nenhuma, se a reunião de amanhã for o que espero, pleitear a transferência será
moleza. São bons pensamentos, planos sobre onde irá morar, já pesquisou bairros e
imóveis. Olha para o relógio, em pouco marcará dezessete horas, não pretende demorar,
imagina se Abelardo fez bons gráficos. Tem como parâmetro os slides da última reunião,
estavam ótimos, extremamente visuais, tornando desnecessárias explicações, sucesso.
Lembra das congratulações e do bônus, outra coisa lembra, algo, que, melhor colocado,
ainda não havia elaborado, na época nem mesmo chegou a agradecer, desde então não
havia falado com o jovem, foi a necessidade de nova apresentação que gerou a
convocatória. Decide fazer diferente, desta vez irá agradecer, e, quando concretizada for a
transferência, mandar de Santa Catarina um espirituoso cartão postal.
Deixa a sala, caminha pelo andar olhando um a um os funcionários, distribuindo
sorrisos, parando para fazer comentários, com os mais íntimos dividindo piadas sacanas.
Está prestes a ficar defronte a baía de Abelardo, prepara o melhor sorriso, rapidamente
desarmado quando encontra o local vazio, Deve ter ido ao banheiro ou buscar café. Decide
esperar.
Passados dezesseis minutos a cota de paciência acabou. Para o ocupante do cubículo
contíguo, um jovem pálido de óculos fundos, diz, Boa tarde você é. Vale notar que a frase,
da maneira tonal por Cléston pronunciada, ganha no fim sentidos que poderiam ser
simbolizados tanto por ponto de interrogação quanto reticências. Dessa forma, quando os
últimos fonemas do V ocê é, ainda estão sendo entonados, o interlocutor responde, Evandro
Lessa
Cléston sorri, gosta da resposta rápida, com o mesmo sorriso continua a conversa,
Certo Evandro Lessa, desculpe se atrapalho, De maneira nenhuma, se tiver algo que me
permita ajudar. Evandro Lessa está satisfeitíssimo com a forma como tem conduzido a
conversa, duas respostas rápidas e precisas, sente a satisfação de ver o sorriso satisfeito no
rosto de um superior. Cléston realmente aprecia respostas rápidas dos subordinados, depois
de uma pausa para acentuar o sorriso diz, De fato há, conhece o rapaz do cubículo ao lado,Sim, Abelardo. Mais uma resposta rápida e certeira e ambos os interlocutores parecem
apreciar o rumo da conversa, Cléston continua, Ele mesmo, sabe dizer a quanto tempo saiu,
ou pra onde foi, Para onde foi não sei, bem mais cedo, logo no meio da manhã, voltou pelo
corredor com cara amarrada e um envelope na mão, ficou de frente ao computador por um
tempo e logo saiu, tomou o caminho dos banheiros, mas não voltou mais. Desta vez a
resposta rápida não surte o efeito esperado, Evandro Lessa percebe que a culpa é do
assunto, ao que parece, desagradando o superior, elabora uma frase para desviar o tópico,
quando interrompido por Cléston dizendo, Não voltou mais. Esta última frase pronunciada
de maneira agressiva destoa do tom que a conversa leva. Evandro Lessa em silêncio
procura o que dizer, entretanto, nada precisará ser dito, enquanto com os olhos acompanha
os irritados passos movendo os lábios em repetição de impropérios sem som pelo corredor
em direção ao banheiro. Água no rosto, oxigênio em largas respirações, sangue carbonado,
calma restabelecida. No espelho responde a imagem, procura possibilidades, O garoto não é
irresponsável, terminou a tarefa, enviou por email antes de partir. Verifica no celular, nada
nas caixas de entrada, mesmo verifica o spam, nada encontra, volta a refletir e outra
possibilidade não aparenta. Decide ligar para tomar satisfações imediatas. Precisa ir ao
setor de recursos humanos, lá irá encontrar o número que propiciará a ligação que visa
sanar o atual impasse.Capítulo Quarenta e Um, Desvios e desavisos
Caminha entre as vielas apertadas em curvas intrínsecas da cidade medieval,
labirinto de construções de tijolos de barro e, a maior parte, barracas de bambu e coloridos
tecidos, o mercado fervilha cenário para o importante diálogo, longamente esperado,
trazendo luz ao obscuro passado de misteriosos personagens. Vaga em imagens que
misturam cenas do livro com momentos onde a trama adiciona si como personagem, na
maior parte das vezes coadjuvante observadora na cena, vez ou outra, desembainha a
espada, até então escondida no vestido, imagina a cena em diferentes cenários, sempre
resolutiva para alguma questão premente ao enredo, a rápida carnificina e o momento onde
a heroína pensa no futuro, pintado com o sangue de todos o inimigos caídos.
Olivia está tomada pelo livro que, nos últimos meses, osmõe o imaginativo universo
mágico de batalhas e feitiços. Atraída pela fantasia, presa pelo enredo, sedenta para
continuar a leitura, ao ponto, de, neste momento, a mente vagar pelo imaginário construído,
até ser cooptada pela luz que o celular emite.
O aparelho no silencioso brilha, como a tela indica, Maltizebeque está ligando.
Prefere não atender, sabe como ligações pessoais são mal vistas no horário de expediente.
Discretamente desbloqueia o aparelho, são várias as mensagens de Maltizebeque, dele, e,
de outros amigos, todos divulgando a mesma notícia. O portal de um tabloide de escândalos
divulgou a matéria, o título, Corpo Picado em Pedaços. Segue uma foto, rodeado por dois
policiais as partes de um corpo espalhadas pelo chão. Abaixo está a descrição,
extremamente detalhista, de como o corpo foi encontrado, outra vez olha a foto, olhar pela
segunda vez é o bastante. Olivia fecha a matéria. Abre as mensagens. Não acredita, Péssima
brincadeira apenas isso. Se, e, apenas se, é verdade o que acaba de ler, a notícia trata de um
amigo. A impossibilidade ganha concretude. Nunca se espera. Atônita não acredita, algo
tão terrível com alguém tão próximo. Lembra da última vez que o viu, sábado, a peça, ali
nada sobremaneira hediondo poderia ser previsto, sente no peito um aperto. A dor pelo
amigo perdido alimenta a curiosidade para voltar a leitura da matéria. Por três parágrafos
continua, informação esclarecedora não encontra, apenas, minuciosa descrição de como o
corpo foi encontrado, destroçado. Fecha a matéria, de outra maneira irá se informar.
Mensagens pululam, são os amigos em comum comentando a inesperada tragédia. Olivia
reage em silêncio, tomada de choque e incredulidade. Gostava de Heleno, futuro pastor,
grande boêmio.
Aflições são conectadas, lembra de outro amigo. As sinapses são levadas ao diálogo
do almoço de sábado, lembra ter contado a história da mulher e da montanha, lembra ter
contado uma versão específica. Outra versão conhece, esta contada por Susana, prima mais
velha, certa vez disse, Não foi a moça que se apaixonou pela montanha, foi a montanha que
ficou perdidamente apaixonada pela moça que buscava água no rio todas as manhãs, certo
dia atraiu ela até uma caverna onde deslizou a pedra que a trancou para sempre em pedra,agora, quando desencarnada, pode atravessar o maciço, vagando pelos lugares por onde
passava em vida.
A imagem da prima se desfaz, é transformada na figura de outra mulher, de olhar
melancólico e lábios vistosos. O sonho do sono no sofá, a estranha e excitante energia. Pela
primeira vez lembra o sonho, lembra que no sonho encontrou a fantasma, jamais vira
alguém com olhos tão profundos, lagoa infinita onde nadam os mais díspares desejos e
sentimentos, no sonho está no mesmo sofá, no sonho está no apartamento e ao mesmo
tempo em um outro lugar, um lugar bem decorado, com a aparência dos séculos passados.
Os pensamentos retornam a notícia da morte de Heleno, é surpreendida pela maneira como
conecta este evento com a situação de Abelardo. Imagens sobrepostas suprimem o
entendimento, respirações atravessadas, está sufocando nos próprios pensamentos. Algo
forte e íntimo, próximo de uma certeza, quase uma profecia, sente um arrepio que percorre
a espinha até os ombros. Maus agouros tomam o ambiente, uma ideia fixa, Algo de ruim
acontecendo com Abelardo. Levanta, pretende ir até o cubículo onde o amigo trabalha,
neste momento, a porta da sala é aberta, quem entra é Cléston.
Capítulo Quarenta e Dois, Angela e Cléston
Angela Tapitanga é gerente de recursos humanos na Conta Conta Contabilidade,
cargo adquirido com trabalho árduo e competência, para chegar ao posto passou por cima
da burocracia e do machismo. Viu ao longo dos anos outros menos competentes escolhidos,
enquanto preterida ergueu a cabeça com força e certeza, para chegar onde chegou afirmou
ideais, para além do previsto, escalou a montanha, sem perder a pose e a classe superou a
misoginia, sabe onde está, sabe quem é, sabe como se afirmar perante ao mundo de
diretrizes retrógradas. Neste momento, está sentada dentro do gabinete, localizada dentro da
sala onde trabalham as outras funcionárias que compõem o setor. Sala dentro da sala, a
janela de vidro espelhado permite a conspícua visão do exterior. É através desta janela que
observamos o recém chegado. A reação inicial é misto de desgosto e espanto. Cléston, em
sua prepotência e superioridade, apenas se dirige ao setor quando necessita da ficha de
algum funcionário, este, coitado de sorte, abusado pelas suaves palavras do superior, Não
fosse superior. Angela lamenta, não pode dizer não ao pedido de Cléston, em outro
momento levou a questão ao andar superior, a resposta foi clara, Mediante solicitações dos
superiores, é dever do setor fornecer todas as informações necessárias. Vendo a figura que
anda em direção ao gabinete tem certeza, acertada intuição enquanto espera o demandante.
Angela está em pé quando faz sinal para que a porta seja aberta, Cléston entra com
um largo sorriso enquanto diz, Boa tarde, minha amiga. Angela não gosta da maneira
informal como a conversa inicia, de maneira seca responde, Boa tarde. Cléston bem
conhece a gerente, sabe que com ela a lábia não tem efeito, também sabe que a posiçãohierárquica é suficiente a obtenção da informação almejada, deixa de lado o tom informal
dizendo, Espero não estar incomodando, creio que minha presença não será prolongada,
minha solicitação é facilmente providenciável. Antecipando o que virá, Ângela mantém o
tom seco, O que precisa. Cléston sorri, responde, Nada demais, nada que não seja fácil e
rapidamente resolvível, preciso da ficha de Abelardo, pausa vasculhando os arquivos da
mente, Não sei o nome completo, termina a frase com um sorriso quase mas não
exatamente constrangido.
Por um momento Angela pretende contestar, indagar quais os motivos que trazem a
demanda, dizer que não irá entregar os dados de outro funcionário para fazer os trabalhos
cuja incompetência o impedem. Entretanto. Nada faz. Apenas imprime a ficha o mais
rápido possível para se ver livre da indesejada presença. Contrariada observa o semblante
sorridente deixar o recinto.
Cléston, cruzando o caminho volta à própria sala buscando se livrar da conversa
com Angela, não gosta da gerente do setor de recursos humanos, e, muito bem sabe, o
sentimento é recíproco. Evita ao máximo dirigir demandas, apenas em último caso, como o
de hoje. A imagem de Abelardo deixando o expediente antes do horário, fugindo das
obrigações, ignorando uma ordem direta, tocam fundo no brio. Cléston está ofendido,
agora, com o número em mãos, pretende ligar, cobrar as devidas explicações e completar
com severo e quase humilhante discurso. Sabe muito bem o que irá dizer, está entalado,
palavras prontas a serem da garganta arremessadas.
É interessante notar que, durante todo tempo, o sumiço de Abelardo, não tem para
Cléston qualquer sentido além da fuga da tarefa recebida. Preso no próprio egoísmo não
consegue enxergar para além daquilo que lhe é conveniente, ignora que no mundo fatos
acontecem a sua revelia, que nem tudo a si está ligado. No centro da órbita criada pelo ego
alimenta a raiva para com aquele que parece intencionalmente contrariar e irritar.
Não consegue contato com Abelardo. O telefone está desligado, mensagens
ignoradas, qualquer forma de comunicação é ineficiente. Está possesso, tomado pelo
sentimento que arranha o polido esmalte do orgulho, no ápice da injúria procura calma,
recompor o corpo e a mente, ao que tudo indica, o inconsequente é causa perdida. Depois
irá decidir o que com ele fazer, que atitude tomar, agora, precisa voltar ao plano
pragmático. Na manhã do dia seguinte precisa uma reunião apresentar, o que é mais
urgente, precisa de alguém que prepare gráficos magníficos para apresentação, pensa em
possíveis candidatos, Aqueles competentes e com suficiente finesse, Yumi é promissora,
tem tato e delicadeza, Alcebíades também, velho de guerra com domínio da informática,
excelente combinação, Colanto também, já apresentou gráficos dignos de bela promoção.
Os olhos enchem de água, esquece todo o problema, lembra do vistão, da janela comprida,
das nuvens e do oceano. A imagem tudo faz valer a pena, precisa de alguém certo, refletir
bem é necessário, nada como o patife irresponsável, com ele, depois lidará, sem deixar
barato, não tolera ser desafiado, ignorado ou contrafeito. Irá pagar caro, o preço justo pela
desfeita. Mas, agora, voltando ao urgente, achar alguém para o trabalho. Pensando bem,
sabe a resposta, mais uma vez percorre o labirinto de cubículos em direção ao dezessete,
onde pretende encontrar a competente alma que irá ajudar na conquista da almejada
transferência.Capítulo Quarenta e Três, Vozes do Passado
Martinha Queluz ansiosa segura o celular. Acompanha a passagem dos minutos
aguardando, uma mensagem ou ligação, cada novo minuto repetido em voz alta, Dezesseis
e cinquenta e oito. Coloca o celular sobre a mesa, onde um pedaço de papel está embaixo
de uma ametista bruta, com uma mão segura a pedra, com a outra segura o papel onde três
nomes estão escritos, os dois primeiros riscados, o último circulado.
Precisa de ajuda, e para a ajuda que precisa não existem muitas pessoas a quem
recorrer. Mais cedo no dia de hoje, com o papel em branco e uma caneta, buscando nos
arquivos da memória aqueles a quem pode procurar, logo vem um nome, este prontamente
ignora, deixa de lado, busca o próximo, escreve Penélope, a lembrança do nome, os cabelos
vermelhos como o fogo, São para combinar com os olhos, livros abertos, Mas nem tudo o
que se precisa saber está nos livros, muito mais do que podemos imaginar, experiência
limitada, sentindo o calor nas extremidades esfrega os dedos tentando encontrar o último
encontro, onde estavam, sempre volta a lembrança da antiga sala de leitura, paredes gastas,
o cheiro de cigarro e mofo, mas essas lembranças são tão antigas, e nelas também está
Regina, este segundo nome escreve no papel. Enquanto a mente devaneia a busca parece
sempre levar ao nome que não quer pronunciar, que por desgosto pensa, mesmo querendo
evitar. Olha para a lista, apenas dois nomes, quase acrescenta o terceiro, desiste, irá agir
com a lista que tem.
Tanto tempo que não pensa nas antigas companheiras, em outros tempos
inseparáveis, todavia todas as vias da vida, idas e vindas solidificando a distância. Além do
mais, Martinha propositalmente se afastou das amigas, delas que formam o antigo círculo,
que alguns anos atrás eram como unha e carne, pensando bem não faz tanto tempo, mas é,
como sempre procura Martinha frisar, uma outra vida. Sabe que Penélope e Regina
estiveram no funeral, mas a própria Martinha não esteve presente no funeral da filha, entrou
em tal estado de choque que durante semanas permaneceu internada, catatônica, neste
tempo nem mesmo comida ou bebida tocou, não fosse o auxílio de terceiros, de bom grado
teria definhado até a morte. Desde então não fez contato, depois mudou para onde reside
atualmente, residência que poucos sabem o endereço. Mas hoje um furo no tecido cotidiano
surgiu, e por ele jorra o passado, aspectos mágicos e misteriosos que em outros tempos
moveram uma vida, nos últimos anos ignorada. Agora com a lista com dois nomes procura
em redes sociais usando o celular. A pesquisa é rápida, logo encontra as contas das amigasque havia bloqueado e excluído. Penelope não está no Brasil, nos últimos tempos tem
postado fotos do cotidiano no Canadá. As redes de Regina estão inativas, vasculhando o
perfil de amigos em comum descobre o motivo, dois anos atrás Regina morreu, até onde
consegue apurar os fatos, injuriada em um acidente de trânsito.
Este é o momento quando frustração, tormenta e ansiedade tomam consciência, o
ego atônito observa sem saber como agir enquanto um por um os sistemas orgânicos entram
em pane. Martinha neste momento experimenta um ataque de ansiedade, neste momento
quando tudo parece perdido pronuncia a frase contendo o nome que há seis anos não
pronuncia, Preciso encontrar Cassandra.
V olta às redes, logo encontra, Cassandra mora no Rio de Janeiro. Na agenda do
telefone encontra o número desejado, torce para continuar sendo o mesmo. Martinha
escreve uma mensagem que apaga e reescreve algumas vezes até chegar a uma simples
frase terminada com o número do telefone e Me ligue assim que possível. Depois de horas
ansiosas de espera a mensagem é realizada, o telefone está tocando, Martinha irá atender,
Cassandra dirá Alô e a conversa continuará
, Alô
, Oi, que bom que você ligou
, E como não ligar, depois de tanto tempo uma mensagem sua
, Pois é, confesso que foi difícil, digo, decidir entrar em contato
, Acredito que sim, durante um tempo tentei entrar em contato, mas você
sumiu, depois de tudo nós não conversamos
, Talvez possamos conversar
, Agora, desculpe a risada e a surpresa, mas porque tantos anos depois.
Neste momento Martinha pondera o que dizer e grande dúvida tem, no que a
prende e no que pretende, o próprio motivo da ligação parece confuso, ao mesmo
tempo tem uma nítida certeza de que faz algo que deve ser feito e essa sensação
aparenta ser tão certa que não consegue duvidar que seja um bom caminho.
O silêncio da ligação é quebrado por Martinha dizendo, Preciso de ajuda,
hoje, para algo importante, gostaria que você viesse aqui.
Silêncio de palavras, respirações de ambos os lados ouvidas, Martinha
nervosa aguarda, pensa em dizer mais alguma coisa, desiste, aguarda, a respiração
do outro lado some, silêncio absoluto por alguns segundos até que pela voz firme de
Cassandra é quebrado, Então irei, passe o endereço.Capítulo Quarenta e Quatro, Camaradas
As batidas do sino ecoam pela estrutura de mogno do relógio, produzindo um som
ao mesmo tempo estridente e grave, percorrendo o antiquário, chegando aos ouvidos de
Ramon Ruiz que silenciosamente pensa, Já são dezoito horas. Passou o dia inquieto,
diferente da serenidade habitual, conhece o motivo da aflição, aguarda que tudo acabe, o
que no momento deseja é fechar a loja e no andar de cima tomar um longo banho quente, a
sensação da água escaldando a pele, levando pelo ralo a sujeira e todas as preocupações.
Observa os dois homens organizando uma pilha de caixas de madeira, com felicidade
percebe que estão sendo cuidadosos. As últimas caixas estão chegando, atrás dos dois
carregadores vem o encarregado usando um velho boné. Ramon acha graça do boné surrado
sempre ostentando por Jonas, e hoje não é diferente, e o mal humor vai embora deixando
lugar para uma piada com o velho conhecido, Sabe de uma coisa, meu amigo, esse boné
velho não te deixa mais jovem. Jonas ri, fala alguma coisa com os dois carregadores,
usando uma língua arrastada, após um rápido diálogo os carregadores rindo acenam para
Ramon enquanto deixam a loja cantando. Jonas tira o boné, sopra e com a manga da camisa
age como se estivesse dando brilho a um diamante. Ramon rindo estica dois tapinhas no
ombro de Jonas.
Ramon Ruiz normalmente não faz amizade nos círculos de negócios e trabalho, são
raras as exceções. Uma destas é Jonas, um dos encarregados da Guilda, na prática um faz
tudo, hoje está coordenando uma importante entrega, certificando que a valiosa e frágil
carga chegue corretamente ao devido destino. Ao contrário de Ramon, Jonas procura fazer
amizade com aqueles com quem se envolve por motivos de trabalho, entende que no ramo
onde faz carreira é importante estar cercado de quem se confia. Faz anos que trabalha com
Ramon, e com o tempo veio o entendimento e a afeição, não esconde a admiração pela
sabedoria. E por isso mesmo rapidamente percebe que algo atormenta o velho, e tem
suspeitas de que conhece o motivo. Jonas está dizendo, O semblante preocupado não lhe cai
bem, realça as rugas. Ramon responde mantendo o tom da brincadeira, Na minha idade as
preocupações estéticas acabam, daqui uns anos você vai entender, Vamos com calma,
espero que ainda falte bem mais do que alguns. Risos de ambas as partes, é Jonas quem
continua, Brincadeiras a parte, imagino que algo lhe atormenta o espírito. Sem perder o
riso, Ramon diz, Imagino que rumores circulam pela Guilda. Jonas completa em tom
jocoso, Rumores é uma maneira de dizer, são um bando de fofoqueiros. Riso, seguido de
silêncio, Ramon diz, Não sei o quanto sabe, Não muito, dizem que a forma prisional de
Matzatea está sob seus cuidados, Bem, então na verdade você sabe tudo, pode ficar
tranquilo, e tranquilize aqueles fofoqueiros, sei como passar por um evento cósmico sem
grandes problemas, o sacrifício acontecerá na hora devida, depois de hoje, Matzatea
adormecerá por mais algumas centena de anos. Jonas sorri, estende a mão que a de Ramon
encontra em despedida.Capítulo Quarenta e Cinco, Encaminhamentos
Da matéria primeva move o mundo, extrato maleável das dimensões sobrepostas,
princípio gravitacional expresso na vibração das cordas tecendo a realidade. Manifestações
de uma probabilidade dentro de coordenadas espaço temporais específicas. Instantes,
coincidências formando, pensamentos sobrepostos buscando conexões. Duas dimensões de
acontecimentos na mente de Olivia coincidindo. Pensa na barbaridade, infortúnio atrelado a
lembrança de algo ainda não acontecido, ainda assim parece certo, aquilo que acontecerá
por certo já é acontecido, e toda a preocupação vem pela certeza.
Não importa o tempo, coordenadas podem ou não de maneira mais ou menos
caótica sim e não coincidir, princípio do paradoxo constante, ainda que devido outras leis
universais tenda a existência a pretensa normalidade. Hoje o anoitecer pleno, céu
iluminado, alem da luzes artificiais da cidade, no céu reina a lua cheia, absoluta, rumando
lenta enquanto a noite debuta seu manto negro, no caminho de onibus em direção a casa de
Abelardo, Olivia recolhe no celular as mensagens que compõe o trágico fim de Heleno. No
sábado último, após a peça, parte ao encontro da amante. Tudo bem planejado, o marido,
carismático pastor, figura de central importância na direção do seminário, deixa a
residência no começo da tarde, rumo a congregação de Paracambi, é dia de festa e o pastor
é convidado de honra. Dona Juliana, esposa dedicada, bem conhece do marido os hábitos e
rotinas, dada a distância, certamente lá a noite passará, regressando na manhã seguinte no
trem das cinco e meia. Tudo segue o planejado, sai o marido, entra o amante, logo as roupas
derrubadas no caminho para o quarto, no encontro dos corpos os apaixonados queimam,
derretidos nos braços um do outro, adormecem. Na noite em questão, contrariando o
esperado, o pastor decide voltar, aproveitando a carona de um caro colega. Durante o longo
trajeto a conversa flui em antigas histórias, cumplicidade de quem compartilhou as viagens
da infância. Ao entrar em casa, silencioso para não acordar a esposa, encontra no quarto a
cena que o dilacera, na penumbra do cômodo a alma explode, seus pedaços sujando as
paredes, parificações retráteis do desparafusamento da realidade, resvalando no lençol a
forma dos corpos em vil ato, plenos no descanso que a peleja sucede, o sorriso extasiado,fora por completo, emerso em campo desoxigenado, onde, um corpo desconhecido
esmorece na mulher amada. O mundo desaba, um buraco fundo no peito, estilhaços da alma
esvoaçam no tom rubro dos olhos pesados. Não mais o homem ético e correto, não mais o
homem calmo a seguir o exemplo de Cristo, sem anima e sem território, na cozinha a faca,
volta ao quarto. O movimento da faca é rápido e certeiro, a lâmina passa pelos cabelos de
Juliana no caminho do topo do peito esquerdo de Heleno. O corpo esfaqueado não emite
sons, não teve tempo de sentir a dor, os gritos são de Juliana, acordada em meio ao ato
insano. Ainda nua foge. Enquanto isso, fúria e ódio pintam de sangue o quarto onde a
pouco paixão reinava.
Uma lágrima escorre, na bochecha para, refletindo o momento. Fecha o celular, na
bolsa o guarda, não quer continuar em contato. Retoma o aparelho, abre a tela, mais uma
vez liga para Abelardo, chamada perdida, o telefone é guardado. Está preocupada, não quer
estar, prefere conjecturar descuido e indisposição, todavia, no íntimo, nas bordas da
consciência, tem a certeza, ainda que, sejam confusas as ligações entre certezas e
conjecturas. Não quer pensar sobre, entretanto, tem límpida a afirmação, o sofá e a
fantasma, parte da trama, o inacreditável envolto em concretude. Está assustada, não quer
estar, porém, a intempestiva tragédia de Heleno a todo momento parece se conectar com
Abelardo, como início de algo terrível que se aproxima. Confusa no tornado de
pensamentos que neste momento a mente sufoca. Olivia tateia a situação com grave pesar,
um amigo perdido, o temor por outro, pensa que nesta manhã, quando o dia começava, a
aura outra era, disposição matutina, o dia suave, fecha os olhos.
Capítulo Quarenta e Seis, Aos pés da Torre
Olegário Jucino há quinze anos porteiro no edifício Ardósias aos pés da Torre, nesse
tempo, viu chegar e sair inquilinos, viu a rua da frente mudar de nome, presenciou brigas,
morte e fim de amores. Na pasmaceira do começo da noite reflete, Só não mudou a síndica,
Dona Judith vai continuar sindica mesmo depois de caído o prédio. Ri sozinho da pilhéria a
si contada, tenciona não esquecer, criar a oportunidade de contar a Jorge. Os anos e os dias,
a vida de cada morador, de todos os apartamentos e andares. Questão faz de saber nome e
sobrenome de cada residente, também das vidas privadas, sempre que possível. O que
constantemente o é, graças aqueles como Antunes, todo dia, às sete e trinta e cinco em
ponto, descendo para comprar as baguetes acabadas de sair na padaria Progresso, na volta,
com o cheiro quentinho do trigo a subir as narinas, faz questão de parar para dois dedos de
prosa, quase sempre, encontra Erminda voltando da feira com verduras e peixe fresco,
odores provindos das hortaliças e seres marinhos se misturam com os vapores da farinhaquente. Nas conchas da manhã dedilham a vida alheia, os casos, discussões ouvidas através
das paredes, por vezes, com gritos e ofensas. Jucino relembra a pilhéria, na manhã seguinte
pretende aos dois contar, irá puxar algum assunto propício a deixa, Talvez o dos elevadores,
Erminda vai logo reclamar, oportunidade certa. Uma jovem mulher sobe os degraus que
acessam o hall do edifício, Jucino logo reconhece a figura, não lembra o nome, vem a
procura de Abelardo Fagundes, dela não lembra o nome. Está a se aproximar, procura o
nome, não encontra, diz, Boa noite.
Olivia procura calma, tenta manter o funcionamento padrão sem exacerbada aflição
devida a fatos ainda não constatados, sendo assim, expressar preocupação, com um amigo a
quem está preocupada, e que para sanar esta preocupação, vem e agora percebe que está em
silêncio e ainda não respondeu ao homem parado, respira e com um sorriso diz, Boa noite
sim, provável que lembre mim.
Sim, Olegário Jucino lembra, reconhece a fisionomia, sabe que a moça vem a
procura de Abelardo, mas, e todavia, mesmo na curva do entretanto não lembra o nome, e,
isso o incômoda, e, provavelmente incomoda um pouco mais que as outras pessoas
incomoda, e, percebe que está em silêncio encarando a recém chegada que mesmo quieta
parece ansiosa.
Vale ressaltar que para ambos envolvidos a conversa ocorre de maneira estranha,
ainda que por diferentes motivos. Ambos percebem, e de ambas as partes a conversa passa
para termos pragmáticos possibilitando rápido desenrolar do diálogo, retomado por
Olegário Jucino respondendo, Claro, lembro sim, é amiga de Abelardo Fagundes, certo,
pergunta sorrindo, enquanto por dentro batalha para lembrar o nome. Olivia rapidamente
emenda a conversa, Exato, por favor, diga a ele que estou aqui.
Jucino sorri, tira da parede o interfone, aperta os números que levam a chamada ao
apartamento desejado.
Durante o tempo em que aguardam o chamado não atendido, dois minutos e
quarenta e quatro segundos, Olivia e Jucino permanecem em silêncio imerso nos
pensamentos próprios. Preocupada, ansiosa aguarda, torcendo para o amigo atender e todo
o enredo sobrenatural ser noiástico, perfumado na inverossimilhança dos delírios. Jucino,
chateado, procura o nome. De poucas coisas tem real orgulho, uma delas, ao encontrar
alguém pela segunda vez, sempre, e, invariavelmente, cumprimenta usando o nome, Bom
dia fulana. A falha ainda pode ser consertada, sim, irá lembrar. A chamada morre sem ser
atendida, enquanto outra vez disca o número do apartamento, Jucino diz, Estranho, ele não
atender, deve estar no chuveiro. Pensando em possibilidades, Olivia rebate, Talvez ele não
esteja em casa. Com a prontidão de quem tem certeza de executar o trabalho de maneira
benfeita, Jucino diz em tom cordial, Em casa está, chegou mais cedo do que o costumeiro, é
verdade, com pressa, foi direto para o elevador, desde então não passou por aqui, teria
visto. Olivia procura soluções imediatas, Pode ser que estivesse ocupado, pode ser que
agora atenda. Jucino prontamente responde, Claro, já estou chamando outra vez. A resposta
acompanhada por amável sorriso, na ponta da língua quase vem o nome que outra vez
escapa.
Outra vez sem resposta.
Olivia não esconde a cara de preocupação, Jucino percebe o peso, procura algo para
dizer, não encontra, é Olivia quem quebra o silêncio, Abelardo saiu do trabalho mais cedo,
sem qualquer aviso, desde então não atende ligações ou responde mensagens, por isso aqui
estou, trazida pela preocupação. Olegario Jucino entende as aflições da moça, relembraacontecimentos do dia enquanto conta, Quando Abelardo chegou, mais cedo, resolvi
brincar, eu disse Que beleza seu Abelardo, chegando mais cedo nesse dia bonito, só que ele
não respondeu, o que foi esquisito, ele sempre responde com os bondias, não é disso, foi
estranho mas deixei passar, todo mundo tem uns dias ruins, aí, e agora, pensando bem, foi
esquisito mesmo, não respondeu, e pareceu nem ouvir, tava com os olhos cerrados e
carregados, a cabeça em outro lugar, nem me viu, que dirá ouviu. Olivia escuta atenta, a
preocupação aumenta, a certeza de algo ruim acontecendo, Pode ser que não esteja bem,
precisando de ajuda.
Olegário Jucino está alarmado, situação de tamanha urgência, é preciso agir rápido,
constrói a cena, o corpo convalescente, o primeiro impulso é ligar para os bombeiros,
arrombar a porta, salvar o pobre rapaz, Salvar de que, se pergunta. Respira, está nervoso,
não entende como ficou assim, é a energia carregada da moça, está tão aflita que assim está
o deixando. Decide fazer algo menos radical, abordar a situação de outra maneira, irá
chamar a síndica, Dona Judith saberá como proceder.
Capítulo Quarenta e Sete, A síndica
Judith Souza Magalhães Figueiredo, neta de importante general, conserva nos
hábitos os vícios aristocráticos da elite. Da mãe herdou a consciência cafeicultura, aprendeu
a ver o país em capitanias, a tratar bem os subalternos, realeza a zelar pelos súditos. Além
dos sobrenomes que com orgulho enverga, e, dos hábitos e vícios próprios da classe a qual
pertence, herdou imóveis na capital e no interior. No edifício Ardósias aos Pés da Torre é
proprietária de quatro apartamentos, além da cobertura onde reside. É com mal humor que
atende ao chamado para comparecer a portaria, é com atenção que escuta a história, narrada
por Olivia com os comentários de Jucino, que, neste momento é quem fala, Tenho certeza
dona Judith, depois que o rapaz chegou não tirei o pé daqui, até porque Epaminondas
deveria chegar às dezessete e não chegou, não deu nem pra ir ao banheiro, fiquei aqui o
tempo todo até que a moça chegou. Judith examina a moça em questão, com olhar que
mistura indiferença e gentileza pergunta, se dirigindo a Olivia, V ocê diz que está
preocupada. A resposta é direta e sensata, Sim estou. Judith continua o inquérito repetindo
as informações que tem, Não atende ligações, não responde mensagens, Exatamente. Aresposta de Olivia vem embrulhada em uma única palavra, recuando o impulso de apressar
a esnobe dama que como delegada avalia a situação, Muito bem, o seguinte faremos, me
acompanhe até o apartamento, tocaremos a campainha e na porta bateremos, caso realmente
esteja presente irá atender. Olivia acena positivamente, Jucino, conhecedor do modus
operandi da síndica, aguarda ordens. Sobrancelhas grisalhas, lábios austeros, sentenças no
tom de quem está acostumada a dar ordens, Estamos subindo, entre em contato com
Epaminondas, diga que se apresse, assim que aqui ele estiver, suba e nos encontre.
No corredor do sétimo andar, frente ao apartamento, a porta separa as virtualidades
da concretude. Existência amadeirada onde tambor e pinos selam a passagem. De um lado
da porta estão duas mulheres, a mais velha está irritada com a situação, tirada da novela e
descanso para resolver problemas de inquilinos, Com o agravante de ser em uma peça de
minha propriedade, pensa a dama descontente. A outra mulher, esta, bem mais jovem,
sustenta a preocupação do encontro com o desconhecido. Dividida entre a certeza de algo
sobrenatural acontecendo, a incredulidade ordinária, a curiosidade que ronda o inesperado,
a preocupação de maus presságios.
Judith Figueiredo está tocando a campainha, em um primeiro momento calma
aguardando, logo passando a longos trinados, finalizados com batidas na porta. Com o
barulho surgem moradores de outros apartamentos para averiguar atípica situação que
quebra em ruídos a calma noite. Neste mesmo momento, a porta do elevador abre, é Jucino
quem chega ao andar, é abordado pelos curiosos. Judith Figueiredo se aproxima, tem ar
grave, os cabelos sempre milimetricamente penteados estão levemente espetados, está
visivelmente irritada. Os poucos curiosos percebem a descompostura da austera e
impecável síndica, o que os deixa ainda mais curiosos quanto à situação, entretanto, optam
por voltar para dentro dos próprios apartamentos, que a situação seja resolvida, logo
possam, na portaria, encontrar as informações.
É Jucino quem diz, Epaminondas chegou, pediu desculpas pelo atraso, contou uma
história triste. Judith faz um gesto de desdém enquanto buscando calma pronúncia, Diga
me, tem certeza que o rapaz chegou ao edifício e não mais saiu. Jucino percebe a
importância que terá aquilo que irá dizer, dessa forma, antes de logo formular o dito,
pondera e minuciosamente vasculha na percepção falhas, que não encontra, levemente
consternado com o atual cenário, com voz firme diz, Tenho certeza absoluta, já refleti bem,
não tem jeito, não tem por onde ele ter saído sem passar pela portaria, escada ou elevador.
Judith fala com a voz de quem pensa em voz alta, Muito bem, todavia não nos atende, pelo
escarcéu que fizemos o mínimo que deveria era aparecer. Antes que continue é
interrompida pela preocupação de Jucino, A senhora acha que ele não atende de propósito
ou, será que, aconteceu alguma coisa. Agora é Judith quem sobrepõe a fala, A jovem parece
preocupada, de tal maneira que estou começando a crer no pior. Silêncio. Quebrado pelos
passos de Olivia inquieta, é Jucino quem diz, Acho que temos que chamar os bombeiros,
Não seja dramático, envolveremos as autoridades caso esgotem os recursos que possuímos.
Olívia pergunta, A senhora tem alguma sugestão. A dama responde a pergunta se dirigindo
ao porteiro, Procure o Capitão, peça que por gentileza aqui venha com urgência.
Capitão é figura pública do bairro, desde sempre na pequena loja que herdou do pai
que abriu junto com o avô, chaveiro e cutelaria, uma placa azul em formato de chave onde
em letras cursivas está escrito Souza e Filho. Pela hora a loja está fechada, ainda assim o
celular fica ligado, são comuns as emergências, uma porta trancada com a chave dentro
acaba sendo algo mais corriqueiro do que se tende a imaginar, e quando o cachorro é oúnico do lado de dentro, o telefone do chaveiro toca, e Capitão na sua motinha parte ao
resgate, chega rápido e logo resolve, mas hoje a emergência será outra, quando em breve
três batidas na porta escutar.
Enquanto o apressado Jucino faz o caminho até o segundo andar, simultaneamente,
alguns andares acima, com o lado esquerdo do rosto na porta encostado, Judith Figueiredo
procura decifrar as vibrações que passam pelo pavilhão auditivo. Olivia faz menção de algo
dizer, é calada com o brusco aceno da dama. Algo está ouvindo, pulsos que a cóclea
chegam, estranhas decifrações, sinapses nervosas a buscar significação para os perceptos
sonoros. Se afasta da porta, fala enquanto com a cabeça gesticula, Digame o que escutas.
Olivia se aproxima enquanto a outra se afasta. O que escuta, um zumbido constante, parece
ritmado, por vezes pulsos, na mesma frequência, depois de alguns segundos o corpo
acostumado com o som deixa de ouvir, basta leve movimento, sutil ajeitada, para que, outra
vez, seja percebido. É Olivia quem diz, Parece ventilador, ou ar condicionado, mas não é
isso, talvez algo ligado dentro do quarto, por isso estamos escutando tão baixo. Judith gosta
da ideia, faz sentido, o objeto que emite o barulho está em outro cômodo. Por algum tempo
conjecturam, sem satisfeitas ficar com as explicações construídas. Judith olha o relógio,
impaciente esperando que logo chegue Capitão com a resolução.
Capítulo Quarenta e Oito, O Chaveiro
Coincidentemente, neste mesmo momento, Capitão está a pensar em Judith. É
possível validamente questionar o uso do advérbio que impere na situação o acaso, dado a
simples fato, a frequência com que Capitão na dama pensa. Há algumas décadas a conhece,
durante grande parte deste tempo guardou para si a paixão, a dez anos passados, as
configurações mudaram, a inesperada morte deixou a dama viúva. Esperou o tempo que
achou polido para manifestar sentimentos e intenções. Em troca recebeu palavras educadas
e suaves negativas. Mesmo assim, não desiste, acredita na insistência dos pequenos gestos
para conquistar o coração de ferro. Na mente enamorada circula frequente imagens da bem
querida, fato comum. Outrossim, se não incomum, no mínimo, infrequente, é a ansiedade
de Judith Fagundes a espera do Capitão. Que aqueles que nas coincidências não acreditam
aqui neguem este fato irrefutável, a concomitância dos dois a pensar um no outro, ainda
que, por motivações e sentimentos distintos. Admirados observamos as sutis tramas que se
cruzam para formar destinos. Toda a infinita linha de acasos necessários para que em um
ponto específico do espaço tempo uma probabilidade seja concretizada.
Três batidas na porta e Capitão sorri, reconhece a batida, nenhuma outra pessoa
além do porteiro Olegário Jucino, e, se ele aqui está, a mando está de Judith. Neste instante
enquanto cruza o apartamento em direção a porta ajeita o cabelo sem conseguir evitar olargo sorriso onde a embocadura dos lábios denota a exata mistura de surpresa e felicidade
que no ritmo cardíaco palpita. Porta aberta, saudações trocadas, Jucino que conhece bem o
inquilino sorri e quase faz uma piada vendo o rosto corado como um adolencente, decide ir
logo ao assunto, A Dona tá precisando de você, para abrir uma porta, parece que o garoto
passou mal dentro de casa. Capitão tem o tino veloz de quem há muito lida com problemas
variados, mais do que chegariam a entender a maior parte das pessoas, a mente afiada
absorve toda a informação enquanto a memória muscular já dispara em preparativos
calçando a bota e abotoando o cinto já tendo em mãos a bolsa de ferramentas.
Jucino que já conhece a velocidade e prontidão, caminha falando tendo certeza que
está sendo ouvido, O garoto é Abelardo, você deve saber quem é, ele já mora aqui tem um
tempo, Acho que sei quem é, mas me conta melhor o que aconteceu, A sim, claro, assim,
ele chegou cedo hoje, ele trabalha em alguma coisa no centro, só chegou e subiu direto, e aí
tão ligando do trabalho e ele não atende, e agora não atende o interfone, e nem mesmo o
barulho todo que dona Judith tá fazendo na porta. Neste momento, no corredor do sétimo
andar a dupla chega, do outro lado, Judith solta um sorriso aliviado ao mesmo tempo
carregado de olhar repreensivo frente a tanta demora.
Capitão responde com o olhar que diz Vim o mais rápido que pude, com isso, espera
ganhar o tom compreensivo que não vem, enquanto a dama mantém a mesma postura dos
olhos acompanhando pelo corredor o caminho da mão cortês sendo estendida a Olívia, Boa
noite, não se preocupe, abriremos a porta e tudo ficará bem. Com tom ainda mais
cavalheiresco toma a mão da dama a quem tanto quer, diz, Boa noite minha senhora, estou
aqui à sua vontade. Judith não pode deixar de sorrir, lhe agrada os modos educados, quase
exagerados, Acredito que esteja a par da situação, Sim, Jucino contou, parece que o rapaz
chegou em casa, não atende telefone ou campainha, pode ser que tenha passado mal, ou
dormindo pesado. Poucas palavras, vidros de sensações, paira silêncio, no pulso firme o
relógio parece demasiadamente pesado, incômodo no pulso, trançado enquanto o ponteiro
pequeno permanece parado aguardando a deixa dos apressados minutos.
Capitão percebe a atmosfera pesada que toma o ambiente. A cada instante parece
maior a gravidade da situação. Judith está alterada, parece fora da habitual compostura, age
atordoada. Ar plúmbeo e maus presságios pelo corredor circulam. Abre caminho até a
porta, do estojo tira as ferramentas necessárias. Com grafite e duas chaves em segundos faz
a fechadura emitir o clique que indica abertura. Dois passos para trás, olha para a dama,
Está aberto. Ela responde, Ótimo.
As mãos magras da dama Judith Souza Magalhães Figueiredo pairam sobre a
maçaneta, dedos flexionados em força quase fechados, na palma a percepção do metal frio.
O pulso inicia o movimento de rotação quando é impedido de continuar, a dama algo
estranho sente, tenta ignorar, acreditando, ser apenas medo. Com o medo bem sabe como
lidar, há muito apreendeu coragem significar queixo erguido e punhos firmes, agora a mão
vacila, não é apenas medo. Judith não sabe, e, tempo não terá para descobrir, além do
medo, além de outros sentimentos que a envolvem, escuta com o corpo vibrátil a
campainha do destino, as vibrações do inexorável, inevitável, do ponto improvável tornado
concreto por todas as linhas e porcelanas, cruzadas e quebradas. Quando, nos próximos
segundos, a mão sobre a maçaneta concretizar o movimento rotatório que a porta abrirá, do
outro lado, encontrará, encontrarão, encontraremos, algo completamente discrepante, ímpar
e inimaginável, concreto e visto, mortífero e indubitável.Capítulo Quarenta e Nove, Rituais
Martinha Queluz está tremendo, frente ao espelho encara um reflexo que não
reconhece, ou melhor colocado, não quer reconhecer, nega que reconhece, assim, frente a
negação finge desconhecer a imagem refletida. Fecha os olhos. De olhos fechados escolhe
o que quer ver, apenas por pouco tempo, voltando imagens que não quer lembrar, ainda que
muitas sejam carregadas de carinho, a memória segue um fio espefico que leva a cerimonia
de iniciação, lembra o traje, um longo sobretudo negro até os pés onde rendas douradas
adornam as bainhas e as mangas, o capuz tem o interior vermelho. Lembra como naquele
dia fica surpresa ao descobrir que a veste é completamente adornada por dentro, como
vestila deixa na pele uma suave sensação de poder. Não quer lembrar, não quer nomear,
entretanto, abre os olhos, e o reflexo do espelho é uma mulher mais velha do que a jovem
das memórias, todavia, a veste e a mesma. Deixa o espelho. Anda em direção a sala.
As janelas estão fechadas, a iluminação provém de cinco velas dispostas em volta
do círculo de sal ao redor de Cassandra, a mulher está de joelhos segurando um livro,
dentro do círculo seis cristais estão posicionadas formando dois triângulos com as pontas
interseccionando no centro. Martinha em silêncio observa, tem a sensação de estar
sonhando, um dos sonhos recorrentes quando volta a ser jovem, quando iniciou no caminho
dos poderes da antiga ordem, mas agora não é sonho, e disso sabe, também sabe que está
mexendo com algo muito poderoso, talvez esteja sendo insensata, provavelmente, todavia,
neste momento isto não importa, traçou uma meta e sabe que apenas duas conclusões são
possíveis, ou o feitiço dará certo e será possuidora de um poder pouca vezes experimentado
por um mortal, ou, o mais provável, terá uma morte lenta, dolorosa e sofrida.
Cassandra acaba de levantar, de costas deixa o círculo, deixando no centro, dentro
da intercessão dos triângulos, uma pequena caixa de madeira. Faz sinal para que Martinha
vá em direção a cozinha, onde estão agora, Cassandra tira o capuz, revelando uma bela
mulher, aparência jovem em um semblante maduro emoldurado pela volumosa cabeleiracacheada, está dizendo em voz baixa, Estamos dentro do horário, agora nos resta finalizar o
selo, tudo precisa ser feito no momento exato, mas. Antes que Cassandra continue,
Martinha diz, Irei entender se você não quiser continuar com isso, eu sei o que vem depois
do mas. Cassandra sorri revelando os largos dentes brancos, Nos último anos, depois que
você não respondeu e sumiu, vez ou outra me pegava pensando no que faria se você
entrasse em contato, só não estava preparada para que fosse pedir ajuda para algo assim,
entendo seus motivos, e prefiro morrer assim se este for nosso destino.
As duas mulheres se olham, têm a mesma vestimenta e dividem a mesma sensação.
Irá dizer algo que há muito tempo guarda, quando é interrompida por três batidas fortes.
Logo percebe que as batidas são no apartamento ao lado, em passos leves vai até a porta
onde parada escuta o diálogo do outro lado. Quando o silêncio volta após os passos em
retirada é Cassandra quem diz, É melhor continuarmos, agora começa a parte difícil.Capítulo Cinquenta, Hora que aproxima
Banho quente, mesmo nos dias mais quentes, muito vapor, a pele pitta, fluência
energética deixando o centro para as extremidades, no fim, com o corpo efervescente
dilatado, desliga a água quente, deixando o jato frio tocar o topo da cabeça escorrendo pela
derme, choque térmico, balanceamento da realidade. Depois de um bom banho, Ramon
Ruiz sempre se sente renovado, não hoje. Tem essa preocupação, e apesar do que disse a
Jonas, no fundo teme que as coisas não estejam sob controle, prefere não imaginar as
consequências de Matzatea outra vez livre no mundo, reflete, Pensamento bobo, as teias do
destino estão bem tecidas, o sacrifício acontecerá. A cadeia mental volta a conversa com
Jonas, lembra que esqueceu de perguntar sobre o livro, está curioso pelas observações, não
entende como alguém com as características de Jonas pode estar associado a Guilda das
Luzes. Tem uma relação ambígua com a Guilda, por um lado mantém relação amistosa,
cordialidades na maior parte das vezes facilitada pela relação comercial, No fim são apenas
negócios, tenho que zelar pelos negócios da família, diz em voz alta escutando o próprio
pensamento. Reflete sobre como estes negócios são, sua natureza incomum, um negócio
como o de hoje, envolvendo sacrifício humano para impedir que uma besta voraz atormente
a humanidade, É um fardo, diz em voz alta, buscando nos pensamentos falados colocar nos
trilhos o ser.
Procura um objeto, uma tábua de Lox, uma tábua de madeira, fina como uma folha,
ao toque imagens surgem, parece uma tela, ao mesmo tempo que as imagens em
movimento surgem através da materialidade da madeira. Linhas, formando órbitas,
planetas, relações astronômicas, o objeto revela o movimento dos astros, com o dedo
Ramon passeia procurando os corpos celestes que hoje influenciam o destino, de alguns
humanos ou da humanidade. Com a ponta da unha do indicador traça uma linha, quase reta.
Por um tempo se distrai com o movimento dos astros, ao mesmo tempo tão rápido e tão
longo, ao mesmo tempo o ser do tempo, como a lua, astronomicamente próxima, influencia
nas marés, dos seres vivos e das águas, o sol em seu esplendor e poder, tão pesado
curvando uma grande porção do espaçotempo, de tal maneira que mesmo corpos celestes
longínquos em sua gravidade são afetados, estreita relação entre todas as coisas, uno
primordial no início de tudo condensado em uma singularidade energética, uma grande
explosão, esticando cordas e formando matéria, com a temperatura amena formando vida,
como neste planeta rochoso aquático em uma zona plural nas bordas de uma galáxia isolado
em um canto do universo. Ramon sorri com a digressão, gosta de pensar nos astros, neles
sente o conforto que só adquirem aqueles capazes de ler nas estrelas o destino. Conhecer o
humor dos astros, e, hoje, os astros estão de péssimo humor, por forças ocultas que exercem
grande poder, uma linha poderosa que corta o espaço liberando o tempo em diversas
probabilidades, um ser tão poderoso que não pode ser morto, trancafiado em engenhosa
prisão. Suspira passeando pelo aposento, olha alguns retratos sem de fato prestar atenção,
corre os dedos pela mesa, observa o armário onde livros e objetos dividem espaço, lembra
que está no terceiro andar de uma construção de três andares, este onde reside, o térreo
onde funciona o antiquário, o porão que funciona como depósito, pensa em todos os itens
poderosos por diferentes motivos no porão guardados, vem um pensamento, intrusivo e
recorrente, nesta cadeia específica de pensamentos é um vilão, ao estilo dos vilões clichês
das histórias em quadrinhos, com a intenção de criar o caos, disseminar uma nova era, na
verdade, um retorno a uma era antiga, que a humanidade já esqueceu, cujos resquícios sãoos mitos e histórias passadas por antigas culturas e religiões, onde seres como Matzatea
outra vez vivem. Mas esse pensamento logo vai embora, fica feliz em pensar em todas as
precauções que protegem e selam o porão, Assim que tudo fique lá guardado, diz em voz
alta, tentando lembrar quando foi a última vez em que lá esteve, não recorda, faz muito
tempo, É melhor assim. E volta a pensar em Matzatea, olha o relógio, reflete que neste
momento a criatura deve estar livre, e logo estará plena. Um ser tão poderoso, um risco
incomensurável para a civilização, e poucas pessoas tem ideia de que evento de tão grande
importância hoje está em curso, a reflexão coloca Ramon em questões filosóficas pessoais,
começa a falar em voz alta andado entre os cômodos, Todos vivem na ignorância,
acreditam no sistema, estão confortáveis deixando rodar os programas do sistema,
satisfeitos em tocar apenas a superfície, ignorando a profundidade, agradecendo aos
titereiros a dádiva da sobrevivência.
Procura deixar os pensamentos, sem conseguir, no fim de tudo volta a imagem de
Abelardo, e, Ramon Ruiz se sente responsável pela morte do jovem. Durante o resto da
noite de hoje Ramon ficará preso no vórtice dos pensamentos, o mesmo tema repetido em
diferentes variações, demorará a encontrar o sono, e quando o fizer sonhará com resquícios
dos pensamentos diurnos, apenas no fim da madrugada conseguirá o sono pesado que o
conduzirá até as oito, quando levantará bem disposto, e após conferir os canais de notícia,
ficará em excelente ânimo ao constatar que nenhuma criatura demoníaca foi vista pela
cidade.Capítulo Cinquenta e Um, Matzatea
Entre âmbar e musgo é a cor da névoa que todo o ambiente toma, por ela perpassa a
luz emanando da criatura em leve bruxulear. Chão e paredes estão cobertos de refugos,
irreconhecíveis detritos, carcaças, pedaços de animais a se movimentar como tocados pelo
vento. O lugar não é mais o mesmo, os traços constitutivos do apartamento citadino foram
tomados, subjugados pelo poder da entidade liberta pelos astros. No centro da caverna
primitiva Abelardo estatelado observa o ambiente em mutação. Gosma violeta escorre em
canais, elevando o espectro da névoa, que, agora, é rubra grená pulsante. Abelardo está
enfeitiçado.
Nos tempos anteriores ao aprisionamento, era desta forma que Matzatea**** seduzia as
almas humanas. A caverna é o lar, embrião casco, de tal maneira que a caverna é parte do
que a criatura é. Ela é o próprio espaço. Para degustar o alimento humano precisa
conquistar as presas, seduzir, enfeitiçar, inebriar, as tornar dispostas ao caminho pela densa
floresta em direção ao convite. Traz no cerne divergentes sentimentos, amor e ódio, criação
e destruição, início e fim, símiles divinos que conecta com similares da constituição
humana. Neste momento a arcaica cena é atualizada, o apartamento transformado em
múltiplo da longínqua caverna. Cor, cheiro, restos fantasmagóricos de mil aperitivos, e,
pratos principais, corpos e cacos de almas humanas. Depois de todos os anos aprisionada,
tanto tempo passado desde a última verdadeira refeição, mais do que apenas alimento,
deseja, almeja o momento, e, por este motivo, posterga a presença de Abelardo, o inebria,
brinca com os sentidos, torce sensações, lentamente se deleita com a inigualável refeição.
Abelardo está mesmerizado, a situação é tal inacreditável que outro recurso não há
além de acreditar. A caverna pestilenta, a névoa onipresente, através de seu embaço as
imagens são amorfas, tanto podem ser pedras como restos animais, os reinos se confundem,
o tempo se confunde, vida e morte se confundem. Está no limbo por onde poucos mortais
passam, a percepção de vivo concomitante à perspectiva atemporal dos mortos e imortais.
Observa o grotesco acontecimento com aceitação, assumida a tragédia, acolher o fatídico. É
tomado por lembranças, familiares, amigos, situações, viagens, projetos, amores, em
caleidoscópio fugidio a mente tomam, se apresentando em despedida, puxados pelos
tentáculos se multiplicando compassados, dançando o ritmo pulsional pela criatura emitido,
suave sibilo pelas ventosas, tremor melódico da névoa. Os tentáculos dançam em múltiplas
imagens simétricas atravessando o corpo físico, tocando as íntimas imagens da memória,
rasgando a constituição humana, derramando o ser atraído e sugado pelo beijo das ventosas
na coreografia dos tentáculos. Consciência e alma estão sendo lentamente degustadas,
imagens memoradas à tona, destacadas e digeridas, o corpo sendo transformado em casca
vazia, esquecido de todo outro e exterior, nada existe para além dos contornos da sala em
caverna composta.
A transformação está completa. Não há qualquer resquício da forma prisional, neste
momento reina Matzatea. O ambiente mutado na gruta originaria, nos tempos quando o
pulsar distante atrai viajantes distraídos, camponeses e, vez ou outra, ousados em busca de
saciar a curiosidade. Agora, a sala é a mesma caverna, os astros com o alinhamento
adequado, a forma original plena e exuberante. A forma, assim dita, foge as palavras,
escapa qualquer descrição. Lava pulsante púrpura em névoa rubra alongada materializando
em matéria plasmática amorfa constituindo a grande massa aberta em horrenda boca. Aboca, assim dita, dentes não tem, sim os mesmos tentáculos infindáveis e rítmicos, dentro
parece ir ao infinito, distinta paisagem, complementar a caverna, ainda que outra. Pelas
profundezas do abismo se movimentam corpos como zumbis, trajam vestimentas variadas,
cabelos longos e quebradiços, pele ressecada, mil ou mais anos aparentam, alguns estão
sentados, outros andam. São todos aqueles pela entidade engolidos. São corpos sem
matéria, seres sem mnema. Alguns têm as cavidades oculares completamente secas, são os
mais antigos, os primeiros, outros ainda conservam razoável aspecto.
Atravessando a multidão cadavérica, com olhos carregados está ela, a fantasma,
Maria Teresa Fernanda. Não tem o aspecto jovem e suave das memórias pelo sofá
transmitidas, tem a pele trincada e ressecada. Com dedos esquálidos faz o gesto
convidando.
Os tentáculos imitam o gesto, sincronizados convidam.
O ambiente por completo pulsa. Tudo que compõe as probabilidades espaço
temporais dentro do aposento são convites maliciosos.
Desejo, gozo e destruição.
Abelardo lentamente se locomove, transbordando pensamentos, sentido um delicado
prazer toda vez que uma memória é puxada, sensações variadas e precisas. Olha para a cena
dantesca ao redor, não há metáfora, nenhuma outra figura, significante concreto, deleites do
céu e contorções do inferno na cíclica da realidade, o temor sentido e costurado pelo limiar
de dor e prazer no fim tornado indistinguível. Caminha entregue ao júbilo final.
Pulsações voláteis, o toque dos tentáculos que ao contato com a pele se
desmancham em mil desformas. Zumbido agudo imiscuindo por tímpanos e labirintos
levando sinapses e suas descargas elétricas. Já não tem mais fome. Um violino voando no
éter deve emitir sons delicados e refinados. Laranjas feitas de sol têm o sumo mais
refrescante, desde que, tomadas com perneiras. A lua tem crateras feitas de trampolim, de
onde seus antigos habitantes arremessavam meteoros. Um quilômetro de espuma, molas,
plumas, chumas, almofadas, sedas, algodão. Os andares intermediários do inferno. Milhares
de múmias, cadáveres, seres antrópicos na barriga da criatura. Promessas de amor e prazer.
Beliscos belicosos. Riso, deleite, morte.
Nada é além do que neste momento é, este momento o momento, é,
A porta acaba de ser aberta.Capítulo Cinquenta e Dois, Intrusos
Judith abre a porta. Tosse, o cheiro forte desperta a questão, como não sentia do
outro lado da porta um odor tão repugnante, apenas uma fina separação de madeira,
contudo um portal entre dimensões distintas. A diferença de luz entre os dois ambientes, de
um lado o corredor iluminado, do outro, grossa penumbra impede o avanço da visão. Judith
não compreende por completo o ambiente que a escapa, espera encontrar o imovel já
conhecido, frente ao desconhecido faltam parâmetros para significação, fazendo com que o
cérebro ignore a realidade imediatamente experimentada em detrimento de uma memória,
que, agora, se torna uma visão inventada gerando conforto naquilo que não entende.
Adentra dois, três, quatro passos, para.
O trio do lado de fora observa a mulher desaparecer na escuridão do outro lado da
porta, do lado de dentro, a mulher atônita contempla o embrionário ambiente, sente algo
subir pelo calcanhar, olhando para baixo a neblina rasteira impede a visão, ainda está a
procura de algo racional e racionalizável que propiciará da situação a apreensão. Caminha,
esperando através dos passos encontrar a esperada sala do apartamento, e que os outros a
ajudem a levantar pois certamente está tendo um derrame, mas, a realidade bate mais forte
que os devaneios, algo que não imediatamente derruba, mas faz gritar. Parada no meio da
caverna abissal olha na direção de onde a neblina parece nascer, é quando, vê a criatura,
grita, voz continua na garganta presa, está catatônica, procura a cadência da respiração, não
encontra, inicia sequências rápidas de expirações, artérias arrítmicas, diafragma contraído
batimentos cardíacos em elevada frequência. Braço esquerdo pesado. Falta de ar obriga o
corpo ao chão, ainda assim luta para manter a força das pernas sustentando a coluna o mais
ereta possível. O quanto possível é evita a queda, percebendo a inutilidade de vindouras
tentativas procura no chão algum ponto propício ao impacto.
Capitão é o segundo a cruzar a porta, da mesma forma é surpreendido pelo odor,
pela cor embrionária, pela aparência cavernosa do recinto, pelas criaturas minerais no chão,
pela névoa, pelo pulso, pela sensação de conforto e medo. Alguém grita. O grito tira
Capitão do torpor, percebe que estava sendo iniciado em alguma espécie de transe. Olha
para direção do grito que acaba de ser replicado, no chão, entrevista na névoa com os
braços sendo apertados contra o corpo, o reconhecimento da amada coloca Capitão em
estado de vigilância, com movimentos rápidos vira o pescoço com olhos precisos
escaneando o ambiente. Teme tudo o que neste momento está vendo, acima de tudo, teme
perder a amada. Percebe estar cercado por tentáculos que o tentam seduzir. O instinto de
sobrevivência é ativado, adrenalina banha o corpo, a temperatura sobe. Entre as poucas
ferramentas que tem procura as que acredita serem as melhores para a situação. Por um
instante lamenta a falta de armas mais apropriadas. Lamentação esvai, ação começa. Na
mão direita uma chave de fenda, na esquerda o pequeno crucifixo de prata que sempre
carrega no pescoço, parte em direção aos tentáculos.
Do lado de fora, no ordinário corredor, restam dois, ambos apreensivos trocando
olhares, procurando na expressão do outro alguma indicação do que fazer. Da mesma forma
que Judith, Capitão atravessa a porta e não é mais visto, silêncio e nada dito, nenhum som
ou palavra vem de dentro do apartamento, apenas o cheiro, selvagem como um pantano,cada vez mais forte. Enquanto o porteiro Jucino ainda pondera o que fará, a terceira a entrar
é Olivia.
No primeiro contato com o ambiente múltiplas percepções, cor, espessura, odor,
tatos e todos sentidos estupefatos buscando assimilar onde está e o que acontece. O
presente indubitavelmente real em sua sobrenaturalidade. No meio da cena encontra
Abelardo, alheio a nova configuração disparada pelas novas presenças. Olivia adentra a
caverna, desviando dos tentáculos e das estranhas criaturas no chão rastejando. Chega ao
amigo, ele tem o semblante leve e feliz, ignora todo o grotesco ao redor. Olivia de imediato
entende, Abelardo está hipnotizado, essa percepção lhe aumenta a urgência, carrega a
sensação da chegada em tempo, ainda existe a possibilidade de resgate, kairós a salvar o
amigo. Na certeza oportuna sacode os ombros de Abelardo, esperando a felicidade no rosto
de quem encontra salvação no vale de aflição. O corpo imóvel não responde ao sacolejo,
continua intactamente para frente olhando. Com as duas mãos volve o rosto do amigo na
direção dos olhos, o olhar não encontra outro, são meros olhos de onde o brilho foi sugado.
A nova impressão toma a anterior, a felicidade do encontro é recoberta pelo espanto
inequívoco da perda, kronos o irmão devora. Na língua ensaia palavras, procura o que
dizer, ansiosa aperta o rosto que nada expressa. Com as mãos tenta mover o corpo inerte
enquanto olhos lacrimosos contemplam o inferno. Dentro de si outra explicação não
encontra, ainda deseja o mundo sobrenatural, em nenhum momento preparada para isto que
depara. Um grande pássaro passa em voo rasante, é grande como um gavião, bico longo e
garras afiadas carregando os restos apodrecidos de um pequeno réptil, a ave voa até sumir
de vista em um horizonte curvado onde paredes e janela deveria haver, o ambiente parece
infinito, ao mesmo tempo, estreitando a visão, é formado por tentáculos sobrepostos, como
tecendo uma grande manta de tricô cobrindo a realidade. Fumaça branca toma o ambiente,
vem da direção da porta em sequência de jatos. A fumaça agita a criatura, que eriça os
múltiplos tentáculos transformados em grossos pares. Olivia vê Capitão lutando, com
golpes certeiros destruindo os tentáculos se desfazendo em plasma, sendo pelas ventosas
sugados, ficando mais fortes e agitados. Mais jatos de fumaça branca, é Jucino com um
extintor de incêndio, lutando como pode. Olívia percebe a urgência da situação, não são
páreos para o que quer que esteja acontecendo, precisam fugir, precisam fugir agora. Olha
para Abelardo, ainda imóvel, por mais que a agitação ao redor aumente, nada o afeta,
Olivia, o empurra com força enquanto grita, Precisamos sair daqui agora, você não entende,
precisamos sair daqui agora. Olivia puxa Abelardo que sem mostrar resistência anda pelos
fortes puxões sendo guiado para a direção onde Olívia acredita estar a porta, ainda que não
consiga vêla. Todo o ambiente parece furioso, por todos os ângulos coberto de agitação, os
tentáculos até a pouco harmônicos formando o tecido desta singular realidade, estão
eriçados agindo de maneira hostil. Um destes tentáculos, como um taco, acerta o dorso e
pescoço de Oliva. A dor da pancada é precedida por falta de ar enquanto é arremessada.
Passa voando por Jucino, bate a cabeça contra a porta, caindo sem consciência no corredor.
Está estirada, inconsciente, com a cabeça sangrando e o peito amassado, onde o impacto do
tentáculo três costelas quebrou.
No corredor apenas Jucino resta, está parado a dois passos da porta. Tem certeza
que algo estranho está acontecendo. Olha para a porta aberta, silêncio e escuridão, sente
medo, porque nada escuta, porque até agora ninguém se manifestou. Dois passos dados,
está no limiar, prestes a atravessar, decide apenas espiar, enquanto firmes mantém ficandos
os pés, estica o pescoço para do lado de dentro ver. O que vê faz com que rapidamente volteo pescoço causando desequilíbrio fazendo com que caia no chão do corredor.
Imediatamente levanta com um salto. Esfrega os olhos enquanto caminha, outra vez está no
limiar da porta, com os braços abertos segura as paredes do lado de fora, de maneira a
inclinar o pescoço mantém firme o corpo. Outra vez a cabeça atravessa o portal, desta vez
procura rostos conhecidos, logo encontra, Judith no chão desmaiada na névoa, Capitão
lutando contra os tentáculos com uma chave de fenda, os tentáculos feridos pela ferramenta
desmaterializam e deslizam para os vizinhos, deixando de ser múltiplos e bailarinos em
detrimento a poucos fortes e agressivos, Abelardo parece fora de si enquanto Olívia tenta
movêlo. Está tonto, atordoado e confuso, recua, volta para o corredor.
A diferença entre os ambientes é absurda. No corredor a confusão sensória some,
fora da caverna consegue pensar claramente, precisa fazer algo, pensa em chamar ajuda,
contudo, de algo imediato precisa. Olha para os lados buscando algum objeto ou ideia. A
carência de artefatos torna o extintor de incêndio a melhor opção. Outra vez atravessa a
porta, desta vez, com o extintor em punho investe contra a criatura. Aperta a alavanca,
liberando a fumaça comprimida tomando o ambiente. O susto é geral. Nenhum dos
presentes espera uma densa descarga de dióxido de carbono, nem mesmo Feelìx, o pequeno
duende curioso que pulou o basculante e agora foge assustado pelo mesmo lugar por onde
chegou. A criatura se agita. Em um golpe de vista Jucino vê por entre a fumaça passar
voando Olivia, mesmo com toda a turbulência sonora consegue ouvir o som do impacto da
cabeça na porta, o corpo em rodopio voa como uma boneca de pano. Continua a despejar o
jato do extintor, a pressão com que a fumaça sai agora é menor, sabe que em breve
necessitará de nova estratégia. As conjecturas são interrompidas quando quatro tentáculos
agarram as pernas e os braços. Sente as gelatinosas ventosas sem temperatura, sente a força
que aumenta ao redor dos membros, sente o corpo ser esticado em quatro direções
formando um x, sente afrouxar as articulações e os músculos estirar, por fim, sente o estalo
despresurizador quando os quatro membros são simultaneamente arrancados.Capítulo Cinquenta e Três, Antes que se movam os astros
Matzatea está irritada, até então delicadamente apreciava a refeição, agora, luta com
inconvenientes intrusos. Inicialmente tenta seduzir, usa o hipnótico ritmo para enfeitiçar,
salivante visa aumentar o banquete. A ação não é efetiva. Irá recorrer a violência. Não é a
alternativa que mais agrada. Para verdadeiramente se alimentar precisa tomar a alma e a
consciência, em longos bebericos, mastigar memórias, degustar todas as sutilezas que
constroem o eu. Quando mata humanos não enfeitiçados, pouco extraia do alimento, como
de uma fruta inteira saborear apenas a casca, todo o sumo, toda a energia perdida. Prefere a
comezaina do encantamento, entretanto, parte para a brutalidade.
O grito é inaudível ao sistema auditivo humano. Os tentáculos escutam. Estão de
prontidão. Deixam a rítmica do feitiço. Ganham rigidez. São muitos e agem
simultaneamente. A mulher que tenta roubar a refeição recebe o primeiro golpe, é
arremessada para longe, para fora, para além do campo de ação. Não é a intenção da
criatura, nos próximos ataques age com mais cautela para não desperdiçar por completo o
alimento. Faz uso de quatro tentáculos contra o homem disparando fumaça, puxa os
membros até os separar, usa as ventosas para sugar todo o sangue escapando, sem permitir
que qualquer gota seja desperdiçada, os tentáculos arremessam os membros para o interior
da boca, outro par se encarrega de trazer o restante do homem que desmembrado conserva
os olhos abertos.
O outro homem está armado, a arma é pequena e pouco afiada, ainda assim, o
suficiente para perfurar os tentáculos, que, uma vez vazados perdem a materialidade em
magma escorrendo para os tentáculos vizinhos. Estes novos mais fortes, da mesma forma, o
homem os consegue perfurar. É ágil e determinado, com uma mão maneja a arma, com a
outra segura a corrente que leva aos lábios em reza. Não percebe, três tentáculos estão
esgueirando rente ao chão encoberto pela névoa viscosa. Sobem espiralando pelas pernas,
puxam os membros inferiores derrubando o corpo do oponente. No chão Capitão ainda
tenta se levantar, não consegue, outros tantos tentáculos o envolvem, contornam o corpo
formando espesso casulo. Capitão sente cada milímetro do corpo pressionado, cada
folículo, cada membrana, cada célula, simultaneamente comprimidos. Os músculos
travados não conseguem alcançar o movimento em busca de oxigênio. Asfixiado os
sistemas param, sem ar e sem força Capitão desmaia. O casulo de cilindros escamosos
retorna ao interior da boca, onde o corpo é depositado próximo aos cadavéricos seres que,
indiferentes e alheios, continuam vagando em infinitos círculos.
Judith a custo sustenta um estado de semiconsciência após despertar, está fraca, uma
parte do corpo paralisada. Vê Capitão ser engolido por tentáculos, agora aguarda que
venham em sua direção. Oprimida pela certeza da morte. A bem da verdade, a tempos o
pensamento da morte é figura corriqueira, companheiro da velhice. Da morte fantasiou
situações, de acidentes catastróficos a circunstâncias banais, a que mais agrada é apassagem com Morfeu, um dia dormir, para não mais acordar. A morte no sono, sem dor,
sem agonia, sem questão, pura passagem. Agora tem a certeza da morte em um cenário não
imaginado. Queria o fim doce e tranquilo, todavia, tem a frente o infernal e hediondo, o fim
vivo e ancestral. O enxame de tentáculos a frente se ergue, Judith estufa o peito para o
último enfrentamento. Sincronizadamente assumem posição de ataque, em botes raicos uma
dezena avança para o baque.
Param.
Estão a poucos centímetros dos olhos, para a surpresa de Judith, começam a pulsar
compassadamente. Sutil coreografia. A bela dança cuja música é a respiração da criatura
sedutora, o ritmo traz lembranças infantis, festa junina e quadrilha, a irmã, o vestido azul
com rendas. As lembranças se multiplicam em cristais, em terceira pessoa observa as
incontáveis cenas nos quadros da memória, na mesma medida em que são rememoradas são
levadas pelas ventosas bailarinas. Domingo a tarde de um dia frio de novembro, tio
Eustáquio falando sobre o tempo Trinta anos atrás nessa época do ano era sol fervendo
noite quente. Emiliano é o nome do gato que a irmã ganhou de aniversário ao completar
nove anos. O mais triste velório, Maria Clara, tão nova, o nascimento de um sentimento, os
olhos chorosos. A rapidez dos dedos no curso de datilografia. Incontáveis memórias
formam o fractal infinito dançando em algum ponto exterior a pupila, imagens puxadas em
um rolo de filme feito de névoa e plasma. O medo da horrenda morte some, substituído
pelo desejo do doce fim. Procura forças para se levantar, é auxiliada pelos tentáculos.
Caminha vagarosamente rumo ao interior do execrável ente.
Abelardo nada viu dos recentes acontecimentos. Está encerrado no feitiço, vazio, as
memórias levadas, a consciência lavada, o que resta é a pura energia vital que mantém o
corpo.
Todos os tentáculos bailam no mesmo compasso, o ritmo é o tambor primal atraindo
a vida para o fim, o último desejo, o último prazer, para além do contorno do pélago
chamado eu, última gota da essência humana em sua forma ontogênica, uno que se atualiza
em cada um.
Cortejados e ciceroneados pelos tentáculos, os dois humanos adentram a dimensão
maldita, o interior da criatura que, gorgoregiando, recebe os novos inquilinos.
Matzatea está satisfeita. Saciada. Agora a força que mantém a forma primal começa
a esvair. O enorme dispêndio de energia precipita o retorno à forma prisional. Todo o
ambiente começa a ser puxado para o interior, brisa tragada pela boca pulsante sorvendo
toda a realidade, toda a atmosfera cavernosa, os estranhos seres, a névoa, todas as
partículas, divisíveis e indivisíveis, tudo é sugado para o interior através da boca que, aos
poucos, perde monstruosidade em detrimento a maciez almofadada.
Sala vazia, chão limpo, parede nua, nada além do aconchegante sofá
displicentemente encostado à luz da lua.Capítulo Cinquenta e Quatro, Os caminhos inconformados
Cléston está irritado enquanto pela janela observa a noite silenciosa, vez ou outra
cortada por um som distante. Não consegue dormir. A mente permanece remoendo os fatos
do dia. Conseguiu alguém, tão competente quanto, ou até mais, para preparar a
apresentação, entretanto, o que considera o desacato de Abelardo, continua martelando a
mente, Um absurdo, audácia tamanha, um reles funcionário ignorar o pedido de um
superior, ainda mais de tal garbo e importância como eu. Tem o ego ferido, narciso
arranhado, não consegue imaginar qualquer outra possibilidade além da clara afronta, Saiu
à francesa sem qualquer aviso, simplesmente deixou a tarefa, desligou o telefone, sem
preocupação com qualquer satisfação. Está inconformado. Insone persiste planejando o que
pretende dizer, não deixará impune tamanho disparate.
Começa a ficar preocupado com a reunião do dia seguinte, deveria estar dormindo
para acordar bem e disposto. Sabe que não adianta voltar para cama, será outra tentativa
frustrada. Pega o telefone, mais uma vez disca o número que imediatamente cai na caixa
postal, sem mensagem ou e-mail. De súbito toma importante resolução. Decide. Não irá
esperar para o dia seguinte, nos papeis procura o endereço, irá surpreender o meliante, no
ímpeto da ideia deixa o apartamento decidido a pôr um ponto final no desaforo.
Cruzando a noite o trajeto de táxi é rápido. Acaba de descer do veículo, na calçada
frente ao prédio, um carro de polícia está parado. Por alguns instantes Cléston observa a
situação, dois policiais conversando com um grupo de pessoas. De onde está não consegue
entender o que acontece, decide aproximar, discretamente passar andando, quando este
plano coloca em prática vê os policiais entrarem na viatura e partir. A pequena aglomeração
logo se desfaz para dentro do prédio, aparentemente formada por moradores.
Cléston, determinado a cumprir a decisão tomada, não vê qualquer relação entre a
viatura, a pequena aglomeração e o funcionário que procura, de maneira que, ao conversar
com o porteiro que, prontamente o receberá, ficará deveras estupefato.
Dentro do prédio Epaminondas está distraído com o celular quando depara com a
figura do lado de fora. Parece estar interfonando para alguém que não atende. Espera alguns
minutos. Passados, continua lá. Epaminondas deixa a mesa, caminha para o lado de fora,
desce os degraus levando ao patamar da rua por entre os jardins. A poucos metros do portão
diz, Boa noite.
Cléston vê o porteiro descendo as escadas, esconde a irritação, coloca o melhor
sorriso e responde, Boa noite.
Por alguns segundos em silêncio os dois se olham, é Cléston quem diz, Desculpe
incomodar em tão alta hora, estou tentando falar com Abelardo Fagundes. Neste momento
a fisionomia de Epaminondas muda, adquirindo traços mistos de surpresa, suspeita e
curiosidade, pergunta, E quem é o senhor. Sem mostrar qualquer desconforto com o tom
áspero da pergunta, responde prontamente, Desculpe os maus modos, sou Cléston Coimbra,
deveria ter me apresentado, sou gerente de controle contábil na Conta Conta Contabilidade,gerencio o setor onde o jovem Abelardo trabalha, hoje, acredito que tenha tido algum
problema, deixou o trabalho sem aviso, naturalmente, venho aqui em nome da empresa que
zela por seus empregados, preocupado que algo ruim tenha acontecido.
A fisionomia de Epaminondas muda, agora é de satisfação. Terá a oportunidade de
passar para um interlocutor interessado a história fresca, Acredito que o senhor realmente
não sabe o que aconteceu hoje, ainda a pouco. Cléston estranha a maneira como o homem
coloca a questão, Acredito que não, me diga. Com olhos carregados de satisfação o porteiro
se aproxima molhando os lábios com a língua, passa a mão no canto da boca tirando um fio
de saliva, aquece a garganta, começa a contar, Veja só, mais cedo, era fim da tarde, Jucino,
o porteiro que fez hoje o turno do dia, me ligou, dizendo para eu me apressar que ele e dona
síndica estavam resolvendo um problema, o problema era justamente com seu Abelardo,
parece que uma jovem, que a propósito o senhor deve conhecer, contou que trabalha nessa
mesma empresa. Cléston como em um reflexo coloca a pergunta que interrompe o relato, E
qual o nome desta Jovem. Epaminondas apressado em volar para a narração apenas diz,
Isso não sei. Outra vez a rápida pergunta impede a continuação da história, Como ela é.
Agora com tom de voz firme responde de maneira a deixar claro que não agrada ser
interrompido, Também não sei, não cheguei a ver. Cléston percebendo as intenções
envoltas no tom da resposta apenas comenta, Tudo bem, prossiga. Por alguns segundos
Epaminondas aguarda, tendo certeza que não será interrompido retoma o fio do
pensamento, Certo, quando cheguei, Jucino foi procurar o Capitão, que é chaveiro, para
abrir a porta do apartamento, a garota estava com medo que Abelardo estivesse passando
mal, ou coisa que o valha, e como não atendia porta e telefone, todos ficaram preocupados.
Neste momento o narrador fica em silêncio, experimentando um sentimento de tristeza que
Cléston não percebe, confundindo a pausa com a espera para um desfecho cômico, diz
procurando antecipar a piada, E então, encontram o rapaz de cuecas vendo televisão.
Epaminondas permanece sério enquanto fala, Antes fosse, alguma coisa estranha
aconteceu, isso eu te digo, não foi coisa boa, fiquei na recepção enquanto subiram para
entrar no apartamento, lá pelas tantas para na rua um carro de polícia e segundos depois
uma ambulância, recebo os dois policiais dizendo que haviam sido chamados por um
vizinho do andar, quem chamou a polícia foi seu Rubens, escutou uns barulhos estranhos e
quando abriu a porta para ver o que era se deparou com um corpo ensanguentado no
corredor. Pela primeira vez Cléston entende que há algo mais além de seus próprios
problemas, ainda que seja doloroso chegar nesta conclusão, pondera que talvez, e apenas
talvez, os motivos de Abelardo nada tenham a ver com as pretensões do chefe, espantado
sem conseguir conter a voz esganiçada diz, Como assim um corpo ensanguentado.
Epaminondas respira fundo, continua o relato, Assim mesmo, ele voltou para dentro de casa
e imediatamente ligou para policia, e sabe quem era, a garota. Cada vez mais espantado
Cléston pergunta o que já entendeu, É a garota da empresa que veio procurar Abelardo.
Epaminondas confirma com a cabeça e continua, Ela mesma, e aí as coisas só ficam mais
estranhas, eu subi com os policiais, a pobrezinha estava torta na poça do sangue que
escorria pela testa, chegaram os bombeiros, eles levaram a garota, ainda viva, mas muito
ferida, fora ela, ninguém mais foi encontrado, o que é muito estranho mesmo, o garoto
sumiu, Capitão sumiu, dona Judith sumiu, e ninguém sabe de nada, só te digo uma coisa,
um troço ruim aconteceu, já tem fofoca, já tem a até gente dizendo que os três planejaram o
crime, outros discordam, e mil versões já apareceram, eu, não sei de nada, só sei que isso
tudo é estranho, a polícia olhou tudo e não achou nada suspeito, depois até entraram noapartamento da dona Judith, e lá tava tudo normal, e ai eu te falo, se ela fosse fugir iria pelo
menos uma mala levar, ainda mais ela que anda toda emperequetada num ia sair por aí só
com a roupa do corpo, só te digo uma coisa, aconteceu um troço estranho, e só de pensar
fico arrepiado.
Em silêncio os dois se olham, Cléston fica quieto, procurando digerir a história.
Epaminondas continua, Pois é, a ambulância foi embora, os policiais ficaram, reviraram o
apartamento do Capitão também, sei nem se eles podiam fazer isso, mas alguém tinha a
chave, e não encontraram nada, parecia tudo normal. Outra vez silêncio, profundo e
pensativo enquanto ambas as partes vagam em próprios pensamentos, Epaminondas é o
primeiro a colocar o que pensa, E tem outra coisa estranha, que não entendo, sabe, eu
conheço o Abelardo, é gente boa, mora sozinho, de vez em quando me chama para ajudar
em alguma coisa, sabe como é, fiação antiga, de vez em quando aparece um problema
elétrico, e lembro bem como era a sala dele, simples e limpa, com cara de solteiro, mas ai,
hoje, enquanto tudo acontecendo, reparei numa coisa, a sala, completamente vazia, só um
sofá, grande e bonito, de muito bom gosto, mas fora o sofá a sala tá um grande vazio, nada
no chão, no teto, nas paredes, nenhum outro móvel, antes, semana passada mesmo, lembro
tinha uma mesa, e cadeiras e uns quadros na parede e uns retratos, mas agora lá não tem
nada, nada além do sofá, fora ele o ambiente parece tão vazio que dá até arrepio, eu, não sei
direito o que, só sei que a sensação é de que alguma coisa ruim aconteceu ali.
Cléston assimila recentes informações, chegando a um estado de tristeza e pena que,
tão logo, é superado por fortes sentimentos egoicos retornando a raiva pelo subalterno
fujão. Permanece procurando entender como alguém pode ter ido tão longe apenas para
fugir de uma tarefa. Pensa que, O rapaz deve ser mais esperto do que parece, surpreendente,
enganou até a polícia. O pensamento linka uma ideia, dirige a palavra a Epaminondas, Me
diga, este prédio tem outra entrada além desta. O porteiro percebendo o rumo da pergunta
responde, Não senhor, apenas aqui, o prédio não tem saída nos fundos, o único portão é
este. Cléston coça a sobrancelha juntando ideias, Certo, mas devem haver câmeras.
Epaminondas sorri, satisfeito por encontrar respostas rápidas mantendo a conversa
interessante, Sim, a entrada, a portaria, os elevadores, possuem câmeras, algumas, inclusive
a polícia levou os registros, mas te adianto, duvido que eles encontrem alguma coisa, eu
mesmo achei estranho esse sumiço, fiquei aqui enquanto eles lá em cima estavam, não vi
ninguém passar, depois, ficou um policial na entrada quando os outros subiram, ele não viu
ninguém sair, não entendo. Cléston com as peças que tem, monta um quebra cabeça com a
imagem que deseja, sente que está próximo de desvendar o mistério que nem mesmo a
polícia solucionou, e este pensamento lhe enche de orgulho enquanto diz, Eles não
conseguiram sair, exatamente, certamente ainda estão no prédio. Epaminondas sorri sem
concordar, Acho isso difícil, pois reviramos os apartamentos deles, inclusive com a polícia
junto, e ainda, os policiais bateram na porta de uns quantos moradores, ninguém nada viu,
nada sabe, de um cima a baixo o prédio foi revirado. Epaminondas termina a história
acentuando a última frase com a cabeça balançando negativamente
Os dois se olham. Cléston está confuso. Procura entender, organizar os
acontecimentos de maneira a gestaltiar um tudo de fatos. No momento o relato do porteiro é
recebido como fragmentos. Quando a pouco tomou as ruas da cidade para tirar satisfações
esperava encontrar o jovem rebelde no sono saboroso daqueles que desafiam os mais fortes,
entretanto, agora, tem notícias de um cenário completamente diferente. Por um momento
ejeta da consciência os pensamentos que se debatem. Mais do que palavras precisa verificarconcretamente, ainda acredita que o rapaz está no apartamento, sorrindo zombeteiro da
peça pregada, enganando moradores e as autoridades. Cléston está de tal maneira obstinado
com a situação que olvida todas as partes da história que não corroboram com as próprias
considerações. Os outros sumiços e o corpo ensanguentado somem da mente deixando
apenas a persistente ideia de vingar o desaforo recebido.
Epaminondas recebe de bom grado a sugestão de Cléston, subir no apartamento
para averiguar possíveis pistas, buscando elucidar os fatos, Epaminondas diz enquanto
acompanha o novo conhecido em direção ao elevador, É no sétimo andar, você logo vai ver,
no fim do corredor a porta aberta, eu tenho que ficar aqui embaixo, só vê se não demora.
Capítulo Cinquenta e Cinco, Desfechos antes do sono
No sétimo andar as portas do elevador abrem. Revelando manchas de sangue
secando no chão. Cléston cruza o corredor rumo à porta aberta. Está dentro do apartamento,
a primeira impressão do ambiente é hostil e aconchegante, reflete amor e medo, desejo e
destruição, é o máximo de exterior que pode ser uma imagem íntima.
Com passos precisos busca andar em silêncio, vasculha o apartamento, um a um
esquadrinha cada canto de cada cômodo. Aborda todos os lugares, dos óbvios aos
inusitados, debaixo da cama, atrás da cortina, dentro do guarda roupa, possíveis passagens
na parede, tateia, pensa, move, nada encontra. Nem rastro nem alguém. Desapontado
começa planejar o retorno enquanto a sala volta. O vazio e o sofá. Lembra das palavras do
porteiro sobre um sofá de muito bom gosto, De fato um bela peça, sedutora e exagerada,
uma peça perfeita para uma sala atraente com boas bebidas, não aqui. Estranhamento alerta
a mente. Não faz sentido, O sofá está fora de seu ambiente, não há construção lógica que
aqui o coloque.
Um movimento é visto, Cléston percebe as almofadas mexendo, lenta e
silenciosamente caminha, agora, a medida que do sofá se aproxima, escuta um leve ressoar,
como uma longa respiração, sons de um sono pesado, grave e alongado expirado seguido de
duas pausas. Cléston tem a prova cabal, é inegável, não há senso ou sentido que o contrário
exponha, nem resquício de dúvida que altere uma percepção imediata, quando, no repentino
rompante de luz que faz nascer as epifanias, conclui em alto brado, O salafrário está
escondido dentro do sofá, você enganou os vizinhos e a polícia, não a mim, irá acordar as
esganadas. Na raiva da situação Cléston mergulha no meio das almofadas com as mãos
estendidas.
Sois, luas e planetas, órbitas e movimento. Astros um dos outros longínquos, forças
descomunais extensivas mesmo a remotas distâncias, ubiquidade. Neste planeta cujos fatos
narrados estão a acontecer, uma conjuntura específica abre na janela das dimensões a
presença da entidade que, à medida que determinados astros de determinados alinhamentos
se distanciam, volta a forma prisional onde ficará até que o próximo evento astral ocorra. Já
não tem a forma poderosa que a recentes horas ostentava, em pouco pleno sofá será, noentanto, em um último esforço executa uma última ação, escancara a boca almofadada para
receber a inesperada sobremesa.
A criatura tosse. Está engasgada, Cléston está preso na garganta retornada a
estofado e tecido. O corpo bestial luta contra a força prisional. Parece que vai cuspir, em
um último esforço consegue engolir. Tão logo Cléston é deslizado para o interior de
Matzatea, o feitiço volta a ter plena jurisdição, toda forma sobrenatural encerrada na
pequena caixa, protegida por selos e pelas bentas madeiras formando o esqueleto do
encantador sofá. O ambiente está completamente vazio, exceto, pela aconchegante peça
displicente a meia luz da lua a convidar.
Coda
Quando uma bela probabilidade banha angulosos espaços em sobrepostos tempos, a
luz do sol em estado de graça ilumina em múltiplos tons degradê, tonalidades laranja,
matizes avermelhadas, tons que fogem ao púrpura, pitadas verdes flexionadas pela copa das
árvores formando o teto furado por onde as cores do espetáculo ao chão chegam. Andando
a passos miúdos vai Olivia. Hoje completa um mês que deixou o hospital. Foram quase três
meses, exatos oitenta e quatro dias de coma. Lembra o dia em que do coma saiu, acorda,
meia luz no quarto desconhecido, cama desconfortável, dores no corpo, nada familiar até os
olhos encontrarem a mãe aos pés da cama. A expressão da mãe explode na mistura de
felicidade e espanto que surge nos rostos de fé quando as orações são atendidas. Os gritos e
as aleluias atraem outros ao quarto onde a senhora pula de braços abertos na filha deitada
sem entender o que está acontecendo ou onde está. A agonia dos primeiros minutos.
A mente volta para rua onde caminha, o sombreado das folhas no chão, o barulho
dos carros, a pressa dos passantes, o mundo ainda é estranho. Aqui, a palavra ainda é
colocada para expressar a nova gama de sentidos e sentimentos pós coma. Tem evitado
espelhos, a imagem refletida não reflete a memória na qual o mais intimo eu se refere. São
olhos estranhos, pupilas perdidas no lago íris, solilóquio de cópia imperfeita, sente o que é
ser de si mesma simulacro. A calçada termina no asfalto onde os veículos atravessam o
sinal verde e pedestres aguardam. Enquanto espera o semáforo observa os outros alocadosna mesma situação. Nestes minutos tenta pelas expressões adivinhar seus pensamentos.
Quando as luzes mudam volta ao ritmo das passadas, as pernas ainda doem, nos primeiros
dias a dor é pior, agora, é prazerosa a aflição dos músculos depois de tanto imóveis. É
estranho pensar, sobre o coma, todo tempo deitada na cama do hospital. Na experiência
sente como uma noite mal dormida. Como acordar de ressaca, o corpo doi, a cabeça lateja,
as memórias são confusas, Malditas memórias.
Não foi imediata a lembrança, passados os dias surgiram como peças a se encaixar,
corroboradas pelas noites, onde, sonhos com a hedionda criatura repetem a cena final, os
olhos sem vida de Abelardo e a pancada. A última imagem é o ângulo aéreo atravessando o
recinto com o corpo em posição horizontal, neste momento, duas imagens aparecem
sobrepostas, uma é a caverna ancestral que se confunde com a besta, estranha fumaça
espessa ora incolor ora tons pulsantes cercando mil restos rastejantes de vida suspensa e
tentáculos de fumegantes ventosas. A outra, o apartamento de chão e paredes, em tudo
correto a percepção humana. O voo termina com o impacto. Não sente dor. Dorme. Sem
sonhos, pelos menos daqueles que é possível lembrar. Acorda. A mãe chora, uma médica
ausculta, policiais perguntam. Ninguém acredita.
A polícia tem tratado o ocorrido como crime. Na voz do delegado responsável
, Um crime peculiar, não sabemos ainda exatamente que tipo de crime foi cometido.
Temos uma vítima de agressão e quatro desaparecidos. Nada roubado, nada sumido. A
única testemunha ocular sofreu traumatismo craniano e ficou em coma, agora tem
apresentado pensamentos delirantes. Outra testemunha, o porteiro de plantão na noite em
questão, afirma ter todo o tempo permanecido em posto sem ter visto qualquer movimento
suspeito. Até agora sabemos que o morador do apartamento, onde é a cena do crime, deixou
o trabalho passando mal, a agredida, colega de trabalho, após o expediente foi averiguar o
estado de saúde do dito. Acreditamos que, tendo passado mal dentro do apartamento, foi
necessário a ajuda de um chaveiro, que, juntamente com a síndica, um porteiro e a
agredida, todos visando o bem do indivíduo, se incumbiram do salvamento. O sucedido
ainda não temos exata certeza. Trabalhamos com algumas hipóteses e poucos fatos. Outras
perguntas serão respondidas quando no decorrer da investigação surgirem novidades.
Os padrões da rua mudam à medida em que a caminhada continua. Deixa o sol
banhar a face, os olhos cerrados controlam a luminosidade, a calçada reflete pensamentos,
deixando andar a raiva e a frustração oriundos da descrença de todos. Das autoridades aos
familiares, ninguém acredita na versão dos fatos que possui. Tomaram por consenso levar a
história como fruto do golpe que trincou o crânio e iniciou o coma. Sozinha na versão cuja
única testemunha é. Cansada das reações nada mais conta, frente às perguntas apenas diz,
De nada lembro. O que de pronto é aceito, com misto de pena e compreensão. Entretanto.
Não está satisfeita. Sabe o que aconteceu. As memórias retrocedem aos últimos momentos
com Abelardo, as últimas conversas, a última visita. Ouviu as histórias sobre o sofá, viu a
hedionda criatura, sabe, que, se alguém pode lançar esclarecimento, esse alguém é o
homem que presenteou Abelardo com o sofá, sabe, o senhor que por Ramon Ruiz atende, é
perigoso. Tem por certo e claro que o amigo foi enganado, vítima da trama do comerciante.
Tem um plano, simples, irá visitar a loja de Ramon, olhar, conversar, se informar, não
conhece o velho e, da mesma forma, conhecida não é, dois estranhos, vendedor e cliente.
Pássaros apressados, passos apressados, da calma foge o dia, como vazio é o último olhar
de Abelardo, ainda que, ali ainda estivesse, volta a refletir, pensamentos intrusivos, tanto
quanto elucidativos, remoendo se algo mais poderia ter feito. Algo como um fim, um fimque não acontece pois jamais irá acabar, o paradoxo da condição humana, parcela finita
dentro do próprio infinito, nada irá acabar pois a todo instante tudo acaba. A fatalidade nos
olhos, pondera o que o amigo terá de positivo, ou vantajoso, visto, para afirmar essa outra
realidade. Olívia entre ponderações passadas alguns pontos de certeza encontrou, entre
estes tem por indubitável o desejo de Abelardo, Ele se entregou voluntariamente, ainda que
tenha sido seduzido, enganado na medida que a paixão sempre engana o apaixonado, mas
ele sabia, já tinha entendido, ele sabia. O pensamento é cortado pelo barulho estridente da
sirene de uma ambulância passando, pensamento silenciado, retornando de outra maneira,
levemente espantado enquanto Olívia tenta com a ponta dos dedos apenas levemente tocar
o fim, encontra apenas o agora. E agora, está quase chegando no destino planejado, com a
certeza de controlar eventos próximos, simultaneamente, timidamente desviando de outros
destinos, que não conhece, que não entende, mas que, acima de tudo, agora sente, pode ter
certeza, tem a certeza, o que viu, o que sentiu, agora pode falar de igual para igual com o
avô, e tem certeza, ainda que prefira ocultar os detalhes do ocorrido, irá veementemente
defender o avô quando contando histórias duvidarem, já que ele não está aqui, disso
também tem certeza, tem o descanso merecido das almas que nesta jornada terrena foram
boas. Para outros, outros destinos, retorna a imagem da criatura, pondera sobre o que terá
aos outros acontecido, desaparecidos apenas, qual deles o destino entre os destinos
intrincados ou apenas resvalados, agora distinto, onde reside a categoria outorgada por
sinto, uma rua.
Pela descrição de Abelardo sobre o caminho percorrido no dia de chuva, está na rua
do antiquário, diminui o passo, olha atentamente as vitrines. Lustres, tapeçarias, móveis,
quadros, relógios, pêndulos, na sucessão de mostruários um específico faz soar atenção.
Um quarto de leitura, de um lado a estante com livros e estatuetas ao lado do divã de
ondulado sísmico e veludo marrom, no centro a escrivaninha de boticário onde a bela
cadeira acaju espera ocupante, o alongado abajur ilumina o ambiente, deixando em meia
penumbra o grande urso pardo empalhado com uma enguia na boca. Olivia está parada, tem
certeza, o lugar encontrou. Por alguns minutos espera, através do vidro procura averiguar o
interior, ver algum movimento, expectativa de que a qualquer momento o ancião irá
aparecer. Ramon Ruiz não aparece. Olívia decide entrar.
Dentro do antiquário Ramon Ruiz e Ukobach conversam. Julgado e condenado,
Ukobach foi banido e teve as fontes de seu poder tomadas, no mundo humano anda
escondido, fugitivo procurando restaurar a antiga glória, hoje procura o velho conhecido,
tenta barganhar ajuda. Ramon Ruiz está hesitante, não gosta de problemas, e, um exilado é
problema, ainda mais um que tornou inimigo poderosas entidades. Sabe com os anos e
experiência que os assuntos de determinados seres são intocáveis, recebe de mal grado a
visita e os argumentos de Ukobach. Ainda mais no presente momento, apesar do evento
cósmico envolvendo Matzatea ter ocorrido da forma planejada, no dia seguinte, quando os
carregadores foram buscar, não encontraram o sofá. Pelo averiguado, até tarde naquela
noite o sofá esteve dentro do apartamento, as fotos tiradas pelos policiais comprovam, no
entanto. Misteriosamente o sofá desapareceu, e isto tem torcido a cabeça de Ramon Ruiz.
Envolto nestes pensamentos ignora o que o visitante diz, é neste momento que a porta é
aberta e Olívia entra.
Ramon Ruiz move seriamente a cabeça, Ukobach sem pestanejar responde
afirmativamente enquanto se esconde. O ancião vai em direção a humana. Coloca no rosto
o melhor sorriso e diz, Bom dia, seja bem vinda.Recebida pelo gracejo Olivia responde, Bom dia. O dono do antiquário continua,
Sou Ramon Ruiz, feliz proprietário deste bagunçado recinto, posso ajudar, apenas me diga
se procura algo em especial, ou, apenas, algo especial. Olivia por um breve período pensa
na melhor maneira de proceder, decidido o caminho diz, Algo para minha sala, ela está,
como posso dizer, pouco confortável, outras lojas olhei, nada me agradou, quero algo que
convide o corpo ao descanso, ainda que, não seja exatamente o que procuro, o divã na
vitrine pareceu próximo do que quero, poltrona ou sofá. Ramon Ruiz sorri, Estou convicto
que acharemos algo, irei mostrar o que tenho, aceita uma xícara de chá, termina a frase
perguntando. Olivia responde afirmativamente.
Ramon Ruiz vai até a pequena copa onde a chaleira elétrica ferve a água para a
infusão. Encontra Ukobach estupefato. Uma reação inesperada, Ramon pergunta, O que há
com você. A resposta é surpreendente, Aquela que acaba de entrar possui uma marca, ela
enfrentou um dos herdeiros de Ryl. Ramon incrédulo encaixa as questões levantadas e
ainda incrédulo diz, A humana que acaba de entrar, possui uma marca. Ukobach sussurra de
maneira firme, Sim, ela, tenho certeza, é a marca, ela sobreviveu ao encontro.
Ramon Ruiz vagarosamente retorna a visitante, neste tempo procura assimilar a
informação recebida, em todos os anos vividos, apenas um humano conhece que ao
encontro com um dos herdeiros de Ryl sobreviveu, reflete em voz alta, Deve ser alguma
feiticeira, disfarçando a forma como simples humana, uma pausa na fala e no pensamento,
obtendo o espaço para a epifania sair dos lábios em riso, Nada disso, sei quem é. Neste
momento vem à memória as imagens do noticiário sensacionalista mostrando imagens da
jovem em coma.
Retorna com uma grande bandeja de prata de onde oferece chá e pequenos brioches.
Olívia pega a xícara onde o líquido de espesso odor é despejado, não tem intenção de beber,
sente o calor passando para os dedos através da porcelana quente enquanto aparentando
distração anda pela loja. Ramon Ruiz acompanha, na maior parte do tempo em silêncio, vez
ou outra emitindo algum comentário sobre algo no campo de visão.
Estão parados, frente a tapeçaria estendida entre duas hastes, tem um metro
quadrado, representa um homem vestido com um tipo de armadura formada por quadrados
de ouro no mesmo padrão que os desenhos tatuados no rosto, cavalga um ser cujo corpo é
de gato mourisco, a cabeça de águia e o rabo são duas jararacas. Olivia está encantada com
os padrões e a expressão no rosto do homem. É Ramon Ruiz quem diz, Este é Tupa Yogoco
um feiticeiro do início dos tempos, o nascido entre dois oceanos, percorreu o mundo, em
diferentes continentes protagoniza lendas e histórias. Salvou impérios, outros destruiu,
amansou feras, descobriu as propriedades botânicas de diversas plantas, fabricou remédios
e poções, cujas receitas dividiu com os humanos, derrotou monstros, toda sorte de
poderosas criaturas, e, aquelas cuja imortalidade não permitia a morte, aprisionou.
Olivia está atenta à fala do ancião, é com espanto que recebe a seguinte afirmação,
A criatura cujo encontro você sobreviveu, foi aprisionada por Tupa Yogoco. Todas as
informações giram no vórtice que constroi a mente, frustrado o plano inconspícuo percebe
como foi tola a pretensão, encara os pesados olhos antigos quando pergunta, Como sabe
quem sou. Ramon Ruiz sorri, sem desviar o olhar, Digamos que poucas coisas a um velho
escapam, se tenho o palpite acurado, vem em busca de luz.
A escolha de palavras deixa Olivia atordoada, tanto sentido faz, luz, necessita de um
ponto claro onde possam habitar as ideias. Desacreditada por todos, o que procura é
esclarecimento e compreensão, compartilhar o ocorrido, conversar com alguém que saibaser verdadeiro o que diz. A frequência do que sente é distorcida, na mente pesca frases, Vi a
criatura, o âmago monstruoso da morte, o cheiro pútrido, a fumaça sulfurosa, os tentáculos
pulsando apetite.
Silêncio.
Neste momento algo perpassa o corpo. O silêncio permite a percepção de todos os
micro sons que escapam à experiência rotineira. Como todo tempo é habitado por falas e
ruídos, o silêncio causa espanto. O ventilador desligado quando o volume das hélices havia
sido esquecido. Mil sons percorrem o interior da loja, o ranger da madeira, o trinar dos
lábios, o trinido causado pelo corpo sem matéria dos fantasmas ao atravessar superfícies
sólidas, o guinchar dos roedores, os sons de chocalho seco produzido pelas lepismas se
alimentando de celulose.
Olivia tem outra vez a sensação cada vez mais comum nos últimos dias, atravessa o
espelho onde o novo eu protagoniza, onde a certeza habita a fronteira da sanidade. Sente
desconforto frente a confortável presença do ancião, que, Olivia acertadamente já não mais
vê como humano. Ramon Ruiz é quem diz, com voz modulada de maneira fraternal, Sim
senhorita, a visão da escuridão te radia os olhos, deve estar farta do mundo, cegos, felizes,
esforçados na manutenção dos antolhos da percepção, ignoram tudo aquilo que os foge a
zona de conforto, chamam de delirante a concreta descrição dos fatos, sem dúvida, seus
olhos afirmam, veio em busca de luz, veio em busca da luz vista quando nas trevas com as
trevas lutou.
Olivia nada diz. Tem a clareza do encontro fortuito e o medo inexorável que
acompanha o destino. Nada diz. Não tem o que dizer, palavras fogem, as seguradas são
pueris, falam de monstros e fantasmas, cenas passadas retornam, o instante atualiza
experiências antigas até então isoladas das pulsões, ecos de memórias aparentemente
esquecidas retornam, descalça caminhando sobre os cacos de vidro do espelho quebrado.
Em sua extensa sabedoria, Ramon bem os humanos compreende, empático
acompanha o silêncio, quando, um pequeno ruído vindo de algum lugar do interior da loja
traz a lembrança do visitante. É uma questão que não pode postergar, mantendo o novo
tom, educadamente diz, A senhorita terá que me desculpar, infelizmente, hoje, é uma má
hora, não tenha dúvida, muito gostaria de alongar este colóquio, entretanto, há algo que me
necessita.
Olívia recebe as palavras com compreensão, os caminhos neurais se adaptam a
sugestão, sente a necessidade de ar fresco, o ar viciado do interior da loja é leve incômodo.
Ramon faz com a mão direita a cortesia indicando o caminho enquanto a coluna reta se
curva com os olhos fixos no chão. A reverência, de uma forma estranha e afetuosa, é
graceja. Com um sorriso, Olívia agradece enquanto segue o caminho em direção a porta.
Ramon convida, V olte amanhã, prometo que estarei em completa disponibilidade. Olvia
apenas sorri, os dois riem quando se despedem, um, volta para o interior da loja, a outra
sente o sol tocar a nova face.
Ramon Ruiz tranca a porta de entrada, com a loja fechada procurando assimilar
todas as preocupações. A recente visita é surpresa, mas não inesperada. Acompanhou as
notícias sobre a saga da moça, agredida em um estranho crime, em coma por várias
semanas, chegou a pensar que talvez viesse procurar a loja, entretanto havia esquecido, hoje
pego de surpresa, detalhes a serem considerados em outro momento, agora, algo de maior
urgência demanda atenção, pensa no visitante escondido no fundo do antiquário, trazendoquestões delicadas, importuno e perigoso, Ramon enquanto anda reflete na melhor maneira
de declinar os pedidos de Ukobach, sem de nenhuma maneira ofendêlo.
Neste mesmo tempo, em outro espaço, poucos metros próximo, seguindo pela
calçada do lado de fora do antiquário, outro ser tem o humor pleno e repleto de todas as
fontes redoriais. Olivia sente a ponta dos dedos esbarrar nos sentidos ocultos que energizam
o mundo. Por alguns segundos lembra das missas na igreja frequentada quando criança, os
hinos, a concentração na palavra, agora em similaridade lembra, o estado em que se
encontra é paralelo a beatitude dos santos e santas, compreende, algo simples e triste,
melancolia da certeza, olha a simplicidade do mundo e consegue ver alem, olhos abertos,
enxergando o tecido da existência, sentimento com aquilo que para além se procura religar.
Desentender as coisas para entender a vida, a solidão compartilhada no âmago amargo da
humanidade, de tudo aquilo que por existir tende ao fim, Chegará o momento que tudo irá
acabar. E assim, tal pensamento alívio lhe traz, na esperança da finitude antever o descanso,
lhe permitindo neste instante leve seguir pelo sol, em direção a próxima esquina, onde irá
virar a esquerda, para um inusitado destino encontrar.
não
gosta de contar, mas tem inveja da terra, mais precisamente, inveja esta atmosfera que
tantas peculiaridades a vizinha confere, e quando lá do alto a lua observa o mundo
terráqueo, faz o possível para ser sentida, o possível para ser vista.
Entre os seres que neste momento a lua observam, está o jovem humano Abelardo,
sentado na poltrona desconfortável do ônibus em movimento, com os braços cruzados
distraidamente olhando para o céu, trocando olhares com a lua enquanto o velho ônibus da
linha quatrocentos e quatro corta acelerado as ruas da zona norte do Rio de Janeiro. A visão
da lua é interrompida pelos prédios obstruindo a imagem do firmamento, o barulho do
trânsito, o engarrafamento ordinário de cada dia, massa lenta rumando ao labor. Trajeto
arrastado e truncado, o pescoço pesado, por vezes Abelardo dormita, acordando com o
solavanco de uma freada brusca entre a orquestra disfônica de buzinas e xingamentos
quando um motoqueiro após bater com a perna no retrovisor de um carro perde o equilíbrio
quase caindo na frente do ônibus freando bruscamente a poucos centímetros do impacto, o
motoqueiro mostra o dedo para o motorista furioso rebatendo com longas buzinadas e
impropérios, tudo dentro da mais perfeita normalidade.
O ônibus está cheio, todos os lugares ocupados, acima da capacidade os passageiros
em pé espremidos procurando espaço, procurando abrir um corredor em direção a saída.
Abelardo deixa a janela, olha para dentro, aliviado por sempre conseguir um lugar sentado,
vantagem de morar próximo ao ponto final, é um dos primeiros a entrar, garantindo um
lugar na janela do lado direito perto da porta de saída.
Parada solicitada, chegada a hora do desembarque, Abelardo levanta, com outros
que no mesmo ponto descem, no começo do aterro do Flamengo. Abelardo se mistura a
massa de homens e mulheres, em ternos bem passados, em uniformes de redes de fast food,
em trajes militares de serviço público, variadas idades cores tamanhos jeitos aspirações em
tudo diferentes, em quase tudo, em comum a expressão desanimada do acordar contrariado
que só aqueles que todos os dias pegam ônibus sentem. Nessa massa em movimento
Abelardo espera o sinal, para atravessar o aterro até o canteiro de onde as passarelas passam
por cima das vias rápidas onde o trânsito segue ininterrupto, repara no caminhão da
prefeitura com os farois piscando enquanto um homem faz sinal para desviar os veículos
durante o tempo em que dispõe cones fechando uma parte da rua, o caminhão tem uma gruaoperada por um trabalhador com um lata de tinta e um grosso pincel, um homem de longos
bigodes e grossas sobrancelhas vestido com colete e boné verde e amarelo, pintando de
verde e amarelo cada poste ao longo da longa avenida, nesse momento ele longamente
suspira, alongando o desejo com a lembrança de um dia à toa, os passantes na passarela
destes detalhes não sabem, sem prestar atenção seguindo em marcha. Hoje é quinze de
março de mil novecentos e noventa e quatro, na semana que vem, no feriado de primeiro de
abril, será comemorado o aniversário de trinta anos da Revolução Militar. Assim como
Edilson Souza, auxiliar de serviços externos e paisagístico da prefeitura do Rio de Janeiro,
tantos outros trabalhadores empenhados estão na ornamentação da cidade, avenidas e ruas,
prédios públicos e privados, o sentimento patriotico toma conta da nação.
Parece não haver forma de escapar das rédeas decorativas do verde e amarelo.
Ainda que as comemorações da revolução não sejam unanimidade entre pares da nação,
outro detalhe contribui para o nacionalismo, esse sentimento, bem mais forte e vigoroso
que a política, é ano de Copa do Mundo. Parece não haver forma de escapar das
bandeirinhas e faixas, e mesmo os modernos prédios da orla do Flamengo exibem a
indumentária com as cores da pátria. Em um destes edifícios modernos recém construídos,
ocupando cinco andares, está localizada a Conta Conta Contabilidade. No vigésimo
primeiro andar está o setor de Conferências Contábeis. Cléston Coimbra, gerente geral do
setor de Conferências Contábeis da Conta Conta Contabilidade, tem orgulho de manter um
ambiente, abre aspas, Descontraído e produtivo, fecha aspas, uma das medidas, pelo
gerente geral tomadas, a qual se diz que, quiçá a melhor medida já tomada, foi a reforma da
antiga cafeteria do andar em um ambiente aconchegante e descontraído com cafeteiras
novas e variados quitutes açucarados. Neste momento, quase às nove da manhã, Cléston
ainda dorme, não gosta de chegar cedo, ainda assim o nome do gerente é evocado, por
Jefferson, que neste momento deixa escorrer pelos lábios o café quente tomado em grande
gole na tentativa de engolir um pedaço de sonho entalado na garganta, tosse, o pedaço
cheio de creme volta para boca, dessa vez é mastigado antes de ser engolido. Abelardo de
longe presencia esta cena enquanto outros companheiros de escritório riem e Jefferson
vermelho do engasgo volta ao assunto, agora feliz em ter plateia para ouvilo.
Abelardo gostaria de um café caso tanta gente na cafeteria não houvesse, situação
essa que em breve será instalada, enquanto isso, segue para a baía vinte e um, cubículo
melancólico e asséptico, onde na confortável cadeira senta, onde o corpo encontra a posição
costumeira, de onde vê a tela, agora aberta nas mesmas abas com as mesmas planilhas onde
executa a função de analista técnico contábil. Função esta que sempre, como agora, faz rir
Abelardo, nomenclatura que nada quer dizer, da mesma forma, o trabalho sem sentido, a
maior parte do tempo Abelardo executa a tarefa, considerada de máxima importância, de
reconferir as planilhas que já foram conferidas. Um rosto aparece na meia parede direita
quando Tamaru com um copo de isopor fumegando aroma achocolatado chega ao olfato
antes das palavras do cubículo vizinho, Está preparado para hoje. A pergunta vem com tom
desafiador, entretanto, por conhecer Tamaru, provavelmente é alguma piada, nunca
inventando, mas sempre exagerando uma situação real, respondendo a pergunta com o
mesmo tom Abelardo diz, E deveria estar preparado para que. Tamaru sopra a fumaça e
depois de um gole na bebida quente diz, Hoje é aniversário do Carlinhos da repartição deindexamento, parece que Cléston vai até liberar o andar inteiro mais cedo para começar o
happy hour. Abelardo havia esquecido, colocado a informação em alguma gaveta onde não
pretendia procurar, pensa no que dizer, sabe que qualquer resposta negativa, ou mesmo que
pareça negativa, fará Tamaru passar o dia em insistente tentativa de convencimento, o
melhor a ser feito é demonstrar interesse, e caso não indo, o que é o mais provável, partir
discretamente pós expediente, diz, Pois é, tô sabendo, e parece que Antunes prometeu uma
rodada de chopp pra todo mundo. O comentário faz Tamaru sorrir, acaba de obter nova
informação, com um largo sorriso diz, Já volto. Enquanto para a cafeteria ruma.
Resto de manhã arrastada, conferências devidamente conferidas, estômago
roncando, ainda nem são onze horas, mas tantos minutos parecem passados que dentro da
manhã cabem dois dias, alongados no tédio, no trabalho automático sem qualquer interesse,
na maior parte do tempo Abelardo sequer sabe sobre o que se tratam as planilhas, todos os
números fórmulas siglas, que conhece mas desconhece qualquer sentido, e assim segue, e
por esse desinteresse faz o trabalho prescrito com tamanho precisão que aos agrados dos
superiores conquistou uma boa posição.
Outra vez está lembrando a mesma cena que com rotina lembra, cinco anos atrás,
um amigo dizendo, Cara, pega essa vaga de estágio, você tá sem grana, e daí não tem a ver
com o que você quer fazer, fica numa posição financeira mais tranquila que vai ser mais
fácil seguir outra carreira. O processo seletivo, dinâmica de grupo e entrevista, o contrato
de estagiário vinte horas por semana por um ano, passou rápido, contrato renovado por
outro ano, tão rápido quanto, e precisa decidir ser contratado ou deixar a empresa, o salário
é bom e tem perspectiva de melhorar, tem plano de saúde, as horas de trabalho são tediosas
entretanto tranquilas, os amigos do mesmo andar, e assim os anos até o agora, onde sentado
frente a tela com trabalho pronto às onze horas sozinho sai para almoçar.Capítulo Dois, Flâneur
Pelo bairro patriotico um espectro anda alheio às querelas mundanas. Mente vaga
em pensamentos sem imagem atribuída, acompanhado de desconforto contínuo, misto
orgânico psíquico, náusea constante, tribulações sem cessar instante, simultaneamente,
suave paz, acompanhada de tédio. Correria, um cachorro de apartamento fugindo correndo
arrastando a coleira no chão seguido pelos passos pesados pedindo ajuda, Alguém segura o
Juninho. O Juninho recém tosado com laços nas orelhas corre pertubado pelo odor do
banho, procurando pelo faro um cheiro que lhe seja de mais agrado, não consegue
atravessar a rua, uma moça segura a coleira olhando nos olhos do fujão, Que meninho mais
danado. Um jovem com um cartaz se aproxima dobrando a cartolina debaixo das axilas
deixando as mãos livres para acariciar Juninho com seu semblante frustrado. Assim como
este jovem outros tantos do outro lado da rua com cartazes e gritos protestando na frente do
edifício onde reside o senador Alcimar Carneiro. Manifestações e protestos em vias
públicas e na frente de prédios do governo agora são tratados como crime nível 2, sendo
assim, encaminhamento direto para unidades prisionais. Achando uma brecha, protestos são
organizados em horário diurno direcionados a ambientes privados, como a entrada do
edifício onde neste momento o senador acompanha da cobertura a movimentação na
calçada. O cheiro de hortelã vem do restaurante árabe, apetecendo Abelardo quase parando,
continuando andando, rumando ao restaurante atrás da praça, entrada discreta, porta de
madeira, corredor comprido, escadaria, espaço amplo escondido, self service com arroz e
feijão, yakisoba e sushi, lá chegará em breve, atravessando as ruas em bom humor peculiar,
gosta de andar pelo Rio de Janeiro, mais aprecia esse caminho entre prédios que paisagens
rurais, nas poucas vezes no campo, a preferência pelo caos urbano, pelo sentido único da
cidade através da aparente falta de sentido da urbe caótica. A confusão da rua sufoca os
pensamentos, permitindo a suave liberdade de ignorar o que incomoda.
Só que agora o prato está vazio, e o restaurante silencioso, e nesta atmosfera os
ecos podem ser ouvidos, a mão brinca com o garfo na superfície suja onde outra vez a
lembrança surge, outra vez são cinco anos no passado, outra vez escutou o amigo que
também emprestou a roupa quando disse, Se for pra ir na entrevista com esse tênis sujo é
melhor nem ir. Coloca o sapato emprestado, e camisa dentro da calça, e senta na recepção
onde outros aguardam, outros que a vestimenta parecem ter combinado, variam as cores,
um pouco, mas a intenção é a mesma, exceto, Olivia, é nesse dia que vê Olívia pela
primeira vez, e a lembrança faz sorrir, enquanto algumas lembranças apressa outras quer
desacelerar, como esta, quando olhando ao redor observa os sapatos dos concorrentes
quando os olhos encontram o par de tênis com detalhes coloridos, impecavelmente limpos,
bem amarrados, entretanto tênis esportivos são, e tão bem combinam com o Tailleur azul
escuro com suaves riscas realçando o cobre da pele bronzeada. Naquele dia intimidado,
agora ri lembrando, pensa em Olivia, como tem certeza, quando voltar e com ela encontrar
reclamações ouvirá. Dito havia que com ela hoje almoçaria, mais um fato obliterado.
Incomodado pela perseguição da melancolia deixa o garfo no prato, paga a conta, sorri para
o flerte da atendente, indo embora com a sensação gostosa provocada pelo olhar de uma
mulher interessante e interessada, agora a rua está cheia, início do pico do meio dia e meio.Sonoridades amontoadas, todavia agora não suficientes para sufocar pensamentos, tomando
forma, ganhando palavra, quase expelidos, conscientemente negados enquanto
inconscientemente indagados, som de sirenes, pedestre quase atropelado, ciclista sobe na
calçada deixando passar as viaturas, estão indo na mesma direção que Abelardo, as viaturas
têm bandeiras do Brasil penduradas nas janelas onde estão apoiados os canos dos fuzis dos
policiais em serviço.
Uma voz, E aí cara. Pescoço em direção ao dito, reconhecimento do rosto
conhecido, familiaridade da amizade, a resposta, E aí, gostei da camisa. Para entender a
resposta e o tom de Abelardo, é preciso ter conhecimento de dois fatos, fato um, o
interlocutor está usando uma camisa da seleção brasileira de futebol, fato dois, o
interlocutor é crítico ferrenho do regime. Estes dois fatos explicam a risada de
Maltizebeque frente ao comentario do amigo, a resposta vem recomposta, Pois é, descobri
que é só colocar essa camisa que fico invisível, facilita muito pra fazer a cobertura dos
movimentos de protesto, desde que passei a trabalhar de uniforme da seleção, não tomei
mais dura da polícia, nem mesmo fui incomodado. Abelardo balança a cabeça em
entendimento, Foi esperto, tá cobrindo o protesto na casa do senador, É isso mesmo, tô sim,
mas saí de lá a pouco, tá prestes a ficar feio, e aí com ou sem camisa da seleção não é bom
tá perto. Os dois amigos seguem andando, fazendo um caminho diferente, evitando a rua da
manifestação sem comentar o assunto. Falam sobre trivialidades e planos, Maltizebeque
trabalha para um portal de notícias independente, de Abelardo é colega da faculdade,
tomando na vida rumos diferentes, da mesma forma, no próximo rua, enquanto um tomará
a esquina da direita, o outro, seguirá pela esquerda. Agora já, sem a presença física, ainda
carrega a presença do amigo, tantas aulas juntos, discussões na sala e nas mesas de bar, na
mesma época do início do estágio, Maltizebeque começou de freelancer, fotos e fatos,
como ele diz brincando sobre a carreira, em tempos conturbados, imagens suaves da
violência fazem sucesso, e nas lentes que a captam Abelardo lembra da época que almejava
outra carreira, em um passado tão distantante que não tem certeza se aconteceu ou apenas
deseja ter acontecido, a realidade é tão diferente da memória que o atual é perdido na
neblina íntima dos desejos escondidos mas não esquecidos. V olta o cheiro de hortelã,
mesmo de barriga cheia o aroma apetitoso de tal maneira que quase entra para comprar um
kibe, cheiros da memória, limpando a mente, esquecendo pensamentos recorrentes,
preparando o espírito enquanto os pés no percurso automático atravessam a porta giratória
do edifício onde no dia a dia passa a maior parte do tempo.Capítulo Três, Eras da tarde
Com a cabeça apoiada no punho direito inclina os olhos para observar a caneta
vermelha sem tampa sendo girada entre os dedos da mão esquerda. Parte lateral da testa
sustentada pelo braço com o cotovelo sobre a mesa, a mesa é larga e espaçosa, espaço
realçado pela falta de objetos revelando o brilho do tampo lustrado. A tela, o mouse, o
teclado, sem fio, o caderno, sem pauta, no mesmo lugar, a tanto tempo, a caneca de time
transformada em porta caneta, o celular, o chaveiro com as chaves, uma delas quase
quebrada. Outro giro completo da caneta passando do mindinho para o anelar, a parte mais
difícil do movimento, agora entre os dedos maiores duas voltas rápidas e a caneta cai sobre
a mesa deslizando até esbarrar no celular, atenção passa da caneta para o celular, pega o
aparelho e no momento que a tela é aberta uma voz suave para o instante, o desperta, Não
te vi sair para almoçar, achei que iria com a gente. Quem está dizendo é Olívia, veste um
terninho preto com blusa de botões com tecido fino, indumentária utilizada como uniforme
não oficial pelas mulheres da Conta Conta Contabilidade. Entre os funcionários reinam
regras não ditas, regras de etiqueta e vestimenta, passadas hierarquicamente, com coesão
absorvidas e seguidas. A roupa bem veste Olívia, que bem misturar as formalidades do
escritório com sua própria vontade sabe, vestimenta com uma modelagem clássica, camisa
social de cor sóbria, brincos de um metal lilás retorcido, conjunto com a discreta presilha
entre os cachos, combinando com a cor das listras do tênis esportivo. Abelardo olha para o
tênis de Olivia e sorri, reconhecendo detalhes que apenas bons amigos conhecem, a linha
idiossincrática de um traço de estilo entendido como qualidade ímpar frente ao código que
lhe imputa defeito.
Abelardo deixa sobre a mesa o celular e a caneta, roda a cadeira ficando de frente
para Olívia para quem levanta os olhos enquanto diz, Saí mais cedo. A resposta curta põe
no semblante de Olivia olhar repreensivo, como uma professora que repreende o aluno por
algo errado que não deveria ser feito, mas que ao mesmo tempo acha graça e não consegue
manter a seriedade da reprimenda, Olívia diz, Tudo bem, falando sério, se eu soubesse que
Cléston iria junto, teria dado um perdido. Olivia olha para os lados para ter certeza que
ninguém ouvirá o que em sussurro será dito, Ele é insuportável. Abelardo solta uma
corrente de ar pelo nariz, sem nada dizer balançando duas vezes a cabeça, Olívia entende a
concordância e continua, Mas deixa isso pra lá, só que, hoje, você vai comigo no happy
hour, eu quero ir, mas não quero chegar lá sozinha, e nem sei quem vai. Abelardo roda a
cadeira, ficando de frente para o computador finge mexer o mouse enquanto finge ler algo
que finge ser importante enquanto finge ignorar Olívia que enquanto isso espera a resposta,
já sabendo que o amigo irá junto, mesmo que ainda tenha que convencelo. Abelardo deixa
o fingimento e volta os olhos para o olhar que o encara, Tudo bem, vou sim, mas você me
deve dois chopes. Olivia sorri aliviada por não ter que gastar lábia em convencimento,
Ótimo, dois chopes, mas você vai embora na hora que eu quiser. Neste momento as
sobrancelhas de Abelardo sobem de modo involuntário revelando traços de espanto que
fazem Olivia rir enquanto diz, Não precisa se preocupar, não vai ser tarde, amanhã ainda é
dia útil, e sem ressaca já tenho dificuldade de levantar na hora certa. Abelardo ruboriza com
a risada frente a careta involuntária, buscando algo para desviar diz, Mas você nem precisa
que eu vá, suas amigas não perdem um happy hour. Neste momento o semblante de Olivia
muda, já não é mais a repreensão lisonjeira, agora é a seriedade de quem observa algo quenão deveria ser feito e não tem graça, Não vem com essa, você já disse que vai comigo, não
tem como voltar atrás.
Sorrindo satisfeito acha graça Abelardo, com as sobrancelhas levantadas em uma
nova expressão de olhos arregalados, confirmando estar brincando. Olívia percebe a
pilhéria, da mesma forma que percebe a reação que mesmo suavizando o tom de voz
mantém a mesma expressão severa, Eu sei disso, mas elas ficam até tarde, sempre, vai ver
Abigail então, é inimiga do fim, enquanto tiver alguém acompanhando a saideira, a
próxima cerveja é sempre a última, e se eu estiver sozinha vou acabar bebendo mais, com
você eu fico mais tranquila. A última frase dita destoa do restante do tom da conversa,
ambos percebem, reconhecendo este momento onde a amizade é corrompida por outro tipo
de relação, neste caso e atual momento, a última frase por Olivia dita em ambos da mesma
forma ressoa, o conforto que sentem apenas quando estão na companhia um do outro,
sentimento este raro, e por isso mesmo especial. O silêncio neste momento instalado não
chega a ser insuportável, todavia é um plano de significado onde não há planos de entrar.
Silêncio quebrado pelo som alto de um grupo animado saindo do elevador, os
últimos retornam do almoço, alguns em direção a cafeteria, outros para suas baías seguem.
Entre os mais animados está Cléston, falando alto sobre algo que fará hoje a noite. Olivia
faz uma expressão que Abelardo exatamente entende o significado, sem mais nada dizer ela
parte.Capítulo Quatro, Happy hour
A cidade transborda história, nas gotas derramadas as vozes abafadas, ruas
centenárias, arquitetura do poder, na Praça Quinze a Câmara Municipal, agora não têm
plenário, os apressados correm em direção a estação das barcas, para cruzar a baía de
guanabara até Niterói, skatistas deslizando nas bordas dos monumentos, papelões
escondidos para a noite serem usados pelos moradores de rua durante o dia circulando,
particularidades do centro histórico do Rio de Janeiro, nas fachadas antigas e deterioradas,
exteriores pichados, o som das sirenes sempre presente, no fim da praça um arco, é contado
que séculos passados uma rica família aqui morou, grande residência entre duas ruas
importantes da então capital do império, uma passagem construída, veio o incêndio, os
abastados partiram, deixaram a miséria e a devassidão, a rua dos Santos Prazeres, de santas
e bruxas, hoje tem bares e clubes noturnos, caminho do fim de tarde, cheiro forte do vento
vindo das águas escuras da maré quieta, cruzando o arco do Telles passa um grupo, com
roupas sociais, de algum escritório, de alguma empresa, procurando um lugar com cerveja
gelada, e música animada para combinar com os ânimos destes seguindo animados pela
viela medieval. Circulando estão homens e mulheres oferecendo o menu dos restaurantes,
repetindo, Bom preço e cerveja gelada, Promoção da porção grande de camarão, Até as
nove drink em dobro. O grupo animado continua sem parar para o local programado, na
travessa do comércio, um antigo casarão, espaçoso e aconchegante, tacos compridos do
piso de madeira, vigas no teto criando a mesma sensação dos casarões das fazendas
cafeicultoras, janelas abertas por onde a noite entra, acústica abafada, som alto, agora para
conversar é preciso alto falar, um copo, um drink, um riso, riscando o estirar das horas,
quando alguma bebida melada cai no chão deixando as passadas pegajosas, mais gente
chegando, ainda longe de lotado o lugar agora está cheio, V ou pegar água, você quer, No
caminho preciso do banheiro, uma resposta não entendida entre risadas fala sobreposta
esbarrados por estes tentando cruzar o caminho até a pista de dança.
No banheiro ebrio o alivio, amarelo líquido dos orgãos sobrecarregados, atividade
sanguínea em extremidades quentes, todos os palavrões e pirocas discretamente ou não
desenhehandos nas paredes entre os mictorios, azulejos antigos, limpos, ainda assim ou
mesmo por isso, desgastados, como tudo, inexorabilidade do tempo, carrossel dos astros, da
mesma forma agindo nos azulejos e nas pessoas, a braguilha fechada, a pia e a água, as
mãos e o rosto, gotas escorrendo até a gola da camisa misturadas ao suor, ambiente quente,
teto de madeira, teto baixo, um antigo galpão comercial, no meio da rua do comércio, ponto
movimentado no comtemporaneo pela bohemia aproveitando, barulhos dos pés nos tacos, a
música agora animada, mais água no rosto, corpo reposto, vozes entrando no banheiro,
rindo alto, derramando bebida no chão, os olhos nas mãos segurando a sensenção pelo
alcool ampliada, contemplação interior, sentimento de tempo estagnado, ainda é jovem, tem
sonhos e a certeza juvenil da concretização, olhos abertos na palma das mãos, do corpo
cansado, reclamando por nunca ter tempo, desanimado grande parte do tempo, querendo ter
mais tempo, sem saber o que fazer com o tempo que tem, e o disparate deste conflito dos
olhos nas mãos sustentando, a sensação de dois eus, dois corpos, globos oculares
encaixados, secando a água no rosto com toalhas de papel, desenbasando a visão para olhar
no espelho, sabendo que será esta imagem a resulução do impasse, unindo os dois corpos
em uma imagem real e nitida, nesta imagem agora vista, do outro lado do espelho onde oego espera encontrar o eu, que aqui não está, nem lá, nem, ali. A decepção do
reconhecimento, sabe ser aquele que vê, nem novo nem velho, pouco idade com a
vivacidade sugada pelos vampiros cotidianos, eis que um terceiro corpo surge, sem juntar
os outros, apenas os sufocando, lembrando que acima de tudo é este deste lado do espelho,
este que os outros vem, este que responde prontamente quando lhe chamam o nome. Uma
ajeitada no cabelo, uma olhada nos azulejos, todos iguais, ao olhar distraído.
Na pista de dança, casais dançando forró, Abelardo evita o caminho, por um canto
entre pilastras em direção ao bar, no caminho é escoltado por Tamaru dizendo, Aí tá você,
to te procurando, chega aqui no bar, assunto importante. Desviando daqueles ao redor das
pilastras observando os pares dançarinos agora que o ritmo acelerado do xaxado deixa
apenas os mais ousados ou experientes. Na ponta do balcão conversando com o garçom
está Ailton, é nessa direção que estão indo. Tendo em vista fatores já conhecidos, Abelardo
na aproximação antecipa o assunto. Na Conta Conta Contabilidade a maior parte dos
funcionários é masculina. No setor contábil, onde estão a maior parte dos empregados,
noventa por cento da força de trabalho é de homens. A única exceção a esta estatística é o
setor de recursos humanos. Angela Tapitanga é gerente geral regional de recursos humanos
e estratégicos na Conta Conta Contabilidade, mulher com o cargo mais alto na hierarquia
da empresa. Desde que assumiu atual posição, tem tomado como prioridade não
comunicada recrutar mais mulheres, tarefa que não tem sido simples, já que muitas vezes
suas decisões são questionadas por superiores retrógrados com poder de veto, entretanto,
dentro de sua própria repartição tem poder total, e assim, o setor de recursos humanos e
estratégicos da Conta Conta Contabilidade na capital carioca, tem maioria de mulheres.
Abelardo é amigo próximo de Olívia, o que lhe permite circular livremente por este círculo
que conhece, outros, como Ailton e Tamaru, não tem este privilégio, por isso mesmo, neste
momento, Ailton irá fazer perguntas sobre as presentes mulheres, procurando as solteiras,
detalhes que talvez ajudem na aproximação, pleitear uma possível apresentação. Nestes
poucos metros antes do balcão tudo isso Abelardo antecipa, agora nesses segundos que o
contato antecede, planeja o que fará. Por um lado, Tamaru é um cara tranquilo gente boa,
que demasiadamente gosta de agradar, necessidade beirando o patológico de ser bem visto
e quisto, isto o torna amigo de muitos, alguns sinceros, outros, como Ailton, ainda que não
aproveitador um sujeito de labia leve aderido a uma vida boêmia em sua ética peculiar, e
hoje quer ir para casa com alguém, de preferência uma mocinha frívola e assanhada,
perfeita para uma distração gostosa e uma despedida rápida. Quando a poucos passos de
Ailton estão, um estridente chamado, não reconhece as palavras que percebe a si
direcionadas, antes que consiga olhar é tomado pelo braço por Abigail puxando, agora
consegue entender o que ela diz, Vem você vai dançar comigo.
Abelardo responde, Não não, tô indo no bar tomar alguma coisa. Ainda puxando em
direção a pista Abigail continua, Que nada, você sabe que eu te salvei, aquele
inconveniente do Ailton tava prestes a te alugar que eu sei. Abelardo ri enquanto procura
uma desculpa que lhe facilite a fuga da dança, pensa em reclamar da velocidade da música
atual, quando está prestes a falar, a música troca, começa um xote lento, uma melodia
conhecida, e muitos dos que olhavam tomam a pista obstruindo o caminho para qualquer
lado enquanto Abigail coloca o braço de Abelardo ao redor da cintura. Cadência dos corpos
familiares ao contorno e movimento. Abelardo é bom dançarino, com um estilo correto e de
pouca imaginação, entretanto firme na condução, o que com uma parceira experiente faz
parecer um verterano. Sabe que neste momento olhos sobre ele estão, a bela Abigail, depernas grossas e cintura fina onde os dedos ágeis agora deslizam indicando a direção,
nádegas firmes, agora roçando provocativas em um giro de noventa graus, ambos olhando
para frente, mão na barriga sobre o volume de uma suave dobra falanges deslizam, outros
noventa, círculo completo, braços sobre os ombros, Abigail sorrindo, V ocê dança bem, e
querendo fugir de mim. Abelardo sorri, excitado com o corpo quente na palma das mãos,
não sabe o que dizer, e sobre isso não quer saber, diz algo que vem à mente, Todo mundo
quer dançar com você. Olhar penetrante, os lábios indicam brincadeira, palavras quentes do
hálito de álcool, calórico pulso dos músculos em movimento, fala suave carregada de
sarcasmo, ela gracejando, E dançar com quem. Continuando a brincadeira, Abelardo cita
um nome que acredita fará graça a altura do sarcasmo, Pode ser o Ailton, acho que ele iria
gostar. Uma gargalhada e um giro, Nem deve saber dançar, vai ficar fingindo um dois só
pra me passar a mão. Agora é Abelardo quem gargalha, fazendo a parceira executar outra
vez o mesmo giro, voltando de frente um para o outro ela diz, Hoje não é o dia dele,
comigo com certeza não e nunca, e vendo quem tá aqui, as meninas já conhecem o papinho
dele, mas vai ver ele dá sorte e acha alguma desafortunada por aí. A música muda,
continuando na mesma vibe, a pista continua cheia, a nova canção é um clássico conhecido,
vozes cantando junto, tornando difícil a conversa dos dançarinos, Abigail puxa Abelardo,
corpos próximos, o cheiro dela é inebriante, doce perfume e amarescente suor, o ambiente
quente agora mais quente ainda, abafado pela respiração de tantos próximos, a respiração
dela tocando o lóbulo dizendo, Aposto com você que hoje ele não pega ninguém. Abelardo
previamente a dança em leve embriaguez, agora intoxicado pela sedução seguindo o
movimento da palma da mão aberta, os pés deslizam seguindo o ritmo, em determinados
momentos dobrando o movimento dentro do compasso, nesse passo encaixando as coxas de
Abigail sobre o alto do quadríceps, nestes instantes os seios espremidos contra o braço na
altura do ombro, ela ri e roda e se se deixa derreter, tem a musculatura de mercúrio,
brilhante e fluida, ao mesmo tempo metal e líquida, desfazendo no passo para solidificar no
giro, tocando e deixando ser tocada, quando outra vez volta completa o rosto colado diz
com voz provocante, E sabe quem mais eu aposto que não vai pegar ninguém, você.
Abelardo ruboriza além do vermelho já presente, sem perder o ritmo prepara uma resposta,
interrompida pelas palavras sedutoras, Só que você só não pega porque não quer. E o rubor
por um instante quase lhe tira o chão quando ainda sem encontrar a resposta anterior não
sabe palavras para a próxima, sem silêncio ela continua, Mas não se preocupe, eu sei
porque, e se eu te amassasse que nem eu quero, ela iria ficar devastada. O assunto muda de
forma inesperada, Abelardo procura os olhos para encarar indagativo, Abigail rindo arqueia
a testa em traços atrevidos que sabe lhe aumentar a provocação, V ocês dois são fofos, que
saco, chega de dançar, você já passou muito a mão na minha bunda por hoje. Abelardo
conhece Abigail, tem intimidade suficiente para conhecer esta que agora fala, atrevida e
insolente, diferente da figura pública, ainda assim, neste momento não consegue esconder a
timidez e envergonha como uma criança, o que agrada Abigail, que lhe beija o canto da
boca onde tanto pode se dizer que já são os lábios quanto apenas é o fim da bochecha.
Cortando a pista de dança puxa Abelardo em direção ao balcão.Capítulo Cinco, Resenha
No balcão, um grupo de cinco pessoas está conversando, o assunto, os boatos sobre
um novo cliente, o senador Alcimar Carneiro. Neste momento quem fala é Matias, com um
copo de caipirinha em uma mão roda o canudo com a outra enquanto diz, Já não bastasse
tudo que já temos que aturar, agora tem mais um desses pulíticu milicu, e o pior é não
poder falar nada e aceitar essa baixaria, eu sei muito bem, e muito bem sei que todos vocês
sabem porque o excelentíssimo senador está procurando os serviços da nossa
excelentíssima instituição. Horácio ri da afetação do amigo ao tocar no assunto, por um
lado entende os motivos da fúria e da frustração, por outro, entende ser essa uma batalha
previamente perdida, nada há que um baixo funcionário possa fazer frente às demandas
superiores, com o agravante, basta tais palavras tocarem os ouvidos da pessoa errada para
desencadear sérias consequências. Horácio olha para os lados, certificando que apenas
pessoas confiáveis estão próximas ao campo de escuta, olhando para Matias diz, V ocê tem
que controlar a língua, sabe que o Cléston tá por aí, ele e aquele cara que parece a sombra
dele, e se eles escutam essas merdas que você tá falando, roda você e provavelmente nos
por cumplicidade. Matias não tira os olhos do canudo enquanto mexe nos cubos de gelo
restando no copo quase vazio, Olha só eu falo mesmo e tenho noção, tô aqui falando pra
vocês que confio, ou não deveria falar, desculpe se as merda que eu falo são muito merda
pro seu ouvido sensível. Lola completa a frase com, Huuuu aí ficou sério. O riso perpassa o
grupo, alivio cômico acalmando Matias que volta a falar, Podem ficar tranquilos que não
vou sair por aí falando essas coisas, mas tô irritado com tudo isso, às vezes fico com
vontade de jogar a merda toda no ventilador, sei lá, procurar uma dessas mídias
independentes e mandar só uns papeizinhos anônimos, um pouco de tudo que fazemos,
seria um escândalo. É Aline quem toma a palavra, E de que isso vai adiantar, a gente escuta
por aí que o Brasil é livre, que os atos institucionais foram duros mas necessários, e que
agora as coisas estão melhor, tudo isso é balela, quem já tá mais tempo na Conta Conta sabe
a história do Osmar, ele tava assim tipo você, revoltado e com razão, não se fala muito mas
era sabido que ele tava mal com o trabalho, parece que ele participou da auditoria das
contas do governo municipal em oitenta e oito, e o que tinha de absurdo e discrepância não
era pouco, e o papel da empresa era o de sempre, colocar as contas no lugar, deixar tudo
dentro do correto, só que ele não aguentou, juntou uns documentos e mandou em carta
anônima pra um jornal que ele achou levaria a história ao público, o que aconteceu não foi
isso, a história nunca veio a tona e o Osmar simplesmente sumiu, oficialmente foi
comunicado que ele pediu demissão, mas todo mundo sabe que não foi isso, e aí, segue
nesse caminho que a única coisa que você vai conseguir é virar desaparecido. Olhares
pesados circulam, no fundo a música animada, no balcão o garçom entrega para Matias
outra caipirinha, um longo gole, lábios molhados tom triste, Eu sei disso, a coragem da
cachaça sobe rápido, mas é triste, tanta coisa errada acontecendo e nós assinando embaixo,
deixando tudo bonito com uma grossa camada de maquiagem. Percebendo o tom fúnebre
da conversa Horácio tenta amenizar o assunto, Mas nosso trabalho não é só isso, trabalhar
com os políticos é ruim, mas eles são uma parte dos clientes, de resto as coisas até que são
boas. Lola em tom brincalhão levanta a voz, Somos nós, deixando o país melhor uma
planilha de cada vez, deveríamos todos seguir o bom exemplo do grande Ricardo Poleno,
quem sabe assim no fim do ano ganhamos um bom bônus. Entre risos a voz de Matias, A
deusa me livre, se eu chegar nesse ponto alguém faz o favor e me empurra na frente dometrô, nenhum bônus compensa isso, apesar de que, certeza eu tenho que todos vocês só
estão na Conta Conta por dinheiro, pudera eu trabalhar com outra coisa, mas dependo do
salário, tenho que ajudar em casa, mãezinha já é velha e eu sou filho único, mas quem sabe,
um dia deixo isso tudo e mudo de vida. É Horácio quem diz, E vai fazer o que, pegar senha
na fila do desemprego ou arrumar um trabalho pior, na verdade, se não for a gente vai ser
outro, já passei da idade de acreditar em algum ideal, a coisa não tá boa pra ninguem, e do
jeito que tá não vai melhorar, vou fazer minha parte e ficar quieto, quer saber mesmo,
qualquer trabalho é ruim, tivesse dinheiro duvido que alguém aqui continuava trabalhando.
Enquanto a conversa segue, Olivia é uma presença desatenta. Observa Abelardo
caminhando ao lado de Tamaru, está vindo nesta direção, entretanto parece não percebêla.
Olívia vê o exato momento quando Abigail surge puxando Abelardo em direção a pista de
dança. Não consegue desviar os olhos, sugada por um sentimento de ciúme que prefere
ignorar, fingindo ser mera curiosidade. Abigail gosta de dançar com Abelardo, Olivia disto
sabe e nenhum problema vê, outros tantos dançando, e um pensamento surge, Ela poderia
dançar com outro. Espanta o pensamento, entende o lado da amiga, forró é uma dança
ousada, muitos homens se aproveitam da situação, ainda mais, sendo com Abigail, com as
pernas torneadas, o cabelo cacheado sempre em cascatas perfeitas, outros pensamentos,
Como será que ela faz pra deixar o cabelo tão bonito, o corpo é de academia, ela malha
cedo, todo dia antes do trabalho, que disposição. Os olhos acompanham o par até onde é
possível, a meia luz e a aglomeração os tira de vista. Por um momento volta a atenção para
a conversa do grupo onde está, quem está falando é Matias, mais uma vez revoltado com a
empresa, basta beber um pouco para soltar a língua, talvez até demais, Olívia observa ao
redor para ter certeza que estão seguros para continuar no assunto. Nesta observação o par
dançando entra no campo de visão, apenas por um instante, outra vez somem. A conversa
continua, Olivia não acompanha o assunto, sorri, imersa nos próprios pensamentos, mantém
a postura e a cordialidade, nos momentos oportunos rindo junto ou demonstrando surpresa.
Ainda que involuntariamente permanece na procura, conflitando com sensações, o campo
visual ofuscado por pensamentos, sem perceber estabelece contato visual com um homem
desconhecido, por alguns segundo sustenta o olhar na mesma direção, ainda sem perceber
permanecendo no linha do olhar do homem que agora se aproxima sorrindo. Olivia ao
perceber rapidamente vira o rosto e muda de lugar, ficando entre Lola e Matias. O homem
desconhecido para, entretanto permanece olhando, procurando outra vez estabelecer
contato, esperando a brecha para a oportunidade de puxar assunto.
O restante do grupo continua conversando, o colóquio exalta os ânimos,
principalmente de Matias que acaba de terminar outro copo e logo na sequência pede mais
um. Olívia também pede um drink, após a reflexão, É melhor não beber mais, não muito,
também ficar de mão vazia é tão ruim, vou pegar alguma coisa e beber devagar. O copo na
mão muda o centro de gravidade, o homem desconhecido não está mais a vista, o que gera
alívio, agora o assunto mudou, neste momento não consegue acompanhar a linha de
raciocínio, ainda assim mantém a atitude, manejando as ações para parecer presente ainda
que aqui não esteja a mente. Um toque na cintura, alguém lhe segura os quadris por trás,
Olivia se assusta, por um segundo imaginando ser o homem desconhecido, vira na direção
do toque pronta para atacar com o copo cheio, encontra o rosto atrevido de Abigail, Calma
moça, assim vai derramar seu drink.
Olivia sente uma onda de alívio percorrer o corpo, em primeiro lugar por dissipar a
sensação de invasão quando por um instante acha que um estranho tenta lhe agarrar, emsegundo lugar, um alívio maior que não percebe conscientemente, junto com a amiga está
Abelardo, com rosto vermelho e a camisa suada.
Capítulo Seis, Em retornoSão quase onze, alguns ficam, outros vão, o álcool dissipa a preocupação, o copo
vazio ressalta o cansaço. Olivia pondera tomar outro drink, entretanto encara o limite
demarcado pelo despertar marcado para às quinze para às sete da manhã. Bem poderia
colocar um pouco mais tarde, o que ainda daria tempo para chegar sem atraso, todavia
prefere postergar a vigília com a função soneca, rotineiramente por três vezes. Às quinze
para sete o despertador, adiado por mais quinze minutos onde letárgica muda de posição,
logo outra vez a melodia mecânica, outra vez adiada para quinze minutos a frente, desta vez
normalmente o travesseiro cobre o rosto, o tempo passa mais rápido e já é outra vez quando
de novo o despertador toca e com dificuldade zumbi levanta ainda meio sem vida, Como
são difíceis as manhãs, nisso pensa, refletindo sobre a hora, percebe ser o momento de
partir. E quando nesse instante, que é agora, decide ir embora, basta um olhar para o lado e
encontra Abelardo, respondendo com um sorriso o pensamento compartilhado. Sutilezas da
intimidade, roteiro de fim de noite repetido, quando discretamente deixam o lugar sem
serem vistos.
Descendo a escadaria estreita chegam a rua, agora mais calma, quartafeira a noitada
no centro carioca acaba cedo, os mais boêmios ainda permanecem, outros bem antes já
foram, a maioria vem pro happy hour para relaxar um pouco antes da volta para casa,
afinal, hoje é o meio da semana, antes do fim há ainda mais dois dias úteis. Um jovem com
boné de aba reta se aproxima do par, está levando uma bandeja de madeira sustentada por
uma tira de couro passando pelo pescoço, na bandeja balas, chiclete, seda, isqueiro e
cigarro, Boa noite casal, alguma coisa pra terminar a noite. Abelardo pergunta, Tem cigarro
varejo. O jovem responde, Tem sim, pode escolher, tá na promoção, levando dois você só
paga dois. Abelardo ri da piada, pega dois cigarros de um maço aberto e diz, Me empresta o
fogo. O jovem empreendedor tira do bolso um isqueiro e ajuda o cliente a acender o cigarro
dizendo, Tá na mão, e se quiser tem aquele outro também, aquele cheiroso que artista gosta.
Abelardo sorri, Só o careta mesmo já tá bom. O jovem responde ao sorriso sem desistir de
aumentar a venda, Não esquece de levar uma balinha, depois não vai beijar a moça com
gosto de cigarro. Olivia acompanhando a conversa ri enquanto pega na bandeja um drops
de bala sabor melancia, V ocê tá certo, ele é meio rude, vou pegar essa aqui e ele paga junto.
Abelardo com olhos inquiridores encara a amiga respondendo com olhar atrevido, nada é
dito, a conta é paga e o par parte andando de braços dados.
Olivia consulta a hora e pensa onde mora, do Arco do Telles até lá é uma
caminhada agradável no ar noturno carregado da brisa marinha refrescando o concreto,
assim como muda a temperatura a noite muda a paisagem da cidade. Sem a correria
engravatada do dia a bolsa de valores dorme sossegada sonhando com lucros alavancados,
as largas calçada das avenidas centrais transformadas em fileiras de papelão e colchões
onde dormem os moradores de rua que pelo dia metropolitano vagam, deixando escondido
seus pertences em becos ou embaixo de bancas de jornal, a noite muda a cidade, quase
nenhum carro, os ônibus circulando passam em vertiginosa velocidade tendo quatro pistas
vazias, uma cidade sem trânsito, onde de um ponto ao outro em curto tempo se chega,
todavia neste momento poucos fazem esse trajeto, os ônibus vertiginosos correm
praticamente vazios, apartamentos em outros pontos da cidade com luzes acesas, no centro
do Rio de Janeiro as calçadas estão animadas daqueles vizinhos de cama de papelão
conversando sobre o dia enquanto jantam uma garrafa de cachaça, um cachorro preso por
um cinto em uma caminha rasgada e bem cuidada em frente, o fundo de duas garrafas petes
transformadas em potinhos, um com água outro com ração, sirenes passando, os camburõesda polícia militar passando devagar, permitindo até a uma da madrugada o burburinho,
quando delicadamente pedem silêncio, e todos voluntariamente obedecem, embalando em
sonhos etílicos mal destilados. A cidade à noite tem uma estranha sensação de hostilidade e
segurança. O casal de braços dados andando, com um sentimento compartilhado ainda que
em elucubrações distintas pensando.
Abelardo lembra da dança, tanto do corpo quanto das palavras, ainda consegue
sentir o calor da virilha de Abigail na coxa, ao mesmo tempo não para de ouvir as frases
implicantes, e sentindo o calor de Olivia pensa em beijála, sabendo que seria tão normal
quanto este momento agora compartilhado, primeiro lhe beijar o alto da bochecha, quando
olhar para cima lhe beijar a boca, e ela se assustará ao mesmo tempo que o beijo retribuirá,
e tudo será tão normal quanto este momento agora, mas não a beija, principalmente porque
sabe que ela retribuirá o beijo, e isso implicará em cruzar uma linha onde ambos na borda
habitam, quase indo mas sem mudar de lado, e sabe que um passo para o outro lado é
irrevogável, algo mudará, algo que quer, mas tem a sensação que gosta tanto do que tem
que talvez não valha a pena arriscar, não agora, e se contenta em postergar enquanto aperta
forte o braço de Olivia que se aconchega no ombro mantendo o passo enquanto por um
momento some a sensação de querer sem querer beijar a boca de Abelardo apenas para ver
qual reação será. Tantos pensamentos os pés percorrem rápido tanto o espaço quanto o
tempo, chegando próximo a Estácio a cidade muda, nas calçadas pessoas com latas na mão,
na rua grande movimento de moto, algumas escandalosas com o escapamento cortado.
Passa uma corrente de vento, talvez uma descrição melhor seja uma bola de vento, já que é
mais arredondada do que rajada, um fenômeno da natureza assim sentido, um redemoinho
passando entre os pés de Olivia e Abelardo, sentido por ambos averiguando de onde vem
para onde vai sem conseguir ver o vento seguindo pela calçada, ziguezagueando, depois de
tropeçar na parede desliza o salto da menina bonita quase caindo segurando a saia inflada
com essa corrente de vento em peculiar formato, derrubando um guardachuva fechado,
jogando para o alto o banner de propaganda na porta da farmácia, vai pro alto o que tá no
caminho até que na esquina para, sumindo na encruzilhada. Abelardo e Olivia, assim como
os outros que nesta rua neste momento testemunham o fenômeno julgam a sua maneira, ou
como a maioria, nem nisso pensa, arruma a roupa, ajeita a loja, e a noite vai embora, o que
para Abelardo é um peculiar fenômeno meteorológico não entende quando Olvia diz,
Passou um exu. Abelardo indaga com os olhos ainda que não precisem se olhar, motivado
esta pelo fato de não conhecer em Olivia religião ou religiosidade, enquanto para Olivia um
sentido específico lhe aparece, uma memória atualizada em fração de segundo, está na
cena, o avô ainda vivo, sentando na varanda, como na maior parte do dia, torcendo para
alguém ficar um pouco e prestar atenção, histórias do lugar, de tantos anos atrás quando
tudo era mato, e a terra ainda era cheia de saci, outro pensamento, tem certeza que o avô
chamaria esse vento de exu, é também por isso essa solidão, no distrito afastado de uma
cidade pequena de mentalidade burguesa, o velho na varanda falando de saci e exu não é
bem visto. E isso Olívia não entende, como no fim o vô ficou tão sozinho, como a vida com
ele foi injusta, como queria ter mais tempo com ele, como quer agora, contar para ele que
viu um exu passar, todavia não é possível, e voltando ao presente nada é dito, aperta o
braço de Abelardo, ele entende que algo se passa, dessas coisas que precisam do silêncio
compartilhado para não se afogar., Pode me deixar aqui, Tem certeza, Tenho sim, vou pegar o mototáxi, agora o
caminho é curto mas é só subida, Tá certo, bom que aqui já tô do lado da estação, Tá sim,
boa noite, Pra você também, até amanhã, Até.
Subindo o morro na garupa da moto, vento no cabelo, capacete no braço, mãos nas
laterais do banco, trajeto pequeno, está na entrada de casa, o mototáxi já tem outro cliente e
está descendo, tem bastante movimento de gente descendo, o morro não dorme, e no pé do
morro os dias e as noites são emendados, no constante da música ubiquamente brotando de
algum lugar, ou outro, dependendo do ritmo, depende do sentimento, do público e do
momento. Um pouco mais acima, onde Olívia está, a música é só uma batida distante que
não consegue reconhecer, mora em um sobrado, no andar debaixo tia Regina mora com os
três filhos, luzes apagadas, silêncio, apenas a luz da televisão é passível de ser entrevista
através da cortina fechada, olhando para cima, duas janelas, os dois quartos, o dos pais e o
que divide com a irmã, neste quarto, no peitoral da janela entreaberta embrulhado na
cortina como em veste solene um par de olhos, amarelos penetrantes e imóveis, acompanha
cada movimento de Olivia, observando ela abrir a porta que leva a escada em direção ao
segundo andar, outra porta, a sala, a tv ligada, a irmã dizendo, Chegou tarde. Em direção à
cozinha responde, Que horas são. A voz vindo da sala é de Helena, Também não sei, mas
deve ser tarde. Na cozinha um copo de água, na geladeira uma travessa com um resto de
salpicão, passando para um prato, cobrindo com batata palha. Segurando o prato chega à
sala onde no sofá a mãe e a irmã estão deitadas. A mãe está apagada, dormindo de boca
aberta ressoando, apoiada do outro lado está em parecida posição Helena, entretanto
acordada, Pelo visto você achou o resto do salpicão, é pra você mesmo, mas tava até
achando que você ia comer na rua e ia sobrar pra mim. Olivia ri enquanto segurando o prato
senta no braço do sofá onde a cabeça de Helena está apoiada, Pode deixar que deixo um
pouco pra você, tem muito. Helena sem mudar de posição levanta o braço e toca na irmã,
V ocê é minha irmã favorita. Olivia ri, a princípio nada diz enquanto presta atenção na
televisão e rapidamente come percebendo o quanto está com fome, as próximas palavras
serão ditas de boca cheia, Que filme é esse. A resposta vem prontamente, Não sei, quando
comecei a ver já tava passando, é meio doido, mas tó gostando, agora esse cara descalço tá
sozinho enfrentando os terroristas, só não sei como eles chegaram aí, parece que chegaram
de penetra na festa de natal.
O barulho do garfo no prato, o peso do sono nas pupilas, V ou deixar pra você na
mesa, tem bastante batata palha ainda. Helena sem qualquer movimento agradece. Prestes a
levantar Olivia algo pondera, exprimindo em palavras da seguinte forma, Amanhã tem aula
cedo, você deveria ir para cama. A resposta vem rápida, Amanhã vou chegar um pouco
mais tarde, o primeiro horário é educação física. A repreenda vem em tom calmo porém
firme, V ocê tem que parar com isso de matar tanta aula, vai acabar repetindo por falta.
Neste momento Helena se ajeita no sofá, do lado a mãe continua em sono pesado, Não vou
não, essa faltas de educação física tem justificativa, é só dizer que to com problemas
femininos ou naqueles dias que o professor não faz qualquer pergunta mais, você tem que
ver a cara dele, fica vermelho e nervoso e quer mudar de assunto, é até engraçado. Olivia
mais uma vez pondera, dessa vez sem exprimir em palavras, beija a cabeça da irmã, Boa
noite. Na cozinha deixa o prato, do lado da batata palha, toma um copo de água gelada,
troca a água do potinho do gato, passa pelo banheiro, higiene noturna e uma roupa velha
pendurada atrás da porta.Capítulo Sete, Fim de noite
Parado na calçada acompanha ela que na garupa da moto se distancia. Agora aqui,
nessa rua movimentada, na voz distante de alguém cordialmente xingando, no ônibus
diminuindo a velocidade para o motorista comprimentar os ambulantes, Deixa uma gelada
pra mim que eu tô voltando. Passos pesados, presente e passado, os pés tão longe do futuro,
parece uma distância intransponível, descendo as escadas para o subsolo, embaixo da praça,
embaixo da cidade, corredores iluminados, lojas, a maioria fechada, aberto está o quiosque
de sorvete, vazio, onde a atendente apoiada nos braços tenta disfarçar o cochilo, na tela
indicação o metrô sentido zona norte chega em oito minutos na estação, pensa na sorte,
depois deste seria de quarenta minutos a espera, atravessar a roleta, outra escada, descendo
para os corredores subterrâneos do transporte urbano, onde o chão é mais limpo que o da
cidade, onde o ar que sai dos climatizadores é mais puro, onde reina a assepsia do desejo
artificializado, onde perto da máquina de petiscos dois policiais militares conversaram
sobre a última rodada do campeonato, segurança certificada pelo contingente policial tanto
quanto pela propaganda no telão digital promovendo o nacionalismo e o governo, Afinal de
contas, tudo está melhor. E agora a minhoca de metal deslizando pelas veias urbanas aporta
na estação onde espectros humanoides embarcam para transporte intencionados a diferentes
destinos ainda que compartilhem o mesmo caminho. Abelardo outra vez solitário, quando
as portas automáticas abrem para o vagão vazio, um lugar à janela para ver passar as
paredes, propagandas, pinturas, pichações e fios, arquitetura tão feia quanto bela em sua
concretude coberta de chapisco e canos deteriorados, estações em sucessão, passando por
bairros, cortando o inverno, onde mora o verão, e a mente une de olhos abertos o agora e a
memória, tentando prever o futuro, toca a noite, o recente, o passeio de braços dados, o
beijo não acontecido, o sentimento outra vez repetido do conforto experimentado na
presença de alguém que mais que alguém é, e tem a vontade do dia seguinte, mas também
tem isso, isso que tanto é uma sensação quanto uma estação, movimento interrompido,
porta abertas, saem dois, ninguém entra, algo dito nos autofalantes, ignorado, portas
fechadas, força gravitacional empurrando o corpo deslizando no banco, outra vez parado,
ainda que dentro de um tubo metálico correndo acelerando, ainda que em uma rocha
flutuando no espaço girando em velocidade vertiginosa, ainda que em um universo em
constante expansão, se sente, parado, Como pode estar estagnado, reflete uma voz perto do
tímpano, outra vez essa sensação, esperando algo ou alguém, esperando um detalhe que
seja, que vire o interruptor do real e torne o presente algo que faça sentido.
, Próxima estação Grajaú, desembarque pelo lado direito.
Na calçada pelo canto, na vida coberta o manto, no saber cotidiano o contrário do
espanto, talvez não seja para tanto, entretanto, entre tantas possibilidades nesta tenta e
retenta algo mesmo para o qual não se atenta, e, ainda que não se contente, segue, tentando
menos ser exigente, e da vida seguir o rumo longe dos tes e das cruzes, aonde vai, onde
vaga, agora, atravessando a rua, vazia, sem carro, sem pedestres, quaresmeiras na frente do
prédio, flores esparsas respirando a noite, as pétalas olhando a lua fazem Abelardo olhar
para o céu, onde a lua não encontra, talvez atrás de algum prédio, as pétalas conseguem
vêla, sentem o cheiro, hoje a noite tem cheiro de lua. O nome do edifício é Ardósias aos Pés
da Torre, nome este, escrito em pedras portuguesas na calçada da entrada e, em letras de
ferro soldadas em arco acima do hall de entrada, quando se aproximando escuta o barulho
metálico elétrico do portão sendo aberto, entra, o porteiro Olegário Jucino é quemprontamente abre quando vê na rua aproximando o inquilino com ar perdido, Mas ele é
sempre assim, pensa**** Jucino, Mas hoje tá um pouco mais. Ponderações que poderiam pelos
astros procurar explicação, é a lua, nos últimos dias tão pesada, como cumprindo caminho
em direção algum cósmico evento, para o qual se dirige em prestígio e reserva, zelando
pelos humanos a quem presa.
Escadas a dentro o barulho da televisão ecoa, na aproximação à fala, Boas noites.
Quem fala é Jucino, hoje responsável pelo turno da noite. No prédio o movimento noturno
é pequeno, não são tantos apartamentos, a maior parte dos inquilinos são tranquilos, em
termos de suas vidas pacatas e rotinas, um desses lugares onde opera tranquila a
normalidade, segue dia passa noite e tudo bem vai, parece, o que virá ainda pelos mortais
não é sabido, ainda que, por alguns, possa ser pressentido, o que, não é o caso do momento
onde se desenrola esta cena, Abelardo subindo as escadas, atravessando a porta aberta, onde
é recebido pelos tiros explodindo nas paredes ecoando a televisão, mesmo em volume
baixo, amplificada na lisura do corredor frio, o filme de ação sendo visto, o trabalhador
tranquilo, pacato, noite sem surpresa. Os mesmos pormenores agora repetidos indicam com
precisão a cena e o tempo, o que bem justifica o Boas noites, no plural, como essa resposta
que virá, quando Abelardo sorrindo de forma distraída responder, Boas sim, também no
plural, e uma cadeira de escritório com uma bomba amarrada caindo pelo fosso do elevador
até os andares inferiores explodindo o grave nas paredes lisas, no teto limpo. Abaixando o
volume, enquanto na aproximação diz, Esse filme é bom mesmo, já vi mais de uma vez,
agora tô vendo outra. Abelardo observa a tevê e confirma com a cabeça, que até então
apenas agora aqui está, antes em outras tantas circunvoluções e pensamentos levemente
perturbados, entretanto sempre chega o momento em que se tem que responder pelo
presente, nessa hora apenas sorri. Olegário Jucino entende, conhece o inquilino a quem tem
real afeição, correspondida, na cordialidade cotidiana do tempo do trabalho, da rotina, na
polidez que deixa as coisa mais leves, e faz compreender, O elevador de serviço já ta aqui
em baixo, o elevador social tá desligado, teve um dia cheio. Frente a fala em tom de chiste,
em Abelardo uma resposta cômica surge, Até o elevador tá cansado. Dito isto pois é
conhecida a resposta, É assim mesmo, são muitos altos e baixos. Resposta sempre dita,
entretanto variada, como um ritornelo em um tema sempre encontrando uma variação.
Segue o elevador já no térreo, segue o filme, segue a hora, segue o vento, as bruxas e os
meteoros, seguem todos observados pela lua, entrevista agora que Abelardo entrando no
apartamento tira os sapatos e joga tudo que tem no bolso sobre a mesa, apoiado na janela, a
lua tão quase cheia, parece que a qualquer momento a última linha côncava sumirá
revelando a esfera completa, não agora, não hoje, nem tudo é momento como deve ser,
ainda que falte sempre um instante para completar o agora, e poucas coisas na vida sejam
tão boas como um copo de água gelada, recém saída da geladeira, em um copo de vidro de
boca fina, provavelmente limpo, em cima da pia, provavelmente utilizado para o mesmo
fim, derrubando a sede, averiguando uma homeostase imbuída de silêncio agudo, deixando
escapar um flerte com o que virá, deixando a cabeça encontrar o travesseiro, o lençol
amassado, não gosta de dormir descoberto, mesmo quando quente, refletindo e ligando o
ventilador, de maneira indireta, virado para parede de onde refletido vem o vento, alento
para o sono, cartas na manga da mente, pensamentos, talvez venha, talvez se torne, de
qualquer maneira, já será amanhã.Capítulo Oito, Contas e Caos
No espelho Abigail retoca o batom, deixando os lábios acobreados, cor escolhida
um tom acima da pele. Cada detalhe pensando, o cabelo sobre os ombros, perfeitamente
penteados deixando a mostra as delicadas argolas nos lóbulos penduradas. O banheiro está
vazio, para cá vem quando quer por um tempo fugir ou pensar, são poucas mulheres no
andar, o que torna o banheiro feminino o perfeito ambiente para colocar a mente no lugar.
A maquiagem retocada, o cabelo arrumado, a roupa alinhada, encara os olhos do outro lado
do espelho, respirando fundo, hoje o dia está cheio. Recentemente circula o boato de um
grande projeto contratado, hoje o boato foi confirmado, o Senador Alcimar Carneiro outra
vez contrata a Conta Conta Contabilidade para uma função de alta responsabilidade. Algo
comum, afinal de contas, a maior parte dos contratos da empresa são com o poder público.
A Conta Conta Contabilidade é conhecida pela eficiência e discrição, nos últimos anos
ganhou todas as licitações das quais participou, aliada a base governista presta serviços de
extrema necessidade para a nação. Além dos contratos diretos com o governo, é comum
que figuras públicas procurem a empresa, como no caso do senador, que além de político é
fazendeiro e empreendedor, conhecido pelos investimentos no país e no exterior. O contrato
não foi divulgado ao público, como a maioria dos serviços oferecidos pela empresa, corre
em sigilo. Todavia, mesmo sem saber ao certo o teor do trabalho, grande rebuliço toma os
funcionários.
Um contrato grande como este é chance certa para os arrivistas, buscando a
oportunidade de ampliar a influência, sonhando com um dia compor o governo, em uma
função de assessoria qualquer com alto rendimento. O boato sobre o novo contrato com o
senador Alcimar Carneiro já nas últimas semanas movimenta os funcionários, todos
desejosos em fazer parte, vendo uma grande oportunidade. Os dias passados e o boato sem
confirmação aos poucos perdendo força, até hoje, quando logo na primeira hora da manhã
chegou a comitiva com o próprio senador. Desde então, o rebuliço tomou conta do andar,
agitação e falatório, ligando para alguém, pedindo influência a outro, o sonho do
funcionário médio da Conta Conta é ter papel de destaque em um grande contrato. Ainda
que, ainda não seja sabido o teor do trabalho, uma fila de interessados logo cedo formada
na porta do setor de recursos humanos. Angela Tapitanga foi convocada para a reunião com
a diretoria e a comitiva, deixando o setor para a segunda em comando. É por isso que neste
momento no banheiro femininio Abigail enrola a hora. Uma última checada no espelho,
posiciona as sobrancelhas, mantendo levemente arqueadas, deixando o semblante
preparado para o mundo empresarial enfrentar.
A quietude do banheiro feminino é imediatamente quebrada pelo caos do andar, de
um lado para o outro correria e falatório, papeis voando, discussões ao telefone. Os
puxasaco pesquisam o gosto do senador, procurando o melhor presente para criar uma boa
imagem, um funcionário com um falcão peregrino no ombro passa orgulhoso, ave que
pretende presentear o senador, conhecido pelo gosto por animais exóticos, outro trouxe uma
caixa de madeira com um whisky raro, nessa ora esforços não podem ser contabilizados,pode ser o presente certo a diferença para um cargo que muda a vida. O que é muito bem
sabido, mais do que a competência, a atitude certa é recompensada.
Abigail caminha em direção ao setor, enquanto anda por muitos é interpelada,
elogios são feitos, flores oferecidas, belas trufas recheadas e bombons de licor, presentes
que dispensa. Segue à risca a cartilha de Angela Tapitanga, apenas respondendo com o
arqueado da sobrancelha que logo afasta os mais ousados. Dentro do setor de recursos
humanos uma discussão está em curso. Borges e Jorge trocam farpas em voz alta, Quão
absurdo é isso, recolha sua palavras e saia daqui, Absurdo digo eu, quem você acha que tem
mais experiência, Experiência de que e aonde eu não sei, você é um fracasso, ainda mais
com esse par de sapatos, Não me venha com seu veneno e não ouse falar mal do meu
sapato, sabe você quanto custa um par como esse, Não sei e não quero saber,
provavelmente comprados em bazar, deixa só Cléston ver isso, acha que ele vai deixar
alguém vestido assim compor uma equipe importante.
Abigail neste momento entra, fazendo com que a discussão venha em sua direção,
Aí está você, onde estão os gerentes, onde estão Cléston e Angela. Abigail em um primeiro
momento não responde, limitando a fazer um gesto com a sobrancelha enquanto se dirige
ao lado oposto onde Olivia acuada atentamente acompanha. Ignorando os dois homens, se
dirige a Olivia com a pergunta, O que eles querem. Olivia, quando tenta falar as palavras
saem picadas, respira e limpa a garganta reformulando a frase, Chegaram procurando
Angela, ambos estão dizendo a mesma coisa, que Cléston prometeu a liderança no projeto
do senador. Abigail carrega a experiência de outros momentos como esse, sabe como o
frenesi toma conta dos desejosos em galgar uma posição de destaque, um projeto como esse
pode significar uma vida segura de regalias. Ainda se dirigindo a Olívia pergunta, E onde
está Cléston. A resposta vem pronta, Ainda não chegou, e não está respondendo no telefone
da empresa. Abigail reflete, relembrando a noite anterior, pensando como provavelmente o
gerente ainda está em casa calmamente curando a ressaca, pronto para chegar depois do
almoço de cara lavada, Abigail diz, Deixa isso pra lá. Passos firmes, com a mesma firmeza
do olhar fixo nos dois homens agora em silêncio dando pequenos passos para trás,
sincronizados com os passos que se aproximam, um deles, Borges, engole a respiração e
diz, É melhor voltarmos em outra hora, quando Cléston estiver por aqui. Abigail sorri
condescendente enquanto responde, Aí está uma boa ideia. Os dois homens por alguns
segundos ficam paralisados, parecem esperar permissão para sair, mover ou falar, Abigail
apenas balança positivamente a cabeça enquanto mantém o peso das sobrancelhas no olhar
fixo, ambos em algo próximo de tremor concordando se movem a passos curtos para trás,
desviando o olhar apenas quando estão próximos a porta e rapidamente vão embora.
De onde está, Olivia acompanha a cena, observando a companheira de trabalho,
absorvendo sua atitude, presa em um encantamento, admirando como ela sozinha consegue
intimidar dois homens com o dobro de seu tamanho. Sente por Abigail profunda admiração,
misto de respeito e paixão, sentimento que apenas uma mulher pode sentir por outra. Em
cada detalhe foca, como a roupa lhe cai bem, nos movimentos ressaltando o corpo
torneado, como a voz não treme, como os olhos exercem pressão, principalmente,
encantada fica pelo movimento das sobrancelhas, tão expressivas, sua discrição
intimidante. Os inoportunos se retiram, quando estão sós Abigail ri, sorrindo leve, deixando
Olívia nervosa sem saber como responder, por um segundo envergonhada dos pensamentos
que a tomam. Abigail percebe, e o sentimento a envaidece, em passadas felinas
aproximando diz, Não se preocupe, aqui eles não voltam tão cedo. Olivia sem encontrar oque responder apenas sorri, o telefone está tocando. É Angela, solicitando uma pasta com
papeis cuja necessidade se apresenta, como neste momento a pasta na segunda gaveta da
mesa do escritório se encontra, Abigail a toma e entrega a Olivia dizendo, Preciso de um
favor seu, leve isso para Angela, ela está na sala da diretoria.
Aliviada por ter motivo para sair do andar, pensando em na volta parar para um café
tomar, com a pasta na mão sai para cumprir a missão. Abraça a pasta contra o peito, como
um escudo protegendo o coração acelerado. Tão confuso o ambiente, mesmo que não seja
tão calmo normalmente, hoje o caos é evidente. Anda firme, seguindo pelo corredor entre
as baias, para onde olha alguém parece nervoso, falando no telefone, discutindo, de um lado
para o outro os estagiários passam correndo carregando papeis, no fundo alguém chama, do
outro lado alguém responde, todos parecem demasiadamente interessados na possibilidade
de compor a equipe do novo projeto, seja em qual função for, os mais antigos procurando
posições de destaque, os mais novos ansiosos tentando entender o que podem fazer, todos
querem de alguma forma aproveitar a oportunidade, todos, exceto, Abelardo.
No caminho para o elevador, passando ao lado do cubículo de Abelardo, que
compenetrado trabalha. Parece ser o único no andar a não ser afetado, indiferente fazendo o
que todo dia faz, planilhas na tela, concentração displicente. Olivia pensa em parar para dar
um oi, porém lembra da pasta que carrega e decide apressar o cumprimento da missão.
Provavelmente na volta pare por ali, agora continua andando, sem no entanto conseguir
desviar o olhar, e mesmo quando o amigo some do campo de visão, na imaginação a
imagem permanece, com uma estranha sensação. Por um lado tem a compreensão da
indiferença, Abelardo não se submete aos jogos corporativos, trata o trabalho como
necessidade e não desejo, por outro, tem uma sensação a qual não consegue nomear, perto
do medo, um pouco de luto, saudade, algo estranho, um sentimento que por vezes o amigo
a faz sentir, quando seu olhar já distante mais ainda se distancia, indo cada vez mais longe,
procurando algo que não encontra, voltando para a realidade decepcionado. O elevador
sobe vazio, efetuando uma sensação de conforto, compreendendo Abelardo, empatizando
com sua frequência, algo que a agrada e simultaneamente preocupa. Agrada pela admiração
da indiferença frente às questões mundanas tão egoístas e mesquinhas, preocupa pelo
excesso, talvez não seja essa a palavra, mas é assim que está pensando, e entende porque
tem o medo de um dia perder o amigo. A porta abre, mais alguns passos e entregará a pasta,
na volta decide, tirará Abelardo de seu transe e o levará até a cafeteria para acompanhando
um café conversar sobre coisas triviais. Decidida sorri aliviada.Capítulo Nove, Quintafeira ainda
No espelho negro da tela o visliumbre do rosto, do canto do olho, do performativo
obtuso frente a inclinação, o celular desligado sem bateria, um pendulo parado em uma
irrelevância, precisa como a preguiça posprandial, duas da tarde, finalmente um pouco de
silêncio, o andar vazio, após a correira da manhã os nervos acalmados com o cair da tarde,
levados pelo almoço levados para um pouco de descanso ou do oficio a continuação, até a
onde vai o trabalho, quando repetido volta, abas na tela aberta, luz branca, analisar a
primeira linha de cada planilha, neste caso, são cento e setanta e uma, segundo consta, um
erro foi cometido na vigésima primeira, por algum motivo, alterado foi na primeira linha o
sinal de negativo para positivo em uma formula, assim em diante perpetuado o erro. Erro
encontrado em vias de correção, por diferentes mãos a verificação, bem conhecido bem
feito trabalho desta entediante empreitada, neste caso específico ajudando o poder público a
consertar um certo tipo de erro, mais normal do que se imagina, que faz supor que uma
determinada quantia negativa ficou positiva. E vão os olhos na tela, mais uma planilha
conferida, outra aberta, outro linha, outro dado, outra dimensão, onde conexões neurais
tomando caminhos próprios convergem ao insondável, sobrepondo memórias e criações em
circuitos ao consciente desconhecido, habitante dos olhos vazios, superficialmente
observador pela visão periférica, do movimento que aumenta, de vozes próximas a meias
paredes, tudo se escuta, diálogos e segredos, no caso e atual momento, começa a circular
um assunto, o tempo está virando, forte chuva esperada, estão falando de uma tempestade.
Ainda são quatro da tarde e do lado de fora o céu fechado esconde o sol antecipando a noite
dentro do prédio as luzes artificiais permanecem as mesmas, exceto pela estática
movimentando o ar, instinto ancestral procurando abrigo e segurança, memoria do
rombencéfalo, dos caminhos dendríticos mais primitivos, guiado pelo sistema nervoso
periférico, arrepiando a pele, como os pelos de Abelardo, agora pelo próprio observado,
eriçados, olhos curiosos tornados, caminhos inconscientes aos poucos chegando a
consciência, com um leve toque, sobrepondo o arrepio com uma lembrança arrepiada,
fazendo levantar o braço em direção a tela do computador, para ver os pelos completamente
eriçados ficar, e girar o braço, movimentando uma pequena coreografia dos folículos.
Estrondo de um trovão. Do lado de fora, ainda distante, não é a chuva, pelo menos ainda
não aqui, apenas um preâmbulo. V oltar ao trabalho, terminar a tarefa, organizar algo já
organizado para ter a certeza que organizado está, ou apenas uma tarefa sem sentido para
atropelar o tempo, que em certos momentos entediado faz questão de lento passar.
Movimento da hora que chega, aumenta o movimento de saída, cada um que parte
decidindo aonde quer chegar torcendo para a chuva esperar. Abelardo decide fazer o
mesmo, é hora de ir.Capítulo Dez, Noite Chuvosa
Chuva cai em torrentes, transformando ruas em camadas de cortinas sobrepostas,
vento empurra o tecido pluvial, deixando espremidas as pobres almas molhadas sob a
pequena cobertura do ponto de ônibus. Ao todo, sete indivíduos estão sob a estrutura
metálica que funciona como proteção parcial contra a chuva. Abelardo está entre estes.
Escuridão da hora precipitada no precipício do presente nublado, impaciência da espera
pesando pálpebras, olhos fechados contemplando o mundo, refletindo sobre a realidade
líquida descendo do céu, realidade opressora do ordinário de cada dia, acompanhando
sonhos moribundos perdendo força enquanto o cotidiano sufoca o desejo. Péssimo humor
das palmilhas alagadas. Neste momento observa a chuva enquanto mantém firme os pés,
disputando espaço com uma irritada senhora brigando com o vento para não levar o
guardachuva que tenta fechar. Abelardo está inquieto, depois de um longo dia deseja apenas
chuveiro quente e descanso. Todavia, a noite não tem saído como o planejado,
concomitante com o fim do expediente veio a chuva. A cidade despreparada não sabe o que
fazer. Água acumula em vias tornadas canais, veículos automotores, adaptados apenas para
uso terrestre, impotentes esperam. A metrópole para, sem nada poder fazer além de esperar.
Da mesma forma, Abelardo espera, inquieto, começando a sentir fome, roupas molhadas e
nenhuma perspectiva de que no futuro próximo chegue algum ônibus.
Água escorrendo por uma suave via de desespero na tristeza da cidade constipada,
atolada e sobrecarregada com o rio acumulando sobre a superfície vedada, sonhando com
dias de sol, astro que visto de longe parece frio, um mero ponto em movimento, seu fogo
distante, tanto quanto a água e o solo, e a cidade que transborda, deixando claro que não
mais suporta. Como pensamentos de seres ponderando em diferentes sabedorias, aqueles
que desejam a chuva, aqueles que a chuva deseja, aqueles que sentem o incômodo da noite
abrupta na tarde roubada, veloz no tempo, negociando pequenos fragmentos do próprio
tempo, feitos de agoras, que, da mesma forma que a matéria da qual são feitos, não existem.
Ou irão existir, ou, já não mais existem, existência pressuposta, da qual a vida é
feita, da qual não se foge e não se escolhe, andando pelos caminhos verdejantes de
pradarias formosas em pleno outono, de outro modo, parado em um ponto de ônibus,
procurando levantar os pés para fugir do vento chuvoso, corpo molhado, alma encharcada,
e um impulso adormecido, que depois de quase esquecido, sente um odor distante de um
instante ainda desconhecido, que virá, se desdobrará, e terá consequências ainda
desconhecidas por todas estas criaturas no ponto de ônibus em pleno temporal sem
paciência. O desconforto da situação é patente. Observa as outras almas desafortunadas que
neste momento dividem o mesmo espaçotempo. Abelardo retirado de um transe tem a
recomposição do momento, daquilo que como agora pode ser apreendido. Retoma a
consciência do presente.
O agora é amorfo, nunca é, sempre em vias de ser, o presente é sempre quase mas
não exatamente. A delicadeza da vida é lidar com isso, alguns experienciam como vazio,
outros como uma pura confusão, a maioria, não se importa, na vida segue reta ou torta, e
pelos caminhos tortuosos continuam lacrimejando o passado, de outro modo, aqueles que
olham para o futuro, superando um passado antiquado ou monumental, e mesmo sem
entender o presente agem no ímpeto, outros ainda de outros modos lidam, e, para Abelardo,
o agora é espera, o agora que se estende ao longo dos anos, atravessando as camadas das
eras que constituem o próprio corpo, Abelardo espera, um dia que chegará embalado poruma antiga música hipnótica sobre esperar, algo ou alguém. Esperar como um moto
inesperado onde desaguou a vida, como uma quintafeira qualquer que amanheceu
ensolarada e dentro de um cubículo foi passada. Esperar como anfíbio sobre uma vitória
régia nas costas do mundo no meio de um lago dentro de um parque municipal na babilônia
alagada. Espera e tédio, passa a reparar nos outros seres de parecido fortúnio.
Poucos passos de onde está, a senhora finalmente conseguiu fechar o guardachuva,
agora, o usa como bengala apoiando o peso da perna esquerda. Está falando sozinha, um
baixo cochicho de reclamação, franze a testa e um nome repete, diz para si o mantra da
contrariedade, um canto de decepção. O baixo murmúrio da velha soa fixo na visão sem
horizonte, entranhado na caótica melodia da chuva, servindo de trilha sonora para outro ser,
ao lado, um homem, na faixa dos quarenta, veste terno e gravata azul, em intervalos de
segundos olha para o relógio no pulso, a cada olhada um novo palavrão. Amaldiçoa a
chuva, amaldiçoa o vento, amaldiçoa não ter saído dois minutos antes, tem a indubitável
certeza que são estes minutos os responsáveis pelo atual inconveniente. Dois passos adiante
está um jovem casal, o rapaz transparece o mau humor que pela pele escorre carregado
pelas gotas invadindo a pretensa proteção em direção ao rosto. Está abraçando uma moça,
ela, parece entediada, sonolenta observando. Mesmo havendo um banco, nenhum dos
presentes está sentado, para fugir das rajadas de chuva empurradas pelo vento lateral estão
amontoados na pequena faixa entre o banco e a estrutura metálica que sustenta o teto ao
mesmo tempo em que serve de moldura para pôsteres comerciais. Do lado de dentro exibe
o heroi de um novo filme, enquanto, do lado de fora, mostra a propaganda de um conhecido
sabor de refrigerantes, Tem gostinho de verão, diz o anúncio em grandes letras amarelas
sem ninguém para no momento lêlas. Completando o grupo está uma mãe com seu rebento.
O garoto aparenta seis, talvez sete anos, está agarrado nas pernas da mãe.
Abelardo observa a criança, parece o único ser a não tomar a situação como
infortúnio, tem no rosto o sorriso das descobertas, com as costas da mão direita enxuga as
gotas arremessadas pela ventania a silvar, as gotículas acumuladas aumentam o sorriso.
Puxa a camisa da mãe, quer mostrar que conseguiu pegar um pouco de chuva. É ignorado.
A mulher balança a cabeça condescendente, fazendo sinal para que fique quieto. O garoto
parece não se importar, com a mão esquerda espalhando a água sobre a pele já molhada. A
singeleza da cena magnetiza a atenção. A atitude da criança, o cheiro pesado da chuva, o
barulho das buzinas e o manto da noite concatenam memórias. Já não está mais no ponto de
ônibus na cidade pluvial, está na janela do quarto andar do apartamento onde é possível
presenciar o maquinar do dia. Não tem altura suficiente para olhar pela janela, o que não é
problema, usando uma cadeira alcança o parapeito. Com os braços apoiados consegue
observar a rua, um de seus passatempos favoritos. A janela fica exatamente em frente a
praça Eurico Bandeiras, a movimentação rápida de passantes e veículos, as barracas dos
vendedores tomando toda a área próxima ao chafariz sem água. Gosta de olhar o mundo
pela segurança da janela, particularmente quando está chovendo. Quando as comportas se
abrem no céu, na terra os pés apressam as pessoas. Do lado seco do mundo a visão é
privilegiada, na janela a criança observa, no ponto de ônibus o adulto espera.
Está cansado de esperar, não apenas no que diz respeito a presente situação, esta,
emerge como metáfora concreta, atualizando antigas angústias. Perdeu a conta dos anos que
passa aguardando, no nível da razão tomados como etapa, o campo preparatório onde belas
sementes são plantadas, devidamente cultivadas, no futuro frutos virão, belos e suculentos,
prontos para serem colhidos. Os anos a passar, na concretização do tempo percebe otamanho do labirinto, as voltas desnecessárias, as linhas supérfluas, o futuro é o ponto
almejado ainda que invisível. Há tempos lapida a vontade de deixar o trabalho, necessário e
indesejado, repetitivo e entediante. Nos últimos tempos abandonou os hobbies, acima de
tudo tem cultivado a letargia. Entre diagnósticos pessimistas e prognósticos pouco
animadores, quanto a isto, o tempo dirá, como a tudo, resta esperar. No íntimo a esperança
de que alguma coisa, que, não sabe o que, irá acontecer, sendo a enzima catalizadora, o
limiar que permite a travessia. De algum ponto no horizonte o uivo do vento perpassa a
cidade, a chuva aumenta. O barulho da água caindo forma um único som contínuo, o
zunido constante abafa o som das buzinas, abafa os sons da calçada, da cidade, dos
pensamentos e de tudo que debaixo das nuvens se encontra. Então, por alguns segundos o
vento pára, e, a própria chuva para, como se a tempestade estivesse fazendo uma pausa para
respirar antes do próximo grande sopro, é nesse momento, como um lapso que percorre a
periferia do tempo, um impulso em cargas mergulha na corrente sanguínea chegando à
mente. Abelardo olha as roupas molhadas, as mãos estão tremendo de frio, a alma inquieta,
percebe a inutilidade de permanecer, está cansado de estar a esperar. Como alguém pulando
na corda em movimento, entra na rua decidido a chegar em casa o mais rápido possível,
disposto a andar todo o caminho, se necessário. Nos altos atmosféricos, indiferente às
serestas e questões humanas, a grande massa de ar que por alguns segundos havia parado
volta a cair com veemência sobre a crosta terrestre, especialmente, sobre uma metrópole em
particular, onde, agora, um homem molhando e deveras mal humorado está disposto a
enfrentar água e vento rumo a promessa de chuveiro quente e roupa seca.Capítulo Onze, Peripatético
No começo a forte chuva é um desconforto, contudo, logo que se está tão
encharcado que mais gotas não farão diferença, o corpo percebe o prazer do deslocamento
por entre a matéria líquida. Solto de devaneios o caminhar surpreende, dissolvendo
angústias e aflições pelo movimento dos pés através das águas, é o pequeno prazer que se
torna a totalidade do ser, feito de matéria fluida e movimento. Neste instante para o andante
o andar acaba de atingir estado de graça, o sombreado surreal que perpassa os doces
sonhos. Está leve, lavado de todos os pesos e estáticas negativas. A percepção parece
aguçada em aspectos normalmente ignorados, o mundo surge aberto em toda sua gloriosa
trama, esqueletos de concreto, artérias elétricas e pontos de luz, mares de símbolos e água,
o trânsito estagnado, as pessoas na janela dos ônibus parados olhando a figura solitária
vagando como um fantasma encharcado na metrópole suspensa. A medida que anda o
corpo assume o controle, relaxada, a mente tem a nítida impressão de estar vendo o mundo
pelos olhos de um desconhecido, vagando sozinho, sonhando arquétipos, fisicamente
solitário, contudo, sem a solidão que, mais que um sentimento, é de longa data
companheira.
Com trinta e quatro minutos de caminhada acaba de atingir pouco menos de um
terço do trajeto, a chuva diminui consideravelmente. Da mesma forma, a excitação sensória
arrefeceu. Ainda sente o pós efeito da descarga inicial, ainda a percepção diferenciada do
mundo, todavia, distante do estranho fantasma. Sente uma espécie de neblina onírica,
observa os detalhes da cidade, detalhes que passam despercebidos na corrida cotidiana da
vida em vigília. A chuva volta a aumentar, já não tem a força tempestuosa, é um volume
constante caindo reto sem vento. O trânsito parado virou lento, aos poucos, os veículos
adquirem movimento entre freadas e buzinas. Um dos ônibus parados pertence a linha
quatrocentos e quatro, ônibus que há anos é companheiro diário nos trajetos trabalho casa.
Acaba de perceber que esta é a primeira vez que caminha pelo itinerário que há tanto tempo
passa cotidianamente. Vantagens de morar próximo ao ponto final, é um dos primeiros
passageiros a entrar, normalmente escolhe um dos lugares no fundo, coloca os óculos
escuros e dormita a maior parte do trajeto. No fim da tarde, quando faz o caminho em
sentido inverso, pega o ônibus cheio, raramente consegue sentar. Em ambos os momentos,
pouco olha pela janela, e, quando o faz, pouca atenção presta.
Ao andar a velocidade dos detalhes é reduzida, facilitando a percepção daquilo que
em outros momentos não seria visto. A arquitetura urbana é antiga, resquícios de outra
época e seu estilo próprio, quando nas ruas ainda circulavam mais pessoas do que carros. O
prédio de trinta andares de vidro fosco é uma das exceções, ponto execrável da
presentificação do futuro, arquitetado de forma lisa e atemporal. Sua personalidade melhor
combina com o que é a cidade, Moloch em belos panos. A fachada do prédio toma a
calçada, a marquise iluminada separa o edifício e a chuva. No canto, próximo as latas
coloridas de lixo reciclável, um morador de rua dorme, outro, divide com dois cachorros
um sanduíche e restos de um saquinho de batatas fritas.
À medida que os passos percorrem o caminho, a paisagem gradativamente muda, já
não há edificações com fachada de outro século, as construções são de duas, talvez três
décadas passadas. Prédios de quatro andares sem elevador e sobrados são frequentes,
alguns transformados em lojas. A chuva parece ter assustado os comerciantes, mesmo os
restaurantes, portas fechadas, vitrines apagadas. Não espera encontrar estabelecimentoaberto, parece perfeitamente razoável frente a situação atual, o tempo nervoso, ao que
parece, continuará durante a noite sem trégua.
O caminhante continua, observa como a rua é estranhamente bela, pondera como
deve ser charmosa em um dia de sol claro, principalmente no outono, quando a temperatura
é amena e o céu sem nuvens ostenta o sol morno da estação. No momento, a realidade é o
oposto da imagem mental, entretanto, a caminhada na chuva deixou o humor com bela
disposição. A sintonia com o mundo é quase onírica, em determinados momentos chega
imaginar não estar mais na cidade apressada e melancólica, pondera que talvez esteja
sonhando. Reduz a velocidade dos passos, passa por uma sequência de lojas especializadas
em luminárias. Em uma, o mostruário está acesso, banhando a vitrine com a luz de
diferentes lâmpadas, formas e tons, contraste absoluto com as variações de cinza do
exterior. Abelardo está do lado de fora, tanto das lojas fechadas quanto de si, aproveitando
as sutilezas do inesperado provocado pela inusitada caminhada.
O sedentarismo começa a cobrar sua parte, as pernas apresentam os sinais do
cansaço, comedidas sussurram a queixa, são ouvidas, mas ignoradas. A comprida rua por
certo é um bom lugar para comprar mobiliário e decoração. Neste momento está passando
em frente a três lojas de móveis e antiguidades, todas fechadas. Observa, sem parar, até ser
cooptado por algo. O estabelecimento tem a fachada simples e bem cuidada, um refletor de
luz amarela posicionado em algum lugar escondido cria a sensação de que a luz emana do
chão, subindo em direção a vitrine. Do outro lado do vidro há o modelo de uma sala de
estar. Acolhedora e aconchegante, poucos móveis, muito bem arranjados, colocados em
posição para dar destaque a peça no centro. O sofá.Capítulo Doze, O sofá
A iluminação amarela indireta realça a cor marrom do couro, as taxas e os braços
languidamente arredondados, um antigo chesterfield repousa com uma elegância quase
predatória, sua presença reluzindo sob a luz oblíqua de segredos insuportáveis ao toque. O
tempo coagula em denso silêncio. As tachas de bronze, dispostas com precisão cirúrgica,
faíscam como pequenos olhos metálicos, fitando, incitando, hipnotizando. Um grito
silencioso pulsando através das camadas almofadadas abafando promessas de uma estranha
imobilidade luxuosa de algo que é mais do que um objeto. Um piscar de olhos, sensações
desaparecem, o vento retoma a realidade da noite chuvosa, despejando umidade nos olhos
observando os outros componentes da vitrine, uma antiga mesa de boticário, uma gaiola de
ferro fundido sustentada por um extravagante suporte, um abajur discreto sobre um criado
mudo de mogno maciço, peças bem posicionadas, em sua discrepância compondo de forma
harmônica o mostruário de um antiquário. Outra vez os olhos voltam para o sofá, um metro
e oitenta, extensão nada impressionante, que entretanto parece ocupar todo o espaço da
vitrine, um monarca calado irradiando algo entre o conforto e o abismo. Duas largas
almofadas retangulares sobre o assento, as pregas cuidadosas no couro legítimo de algum
animal antigo, as curvas robustas dos braços prolongados em um arquétipo suntuoso, tudo
convidando a um repouso absoluto.
O olhar desliza de um ponto a outro numa espécie de transe fragmentado, à espera
de que o sofá diga algo, rompendo o silêncio com uma revelação qualquer, um murmúrio
velho de outras eras. Enredado em pensamentos cada vez mais profundos sente o estranho
impulso de se aproximar, de se submeter a presença que embora imóvel o desafia a entrar, a
deitar, a desaparecer no mistério acolchoado feito de aconchego e tímida sensualidade.
Abelardo é envolto pela aura do algo e do momento, absorvendo os fatos como quem gira
uma xícara entre os dedos, esperando o café esfriar, em busca do momento onde os lábios
não são queimados, quando, apenas, sentem o comichão do calor no que ainda antes da dor
é prazer, e queima, os olhos, que agora olham, olham para o sofá, pensando no quão
confortável é, e pensam e suspiram em concordância a musculatura cansada, como deve ser
maravilhoso depois de um dia chuvoso deitar na maciez em passeio pelas etéreas nuvens de
couro. As especulações excedem o pensamento, são pequenos redemoinhos hipnóticos, está
magnetizado pela presença do sofá do outro lado dos centímetros de vidro que os separam.
Perdido em devaneios não percebe que um homem se aproxima. O homem que em
breve irá falar, Boa noite, e, tirar Abelardo de seu transe, é velho, e mesmo a aparência
idosa esconde a real idade de sua velhice. Os cabelos são completamente alvos, finos
parecem deslizar pelas rugas da testa morena. Veste calças de brim em tom ocre pastel e
camisa branca de botões. Ao contrário do homem encarando o sofá na vitrine, está
completamente seco. Com o cuidado e a lentidão da idade se aproxima, a mão esquerda a
cada passo apoia o corpo contra a bengala, feita de madeira escura com entalhes de animais
ao longo de toda a superfície. No seu lento caminhar o ancião se aproxima, está a distância
de uma conversa e, acaba de parar, diz, Boa noite, acrescenta, Parece que gostou do sofá.
A voz amistosa por um momento desliza pelo éter, Abelardo roda o pescoço em
direção ao som. O primeiro estranhamento é o quão seco o homem está, ao redor a chuva
continua sua incansável queda, da mesma forma, a temperatura e o vento, porém, o ancião
parece emergir do nada vestindo roupas leves e secas. O segundo estranhamento é algo cuja
compreensão não alcança, uma daquelas sensações mistas de intuição e observação,sensação onde a mente procura o significado e não encontra, não sabendo exatamente o que
é. O ancião permanece parado, imóvel esperando a resposta do interlocutor, Boa noite,
responde Abelardo polidamente, Sim, é um belo sofá. O velho parece gostar da resposta e
sorri largamente enquanto as palavras saem carregadas com sotaque, Mais do que belo,
uma obra prima, feito em primeiro lugar para deleitar os olhos, com a mesma artesania que
para deleitar o corpo, com uma mistura única uma peça única. Enquanto escuta, Abelardo
retoma posição de frente para a vitrine, olhando para o sofá, imaginando a sensação das
costas no suave contorno acolchoado, percebendo com estranhamento o quanto pelo objeto
se sente atraído. Um raio cruza o céu, quatro segundos depois o estrondo. Desanimado
lembra o caminho ainda a ser percorrido e decide partir, nesta altura, está decidido a chegar
ao ponto mais próximo e tomar o ônibus para finalizar o restante do trajeto. O ancião
percebe a intenção do movimento e diz com o mesmo tom agradável de um avô, Por que
não entra um pouco, alguns minutos para esperar a chuva passar enquanto olha mais perto o
sofá, apontando a bengala continua, Está encharcado, certamente uma bebida quente e um
lugar seco são a melhor ideia para esperar, a chuva não irá parar tão cedo, mas em breve
diminuirá consideravelmente. Abelardo avalia a situação, o primeiro pensamento que vem
é, O corpo está cansado, a poucos metros daqui há um ponto de ônibus, o melhor é esperar
um pouco, o tempo para melhorar o tempo, o trânsito estará melhor fluindo, rápido será o
trajeto. Outro pensamento imediatamente se concatena ao primeiro, Talvez experimentar o
sofá.
O ancião sorri, como se no silêncio acabe de receber uma resposta, com sorriso
amigável e movimentos lentos balançando a cabeça, colocandosse a caminho para o interior
da loja. Abelardo pouco espera, acompanhando o lento ritmo caminha com o relance do
olhar fixo no sofá.
Neste momento, Abelardo está a exatos dois passos de entrar no antiquário. Ainda
não tem noção de como os próximos momentos decisivamente irão afetar seu futuro, da
mesma maneira, não tem sequer vaga pista do que está prestes a encontrar, mesmo que,
tenha na mente uma imagem específica do que pretende encontrar. Em outros momentos,
em outros lugares, entrou ou viu imagens de lojas de móveis e antiguidades, das múltiplas
experiências construiu uma loja imaginária traçada de pontos comuns. Agora, ainda que
inconscientemente, tem essa imagem como expectativa de como será o interior que em
breve adentrará. Todavia, irá ficar estupefato, tirado de órbita por peças que pertencem a
diferentes quebracabeças, apenas, por alguma estranha coincidência, ocupando o mesmo
espaçotempo.
O passo derradeiro que deixa a rua colocando o primeiro pé dentro da loja vem
acompanhado de estranha e inusitada sensação, a mesma sensação mista de intuição e
observação de pouco antes, desta vez mais forte, contudo, logo esquecida pelo deslumbre
do momento que o cerca. A primeira coisa que vê é o grande relógio à direita, peça maciça
feita do tronco de uma única árvore, os números e ponteiros feitos com entalhes em formas
geométricas. Ao lado, o esqueleto de um animal, busca nos arquivos mentais algo que
corresponda a esta formação óssea, nada encontra. No teto, pássaros empalhados
pendurados. Alguns reconhece, outros, os maiores, parecem tirados de algum momento do
período jurássico. As informações chegam em pacotes de difícil assimilação, num estalo
chega a certeza, está sonhando, Nada disso pode ser real, pensa, Estou dormindo, a chuva, o
caminho, o homem e o cachorro dividindo fast food, é tudo sonho, da mesma forma, esse
momento, esse lugar, a qualquer instante irei acordar, sentado no banco desconfortável doônibus a caminho de casa, com a cabeça encostada na janela e a boca aberta. Antes que o
pensamento continue é puxado por uma espécie de razão, Não estás a sonhar. Isto sabe, por
mais onírica que seja a sensação e o ambiente, não é um sonho. Todavia, lembra de ter
sonhos onde não sabe que está sonhando, só sabendo depois, quando a vigília recebe as
informações noturnas. Sonhando ou não, é inegável a força da experiência, fazendo com
que esta questão suma em detrimento das percepções que o cercam.
Na medida em que a passos cuidadosos pela loja anda, objetos tão díspares quanto
inusitados aparecem empilhados por todos os lados. Um grande cacto de espinhos
vermelhos está ao lado da menor mesa de bilhar que já viu. Duas cadeiras estão fixadas na
parede a pouco menos de um metro do chão, posicionadas ao lado da mesa violeta onde
uma vitrola de aparência vitoriana paira reluzente. Com aspecto mais velho que a maior
parte dos objetos, uma estante de madeira marrom, do chão ao teto, abarrotada de livros,
alguns deles com as capas visivelmente danificadas. Do lado de fora, a loja parece pequena
e estreita, por outro lado, dentro, a sensação é de um lugar imensurável, repleto de artefatos
e luminosidade confusa.
O velho surge por trás do grande urso pardo empalhado com uma enguia na boca,
não está com a bengala, e, segura uma larga bandeja de prata onde duas xícaras e duas
toalhas dividem espaço com o bule que derrama no ambiente odores cítricos e aveludados.
A impressão inicial de fragilidade passada pelo ancião já não existe, dentro da loja se
locomove com estranha agilidade. Acaba de passar por Abelardo, fazendo sinal para ser
seguido. Percorrem o corredor de móveis até a vitrine onde está montada uma aconchegante
sala de estar. O anfitrião coloca a bandeja sobre a mesa de centro e serve às duas xícaras,
sorri para o convidado enquanto entrega a peça de porcelana de onde algo de ótimo cheiro
fumega, diz, Permita que me apresente, sou Ramon Ruiz, a fala é acompanhado por uma
mesura, com as mãos vazias tirando um chapéu imaginário.Capítulo Treze, Nos domínios de Ramon
Fatos de averiguação precisa, sensações orgânicas,. Fatos de averiguação incerta, o
que vai ao ponderável e subjetivo. A própria existência como um fato, em momentos
passível de questionamento. Será esta a realidade, será um sonho, serão fatos quando
consistindo em fendas sinápticas transformar códigos encadeados e palavras em cenas
compostas de imagem e sentido. Como agora, quando após o aceno de um chapéu
imaginário, Abelardo está sem palavras, mudo retribui o gesto, imitando sem realmente
prestar atenção no que está fazendo, quando a dúvida é assolada pela certeza, de algo que
não entende, que provavelmente não irá entender, que entretanto sente, nas vísceras,
naquele ponto entre o umbigo e o intestino onde nasce o eu. Os olhos são magnetizados
pelo sofá a poucos passos de distância. O ancião, que agora não parece tão velho, o homem
que se apresenta como Ramon Ruiz, continua, Percebo que gostou em particular desta peça,
com o indicador aponta, É sem dúvida um dos tesouros guardados nessa loja. Agora, Ruiz
caminha ao redor do sofá, vez ou outra tocando no objeto para dar ênfase ao que está
falando, A estrutura é antiga, de onde exatamente veio a história se perde um pouco, o que
é possível apurar, em algum momento foi um móvel maior, que por algum motivo ou
acidente foi danificado, sendo de rara madeira, incitou um artesão a transformálo em outra
peça, outra vez lhe conferindo vida, na parte de baixo, em um canto discreto na dobra do
estofado, está a assinatura do artesão, já não mais vivo, mas sua oficina ainda no mesmo
endereço continua administradas pela prole, mas voltando, o sofá logo pronto foi vendido,
comprado por um rico comerciante Veneziano para presentear o filho, mas parece que o
rapaz não gostou do presente, e deixou para o irmão como agrado de casamento, para os
recém casados a peça perfeita para a nova casa em Modena. O casamento acabou, o sofá,
assim como todo o mobiliário, vendidos. Ramon Ruiz pausa a fala, olhando para o
interlocutor buscando entender se este está ou não a atenção prestar, tendo certeza que capta
o público, continua no mesmo tom enquanto anda a passos curtos, A tristeza de uns, a
alegria de outros, às vezes para um negócio como o meu o fim do casamento de um rico
casal é uma oportunidade, neste caso, adquiri algumas peças de valor, mas confesso que
este sofá tem algo único, a primeira vez que a vi também fiquei estupefato, e, acredite,
assim que experimentála, não outra coisa quererá da vida fazer. As últimas palavras são
ditas em tom de malicia, Abelardo não percebe, está demasiado ocupado com sensações
que fogem a costumeira familiaridade. Ramon Ruiz acaba de pegar um par de alvas toalhas,
está estendendo sobre o assento, criando proteção, impedindo que um eventual corpo
molhado deixe sua marca no couro. Percebendo o que está sendo feito, Abelardo olha para
o ancião com o sorriso sem palavras que pergunta, Posso. Da mesma maneira vem a
resposta, o gesto que indica, Fique à vontade.
Sem a pequena espera que cria a cortesia, imediatamente senta no centro da toalha
esticada. Um pouco de medo e a sensação de se ter o corpo invadido, ainda que
suavemente. Sente o impulso de se jogar, mergulhar na superfície macia, encontrar posições
e fundir a existência com a bucólica tranquilidade que o objeto emana. De perto, Ramon
observa, segurando uma das xícaras de onde, em pequenos goles, sorve o líquido cujos
últimos resquícios de quentura esvaem em pequenos abanos de vapor. Mais um gole, por
alguns breves segundos permite que a bebida permaneça na boca antes de deixála escorrer
pela garganta e molhar as palavras que vem a seguir, Então, o que achou, tão bom ou
melhor do que imaginou. A última pergunta é acompanhada por um sorriso. Abelardo tentaformular uma resposta, não consegue formar uma frase. Está em uma espécie de êxtase,
todos os onirismos do ambiente somados a figura do ancião e o empuxo gravitacional que o
sofá exerce formam um intrincado labirinto sensível que o faz mais uma vez acreditar estar
sonhando. Fundo respira, recuperando a sensação de domínio do corpo, a mente ainda
oscilante volta ao eixo racional. O ancião está dizendo, Aqui um pouco de chá, é hortelã,
cascas de limão e canela, mel para adoçar. Ramon Ruiz entrega a xícara, que Abelardo
recebe, um gole, longo, o líquido morno, realçando a sensação do corpo molhado e frio.
Tem a experiência temporal marcada por cortes sujos, num instante está a centímetros da
vitrine olhando o exterior, no segundo seguinte está próximo a mesa de centro com uma
xícara na mão, tem a memória como lapsos, ações que se repetem em descontínuo,
tornando a alegada realidade influxa em tríades dispersas, O chá está ótimo, tem gosto de
dia claro e tranquilidade, como é possível, pensa, logo sendo cooptado pelo desconforto
metabólico que o corpo aflige, descida arterial. Sente fraqueza, o distanciamento dos
membros, o plano diminui à medida que o foco é perdido em um ponto distante, neurônios
e sinapses em guarda para o colapso iminente.
Entretanto, tão repentino como um rompante lupino, o corpo reencontra a
homeostase, devolvendo faculdades atentas e compreensivas. Meio aos estranhamentos e
incompreensões decide pela imediata partida. Deixa sobre o pires a xícara de traçados
carmim, levanta, estende a mão esperando o cumprimento, diz, Preciso ir, realmente não
estou em meu melhor estado, completa as palavras gesticulando os braços a evidenciar a
roupa molhada, Claro, não está nas melhores condições, brinca Ramon, Espero ter ao
menos amenizado e entretido, é bem vindo para voltar a qualquer momento, caso tenha
interesse, nesta ou em outra peça. As palavras mercantis pela primeira vez uma ideia
acendem, a possibilidade de adquirir o sofá, imediatamente levado a devanear. Ramon
atento percebe a sutileza do pensamento, Se imaginas em posse da peça, é sua, não se
preocupe, condições e formas de pagamento são discutíveis. Abelardo volta a sentir baixa a
pressão, não está em condições para formalizar o assunto. Ramon mais uma vez é assertivo
na compreensão dos nuances do visitante, diz, Permita que o ajude, irei chamar um táxi,
venha. As últimas palavras são complementadas pela gesticulação rumo ao interior da loja.
Neste momento Abelardo está aéreo, febril ainda que a temperatura corporal esteja baixa,
segue o ancião que fala sobre o sofá, pesca palavras do discurso sem alcançar compreensão
do que é dito. Anda mecanicamente, até sentar na cadeira indicada pelo anfitrião que
continua a dialogar ainda que o interlocutor esteja perdido.
A cena acontecendo no momento, o cenário, interior da loja de antiguidades, o som
da chuva cessou, sons de tintilar engrenageado de antigos relógios, um pio ecoando de um
pequeno animal engaiolado, um rapaz molhado sentado em uma cadeira, olheiras profundas
e olhar atento, ainda que, a mente vague distante sem prestar atenção no que diz o velho
senhor com sorriso gesticulando, chegando ao fim da fala e tomando o silêncio do visitante
molhado como concórdia. Ramon Ruiz toca uma pequena sineta de bronze ecoando um
som suave. Quase instantaneamente surge um homem, baixo, magro, com um enorme nariz
marcado por uma cicatriz que se estende até o meio da testa, se aproxima em passos tortos
com os braços cruzados nas costas, veste calças bem cortadas, bem alinhadas com o paletó
destacado por uma flor precisamente posicionada no bolso, nada diz, parado espera as
ordens, que logo vem, pronunciadas por Ramon, Veja bem, este jovem senhor tem a
felicidade de fazer negócios conosco, entretanto o mal tempo o pegou desprevenido, faça
nos o favor de chamar um táxi, ele lhe acompanhará e passará o endereço. Com andaresquisito as mãos estendidas chamando Abelardo que continua sem escutar o que é dito, o
novo ator na cena acentua a camada fantasiosa, parace saido dos salões de cortina vermelha
de outra dimensão, levanta, acha que está dizendo algo, agindo em agenciamentos caóticos,
confusão mental, desconforto físico. Outra vez a sineta de bronze, dessa vez tocada com
mais força, duas vezes, som do sino, o trilar perpassa o aparelho auricular, no cérebro,
acaba por encontrar algum interruptor, sendo sonho ou realidade, esvai a consciência.Capítulo Quatorze, Rotina e Realidade
A estranha sensação de acordar de sonhos intranquilos. Na mente sons artrópodes
entorpecem a realidade, trazendo em si a lembrança de outras manhãs, que, se embasam no
contínuo do hábito. Levanta da cama. O trajeto até o banheiro é feito no automatismo dos
passos a despertar. As engrenagens da consciência ainda preguiçosamente trabalham,
passando da primeira para a segunda marcha. Mais um dia, mais uma vez a rotina. Tédio,
café, trabalho. Enquanto os dentes escova, um leve pensamento atenua o peso matinal,
sendo diluído na espuma cuspida em espiral descendo pelo filete de água que leva ao ralo,
Hoje é sextafeira. O pensamento é uma pequena carga de ânimo para aturar o repetitivo
trabalho que nos últimos anos exerce. Com frequência pensa em abandonar o emprego, tão
tedioso quanto desgastante, sente como desperdício todas as horas passadas frente à tela e
planilhas, desperdiçando tempo e energia no sem sentido labor em troca da recompensa
financeira. No fundo deseja largar tudo, deixar o apartamento, deixar a cidade, no fundo, o
que sente é medo e a acomodação das pequenas certezas. No fim, continua fazendo o
mesmo, pois, sabe que nada fugirá do esperado, mais vale o conforto da certeza que os
perigos do desconhecido. Se a melancolia é o preço para o conforto e a estabilidade, que
seja.
O apartamento no sétimo andar é novo e bem conservado. Como a maior parte dos
edifícios residenciais é pequeno, ainda que a cozinha se estenda transformada na área de
serviço onde, sobre o tanque, a janela de correr abre para leste, direção onde os prédios a
frente são menores, o maior, à esquerda da linha de visão, tem cinco andares. De onde está
a janela tem a privilegiada visão do horizonte onde a cada manhã o sol levanta. Neste
momento, após esquentar no microondas um copo de café da véspera, se aproxima da
janela, que, jovialmente recebe, alegre pela companhia a mais uma vez partilhar a estrela
que traz o dia.
Nessa atmosfera matinal, naquele momento onde a racionalidade já engatada ainda
não tomou a frente, o momento onde com maior liberdade se comunica com o mundo
onírico, Abelardo rememora cenas de um sonho. A loja de antiguidades. No sonho anda
pela cidade, está chovendo, o corpo nitidamente rememora o prazer da caminhada. Em uma
rua de lojas fechadas é recebido por um homem peculiar, de olhos profundos. A loja é a
câmara secreta de mil tesouros, contudo, de alguma forma sabe que nenhum dos objetos ali
têm real importância, exceto, uma peça específica. A memória que irá, em muito breve,
tomar Abelardo, estará carregada de êxtase e tensão, irá colocar dúvida, e, a realidade em
questão. A imagem chega, o sofá, e todo o magnetismo desde o primeiro momento
exercido. A memória é tão nítida quanto real, tão real que, Talvez não seja um sonho. De
fato, não consegue lembrar como chegou em casa na véspera. Lembra ter deixado o
trabalho, um dilúvio caindo, o trânsito parado como canos entupidos, o ponto de ônibus
apertado, o vento, o cansaço, pombos molhados, batata frita e embalagens plásticas
entaladas nas grades dos bueiros. O ônibus lotado, o trajeto dormitado de mau humor
molhado. Sem tanta certeza, não consegue acesso a memórias precisas, as imagens feitas
resultam da rememoração que no momento a racionalidade consciente executa. Fatos em
lacunas. Depois deste momento não consegue ter a certeza exata do que ocorreu no
intervalo temporal entre o ponto de ônibus chuvoso e o conforto da cama. Pensa que,
Talvez seja o cansaço, a necessidade de sono, o estresse físico e mental, foi isso, devo ter
pego o ônibus e dormido todo o trajeto, o que aconteceu foi a mistura dos processosoníricos com o que era pela janela visto nos rápidos momentos em que do sono os olhos a
realidade retornam. Para ter certeza, enquanto o café termina, repete para si mesmo a
conclusão obtida, buscando ênfase para convencersse.
Tanto enredado em pensamentos persistentes, porta fechada, elevador vazio, na
névoa onde os olhos assimilam o mapa, seguindo o condicionamento logo sai assim que as
portas do elevador abrem, sem perceber, que, não está parando no térreo. Atento estivesse,
veria a luz no painel indicando um número e não a letra T que designa o piso inicial, assim,
quando distraidamente acelerado em passos retos ruma, bate de frente com uma mulher,
moradora do número duzentos e um, esperando o elevador, pronta para entrar, quando
quase é derrubada por Abelardo.
São trocadas desculpas e comentários constrangidos quando Abelardo percebendo o
que está acontecendo retoma ao elevador andando de costas, envergonhado pedindo
desculpas a Martinha Queluz. Esta, por sua vez, após o susto inicial está rindo, e agora tenta
apaziguar o rapaz, que conhece, dessa maneira superficial que se conhecem os vizinhos
condôminos, entre Bons dias, e comentários rotineiros. Faltando poucos andares o trajeto é
rápido, Abelardo outra vez pedindo desculpas, enquanto acompanha o passo em
justificativas sobre a distração, já não mais constrangido, percebendo que a vizinha levou a
situação pelo lado cômico, fazendo com que o susto acompanhado da leveza da comédia
expurgue divagações, alterando o humor.
Nesse momento depois dos primeiros passos depois do portão se separaram, tomam
cada um o seu caminho, o jovem preocupado segue a calçada olhando em sessenta graus o
horizonte, buscando na curvatura do queixo alcançar algum ponto além do horizonte, olhar
para longe é o mais próximo que se pode chegar de si, o momento que também é um ponto,
quando é onde, quando se vê com o íntimo distante que nos assusta, olhos rajados levados
em cacos, carregados por um enxame de tartarugas voando em outra realidade, livres em
acrobacias, tendo certeza que por ninguém são vistas. Enquanto isso, simultaneamente
neste espaçotempo, Martinha ri imaginando o que se passa na cabeça do rapaz preocupado
indo para o trabalho, enquanto, ela mesma, segue caminhando para o próximo capítulo.Capítulo Quinze, Mrs Queluz
Martinha indo para a padaria, caminhando pães de coco em pensamento, habitando
o antagonismo da própria solidão, escarpado e longo momento de epifania passageira,
costumeiramente efêmera, tanto quanto inconstante, passando a passos largos pela calçada
que desce a rua onde Judas carrega flores, provavelmente um pedido da floricultura, sempre
é de alguma mãe, ou desculpa ou declaração, aniversário, uma menina que faz quinze anos,
um namorado arrependido, sempre tem alguém que pela manhã precisa flores enviar, e lá
vai Judas levando as flores, um buquê de margaridas, grande com laços e babados, no braço
vai também uma cesta com guloseimas, parece pedido de desculpa de algum sujeito
travesso. Fica com vontade de apressar o passo e puxar assunto, Judas algo falaria, adora ter
alguém para falar dos clientes da floricultura, quem atravessa a rua é Helena pelo cachorro
sendo carregada, o bicho não aparenta tanta força, é ela que parece feita de gravetos, bate
um vento e sai voando, veja bem o trabalho, sair para buscar a moça sabe se lá onde,
tomara que caia no mar, ou que o cachorro que agora lhe puxa a segure em terra, qual é
tanta a pressa do bicho, de poste em poste, de muro em muro, e todo esse barulho, deve ser
surdo quem anda numa motocicleta de infernal trombeta, e agora já vamos perdidos
procurando sentidos, acompanhando, o passeio de Martinha, entre a casa e a padaria,
quando pouco antes fechou a porta de casa, com uma mão girando a chave, com a outra
segurando no peito o cordão, um resquicio de outra vida, que as vezes retorna, alterando o
humor, a deixando triste, enquanto com uma mão coloca a chave no bolso, enquanto com a
outra aperta contra o peito o cordão, uma corrente de ouro branco, fina, como um fio de
seda, com um fecho delicado escondido pelo cabelo, segurando um pingente, onde um
pequeno cristal azulado repousa sobre a pele entre os seios, quase ouvindo o coração,
quando a mão em concha sobre a blusa aperta o cristal contra o peito, quando com uma
mão aperta o botão chamando o elevador. As portas abrem soltando um apressado em
distração que quase a derruba, entretanto, efeito que agora é sentido mas não ponderado por
Martinha, o sujeito que quase a derrubou fisicamente, neste acidente, derrubou
pensamentos, enchendo a mente de graça, ainda mais quando rindo da situação o rapaz
enrubesce buscando justificativa, até, perceber a leveza do ocorrido, e agora o pensamento
é compartilhado com Martinha, voltando a pensar em Abelardo, imaginando para onde vai
tão apressado, ponderando o que vai naquela mente, talvez ele também tenha ficado mais
leve, assim como essa manhã, iniciada em peso, agora deslizando suave pela rua, neste
momento vazia, cortada pelo som de carros em paralelas, pelo ranger constante das
máquinas, pelos pés e mãos dos cidadãos, indo para seus afazeres, trabalhos,
compromissos, um pão doce de coco com creme, e um café quente, forte e sem açúcar, o
doce do pão já é suficiente, e talvez sejam dois, e talvez a vida seja um mundo habitável
quando se vai na tranquilidade, em paz com o momento.Capítulo Dezesseis, Um pouco mais do mesmo
Frente às planilhas na tela abertas sentado está. No total, oito abas estão abertas,
passando de uma para outra sem de fato prestar atenção. Tem uma série de tarefas a serem
cumpridas, sabe que no momento em que se propor a executálas terá em cerca de uma horae meia concluído, da mesma forma, sabe que, uma vez pronto e entregue, irá receber outra
série de tarefas, o que, no fim das contas, não deseja. É assim que neste momento está
Abelardo, a procrastinar. No mesmo andar, nas baias ao lado, alguns fazem o mesmo,
outros, trabalham, Ricardo Poleno é um dos que trabalha. Concentrado em longas fileiras
de dados procura discrepâncias nos resumos contábeis dos últimos treze anos, graças a este
exaustivo, porém, necessário trabalho, a empresa economizou no último semestre setenta e
sete centavos. Passos cruzam o corredor, é Alfredo, um dos gerentes da divisão de controle
contábil, tem quase dois metros e cento e dez quilos. Anda como se não soubesse o que está
fazendo, o olhar distraído e vago. Na empresa muitos não sabem exatamente qual é a
função de Alfredo, que, parece apenas andar entre as baías e a copa, onde passa a maior
parte do tempo comendo biscoitinhos amanteigados e tomando café. Alguns chegam a dizer
que o próprio Alfredo esqueceu o que realmente faz. Perto do bebedouro um grupo
conversa, ansiosos pelo fim do expediente que os levará para o sempre sonhado fim de
semana. No corredor, que leva aos banheiros, uma das lâmpadas está queimada, aconteceu
a quatro dias passados, desde então, uma aranha de pernas finas e compridas construiu suas
teias onde estão três mosquitos a se debater. Todas estas e outras coisas neste exato
momento a acontecer, e, na baía vinte e um do vigésimo primeiro andar, do setor de
Conferências Contábeis da Conta Conta Contabilidade, Abelardo continua a passar de aba
em aba, sendo entorpecido pela constante luminosidade da tela que deixa a mente em stand
by.
Passa a maior parte da manhã procrastinando, pouco antes do meio dia saí para
almoçar. Sai sozinho, esquivo sem ser visto. Tem um solene respeito pelo prazer de comer
só, apreciar a refeição em silêncio em seu próprio tempo, observando o mundo e
saboreando lembranças, as acontecidas e as inventadas, no intervalo garfado embalado no
ritmo contínuo da mastigação, papilas e neurônios, alfatividade gustativa e mnêmica,
rítmica do mundo no primitivo prazer pelo alimento propiciado, quando para além das
calorias o tempo é consumido, prolongado na textura bem crocante, amolecido na salivação
constante, digerindo fome e prazer. Findada refeição, volta e meia no quarteirão, nos passos
esticar o tempo antes de voltar, um infante que de tudo faz para enrolar, prorrogando até o
último instante a ida para escola, mas não era assim, a cena da memória corrige o
pensamento presente, projetando a felicidade do pequeno ser uniformizado, segurando a
lancheira de pé em frente a porta, fica na dúvida se todos os dias são assim, Abelardo com o
tempo tem percebido a inclinação da memória em focar no que é bom, pegar uma cena e
congelar em um curto vídeo que preenche todos os dias, provavelmente, como existem dias
felizes, carregam existência dias de choro, de vontades contrafeitas, Não tem jeito, meu
bem, hoje tem que ir para escola, chegando lá você vai ficar feliz. E assim contrariado é
obrigado a chegar na escola, as palavras ecoando com ternura, acompanhada da dúvida
sobre a felicidade alcançada. Naqueles tempos um adulto intervindo, na maioria das vezes
tia Glória, apressada na exagerada pontualidade, sempre temerosa em chegar atrasada,
levando a criança, mesmo contrafeita. Agora, o adulto que repreende é também a criança
que não quer ir, Abelardo experimenta, outra vez, a tristeza da resignação. Engole sonhos e
anseios enquanto apressa o passo soltando um arroto com gosto de farofa, alho e
melancolia.
Alimentado acaba de voltar Abelardo, anda em direção a mesa onde o computador
ligado aguarda. O andar está vazio, o que de alguma forma o deixa feliz. Filho único, criado
em apartamento, acostumado ao conforto da própria presença. A mãe com frequência dizia,Desde cedo independente e imaginativo. O bordão foi repetido com orgulho, formando
características cuidadosamente cultivadas. Na vida teve poucos amigos, da mesma forma
poucos amores. Nas delineações citadinas optou pela solidão, aos dramas humanos avulso,
da complexa entranha sapien a compreensão ermitã. A movimentação aumenta, o fim do
horário de almoço, logo o andar estará cheio novamente. V olta às planilhas, desta vez
decidido a dar seguimento a tarefa. Passando pelo corredor Everton acena, um metro e
setenta, magro como um graveto e sorriso sempre aberto. Parece estar constantemente rindo
de alguma piada ou ter acabado de receber boas notícias. Não sente simpatia pelo sujeito,
tem a sensação de que a constante felicidade que demonstra é a máscara superficial que
algo esconde. Responde ao aceno forçando os lábios a mostrar sorriso e cortesia.
Absorto na tela não percebe Olivia aproximar, neste momento, se surpreende
quando ouve a voz suave implicante apontando para o computador, Mais um belo dia no
sempre atarefado universo da contabilidade. Abelardo sorri, em frente a bela de cabelos
esvoaçados e olhar distante. São duas almas que compartilham a tranquila intimidade
entrelaçada de outras dimensões. Na esfera relacional, no que tange ao pequeno grupo de
amigos íntimos, Olivia tem posição destacada. Motivos para isso corroboram. O mesmo
ambiente de trabalho dividem, poucos metros os separam, é certo que funções distintas
exercem, entretanto, no nem sempre movimentado cotidiano do seleto grupo de
funcionários da Conta Conta Contabilidade há espaço para pausas esfumaçadas e alguns
minutos de prosa próxima a cafeteira. No mais, é a maneira como ela no mundo se
posiciona, em sua própria alteridade alheia ao funcionamento da máquina, ainda que,
ciente, neste posicionamento de próprias regras simbólicas. Por motivos diferentes, por
histórias diferentes, de maneiras diferentes, ainda assim, na primeira ligação molecular
vibrados na mesma frequência.
Abelardo aponta para o volume que Oliva carrega e retruca, Talvez não tão
atarefado quanto no recursos humanos. O volume é composto por gordos envelopes, com
disfarçado sarcasmo diz Olivia, Alguém precisa entregar as fichas pros chefões, pelo que
parece, cabeças vão rolar. Dois pares de olhares se encontram, observa os olhos fundos do
amigo, a tez abatida, V ocê não parece bem, mesmo para alguém com profundas olheiras,
tem bolsas enormes embaixo dos olhos. Abelardo reflexamente esfrega as pálpebras antes
de dizer, Não tive boa noite de sono, essa semana sem fim não me deixa dormir bem,
preciso, uma boa noite sem hora para acordar. Olivia sorri no mesmo tom, Para sua sorte
amanhã é sábado. Ao falar sobre a noite, o sonho vem à mente, a estranha loja e o sofá, a
imagem em movimento passa e esvai deixando arrepiada a percepção. É Olivia quem
continua falando, Amanhã é a estreia da peça do Nilo, ele está super animado, você vai?
Sem responder prontamente a cara que diz Talvez é resposta suficiente. Olivia ri, Certo, se
animar nos vemos lá, vou indo, não é bom deixar os superiores ansiosos. Se despedem. De
volta a solitude das planilhas, o árido e eterno intervalo entre os números, por ainda alguns
minutos a consciência irá persistir, até, ser sugada pela monomania do trabalho.Capítulo Dezessete, Adiante
Poucas coisas são mais claustrofóbicas que um elevador, uma caixa de aço fechada
com um único ponto de ventilação no teto, suspensa por cabos de aço em um grande fosso.
Abelardo está dentro de uma destas caixas, indiferente a suas nuances, indiferente a suas
questões, seus altos e baixos são apenas a forma expressiva de sua existência. E nessa
indiferença osmótica continua o trajeto descendente em direção ao térreo.
O saguão está cheio de corpos apressados, deixando o prédio, procurando a rua,
entre eles, um específico tem um plano. Pretende pegar a linha quatrocentos e quatro,
direção zona norte, se posicionar do lado esquerdo, onde, durante o trajeto, pretende
averiguar a existência, ou não, de um lugar específico, onde, na véspera encontrou, seja em
sonho ou realidade, a loja de antiguidades e seu dono.
Até então, todo o plano corre conforme o planejado. O ônibus não demora a chegar,
está cheio, todos os assentos ocupados. Se posiciona em uma clareira pouco tomada,
articulando o corpo de maneira a ter clara a visão da janela do lado esquerdo. Não está
chovendo, na véspera estava, ainda assim, a sensação é deja vu. Poucos minutos passados,
alguns pontos percorridos, logo estará chegando a rua General Hostes Bento. Desta
memória tem grande nitidez, por um longo momento anda pela avenida, uma das artérias
cinzentas que compõem a cidade, até, virar à esquerda, na veia auxiliar que leva aos
membros. Na mente as lembranças são embaladas pelo corpo percorrendo os conhecidos
caminhos sobre rodas, mais uma vez confluências cansadas relaxam a musculatura e
libertam a mente, mais uma vez a consciência está prestes a escapar, mais uma vez de
dantes, no costumeiro recitar das córneas pisca, a paisagem entrecortada pelo movimento,
pisca, a luz amarela e forte no interior do veículo, pisca, pessoas sentadas e pessoas em pé,
a maioria, sonolenta, pisca, do lado de fora o trânsito está parado, o sinal está vermelho,
está dormindo.
Gravidade, ininterrupta e equitativa. Da mesma maneira age em humanos e
elevadores. A fechada curva a direita age sobre os corpos dentro do veículo. Já não são
tantos, desceram ao longo do caminho, os restantes, exceto Abelardo, estão todos sentados,
empurrados pela força gravitacional seguram como podem para evitar a queda. Quase
arremessado, Abelardo desperta, usando as pernas e a mão esquerda para segurar o corpo
sonolento. A curva passa. Senta em um dos assentos disponíveis. Agora acordado, lamenta
ter adormecido, lamenta ter perdido a visão que acredita sanaria a questão. Sacode a
cabeça, procurando espantar aquilo que o aflige, hábito na vida adulta adquirido. Tempos
depois da época quando criança sozinho admirava pela janela o movimento da rua. O pai
sempre ocupado, Agora não, estou atarefado até o pescoço. A mãe, ao contrário, sempre
disponível, com meigo sorriso no rosto e taça na mão. Em todas as lembranças a taça está
presente, exceto nas manhãs onde de mau humor e olhos caídos a voz meio rouca repete,
São essas manhãs terríveis que me farão parar de beber. Não fizeram. Nunca entendeu
como os pais permaneceram tanto tempo juntos, nunca entendeu como em algum momento
tiveram a ideia de ficar juntos, sustentados por uma espécie de polidez mais próxima de
distantes amigos do que cônjuges. Um quadro na parede da memória, está chegando em
casa, tem quinze anos, abre a porta, o pai está sentado vendo televisão, não percebe que ofilho entra, ou, o mais provável, finge não perceber, Boa noite senhor, diz pelo protocolo da
educação, Boa noite meu filho, vem a resposta no mesmo tom. Deixa a sala. São dezenove
horas, já é noite, dentro de casa todas as luzes estão acesas, passa pela cozinha vazia, anda
até o quarto onde a mãe deitada na cama assiste novela, olha para porta onde o recém
chegado está, Boa noite meu filho, como foi seu dia, Legal. Ela ri, está levantando da cama,
usando a mão esquerda como apoio enquanto com a direita segura a taça, Ótimo, você deve
estar com fome. Sem esperar resposta contínua, Estava te esperando para jantar, não
aguento essa novela. Com o braço ao redor dos ombros do filho caminham em direção a
cozinha. Tem a impressão que essa memória tantas vezes aconteceu, tantas vez
materializada em pequenas variações, mais do que o replay do desejo agarrando memórias
boas, repetições da rotina, cena tantas vezes encenada que, de alguma forma, representa o
cerne da dinâmica familiar, a distância do pai e a delicadeza ébria da mãe. O ônibus acaba
de fazer a última curva antes do ponto onde irá descer, Apenas mais duas paradas, pensa
cansado. Olha para os pés calçados, o calo no dedão esquerdo está doendo. Poucos
passageiros restam no interior do veículo. Um garoto com grandes fones de ouvido, um
velho de olhos amargurados, uma mulher de óculos escuros, um jovem ébrio com a mente
envolta em questões urgentes. Sentados sozinhos espalhados por diferentes pontos do
grande espaço vazio. O fim da linha se aproxima, e, de seus destinos, os últimos
passageiros.Capítulo Dezoito, Martinha e a Janela
A moldura de madeira fende o mundo, separando a realidade, fendido corpo cuja
visão o intocável contempla, como sendo o agora, sucessivamente perdido na sucessão do
tempo, postos termos, coração, quase parado, em frente a janela Martinha parada, fendida a
ficção do instantante, friccionando o presente com a visão do fora. O percurso refeito, o
feitiço desfeito, deixada a janela, tantos quantos quilômetros cabem em um apartamento.
Outra vez envolta na solidão, na costumeira agonia sussurrada por memórias e
pensamentos, sempre refeitos, por isso mesmo outra vez sentidos, repetir é sempre fazer
outra coisa, ainda que seja a mesma, não a é, e assim, quando relembra, o corpo sente como
se outra vez vivesse.
Tão acostumada a situação, vaga entre a visão exterior e as milhas entre os móveis,
entrando na cozinha para outra vez fazer café na cafeteira outra vez vazia, pó no lixo, pó
novo no pote, põe o pó na máquina, outra vez podendo prosseguir seu sussurro, de poderes
vaporizados em água quente, fazendo subir o cheiro, tomando de aroma todo o
apartamento, dentro da xícara, nas narinas, após o sopro descendo, aquecendo o corpo, no
peito um aperto, já conhecido, persistente, agora mais insistente, algo acontece
diferentemente, deixa a xícara, aperta o peito, um calor estranho, que não emana do corpo,
levemente aquecendo a pele. O cristal. Este que carrega no peito, este mesmo que trata
como único resquício de uma outra vida que tem audácia de usar, ainda que bem escondido,
por debaixo da blusa, preso no sutiã, escondido pelo cabelo, e agora este calor que aumenta,
tira o cristal do pescoço, segurando pela corrente de metal. Visivelmente a pedra está
aquecida, sua cor oscila, levemente, porém indubitavelmente visível. Neste primeiro
momento assustada, refletindo como agir, sobre a mesa coloca o cristal. Está pulsando, é
bem leve, e indubitável, algo energiza o cristal de uma maneira até então por Martinha não
vista. Observa, curiosa, perto leva os ouvidos, nada escuta, puro silêncio, calor agora
estabilizado, é possível tocar, com a ponta dos dedos o gira, o girado por algumas voltas
segue até começar a perder força, deixando possível perceber que a ponta para uma direção
específica aponta, agora está parada apontando para a janela, vibrando com mais força.
Outra vez o cristal Martinha gira, outra vez termina na direção da janela, como uma
bússola. Para a janela Martinha segue, do outro lado da rua um caminhão está parado, sem
ninguém por perto.Capítulo Dezenove, A Encomenda
Está caminhando os últimos passos para atravessar os pesados portões do edifício
Ardósia aos Pés da Torre, rumo à promessa de descanso e televisivo entretenimento,
quando, por uma voz indagativa os devaneios são interrompidos, Com licença, por acaso é
o senhor Abelardo Fagundes. Reconhecer o próprio nome na voz de um desconhecido é
uma estranha sensação. Por alguns segundos procura nos arquivos mnêmicos, homem
baixo, ostentando protuberante barriga, os cabelos que sobram das calvas são grossos e
escuros, da mesma cor dos olhos. Depois de uma segunda averiguação constata não
conhecer a figura que está repetindo a pergunta, Por acaso é o senhor Abelardo Fagundes.
Apenas balança positivamente a cabeça enquanto vê o homem tirar do bolso uma
minúscula prancheta e falar, Ótimo, faz algumas horas que estamos esperando o senhor, já
havíamos decidido ir embora quando o Juca apontou para você e disse, Esse cara tem cara
de Abelardo. O que segue é uma alta gargalhada, o homem baixo parece de ótimo humor,
grita em direção ao velho caminhão azul parado do outro lado da rua, É ele mesmo.
Sentado na direção do caminhão, um homem de longos cabelos desbotados levanta o
polegar da mão direita.
Acaba de ser tomado pela mesma sensação onírica do fatídico encontro com a loja
de antiguidades. Está parado, e, assim, permanece. Os músculos catatônicos, a cabeça
etérea, observa. O homem que levanta o polegar deixa a boleia do caminhão. É o oposto de
seu companheiro, demasiadamente alto, demasiadamente magro, longos e ralos cabelos
escorrendo até os ombros. Está usando um feio macacão azul, agora, Abelardo percebe, é o
mesmo que o outro homem traja. Nas costas do macacão em letras cursivas está escrito o
mesmo que na lateral do baú do caminhão, Dom Genaro Logística e Transporte.
O homem alto abre o baú do caminhão, o outro aguarda. Uma grande caixa de
madeira desliza sobre a cabeça do homem baixo. Ele está atravessando a rua, equilibrando
o enorme volume que aparenta grande peso. Parece ter dificuldade em manter o equilíbrio,
faz com a cabeça gesticulações para Abelardo, Vamos rapaz, depois daqui ainda tenho
trabalho e quero jantar em casa. O entregador impaciente frente a falta de resposta ou
movimento repete, Vamos rapaz, enquanto com as sobrancelhas aponta para a grande caixa
em cima da cabeça. Por alguns segundos nada acontece, Abelardo pergunta, O que tem
dentro da caixa. O entregador começa a dar indícios de que está no fim da paciência, coloca
a caixa no chão, retira do bolso a minúscula prancheta, com o movimento do punho destaca
o papel que a Abelardo entrega. O documento é uma pequena folha azulada, no cabeçalho
está escrito Abelardo M. Fagundes, seguido pelo endereço, no centro da folha um espaço
retangular onde está escrito uma única palavra, Sofá. No fim da folha dois espaços para
assinaturas, um está em branco, o outro exibe uma floreada assinatura.
O entregador impaciente diz, Vamos logo rapaz, já disse, tá ficando tarde. Abelardo
devolve a prancheta enquanto calmamente responde, Não me lembro de ter comprado sofá,
na verdade, tenho quase certeza que não comprei. O entregador sorri, enquanto tira do
bolso o lenço quadriculado que usa para secar a testa, Rapaz, se você não comprou, ou não
lembra, ou o que for, ou o que que, o que que eu sei é que, hoje é sextafeira, o depósito jáfechou, entregaremos a entrega, e depois você reclama, ou não, ou o que que achar melhor.
O fim das palavras é seguido por um largo sorriso. Abelardo olha para o homem à sua
frente, olha para o outro que encostado no caminhão espera, olha para caixa onde, ao que
tudo indica, está o sofá, Que seja, diz, e completa, Vamos logo com isso.
Rapidamente a grande caixa está depositada no centro da sala. Agora, os dois
homens da Dom Genaro Logística e Transporte partem. Deixando sozinho em casa o ser
humano que não se sente só, reconhece uma outra presença, emanando da caixa de madeira.
Pensa em não abrir, nem mesmo averiguar o interior, manter intacta até o dia seguinte
quando entrará em contato para a devolução imediata, por outro lado, escorrendo em outra
linha de pensamento, com naturalidade ignora qualquer estranheza da situação, afirmando o
momento e a vontade de continuar o curso dos fatos, compor com a casa o sofá. Arrasta os
móveis, abrindo espaço, a sala retangular agora um novo componente recebe. Apesar de
grande a caixa é surpreendentemente leve, facilmente arrastada, em seguida aberta,
revelando os contornos conhecidos cobertos por um manto. Em pedaços a caixa
desmontada, deixados no canto próximo à janela, para no dia propicio descartadas serem,
envolto revelado, semirevelado, ainda coberto, manto retirado, logo, vê surgir na frente dos
olhos a inexorável presença do sofá, o mesmo onde na véspera repousou molhado. Por um
lado, não acredita no que vê, por outro, é inegável a concretude do acontecimento. Está
absorto em ondulações oníricas, e, mais uma vez, não tem certeza se o que acontece é real
ou apenas fruto da imaginação desejosa. Com um estalo todas as dúvidas somem, o sofá é
real, assim como todos os acontecimentos da véspera, exceto por não lembrar como chegou
em casa, todo o resto surge com nitidez, Ramon Ruiz, o ancião dono da loja de mil
estranhezas, o mesmo nome assinado com finos floreios. Assumida a realidade em uma
probabilidade específica de um acontecimento raro quebrando a cadeia de blocos da rotina,
no livro caixa do universo criando a ordem logo aceita, onde o que se adquire é a
materialidade de algo que é novo, desconhecido e excitante.Capítulo Vinte, Fantasias e Fantasmas
Abelardo não se sente só, parado no centro da sala olha para nova peça de mobília e
sua presença quase humana. De certa forma, está em choque, estupefato com a estranheza
dos acontecimentos. Sabe não estar sonhando, não há mais dúvida, na verdade, no fundo é
o que deseja, a mais fácil das justificativas, todavia, a realidade do objeto a frente é
inquestionável, além de sua materialidade, emite uma espécie de magnetismo difuso, como
um animal, ou, outro organismo vivo, carismático ao ponto de ter algo o que se possa
chamar de personalidade, traços expressivos da própria subjetividade, habitando a mais
tênue das linhas entre um objeto inanimado e o mundo vivo.
A noite está silenciosa, particularmente silenciosa. Mesmo os barulhentos vizinhos
do andar de cima estão quietos. O som alto vindo da televisão no apartamento ao lado é
apenas uma lembrança. Sem vento a cortina imóvel observa a janela aberta. No centro da
sala um homem habita a periferia dos próprios pensamentos, e, com suaves passos de quem
procura não acordar os que dormem, está se aproximando do sofá, depositando sobre o
couro o corpo tenso. Com algumas mexidas encontra a posição que liquefaz a rigidez dos
músculos e pesa as pálpebras, em segundos arremessado no rio que desce o sono. Uma vez
caleidoscópado está em múltiplas micro sensações, desfragmentado da própria imagem, os
traços de seu próprio nome transformados no palimpsesto do tempo. Por três eternidades e
meia vaga pelo fórum do abismo entre a magnitude dos seres imortais, antes de chegar a
quarta é assaltado pela transposição de uma visão, particularmente vivida, particularmente
vidente.
Na visão está sentado no canto direito do sofá, a peça ocupa espaço de destaque na
bela e ampla sala, bem iluminada, parece saída de alguma pintura burguesa do século
dezoito. É possível sentir o cheiro da brisa marinha. Um homem de aparência jovem anda
de um lado para o outro, aparenta tristeza e preocupação. Os passos nervosos se sucedem a
olhares na direção da bela mulher entre almofadas vermelhas, languidamente encostada no
braço esquerdo do sofá, também aparenta tristeza, ainda que seja de uma espécie diferente.
Enquanto a tristeza do homem é preocupada e pesada, a dela, é complacente e leve, como a
aceitação do fim. Um nada ao outro diz. Ela tem cabelos ondulados e finos cachos
desgrenhados como os olhos castanhos, a pele pálida e a boca rúbia, a tez fina e o
semblante despreocupado, olha o mundo com tom indiferente blasé. O homem continua
seus pesados passos, tem pesados olhos, têm pesada presença. Ele vaga em círculos, ela
deitada observa. A cena se prolonga, tanto quanto podem as miragens. Finalmente a mulher
irá dizer algo, está prestes a falar, a boca aberta pronta para soltar as palavras que logo
virão, no último instante desiste, rearranja as almofadas, pousa a cabeça, fecha os olhos.
Abelardo volta à realidade do presente apartamento.
O corpo está relaxado e a mente esférica, habitando aquele instante onde não se
sabe ao certo se foram passados oito minutos ou oito horas. No bolso toma o celular onde
olha as horas, é madrugada, as horas não surpreendem, está sem sono. Vai até a cozinha naintenção de preparar algo para comer. As opções são poucas, no armário, pacotes de massa
instantânea, sachês de molho de tomate temperado e um pacote de biscoitos de limão
aberto. Pega um dos biscoitos. O primeiro do pacote está mole, é dispensado, os restantes
continuam crocantes. Sabe que três biscoitos não são suficientes para a fome, abre a
geladeira, a primeira coisa em que coloca os olhos é o recipiente de isopor meio aberto,
contendo o que sobrou do sanduíche da antevéspera, apetece, rapidamente e gelado é
devorado. Está distraído, inconsciente ao caminho pelos pés em direção a sala, desatento
não percebe a atmosfera mudada. Um fino nevoeiro tomou conta do ambiente, o vapor
como vidro liso transformando a reflexão luminosa do recinto. É o odor que chama atenção
para o que está acontecendo, o cheiro delgado da brisa marinha correndo delicada pela sala.
Acaba de perceber as camadas do quase invisível vapor que densa o recinto. Ao fundo, no
sofá, sentada entre almofadas irreais, a mulher da visão, está ali, a poucos metros,
fantasmática e ectoplasmática, indiferente ao mundo, em um holograma translúcido apática
a sua condição.
A sensação inicial é espanto, seguida por incredulidade. O pouco de medo que surge
é logo esvaído. Inicialmente assustado, tem o estado de espírito alternado. A presença irreal
da burguesa de cabelos cacheados atrai alma e corpo ao ponto de estar hipnotizado. Com
lento passo se aproxima, no mesmo ritmo a neblina desvanece, tão delicada quanto aparece,
tão etérea voa, o nevoeiro e suas imagens são engolidos pelas dobras dos botões do sofá.
Acontece muito rápido, em um segundo lá está, tão concreta quanto podem ser as
aparições, no seguinte, em um simples trocar de frame, desaparece, sugada para o interior
das dobras.
Neste momento, todo o aparato sensório mental de Abelardo está em
funcionamento. Sem estar acostumado com tais experiências, não possui registros,
memórias possíveis de serem usadas em comparação, os símbolos que possui para
significar o que experimenta carregam o peso de seus adjetivos, irreal, sobrenatural.
Buscando qualificar os acontecimentos utiliza o que tem para unir sensações e sentidos em
um conjunto compatível com a realidade. Certeza tem, O sofá tem a anima de uma
existência, alguma forma de vida. Lembra os primeiros momentos na presença do objeto, a
fascinação sentida mesmo do outro lado da vitrine, lembra a visão com a mulher no sofá
deitada, confunde a imagem com a vista a seguir, o nevoeiro na sala, o vapor emanando do
sofá, não compreende, e, mesmo sem entender, talvez por isto acentuado, sente atração pelo
sofá, pela fantasma, pela situação, misto de incredulidade e volição.
Olha para o sofá, olha para si, olha para os últimos acontecimentos, olha para o
amplo espectro de tempo na vida acumulado. A garganta arranha pedindo cigarro. Vai até o
quarto, onde, na primeira gaveta da escrivaninha está um maço amassado, três quartos estão
cheios. O pacote há dez dias está aguardando, não é mais o fumante diário de outrora,
hábito que mesmo tendo diminuído consideravelmente não consegue abandonar por
completo. Entende que certas ocasiões pedem um cigarro, outras, exigem. A situação que
no momento está instaurada é do segundo tipo. Na boca o cigarro, na mão o isqueiro, no
movimento o fogo. Entre tragos volta para sala, no umbral que separa o ambiente está
parado, observando a nova configuração tomada com a chegada da nova mobília. Está
incomodado, não gosta da maneira como o ambiente ficou organizado, demasiadamente
carregado. Primeiro, remove os móveis, tralhas, quadros e tapete para outros cômodos, na
sala, além do sofá, deixa apenas a mesa com uma cadeira e a cortina aberta respirando o ar
da madrugada. Com o ambiente esvaziado varre o chão e tira a poeira, em seguidaposiciona a mesa no centro, em linha reta com o sofá. Coloca sobre a mesa o cinzeiro e o
maço, coloca sobre a vida o maçarico da existência, medindo o futuro pelos passos do
agora, preso ao passado, do acontecido, do inventado, do repetido, da frustração constante
por ser humano. Por habitar um corpo limitado, por aspirações desejantes inconcretizáveis,
por dúvida constante, todavia entretanto, o acento naquilo que é mais aflitivo, naquilo que
não faz sangrar mas mata, a quem mesmo o tempo os joelhos dobra, acima do divino e do
mundano, sem nome, sem uma explicação possível, habitando o hábito dentro de cada um,
hábito de ser finito e orgânico, estando aqui, delimitando a existência com um aparato
sensorial limitado, frente a respostas inapto a propor perguntas, assim criando narrativas e
sentidos, ainda sem entender esse sentimento de olhar a morte. Olhar nos olhos, dentro dos
olhos do que não existe, de alguém que não existe, que não é alguém, que não é de osso e
túnica e anda por aí de moto carregando uma foice maneira, não ele, não é ela, talvez
mesmo o santo espírito não seja, é a finitude ela própria, em consistência crua, sem algo
que possa ser palpável, sendo o fim, e paradoxalmente, o próprio sentido.
Abelardo contempla a realidade, revolve pensamentos, admira o sofá, percebe o
instante. Na nova configuração local o sofá está na parede oposta à porta de entrada. A
direita está a janela, a esquerda a parede nua e o pequeno corredor que leva aos outros
ambientes do apartamento. No centro deste cubo está Abelardo, sentado na cadeira de
frente para o sofá, com o segundo cigarro aceso, observando, torcendo para que o fantasma
apareça.
Capítulo Vinte e Um, Incurso
Uma jovem formiga se desprendeu da colônia, no momento está vagando pelo
porcelanato frio procurando odores que levem de volta ao cordão. Um cheiro diferente
acaba de seduzila, ao mesmo tempo que parece doce como um cristal de açúcar é
magnético como uma emoção. O cheiro mistura suor e tecido em uma vibração, pulsando
em ritmo constante. Está cooptada, atraída, segue em direção a fonte. Cruza solitária e
destemida o percurso até o sofá, o leve corpo sem com a gravidade lutar toma sentido
ascendente, escalando a lateral até encontrar os vincos indicados pelo inebriante cheiro. Ao
redor dos botões órbita, tendo certeza de triunfo ter encontrado, procura um lugar para
continuar o caminho, adentrar as entranhas do pulsar emanado, agora finalizado, silêncio,
odores desaparecidos. Com a certeza do encontro a formiga refaz o caminho, mapeando
como voltar, parte a procura das companheiras a quem a maravilhosa descoberta quer
relatar.Abelardo desconhece a presença da formiga, tão pouco chegará a saber que ambos
estão intimamente atraídos pelo mesmo objeto. À medida que a madrugada avança chega a
cochilar sem da cadeira se mover. O cinzeiro cheio, do lado de fora a luz já não é mais a
calma obscura que amanhece o dia. A vigília é infrutífera, a fantasma não aparece. Em certa
medida está frustrado, em outra inquieto, tem sono ao mesmo tempo em que está indisposto
a dormir, a péssima combinação que tanto assola as noites insones. Deixa a cadeira, no
banheiro escova os dentes, retirando da boca o gosto de carbono e sono. A urina
excessivamente amarela, a garganta seca arranhada pela fumaça, os órgãos vazios, sente
sede, sente fome. Lembra que, a duas quadras, descendo a rua, virando à esquerda antes de
chegar à praça, está a padaria da Dona Chica. Elegante em seus sessenta e tantos anos,
corpo esbelto e pele escura a fazem aparentar jovem como quarenta e poucos, está sempre
atrás do balcão, coordenando o que começou nos fundos de casa fazendo pães de coco.
Iguaria que continua sendo o carro chefe do ampliado estabelecimento. Pensamentos sobre
a maciez frutada na boca fazem as pernas procurar o caminho que levará o desejo ao corpo.
Depois de três pães de coco acompanhados de café com leite as células estão
energizadas e o humor insaturado. Claramente vê para onde deve ir, perguntas que quer
fazer, respostas que acredita irá obter. Hoje tem o estado de espírito e mental em muito
diferente daquele em que estava na quintafeira à noite. Quando encontrou Ramon Ruiz e o
antiquário, estava em uma espécie de ebriedade onírica, agora, passado o acontecido,
consegue refletir melhor sobre a situação, Naquela noite, o caminho feito pela chuva
limpou as estáticas negativas, levando pelo pluvio as pesadas correntes da mente, ainda que
temporariamente, experimentando o estado de graça lisérgica que abre as portas da
percepção. Ao entrar na loja, a estranheza dos objetos acentua a euforia sensória, fazendo
vagar por uma realidade familiar ao sonho, a ponto de confundilas. A mente na presença do
desconhecido é vulnerável, olha para o céu sem perceber todas as naves interplanetárias em
voo constante, olha para o mar e não consegue ver as ninfas brincando nas ondas, olha para
o granulado do cotidiano e não consegue ver o sagrado. Mente cooptada as amarras do
sistema operacional, sempre alimentada e atualizada nas constantes normas do sistema
vigente, esmagada por regras sintáticas que indicam os limites da visão e do desejo. Assim
como muitos, Abelardo é vítima passiva do sistema, a cada passada do cartão de crédito
aceitando a inevitabilidade do consumo, vivendo o viver ocupado, na maior parte do tempo
despropositado, em standby até o processo imperativo, até a próxima pontada da libido.
Quando despido da consciência rotineira, Abelardo encontra a porta dos fundos, onde a
programação escapa, e os olhos atentos veem além da algorítmica da realidade, talvez a
caminhada, talvez o efeito da chuva fria no corpo quente, talvez a borda da afirmação,
talvez a saturação do tempo, talvez um pouco disto e muito mais deste que mesmo com
uma lupa somos incapazes de enxergar. Percepções escancaradas trazendo a dúvida, Estou
sonhando. Dúvida que Abelardo oscilou entre as respostas afirmativas e negativas, agora, o
ponto da certeza, Não é um sonho, ainda que se aproxime da loucura. Revelação criadora,
sabe agora com qual realidade está lidando. Aos poucos conexões neuronais e fatos são
ramificados, pontos em busca de sentido, faltante este, pela lacuna na memória. Por mais
que rememore, o antiquário parece um sonho, mesmo a certeza do real parece não ser
suficiente, fazendo com que as memórias quase desvaneçam da forma como fazem os
pensamentos noturnos na lagoa da aurora. Agora, armado da familiaridade, envolto em
racionalidade, planeja Ramon Ruiz encontrar.Deixa a padaria, andando com o guardanapo limpa os dedos, anda contra o fluxo do
tráfego, o veículo amarelo vem descendo a rua, faz sinal, o táxi para.
Capítulo Vinte e dois, Retorno
Neste momento está em frente ao antiquário de Ramon Ruiz. É uma agradável
manhã de sábado, o sol sustenta calor morno. Está a dois passos de entrar, desta vez,
diferente da primeira, está minimamente preparado para o que irá encontrar no interior, está
centrado, pretende evitar toda a confusão mental, não saber se está ou não sonhando, agora,
já não tem mais dúvida, e, assim, pretende continuar.
O interior com seus incríveis e disparatados objetos é aberto ao visitante. Ramon
Ruiz em pé atende um cliente, ambos parecem de mau humor, principalmente o cliente que,
neste momento diz, São quatro semanas de atraso, claro, você diz, isso nunca aconteceu
antes, concordo, entretanto, há de convir que tenho mais do que motivos para estar irritado.
Ramon responde, Mais uma vez peço desculpas, navios que atravessam o Pacífico por
vezes encontram problemas, nada há que possa ser feito além do que sendo feito está. O
cliente com olhos irritados suspira enquanto negativamente a cabeça balança, sem nada
mais dizer deixa a loja.
Ramon Ruiz que a dois instantes aparentava o pior dos humores, agora sorri, Bom
dia, outra vez seja bem vindo. Abelardo automaticamente retribui, Bom dia. Enquanto as
cortesias habituais são trocadas, os olhos pousam em detalhes apenas percebíveis em
segundos encontros, é o sorriso do ancião que toma a curiosidade da percepção, ao mesmo
tempo é doce e familiar como de um avô, também, é malandro e mercantil. A idade tornou
a pele ao redor da boca flácida, fazendo o canto esquerdo da mandíbula a intervalos tremer,
a musculatura cansada ainda exerce seu papel, da mesma forma, ao redor dos graves olhos
castanhos as bolsas são escuras e pesadas, carregadas de antigos segredos. Sob as
bochechas a pele é lisa, destacando a formação óssea das magras maçãs. Ramon se
aproxima, é quem toma a palavra, Não esperava vêlo tão rápido, algum problema com a
entrega, a pergunta segue a resposta, Não exatamente. Ramon sorri, o mesmo sorriso de
mercador que o tempo todo sustenta, Espero poder ajudálo. A cabeça acena positivamente
para o ancião, os pés levam Abelardo a andar pela loja, aparentando distração enquanto os
olhos atentos escaneiam os objetos, um, em particular, acaba de prender a atenção, um vaso
com filigranas em relevo ostentando bela caligrafia coreana, por um instalo do tempo tem a
sensação do vaso, assim como o sofá, carrega alguma qualidade sobrenatural, Bonito este
vaso, o que significam os caracteres, pergunta apontando com o olhar. O ancião se
aproxima forçando os olhos para ler a medida que os cílios praticamente encostam na
inscrição, Contam a história de um poeta cujas belas palavras alcançaram os ouvidos do
Supremo Rei do céu Noturno, deslumbrado com as palavras, o soberano convocou o
mortal, lhe concedeu a imortalidade e uma das filhas como esposa. Da maneira como estão
posicionados, ambos de frente para o vaso, Abelardo não tem a visão do rosto do ancião,
que no momento volta a falar, Imagine campos bucólicos e lagos com tartarugas e pássarosmandarim, as cerejeiras ao fundo, outro reino, outro tempo, outra era, quando as letras aos
deuses levaram os homens, É uma bela imagem, Sim, bela é antiga, esta peça tem mais de
seiscentos anos. Por dois segundos silêncio, observa o velho, algo incomoda, procura ver
por trás do sorriso e nada encontra, lábios e dentes são a silhueta do quadro cujo tempo e a
sabedoria mostrou como as verdadeiras intenções camuflar, continuam andando, Abelardo
já não tem o vaso na linha de visão quando indaga em tom de brincadeira, Algum antigo
fantasma coreano reside no jarro. A pergunta causa na face de Ramon três segundos de
inesperada mudança, por um momento revela estar surpreendido, logo voltando ao habitual
sorriso, Até onde meus conhecimentos chegam, esta peça não possui características
sobrenaturais, embora, confesso, no meu tipo de negócio o sobrenatural não é raro, ainda
que, não seja comum, imagino, a interrogação não vem por acaso.
Abelardo não consegue esconder o incômodo que perpassa. A laca que cobre os
lábios bem esconde o que não passa pela cortesia, algo na figura de Ramon Ruiz é
desconfortável. O ancião faz sinal para ser seguido, anda até a mesa de mogno com quatro
cadeiras em volta, senta em uma e faz sinal para que o visitante faça o mesmo, sem esperar
começa a falar, Esta loja pertence a minha família há algumas gerações, ainda que nem
sempre neste endereço de agora, desde pequeno ajudo, cultivo este legado, nestes anos
muitas pessoas trouxeram objetos acreditando ser amaldiçoados, assombrados, as palavras
variam, o sentido é o mesmo, na maioria dos casos paranormalidade não há, fenômenos da
natureza ainda que estranhos possam ser são passíveis de explicação, entretanto, vez ou
outra, alguma coisa há que de explicação científica carece, fenômenos incomuns, variados
todavia carregando a marca do sobrenatural. O ancião silencia, pausadamente respirando,
voltando em tom firme a falar, Quanto ao sofá, dito foi ser assombrado, entretanto, por
tanto tempo por aqui ficou sem nada apresentar que essa possibilidade não passei a
suspeitar, ainda que seja claro que tenha uma presença única, um magnetismo entre uma
peça de verdadeira arte e desejo animal, segundo o que pude apurar, uma mulher, cujo a
peça como presente ganhou, passou por uma tragédia familiar, a irmã mais nova
inesperadamente faleceu, o fato a tomou de tal forma que adoeceu, os efeitos foram
rápidos, melancólica, ao longo de meio ano pouco comendo, passou a maior parte do tempo
deitada entre almofadas, ao que parece, o corpo sem forças partiu, deixando a pobre alma
que no sofá encontrou descanso. Abelardo escuta a história atentamente, E quando isso
aconteceu, indaga, Ramon responde, Não sei dizer exatamente, cem, talvez cento e
cinquenta anos atrás, faz algum tempo que a peça chegou a loja, o objeto é raro, a estrutura
é sólida e o estofamento é tanto uma obra de arte que leva a assinatura do artesão, assim
descobri a história e a tragédia, o artista está morto, mas a oficina continua no mesmo
endereço, enviei fotos, confirmaram a autenticidade da peça junto com parte de sua história.
Ramon aguarda, sem qualquer fala ou menção do interlocutor continua, Quando se lida
com peças raras e antigas não é incomum encontrar atividades que, digamos, podemos
chamar de fora da normalidade, a maior parte do que chamamos de sobrenatural são
detalhes ordinários cuja existência vivemos ignorando, falamos, pensamos, por aí andamos
com nossas certezas, vivendo dentro de um espectro limitado da experiência, um espectro
confortável, claro, por isso tantos aceitam a realidade que desde a tenra infância somos
ensinados, mas muito além existe, muito além nos cerca e nos forma, não por ignorálos que
os faremos deixar de existir, mas bem, desculpe a divagação, por exemplo, algo mais
específico, algo que poderíamos chamar de fantasma, na maioria das vezes, fantasmas são
almas, manifestação da vida em dimensão própria, entre o mundo dos vivos e os reinos dosmortos, a maior parte nada faz além de vez ou outra aparecer, como imagem virtual
projetada.
Abelardo atento escuta, atento absorve, atento respira o ambiente estalar mexendo
com capilares e raízes, olhos esbugalhados de um animal empalhado, olhos empalados de
algum ser despedaçado, olhos gracejosos e torturadores contando histórias de fantasmas,
Abelardo atento escuta sentindo que o relato tem tom verdadeiro ao mesmo tempo em que
omite ou distorce importantes fatos. A situação é desconfortável ao mesmo tempo, as
decisões parecem confusas, de maneira que, não sabe exatamente o que fazer, e ter vindo ao
encontro do ancião parece não ter sentido. Procurando organizar linhas de pensamento
abordando questões práticas, Quando estive aqui pela primeira vez, não estava me sentindo
bem, pode parecer estranho, mas não lembro ter comprado o sofá. Ramon Ruiz sorri com o
mesmo sorriso de negociante, o que deixa Abelardo irritado. Olha para o jovem e diz,
Claro, bem me lembro, estava molhado e pálido, a chuva teve grande efeito sobre você,
parecia com baixa pressão, quando sentou achei que iria desmaiar, não o fez, foi então que
preocupado propôs que fosse para casa e como cortesia enviaria a peça para ser apreciada,
como disse antes, gosto de mudar a vitrine, lhe sugeri que nas próximas semanas o belo
sofá fique sob seus cuidados, já que outro modo estaria confinado no depósito, e como já
mencionei, caso tenha interesse em adquirir a peça, condições de pagamento são
negociáveis. Uma risada costura o dito fazendo o interlocutor atenção elevar na situação
buscar o que irá considerar a verdade, imbuído das primeiras palavras que lhe sente o
corpo, Não estou confortável com isso, na verdade é sim tudo estranho. Impedindo a fala do
outro, Ramon, retoma o discurso, Bem, claro que não é a política da loja, bem sei que não
haveria lucro caso por ai saísse distribuindo móveis, foi algum tipo de compaixão pela
situação, podemos dizer assim, seu estado molhado e cansado talvez tenha me lembrado
algo de outro tempo, bem, veja só que outra vez emendo em divagações, faremos o
seguinte, hoje e amanhã a transportadora já não fará mais serviços, segunda sem falta será
para eles irem até sua residência buscar o sofá. Silêncio, acompanhado das reflexões de um
e do sorriso mercantil do outro, voltando a falar em tom descontraído, Claro, caso mude de
ideia, aviseme. Abelardo sentido que uma solução encontra sente a leveza da descontração
e o sono chegando à vontade, neste tom de espírito tem quase tudo resolvido, exceto o
detalhe sobre chegar em casa não lembrar, interrompendo o riso coloca a pergunta, Tem
uma coisa ainda, na verdade eu não lembro exatamente como sai daqui, acho que estava
com um pouco de febre, Claro, bem lembro, parecia sim pela chuva resfriado, após nossa
conversa daqui chamamos um táxi, acredito que tenha chego bem. Escuta, procurando ligar
algum lastro mnêmico, as palavras não trazem memória. A mesma sensação. Ao mesmo
tempo em que o ancião parece a todo tempo falar a verdade, o discurso tem rastro de fatos
escondidos, fugidos e camuflados. Abelardo muda a conversa para outro lado
exteriorizando um pensamento que acaba de ser domado, Imagino que uma peça rara e
antiga possua valor elevado. Antes que termine a frase é interrompido por Ramon, De fato,
não revelei valores, de fato, tão exuberante mobília tem valor elevado, ainda assim, acredito
que exceda etiquetas monetárias, todavia para lá deixemos isso, que tal aproveitarmos um
pequeno passeio pela loja, quanto as cifras, tenho certeza que, caso seja real o interesse,
podemos chegar ao consenso que a ambas as partes irá agradar.
Neste instante, duas mulheres entram na loja. Com vozes animadas dialogam. De
onde estão não é possível vêlas, Ramon levanta, Com a sua licença. Abelardo observa
Ramon seguir pelo labirinto de peças sobrepostas em direção aos novos clientes.Capítulo Vinte e Três, Reverberações
Certa vez, Martinha Queluz ganhou de presente uma bela cortina. Chegou pelos
correios, dentro de uma grande caixa cuidadosamente embalada, preocupação excessiva,
dada a natureza pouco frágil do objeto. Um presente há muito esperado, promessa de um
amigo expatriado em terras distantes. Ao receber o presente é tomada por grande felicidade,
o tecido fino, agradável em charmoso tom verde. Não perde tempo, a janela ganha nova
companheira, o pano volumoso e maleável delicadamente filtrando as luzes do exterior.
Logo percebe que, de acordo com as horas do dia e a iluminação interna, a cortina muda de
cor, bonito espetáculo, agradável aos olhos observar o transformar das matizes em
diferentes expressões tonais. A cortina não é verde turquesa fosco, de alguma forma, suas
moléculas constitutivas têm menor ou maior afinidade com determinados comprimentos de
onda, o tecido, o pano, o corpo, a pele, os pelos, as rugas, as cicatrizes, as paredes, as flores,
as árvores, os oceanos, as espirais, ainda que, possuidores de características singulares, ao
mundo se apresentam como reflexão luminosa. Esta constatação altera por completo a
forma como Martinha vê o mundo. A experiência com a nova cortina delicadamente altera
a percepção, percebe que não apenas ela, a cortina, mas, todos os objetos carecem de luz
própria, são reflexos de quantas exteriores. É nesta época quando algo abre, para uma visão
desconhecida, nova, estranha, parecendo tão certa quando sentida. No peito o calor do
cristal sobre a pele, resquícios desse outro momento, dessa outra vida, quando adentra o
corpo no novo, nas descobertas. Lembra como tentou compartilhar esse novo momento
com a família, mas as filhas na época pequenas demais para entender, o marido distante
demais para poder entender, os pais religiosos demais para querer entender. Assim convive
com o segredo de uma vida dupla, carregada da excitação que devem superherois sentir,
vida dupla, uma comum e ordinária, outra extraordinária, pouco compreensível para a
maioria, assim entende, assim vive, e por um tempo se experimenta feliz e completa, até
que,
, neste momento o cadeia de pensamentos é interrompida, uma lágrima escorre,
esfrega os olhos, um pouco de café, um pouco de ar, todos os sentimentos retornando, o
calor do cristal parece aumentar, coisas parecem voltar, tudo aquilo que recalcado deve
ficar entretanto insiste em retornar. Não está preparada, não agora, com tudo isso terá que
lidar, não quer, respira fundo, coloca o cristal no fundo da gaveta de meias, liga a televisão,
desliga a mente.Capítulo Vinte e Quatro, Continuando
Abelardo conhece Martinha Queluz, conhecimento entre vizinhos, cordialidade e
educação, conhecimento superficial, desconhecimento de sua história, entretanto, no
momento compartilham índices sensoriais deveras similares. Abelardo acaba de deixar a
loja, anda sem rumo, observando todos os objetos mundanos, o movimento dos transeuntes,
os veículos, as construções, sons, odores, todos representações de si próprios, escondidos
entre camadas de moléculas e vibrações. Rememora sentimentos companheiros, o desejo
que tomba em paz desinteressada, os anseios da alma intangível degolando o ordinário. É
como se sente, reflexo de si próprio. Da mesma maneira que olha para a frondosa árvore
crescida no concreto da calçada, mergulha os olhos para o próprio interior, nele tem antigas
sensações e imagens que não reconhece. Olha para os galhos a balançar folhas, procura ver
para além da luz refletida, enxergar para além dos olhos, sentir para além do toque, quanto
mais avança no exercício desconstrutivo mais percebe como tudo, e aqui se inclui, é a
formação semi aleatória de pedaços díspares, peças e engrenagens mais ou menos coesas
que fazem os organismos funcionar, as únicas constantes da vida são o caos e o acaso. O
vento e o tempo tocando os cílios embalam memórias tomando a consciência, anos
passados, tarde em quase pôr do sol, pés na areia, praia cheia, o sol tem tons tombados ao
alaranjado, radiação cósmica no teto diurno refletido buscando a noite, dedos pequenos de
ser criança, andando na areia, pés na areia, praia cheia, visão pela luz do horizonte
ofuscado, magnetizado anda, procurando alguém, um tio ou primo, ou outro alguém, neste
ponto a memória em lacuna desliza, voltando para o momento em cobre gravado, pés na
areia, praia cheia, sem vento, sensação abafada, sol poente, andando, a mãe ao lado em
onipresença, sem olhar sabe, perde a visão guiado pelo toque, seguindo a mãe como se
segue o par guiando a dança, com toques sutis indicando onde pisar, para qual lado mover o
corpo, areia entre os dedos cria a sensação do mundo fugindo, o delicado toque no ombro
mostra o caminho, quando criança sem preocupação, admirando o horizonte sem olhar o
trajeto pela certeza de estar sendo guiado na segurança se amparo for necessário.
A lembrança traz a paz que apenas o passado propicia, mas o presente para esta
sensação não deixa espaço, tem a sensação do mundo fugindo debaixo dos pés, entretanto,
experiencía o vácuo vindo da falta do toque guiando o caminho. Está andando em linha
reta, sem saber como parar, sem noção de como o caminho mudar, voltam as cenas recém
acontecidas no antiquário, Abelardo percebe o quanto a situação é estranha, reflete, pensa,
Ao que parece, o velho foi com a minha cara e me emprestou um sofá, um sofáassombrado, e essa história, muito parece que naquele instante inventou, ou no mínimo
exagerou, não vi uma goteira na loja, cada troço esquisito, outros de muito bom gosto, será
que ele está de alguma forma tentando aplicar um golpe, me empurrar uma peça contando
histórias e depois cobrar um alto preço me deixando na situação de ter que de alguma forma
arcar com o prejuízo, aquele chá, que cheiro era aquele, um sabor marcante, passando a
língua no céu da boca consigo lembrar, mas não conheço, será que tinha o que naquele chá,
ainda não tinha pensado nisso, mas antes disso já me senti estranho, provavelmente aquela
chuva realmente não me faz bem, um pouco febril, talvez, resultado do corpo quente na
chuva fria, pode ser, um pouco febril um pouco delirante, assim a realidade parece sonho. E
assim vai a mente em ritmo acelerado, em misto de dúvida e frustração. À medida que o sol
avança em direção ao meio do céu sente sede. Normalmente solitário por opção precisa de
companhia, alguém para quem possa contar, alguém que apare as arestas do caos e permita
que volte a viver a vida monótona e tranquila que leva. Troca mensagens com Olivia.
Combinam de almoçar juntos.
O bar Atilia e Gomes serve refeições quentes e saborosas a preços justos. Enquanto
aguarda, a segunda cerveja chega a metade e os humores mudam. O álcool dissipa a
ansiedade e clareia as ideias, permitindo por uma janela no tempo desvencilhar pesos e
preocupações, sal no horizonte e saltos no céu, acima das nuvens há um deserto sobre o
mundo, tão longe quanto o vento, tão longo quanto às aspirações, tão frágil quanto o afeto,
tão irreal quanto a realidade. Graduação alcoólica no corpo humano, mudança de estado
perceptivo, percepção da mudança perceptiva, Abelardo sorri para o tempo, brincando com
a ponta dos dedos, refletindo, como poucos minutos atrás estava em péssimo humor, agora,
pós ingestão alcoólica, está leve, sentindo o mundo equilibrado, conversando com o
percepto, entretido em como o mecanismo da realidade é delicado, o humano depende do
aparato orgânico para conhecer o mundo, e o corpo pode ser facilmente enganado, bacias
infinitas de químicas entre axônios e dendritos, alquimia orgânica. Abelardo lembra da
sensação onírica de andar na rua, não havia bebido, ou outra substância ingerido,
provavelmente o corpo pouco acostumado com a mistura de adrenalina e dopamina em
determinados níveis passou a acessar detalhes despercebidos, do grande volume da
realidade o foco alterando, em ângulos aproximados da coisa mesma. O mundo depende
dos olhos de quem vê, e, agora, com olhos ébrios Abelardo vê tons tranquilos enquanto
segue os trilhos do pensamento, tentando desfazer o emaranhado, buscando o fio da certeza,
o pilar da racionalidade. Não encontra. Continua difuso, outro copo vazio, logo a clareza do
início da onda será substituída por outro estado que acompanha o aumento da graduação
alcoólica no sangue. Outra vez a realidade será outra. Todavia, neste estado ainda não está,
esta percepção atual será sustentada até o próximo copo, que findado, coincidirá com a
chegada de Olívia, antes disto, os olhos abertos vasculham o passado.
Tão real como o agora vive o presente, com sorriso temeroso, mistos de sentido e
sensações, o confronto com o desconhecido, fora do costumeiro, alguém que até a pouco
tão certo de tudo estava, agora, reflete sobre a realidade do real enquanto lembra da
fantasma que a essa hora provavelmente no sofá está deitada apreciando o clima agradável
em uma dimensão paralela que com a nossa esbarra. Mão no rosto tapando a boca na
tentativa de segurar a gargalhada, que vem, toma espaço, nasce do ventre e sai pela boca,
acompanhada de sorriso com palavras entre riso e sussurro, Estou ficando louco. Tenta
rememorar a semana passada, parece tão distante, o mês passado, parece com a semana
passada, que de alguma forma se confunde com o semestre passado, não lembra o que fezno último aniversário, ou lembra, mas parece que foi o aniversário de três anos passados, e
tudo tão monótono, tão rotineiro, tão preso, tão insuportável, sentimentos cuidadosamente
guardados no baú das resignações, escondidos em algum canto do inconsciente, no mesmo
armário dos traumas ocultos apenas vez ou outra em um sintoma visto, tudo bem guardado,
selado, criptografado. Todavia, tudo tranquilo, o marasmo da certeza, vantagens da
resignação, conforto e sensação de segurança. O bálsamo da resignação, efeito do sim
passivo, vivido na idealização dos cortes, da infância, para escola, para o emprego, para a
vida adulta, para os boletos, para os ideais de aparência e consumo. Vido autômato de uma
realidade estabelecida que pela presença do sofá é quebrada.
Já não mais o mesmo se sente, essa certeza afirmativa plenamente difere do sim que
que carregou pela existência, e, pela primeira vez, sente vontade de dizer não. De deixar o
que tem, ainda que do outro lado exista o nada, onde mora a incerteza, feita de recomeço
encarado apenas depois do fim. Sacode a cabeça, procurando no movimento do crânio
derrubar pensamentos intrusivos. Pensamentos novos, de uma ordem desconhecida, vindos
de outro lugar, distante, perdido no longínquo espaço, comunicado de outra dimensão,
entretanto, são tão íntimos quanto a solidão, um sussurro que vem do inconsciente, de
caixas transbordando depois de anos empanturradas. Outra vez a mão na boca escondendo
o riso, as mesmas palavras afirmadas, Estou ficando louco. Desta vez interrompe a
sequência do pensamento, diz para si mesmo, V ocê é um cara sensato, não tem motivo para
ficar abalado, nada sobrenatural, naquele dia a chuva te deixou com febre e vulnerável, essa
história de sofá é estranha, quando foi que começou a acreditar em fantasma, alguma coisa
mexeu com a sua percepção, é só parar um pouco para pensar e vamos encontrar alguma
resposta lógica, a primeira reação da percepção é procurar um sentido, o sobrenatural é só
uma resposta preguiçosa, É isso, onde estive com a cabeça, os últimos dias estão sendo
estranhos, mas é um momento, só preciso organizar a cabeça, talvez seja o momento de
procurar outro emprego, Exato, só que com calma, sem essa loucura de ficar louco.
Dialogar com si mesmo benéfico pode ser, mas Abelardo apenas fingi concordar com a voz
interior, busca a calma mas reina a dúvida, tem a clareza que é por isso que chamou Olivia,
sabe que se ela acreditar, mesmo que seja apenas um pouco, a loucura se tornara história, o
delírio se faz realidade quando pode ser compartilhado. Abelardo acredita no que
presenciou, visão sobrenatural, real e concreta, uma paisagem, uma mulher, uma entidade,
uma certeza. A carruagem constante das horas passa despercebida ao ser na leve
embriaguez do estômago vazio. Copo vazio. Olivia acaba de chegar, está na entrada do
estabelecimento procurando o amigo.Capítulo Vinte e Cinco, Há algumas horas mais cedo
Quando um pouco antes em horas atrás no fim da manhã Olivia acorda, olhos
abertos sobre o ombro encarando a parede onde a luz diurna entra, voz da rua, barulho
constante das motos subindo e descendo, o carro do gás gritando promoção. Sonoridades
costumeiras no cotidiano da ladeira, ruas vivas na vintequatroalidade do dia. Sono pesado
que não é afetado, pela madrugada de quem não consegue cedo dormir, e com dificuldade
acorda o cedo necessário para o trabalho, vira cento e oitenta graus, sobre o ombro direito
os olhos seguem pela porta aberta passando pela sala atravessando uma segunda porta para
a cozinha onde no fim o basculhante entreaberto prisma a luz do sol no vidro esverdeado,
um pequeno prisma estampado por poucos segundos apenas, exatidão da coincidência de
um raio de sol solitário deixando um carimbo desviante no ordinário, por coincidência, por
Olivia presenciado.
Olívia não tem ideia do tamanho da cadeia de eventos e coincidências necessários
para que nesta hora da manhã em um ponto específico do espaçotempo um prisma
esverdeado na parede nasça, e por poucos segundos tenha existência antes de morrer.
Imovel mesmo piscar evita, encara o ponto na parede onde o prisma uma vez viveu,
aguarda, atenta, esperando que volte, que outra vez no mundo derrame sua beleza. Nas
ondas vindas do sono aos poucos no solo desperto aterrisa enquanto permanece imovel
neste estado contemplativo, e, assim permaneceria por tempo indeterminado, não fossem as
necessidades fisiológicas no ponto onde não mais podem ser reprimidas.
Deixando o banheiro encontra a mensagem de Abelardo, e almoço vem a soar como
uma ótima ideia. Na sala anda, anda ate a janela, é quase meiodia, sol forte e temperatura
amena, como adora essa clima, raro na metropole a beira mar onde reina o calor, hoje com
trinta e poucos graus é praticamente frio, motos sobem e descem, pelas ruas estreitas e
íngremes reinam os motoboys, apressados com escapamentos escandalosos e capacete no
cotovelo, hoje não tem escola, dias úteis a essas horas estaria a barulheira de quem vai para
o turno da tarde e de quem volta do turno da manhã, hoje é outro dia, tem movimento de
quem volta da feira, sacolas cheias de verde, cena bonita recortada pelas postes apinhados
de fio fazendo sombra na calçada sobre as mesas com litrão gelado, música vindo de mais
de um lugar, sempre tem alguém gritando, passando falando alto no rádio com uma arma na
mão, a banca do tráfico hoje fica mais embaixo, cheiro forte de churrasco, quando agordura da linguiça cai no carvão começando a virar brasa, deixa a janela, pega o celular,
coloca uma música, fecha a janela e a cortina, muda o ambiente, lembra de um livro que
está lendo, lembra com pesar que ficou na gaveta do trabalho, agora leria um capitulo que
apenas na segunda lerá, outra roupa, a música parou, a internet caiu, não é isso, quando a
intenet cai a música não para, é alguem ligando, número desconhecido, ignora e o som
retorna quando o ar virar brisa o vestido no tecido leve as bordas de um ipe em flora, casa
fechada deu a hora em direção rua a fora.
Andando para tirar a cara amassada que sobrou apesar de já não ter o sono,
chegando no metrô sem necessidade de espera, vagão vazio do fim de semana, sentada a
cabeça encostada olhos abertos, receptores endocanábicos ativados possibilitando a
sobreposição de três dimensões. Na primeira dimensão está aqui agora, no instante, do
metrô em movimento, parando na estação vazia onde poucos entram e ninguém sai,
continuando o movimento pelo subsolo urbano, indo na direção oposta as praias, dia
ensolarado, lá em cima, aqui embaixo está frio e toca de vez em quando a musiquinha antes
da voz robótica pronunciando o nome de cada estação. Na segunda dimensão está no
enredo fantástico dos últimos capítulos lidos, a trama e a complexidade dos personagens,
em particular uma, com quem se identifica. Na terceira dimensão está na casa dos avós no
interior fluminense, nas montanhas da serra, nos pastos longos cheios de picão grudando
nas roupas. Três dimensões sobrepostas no metrô contornando vacas pastando na montanha
sitiada por arqueiros e feiticeiros montados em bestas aladas, Próxima estação, Praça
Francisco Pena.
Deixando a estação ficam os devaneios, razão assumindo a realidade, está quase
chegando, daqui já consegue ver o bar.Capítulo Vinte e Seis, Molhando as palavras
Olhos encontrados, Abelardo do outro lado, mesas pelo caminho, passos, passadas,
passados, um garçom passa correndo com uma bandeja carregada de copos, pratos,
travessas, garfos, tudo empilhado, uma pirâmide de utensílios sujos sendo levados para
cozinha, no topo da pilha uma tulipa sustenta uma faca, que quase cai quando o homem
apressado perde o equilíbrio ao passar sem diminuir a velocidade pela jovem de olhos
apertados acompanhando a cena lentamente, continuando o caminho, encontrando o amigo,
Bom dia, ouvindo a resposta gaiata, Na verdade boa tarde, Bom dia serve para o dia todo, e
para quem acordou a pouco boa tarde não parece fazer muito sentido. Olivia beija a
bochecha do amigo, que, esboça um sorriso mas tem o olhar distante, percebe que ao
chegar lhe interrompe profundos pensamentos, arrasta a cadeira e senta, ainda que de frente
desviando o olhar, deixando que a mente distante aterrise. Quando recebeu a mensagem de
Abelardo convidando para almoçar, agiu dentro dos roteiros da normalidade, algo
comumente feito, agora, no entanto, o olhar do amigo é discrepante em relação aos
parâmetros comumente esperados, costumeiramente tem um olhar vago, mas vago apenas
por disfarce, detalhes da introversão que esconde a perspicácia no auge do olhar periférico,
atento e sem intromissão, agora, a única descrição precisa parece ser distante. Poucos
segundos se passaram desde que Olivia a mesa sentou, todavia a velocidade do raciocínio
imputa a sensação de tempo estendido, tornando incômodo o silêncio do amigo apenas em
corpo presente. Delicadamente vira o pescoço procurando ângulos para que os olhares se
encontrem e o pergunte, Está tudo bem.
Quando os olhares se encontram e a pergunta está prestes a ser pronunciada, do
nada surge o garçon de colete e gravata borboleta segurando uma bandeja vazia em uma
mão e uma caneta na outra. Tem escuros olhos estrábicos, biótipo magro e grosso bigode. É
educado, cortês ao ponto de fazer rir os clientes sem perder a eficiência da velocidade que o
trabalho exige. De maneira clara recita os pratos do dia e faz sugestões, particularmente
indica as lascas de bacalhau, acrescenta que, Ficam ótimas com algumas gotas de pimenta.
A sugestão é educadamente recusada enquanto outro prato é pedido. O garçom que até
então imbuído de alegria e simpatia, parece contrariado, diz, Sim, também, são boas
escolhas, todos os pratos da casa são deliciosos, digo isso, como alguém que todos os dias
os devora, pausa esperando o riso para em seguida continuar falando de maneira a manter o
entretenimento dos clientes, Particularmente, adoro as lascas de bacalhau, saborosas, com
tão saborosas quanto, batatas coradas, o que acham, peço para cozinha caprichar, não se
preocupem se sobrar coloco em uma quentinha, já fica pra janta, outra vez a pausa, desta
vez interrompida por Olivia respondendo, Obrigado, parece realmente delicioso, uma
próxima vez, mas hoje não acordei com essa vontade, pode ser o que pedimos mesmo.
A resposta, ainda que educada, deixa o garçom ainda mais contrariado, ainda assim,
sorri, deixa a mesa em direção a cozinha. Olívia diz, Tomara que seja rápido, estou cheia de
fome, quando recebi sua mensagem estava decidindo o que comer no café da manhã,
almoçar pareceu uma ideia melhor, Costuma não demorar, Na última vez em que ouvi essas
mesmas palavras acabamos esperando o que pareceu uma eternidade pra comer aipimmurcho, Isso foi diferente, de qualquer maneira, se estiver com tanta fome, servem bolinho
e pastel, já fica pronto, é só pedir, Não precisa, se tá dizendo que não demora, sinto fome
quando acordo, São duas horas da tarde, E acordei a pouco, quando acordo não quero
comer nada, depois vem uma fome avassaladora, Não entendo como consegue dormir até
tão tarde, Acho que é porque você acorda muito cedo, Acordar pela manhã não é cedo, é o
normal que se espera, Vai ver é isso, fico meio chateada de fazer o normal que se espera,
Então acordar tarde é um ato de rebeldia, Isso é você dizendo, na verdade, acho que tem
mais com dormir tarde, não consigo dormir cedo nem nos dias da semana, pra levantar é
uma luta, quando tenho oportunidade não deixo de aproveitar. O diálogo finda e no fim das
palavras os olhares se encontram, Olívia percebe que o amigo aterrissou, de onde quer que
estivesse, parece exausto. No silêncio do olhar direto Abelardo escuta a indagação, engole
uma respiração, e, sem delongas detalhadamente conta a cadeia de eventos que teve início
na última quintafeira. Fala dos personagens e a forma como se encadeiam, o sofá, o ancião,
a fantasma. Agentes que têm fundido circunstâncias deveras diferentes das habituais.
O relato é contado e escutado. Olivia sorri, presta atenção em todas as minúcias,
está dizendo, Estranho esse senhor, Ramon Ruiz, é a primeira vez que tenho notícias de
donos de antiquário que permitem teste drive de seus produtos. Ela ri, Abelardo faz o
mesmo, ela continua, Estou curiosa para ver esse sofá mal assombrado, o que mais Ramon
disse sobre a aparição, algo sobre quem foi, Nada além do que contei, apesar de que, tenho
certeza que sabe mais do que fala, está escondendo fatos e informações, talvez, até mesmo
esteja a mentir, ele tem um jeito que desperta conforto familiar, risada forte e um sotaque
que parece mineiro, fala pausado, fica difcil não acreditar no que diz, e dito com confiancia,
acho que foi isso que despertou o incomodo, sempre que penso nele falando fica essa coisa
quase teatral, parece aqueles apresentadores de programa de venda, e nessa envolve com
uma história fantasiosa que de tão confiante ele fala fica difícil não acreditar, Vai ver a
história não é fantasiosa, você mesmo disse que viu a mulher sentada no sofá, que tinha
uma neblina, como se a sala estivesse tocando uma outra dimensão, Eu sei, disse isso, só
fico pensando se não estou apenas confuso, acho que desde de lá estou com um pouco de
febre, e nem um antitérmico tomei, to me deixando levar nessa história, talvez descanso e
paracetamol resolva tudo isso, e, e, e
Abelardo pretendia continuar falando, mas o fio da meada perdeu, o encadeamento
das ideias levou para uma situação resolvida outra vez nos parâmetros do rotina, e quando
nessa conjunção esbarra uma adição não desejada, a fala falha no exato momento onde a
palavra no desejo esbarra. Respira e outra vez os pensamentos sacode, permanecendo em
silêncio, olhando para Olívia, que, também em silêncio está, ela, também encadeia
pensamentos, entretanto, sem deles procurar escapar, deixa o fluxo associativo das palavras
e do silêncio, principalmente este último, momento averbalizado, onde num fio empático o
sentido escorrega prescindindo de significante, e pela vibração se entende, encadeando
memórias de antigas vivências funcionando como figura intrafórica, Olivia está contando
uma história, Quando era pequena, costumávamos passar os feriados no sítio de meus avós
na serra, principalmente na páscoa a casa ficava cheia, meu vô contava muita história,
muita história sobre o lugar, sobre a floresta, sobre o clima, tudo tinha história, e em frente
a casa tinha uma montanha, ficava em frente de casa mas era distante, de tão grande ela
parecia perto, mas pra chegar nela mesmo eram umas duas horas andando, e nós sempre
fazíamos esse caminho, era bonito, a maior parte era pasto, cheio de vaca e bezerro, o
riacho cruzando o caminho, mas quando ia chegando perto da montanha ainda tinhafloresta, no pé da montanha tem uma pedra, linda, enorme, parece uma mulher sentada, as
pessoas chamam essa pedra de Mãe de Vento, na história do meu vô essa pedra é uma índia,
que há muito tempo se apaixonou pela montanha, e foi amor recíproco, a montanha também
se apaixonou por ela, e durante anos viveram esse amor, mas a mulher envelhecia, e para a
montanha algumas anos são um pensamento, para a mulher chega a hora do fim, a
montanha então pediu ao vento que ajudasse, e o vento esculpiu a mulher em pedra, meu vô
dizia e jurava que mais de uma vez andando por aquela parte da floresta escutou alguém
cantando uma música, e seguindo a melodia até a pedra, e no lugar da pedra, cantando ao
lado da montanha a mulher com cabelos longos e pele escura, pra continuar ouvindo ele se
escondia, mas não durava muito tempo, ninguém acreditava nele, eu acredito, algumas
outras pessoas dizem que também já viram, mas são poucos, tem quem acredita tem que
não, mas todo mundo conhece a lenda da Mãe de Vento, ela tem esse nome também porque
faz um barulho quando o vento mais forte passa entre a pedra e a montanha, é daí que
dizem que vem o canto que tem gente que escuta, e tem quem diz que esse é o barulho da
montanha cantando junto, eu sempre acreditei, não tanto pela história, mas pelo meu vô, ele
dizia com olho de quem acredita no que fala, e mesmo quando riam e zuavam ele
permanecia bem humorado, sabendo que não dependia se outros acreditam ou não, ele viu a
lenda e sabe que não é só história, eu sempre quis ver, mas nunca consegui, já até ouvi o
vento forte cantando com a montanha, e corri pra ver alguma coisa e nada encontrei, achei
também que se fosse sozinha seria mais fácil, e nada vi, mas isso não me fez deixar de
acreditar, e um tempo atrás meu vô morreu, na verdade já tem alguns anos, mas parece que
tem gente que o luto é sempre recente, e uma das coisas que me deixa triste é quando ele
era vivo eu nunca tive uma experiência dessas, sobrenaturais, sei lá outro modo de chamar,
eu queria muito chegar um dia e quando estivessem rindo dele depois de uma história eu ia
dizer, É verdade sim, eu também vi, e tenho certeza, mas isso nunca aconteceu e conforme
o tempo passa parece que isso vai desfazendo a imagem dele, como se faltasse um elo pra
segurar, ou o tempo vai deteriorar, e logo e não serei muito diferente da pessoa que sempre
desacreditará, fico pensando, tomara que essa fantasma seja verdadeira, e esse sofá bem
mal assombrado.
A última frase faz Abelardo rir, percebe se sendo percebido, a amiga entende, ainda
que por motivos diferentes, uma conexão com destinatário traçado, o ânimo de Abelardo
está renovado, fazendo troça diz, Esquece o que disse sobre a comida não demorar.
É inegável que a comida muito tempo demorou a ser servida, ainda que deliciosa e
agora satisfeitos e cheios ainda nos pratos sobras, o tempo entre o pedido e a refeição foi
longo, beneficies da espera, planos feitos e decisões tomadas, agora almoço findado
preparam a partida, rumo ao apartamento de Abelardo, onde fatos serão encarados e um
sofá mal assombrado interrogado.
Pouco mais no bar ficam, neste momento estão a caminho do apartamento de
Abelardo, estão em silêncio, imersos nos próprios pensamentos, Olivia sustenta a curiosa
imagem criada a partir dos relatos do amigo, tem de um lado o peso do ceticismo,
fantasmas e outros seres do gênero são inexistências, vivendo apenas nos mundos
imaginários, literários e fílmicos, por outro lado, e, este, é o que no momento exerce maior
peso, tem a vontade de que sejam reais. Acumula relatos sobre o sobrenatural, entretanto,
não teve a oportunidade de experienciar. Difícil acreditar em algo no qual a experiência
sensória é nula, são os sentidos que criam os parâmetros e coordenadas que edificam a
realidade, os alicerces do mundo são os órgãos que nos relacionam com aquilo que de forade nós nos forma. Matéria concreta e amorfa de sentido até o momento em que é nominada.
A perna dura cuja musculatura em vias de câimbrar estala os últimos resquícios de potássio
armazenado. De todos os filmes vistos, dos variados livros lidos, dos relatos escutados, tem
pronto o mundo onde seres e eres sobrenaturais habitam, o limítrofe entre o que crê e a
realidade. Discrepâncias mirabolantes e as tediosas expressões da realidade cotidiana. Outra
vez pensa no avô, e na certeza com que já acreditou, como parece distante essa sensação,
mesmo que ainda resista, é difícil acreditar em algo não experimentado.
Enquanto isso, a mente de Abelardo vaga por antigas memórias, buscando qualquer
imagem ou lembrança que possa tirar da consciência, ainda que momentaneamente, os
incomuns acontecimentos que tem passado. Tem lampejos vazios e cenas banais. A mente
consciente se esforça para manter distância de incômodos paramentos.
Estão atravessando a porta para o cheiro adocicado que toma conta do apartamento,
está quieto e silencioso, de tal maneira que os dois que o recinto adentram
inconscientemente evitam fazer ruídos.Capítulo Vinte e Sete, Em casa
Na atmosfera silenciosa os pés percorrem o assoalho, Olivia no primeiro momento
estranha o ambiente, o que logo percebe é a ausência, mesmo da parede os quadros foram
retirados, a mesa no centro do cômodo está nua, ainda assim, o ambiente parece cheio,
imerso em algum tipo de completude, que, acaba de entender, no momento em que a visão
escapa para o sofá. É tão charmoso quanto absurdo, parado ostentando a presença
magnética que outros corpos convoca. Se assusta ao ver ao lado Abelardo, foi de tal
maneira abduzida que por um lapso esquece onde está, é a presença do amigo que retoma a
realidade, diz, Não vejo fantasmas, mas a presença de alguma coisa é palpável, os dois
ficam em silêncio antes de Olivia continuar, Está tão quieto, talvez ela esteja dormindo.
Sem combinação prévia solene silêncio é mantido, ambos parecem o mesmo
perceber, em passos leves deixam a sala, na cozinha estão posicionados de maneira a ver o
sofá a medida que inclinam o pescoço, podendo assim, permanecer em outro cômodo sem
serem vistos, aos sussurros conversam, é Olvia quem está dizendo, Porque estamos aqui
escondidos, Não estamos escondidos, Estamos sim, e sussurrando, Talvez um pouco, Tem
alguma coisa nesse sofá, sabe quando um gato está dormindo em cima de um móvel, parece
isso, como um bicho dormindo, meio atento, sem nem perceber comecei a falar baixo, mas
ainda prefiro falar assim. Outra vez quietos observando. Pela entre luz da janela
adormecido objeto de animalesca sensação, talvez hiberne ou meramente cochile, talvez
desperte, talvez nada aconteça e tudo siga a via costumeira, entretanto, a visão do sofá
mostra que de uma coisa é caso, e os dois curiosos atrás da porta da cozinha observam,
vendo algo que não entendem, olhando bem, nada demais o sofá tem, é uma peça comum, e
meio mal conservada, mas olhando bem, tem um algo, um troço que foge as palavras, uma
coisa que ainda que contada não será entendida, mas que, Abelardo e Olivia entendem, pois
neste exato momento veem, com os olhos dos poros escutam, uma suave vibração, aos
poucos levando o medo, deixando a perplexidade, indo de maneira sutil para o estado
hipnótico vizinho da febre e do delírio, ambos percebem, deixados sintonizar, ainda sim,
nada fora do normal, tudo ao redor é o mesmo e rotineiro, o sofá é objeto comum, não fosse
a certeza que agora temos, está vivo.
Os sussurros subiram o tom tornados conversa normal, os amigos na sala estão,
acostumados a presença se aproximam, acariciando o ser que permite ser acariciado, ainda
dormindo. Olivia cautelosa, sente a anima de violência, outra vez pensa em felinos, desta
vez em jaguatirica, fingindo estar domesticada, deixando tocar a mão humana, sabendo que
refeição irá receber. Enquanto a ponta dos dedos desliza por um vinco, ao lado, Abelardo
contemplativo tira os sapatos e escorrega o corpo pelas dobras e curvas do sofá. Olivia por
um instante fica indecisa, aspecto alterado quando vê o amigo sorrindo enquanto ajeita o
corpo, vírgulas difundidas em um instante acatado, Olivia de maneira quase reverencial
senta procurando com as costas apoio. Surpresa pela ausência de conforto tanto quanto
desconforto, um suave apaziguar, algo que diz aos músculos para relaxar, permitindo a
alma liquefazer entre os tecidos orgânicos.
Tão rápido quanto as areias que nos olhos evocam o sono, estão dormindo.Ambos sonham. Embora, quando acordarem, apenas Abelardo lembrará do sonho,
Olivia, passará dois dias até que motivos exteriores evoquem a memória guardada nas
gavetas oníricas.
O primeiro a acordar é Abelardo, deixa no sofá Olivia que ainda dorme. Liga o
chuveiro, deixando a água escorrer pelos olhos fechados. A pouco sonhou, no sonho está
outra vez no sofá, ao lado a bela mulher e suas uvas, desta vez está sozinha, distraída com o
cacho e um livro, o cheiro marinho é forte, o ambiente é ricamente mobiliado, as paredes
cercadas de quadros, no chão, um largo tapete com temática berbere segue até a janela.
Agora refletindo, sem espanto chega a conclusão criada pela nítida sensação, o que tem
visto são memórias, de alguma forma presas no sofá, De alguma maneira, os resquícios
mnêmicos da fantasma estão armazenados nas entranhas do tecido, talvez, ela própria não
passe da imagem refletida do passado. O último pensamento deixa Abelardo triste, de
alguma forma que ainda não entende sente forte sintonia com a fantasma, no íntimo habita
o desejo, a irrealidade sobrenatural presentificada na densidade sem corpo.
V olta a sala, Olívia está acordada, continua deitada, apenas melhor apoiou a cabeça
para usar o celular, está dizendo, Caso decida não ficar com o sofá, por favor, avise ao
bondoso senhor Ruiz que a próxima na fila para ter essa maravilha sou eu. Abelardo ri,
pensa em contar sobre o sonho e a conclusão a que chegou, antes que o faça é interrompido,
Esse cochilo acabou complicando meus planos, está em cima da hora para ir a peça.
Abelardo havia completamente obliterado tal evento, em nenhum momento a sério
cogitando no dia de hoje ir ao teatro. Olivia percebendo os pensamentos expressos no
semblante do amigo continua, Sem desculpas, comeremos algo no caminho, deixe um
pouco os assuntos sobrenaturais, aliás, tenho uma forte teoria sobre a fantasma, certamente
ela quis descansar em morte no lugar mais confortável que conheceu em vida,
compreensível.
Quinze minutos depois estão deixando o apartamento, tão silencioso como quando
chegaram. Rumam a residência de Olivia, planejam uma rápida parada, torcendo para o
trânsito cooperar e rapidamente ao teatro chegar.Capítulo Vinte e Oito, Valar
A peça se chama Valar. Conta a história de Valar, homem interiorano que não se
acostuma com o caos urbano. Dia após dia o cheiro pesado da poluição o incomoda, noite
após noite o barulho constante dos carros o impede de dormir, até a comida, refeição após
refeição passa a incomodar, todos os gostos artificiais, distantes dos complexos sabores das
memórias infantis. Certa noite, após um dia particularmente estafante e estressante, resolve
que precisa de um bom descanso, uma boa noite realmente bem dormida, para tal
empreitada é tomado por uma brilhante ideia, decide dormir sem os sentidos. Assim, em
um recipiente com água acomoda primeiro as orelhas, depois a língua, em seguida o nariz,
por último, os olhos. Usando apenas a percepção epitelial procura a cama, tateando se
embrulha nas cobertas como em um casulo, adormece, sem qualquer estímulo para
incomodar. O que não conta, por coincidência ou do destino brincadeira, dois ladrões
invadem a casa. Sem qualquer problema os bandidos levam todos os pertences que julgam
possuir algum valor, inclusive, o recipiente onde estão depositados os órgãos dos sentidos
de Valar. A partir deste ponto, a peça se desenrola na confusa experiência da escassez
sensorial que resta ao protagonista. Durante os desdobramentos de sua busca, passa a ser
observado por um dos ladrões, que, ciente do que roubou, olha Valar com curiosa piedade e
contemplação sádica. O dilema do ladrão é a pena que sente quanto ao homem que lamenta
as misérias da nova vida de silêncio e escuridão, e o prazer que retira da experiência
voyeur, minuciosamente observando os artifícios criados por Valar para lidar com o novo
estado. Em determinado momento, a pena vence, fazendo com que se compadeça do
sofredor protagonista e devolva os órgãos furtados. No fim, extasiado, os sentidos
recuperados e o deleite das sensações costumeiras, pode enxergar, escutar, apreciar odores e
sabores, contudo, o que sente é ódio, a peça chega ao fim em uma triste e comovente cena
onde Valar espera os dois ladrões dormirem e no silêncio da madrugada os rouba a vida.Capítulo Vinte e Nove, After
A luz amarela difundida entre as nuvens moldura a lua crescente, abaixo do zênite
deslizando sobre a cidade como os olhos manchados de uma grande coruja caolha. Neste
momento duas nuvens passam pelo arco lunar, fazendo com que o único olho da grande ave
pisque, suavidade âmbar do céu noturno, cometas e viajantes percorrendo a via láctea com
destino as vias ao sul de Andrômeda. No planeta cuja gravidade segura a lua, na grande
metrópole costeira acariciada pelo trópico de capricórnio, as marés, da mesma forma que os
homens, estão encantadas com a brilhante pedra parada no céu. Neste momento, um grupo
que há pouco deixou o teatro olha para o alto. Os olhares que procuram o objeto foram
alertados por uma frase dita por Heleno, Lua tão brilhante que parece cheia. Frase esta, dita
sem pretensões, dita como um pensamento escapulido, na trivial forma que apenas os
apaixonados podem emitir. Heleno está de particular bom humor, como há tempos não
lembra ser capaz. Chegou na metrópole vindo de outro estado, de uma pequena cidade no
interior do Espírito Santo. O filho único, criado nos preceitos bíblicos, guiado pela figura
austera do pai, presbítero em uma igreja protestante da localidade. Veio para o Rio de
Janeiro cursar teologia, assim, realizar o sonho do pai, ter um filho pastor, fato que
orgulhoso conta a todos os conterrâneos, O menino vai voltar do Rio pastor. Heleno por
vezes pensa como real possibilidade voltar para casa, realizar o sonho paterno, ser motivo
de orgulho. Com carinho lembra a figura materna, na época, entre o alvoroço e pressão
puxa o filho pela mão dizendo nos olhos que não tardam em deixar os últimos resquícios de
infância, Filho, a escolha é sua, fique ou vá, ou, que escolha tomar, estou do seu lado.
Decide ir, pesados e medidos, razões, coerências e sonhos, ainda que, teologia não seja o
plano que enche os olhos, é, o carimbo, o visto, a possibilidade de saída para todos os
outros mundos que a cidade grande significa. Os primeiros meses são mistos de excitação e
arrependimento, mais dificuldade do que o esperado, o cotidiano ocupado, a solidão das
almas citadinas, até, que, algo acontece, alguém acontece. Dona Juliana. Algo na matiz
castanha que combina as pupilas e os cabelos. Algo na maturidade das rugas que pesam os
olhos. Algo no corpo esbelto. Dona Juliana é tesoureira da faculdade de teologia. Dona
Juliana é esposa do Pastor Claudio. Hoje completam três semanas que Dona Juliana e
Heleno são amantes. Acenos, olhares, meias palavras, o inacreditável da concretização do
desejo. Hoje irá encontrála, mais uma vez se perder no experiente corpo, queimar nos
fogosos olhos. Neste momento, as nuvens passam, deixando a lua quase cheia exposta, nua,
brilhante e ardente. Na lua Heleno procura os olhos que logo pretende encontrar. A grande
coruja, o olhar irresistível da amante, a lembrança de alguém perto ou distante, a lua hoje
são todos, avatarizada no grande olho de um ser que observa o mundo. Sem forma, sem
corpo, indefinida e irruptiva.
A conversa foi multiplicada em pequenos focos à medida que outros ao grupo
agregam. Impressões sobre a peça e suas reverberações, comentários sobre a lua e a noite.
Abelardo está próximo a Lola, Bê e Olivia, escutando Maltizebeque falar sobre um bar na
Lapa, Exatamente, ali mesmo, os petiscos também são gostosos, e, hoje, vai rolar samba, a
galera que tem ido disse que tem ficado cheio. Dos quatro que neste momento escutam, trêsestão animados. Alguém se aproxima do grupo, fazendo com que os corpos se recoloquem
no espaço, Abelardo, desligado do momento, não percebe o movimento, sendo colocado a
parte da roda onde a conversa continua. Olha para os lados, onde sorrisos e animação
tomam conta das vozes deleitadas pela noite que apenas começa. Não sente estar aqui. A
presença foge a si, impedindo alguma forma de concretude que alimenta a relação com os
outros. A tal investimento não pretende, aproveita a deixa. Incógnito em passos
melancólicos parte sem despedidas.Capítulo Trinta, Outra nuvem margeando a lua
Deitado encara a mancha no teto, em um impulso pareidolico, por dois segundos,
enxerga uma face, logo a imagem esvai, o formato é demasiado deformado para um rosto.
Aperta os olhos, buscando forçar a percepção e indicar à mente a forma oculta, ali, ainda
que não vista. Como um jogo de imagens sobrepostas, onde, a visão de uma forma impede
a existência de outra. Está sonolento, em pouco estará dormindo, levado pela distração da
mancha iluminada pela luz que bruxuleia vinda de fora. Chegou em casa cansado, com dor
nos ombros devido ao trajeto dormindo torto no banco desconfortável do ônibus. Ao entrar
no apartamento vem sem a lembrança do sofá, é espantado que olha para o objeto, em bloco
lembrando os últimos acontecimentos. Parado espera, olha, tem a esperança de ver
novamente a fantasma. Impaciente para esperar vai para o quarto, onde está agora, entre a
brincadeira com a mancha e outros pensamentos passageiros, prestes a adormecer vira o
corpo, ajeita o travesseiro, os olhos estão fechados.
A mesma luz que no quarto revela a mancha entra pela janela da sala. Neste
momento a luz do espaço vinda ilumina o sofá, deixando cada pequeno intervalo eriçado,
circulando ar por espaços que vagarosamente ganham dilatação. O luar anima o maciço
objeto, ainda adormecido, bebendo cada quanta que a grande pedra reflete. Séculos
adormecidos, agora, aos poucos, o sofá acorda, faminto. Ainda não tem energia suficiente
para assumir a forma que permite se alimentar plenamente, o que acontecerá na noite
depois de amanhã quando a lua estiver completamente cheia. Ainda assim, neste estado
quase suspenso, pequenos animais, em sua maior parte insetos, são atraídos, é necessário
que sejam pequenos o suficiente para passar por entre as costuras. Tal alimentação possui
limitações energéticas, passados anos, sente fome, e o humano que no quarto ao lado
pesado dorme é o almejado banquete.Capítulo Trinta e Um, Lendas e Histórias
No limiar onde a noite metamorfoseia o dia, escorre a luz indecisa prenunciando
calor quando o sol for absoluto. Depois da última chuva as nuvens decidiram não aparecer,
talvez estejam vagando foz acima enchendo o Solimões, talvez absorvam a umidade salina
que sopra o Boreas, talvez estejam próximas, do outro lado da serra, esperando para descer,
o que é certo, neste momento aqui não estão. O sol acaba de aparecer, já não são seus
reflexos aparentes na luminosidade do despertar matutino, concreto no início do horizonte
mostra a força que sobre o mundo começa a inundar. É cedo, especialmente levando em
consideração a questão dominical, a oportunidade de na cama tardear.
Abelardo está acordado, deitado, pela janela observando o nascer do dia nas paredes
do prédio a frente, como um absurdo espelho fosco refletindo a luz no mundo. Vira para o
lado esquerdo, não encontra o sono, para o lado direito, não encontra, de barriga para baixo,
para cima, elevando vinte e sete graus a flexão da perna esquerda enquanto em oito graus o
tronco desce uma oitava em relação ao pescoço, não encontra o sono. Levanta, a
verticalidade aparece como melhor opção, não há sentido em buscar o sono perdido.
No cômodo anexo, outro ser dormita. Passou a noite sorvendo o luar. Abelardo
pouco sabe sobre a natureza e a história do sofá. As palavras de Ramon Ruiz muito omitem,
inventam. Não foi por meio de pesquisa e contatos que os fatos foram revelados. O ancião
possui outros nomes que prefere não usar, estes, tratam de sua antiga e amaldiçoada
linhagem. A loja de antiguidades guarda raros e poderosos objetos, o sofá está entre estes. É
a forma prisional de Matzatea uma entidade ancestral, trancafiada graças a poderosa magia.
As lendas contam, tão antigo quanto a floresta é o significado de seu nome.
Conhecida pelo canto hipnótico, pela tentadora melodia que leva humanos a serem
voluntariamente devorados. A criatura se alimenta de qualquer ser vivo, entretanto, apenas
humanos verdadeiramente sua fome saciam, deleita apetitosos corpos e intelectos, devora
mente e alma, cada aspecto da subjetividade humana devidamente apreciados.
Foi um poderoso feiticeiro, conhecido como Tupa Yogoco, reverenciado por, entre
outros feitos, ter aprisionado três dos filhos de Ryl. Matzatea é uma destes filhos. A terceira
a ser aprisionada, como é contado, Tupa Yogoco, um dos feiticeiros primordiais, seguia o
caminho de um riacho quando encontrou um homem e duas pequenas meninas chorando.
Compadecido dos prantos que verdadeiros soam, conspicuamente se aproxima. Pergunta o
motivo do choro, é a menina menor quem responde, Nossa mãe foi devorada por Matzatea,
esta manhã partiu para pegar água próximo a nascente do rio, onde o curso de água corre
antes de encontrar as habitações, onde a água é pura e vagam puros animais, há onze dias o
vento forte sopra na direção da aldeia, todos conhecem o perigo de subir a nascente, onde o
vento traz a música de Matzatea, já sem água para beber, foi corajosa nossa mãe. Silêncio.
O feiticeiro pede as coordenadas e caminha rumo ao maligno.
Diferentes versões existem sobre a batalha e a vitória do feiticeiro sobre a poderosa
entidade. O que todas concordam. Vencida, foi aprisionada em um baú de madeira. Mantida
sob custódia de Yogoco até o fim de sua vida. Demasiado poderosa para ser morta, foi
trancafiada no relicário que mantêm o destrutivo poder sob controle, é de máxima
necessidade manter a criatura alimentada, a fome catalisa o necessário para romper aprisão, assim, pequenas fissuras na madeira permitem a entrada de pequenos insetos, o
suficiente para tal estado. Contudo. De tempos em tempos, um específico alinhamento dos
astros gera a janela cósmica que temporariamente liberta a criatura em sua terrível forma. O
alinhamento poucos minutos dura, caso neste tempo tenha acesso a comida, voltará para a
caixa depois de saciada. Caso contrário. Faminta, passado o alinhamento, fugirá sem rumo,
demônio ancestral solto no mundo contemporâneo.
O sofá tem o baú em seu centro, envolto por uma série de madeiras e tecidos
enfeitiçados para reforçar os poderes do selo, todavia e principalmente, também servindo a
outro propósito. Foi a maneira encontrada para esconder o baú em um passado recente,
quando objetos desta natureza eram caçados.
Testamentalmente passada por incontáveis gerações, nesta atual, nas mãos do
homem que atualmente se apresenta como Ramon Ruiz. Na noite da última quintafeira,
enquanto em torrentes do lado de fora a chuva cai, o ancião discute as preocupações com a
chegada do evento astrológico, quando do lado de fora um jovem humano é cooptado pela
imagem do sofá, neste instante tem certeza, A criatura aos poucos desperta, já
suficientemente forte para escolher o que quer. O humano parece febril, talvez a chuva
tenha afetado sua saúde, deixando suscetível o entendimento, concordando com aquilo que
é sugestionado. Dentro do antiquário o jovem está perdido, atordoado com tudo que o
cerca, de tal maneira que quando ao sofá é apresentado age como inebriado. Matzataea
percebe, ainda em estado de dormencia a energia emitida pelo objeto tem um pico. É
visível o quanto é afetado Abelardo cujos olhos soam destoados.
Ramon Ruiz em sua experiência sem problema na lábia leva o garoto, com uma
história, palavras cantadas sobre vantagens e camaradagem, um ancião compadecido e um
jovem predisposto, entre eles um sofá precisando de um lugar.
No dia seguinte envia o objeto para o endereço obtido, desta maneira tendo certeza
que a proximidade permitirá que Matzatea sem problemas se alimente. A forma dura
poucos minutos, animada pela lua cheia, o alinhamento de Fobos e Deimos e o movimento
retrógrado de Titã. Quando as condições são atingidas, os feitiços são abertos, desfeitos os
cadeados, o selo rompido, a entidade emerge, transmutada. Neste momento, o incubo
acordará faminto, é necessário alimento para longa digestão na forma prisional, onde irá
permanecer por longo período até que, novamente, as condições específicas para libertação
sejam alcançadas. Matzatea lentamente digere, como nos tempos antigos, quando era a
própria caverna, emitindo um som suave, uma vibração que os humanos experienciam
como um canto, ainda que seja emitida em uma frequência abaixo da faixa de som audível,
um som invisível e silencioso, ouvido pela pele, comunicando com os talos profundos do
encéfalo primitivo. Quando hipnotizado, o humano segue em direção a caverna, a medida
que se aproxima aumentando o magnetismo, aos poucos a consciência some, o eu é diluído,
e uma suave onda de prazer passa pelo corpo que se entrega, lembrando a vida toda,
rememorando a partir do agora, regressando até a última memória. Memórias são
carregadas de sentimentos, e são estes que deleitam o paladar de Matzatea. Ainda que se
alimente de outros animais, e mesmo goste de saborear um pássaro, mesmo sendo
deliciosas as memórias de um velho pássaro, estas não se comparam a complexidade da
subjetividade humana, a delícia dos sentimentos ambíguos, a suculência das incertezas, a
picância das paixões, o amargo das desilusões, cada detalhe da composição a criatura
degusta, até que no fim, o que sobra é uma casca vazia, um resto biológico ainda vivo, sem
qualquer resquício de humanidade.Estas coisas todas Abelardo desconhece. E neste momento, o desconhecimento dos
fatos que traçam a história culminarão no, que, em última instância, serão para alguns a
ruína e o fim. Como intuído, a fantasma é algo entre espectro e memória, esta intuição
acertada será usada como base para todas as especulações futuras. O que não sabe, a
fantasma foi a última vítima da fome de Matzatea, seduzida pela criatura, agora, tem a
imagem utilizada para seduzir Abelardo, que, beira a paixão pela fantasma, tanto quanto
pela lascívia que do sofá emana.Capítulo Trinta e Dois, Ainda hoje
Desligado vulto da cama levanta, trajetos entre cômodos executados em frios
passos, chão transmite temperatura baixa elevando a intenção do fora, a casa tem cheiro
marinho, odor peculiar fora do rotineiro dada a distância entre o apartamento e a praia, por
vezes o vento mais forte salgado brisa, não na intensidade atual, é o cheiro da beiramar,
uma brisa forte vinda em corredor para a terra firme. Enquanto a periferia do despertar
percorre no automatismo da fisiologia matinal, vaga em pontos tornados firmes em certeza
cristalizadas, alcançado tem uma compreensão, ainda que parcial, da criatura em sofá
aparenciada. Da mesma forma parcialmente, sustenta a teoria da febre, onde desde de
quinta está começando um estado gripal que tem se intensificado, sobre a testa a palma da
mão e confirma estar quente, pensa em um termômetro que não tem, de mercúrio ou
eletrônico, talvez nem mesmo o de mercúrio fabriquem mais, um tipo de metal que
permanece líquido em temperatura ambiente, parece vindo de outro lugar, nessa dimensão
por acaso, pesado para o orgânico, envenena o corpo, como ancestral o veio e em qual
intenção, domesticado em um termômetro, que quando quebra forma bolhas no chão, com o
toque se juntam e separam, parece até vivo quando em movimento, mas não tem
termômetro, nem o eletrônico, que provavelmente estará a venda na farmácia, outra vez a
mão na testa, está quente, e esse cheiro de maresia, vem de onde, de fora, ou, de dentro,
será mesmo algo, Precisamos de cafeína, deixa um pouco isso e pega um café.
Abelardo escuta o conselho da mente, faz café, toma café, toma café em pé, em pé
na frente do sofá, que, olhando de um ângulo certo parece mover como se estivesse
respirando, cada vez que o sofá respira, na testa abelardo põe a mão onde tem certeza da
alucinação, seja esta real ou não. Sobre a mesa deixa a xícara meio cheia, chave e cartão no
bolso, chinelo no pé, sai rumo a farmácia, onde pretende comprar termômetro e
paracetamol.
A farmácia é próxima, no mesmo quarteirão, nem mesmo rua será preciso
atravessar, e nessa hora de domingo, o estabelecimento estará vazio, e na entrada haverá
caixas de remédio para gripe em promoção, Abelardo irá ler a embalagem, refletir sobre os
cinco benefícios na caixa apresentados, decidirá levar duas caixas que levará ao caixa onde
a caixa de olhos sonolentos irá receber e colocar junto na sacola com uma pastilha para
garganta. Depois disso voltará para casa, sem o termômetro, no entanto contra sintomas de
resfriado fortemente armado. Esse trajeto completo demorará cerca de trinta minutos,
grande parte deste tempo será gasto procurando a melhor pastilha para o caso. Enquanto
isso, aqui, na sala do apartamento, Matzatea está acordando.
À medida que a hora propícia se aproxima a força flui pelo ser enjaulado à medida
que as grades da prisão perdem força. Ainda não consegue tomar a forma plena, todavia o
ambiente vê, e começa a ter consciência, os selos a deixam em um estado de torpor, neste
momento tem o entendimento claro, percebe o lugar, tem dificuldade para entender o
tempo, a passagem e a manifestação do presente, retorna a memória primordial, da caverna
que foi e nasceu, busca energia para esta dimensão evocar, ainda pouco consegue, opta pela
força de acontecimentos recentes, o lar do humano, fosse em outro momento já o teria
devorado, mas ainda não é capaz, todavia sabe como seduzilo, para em breve, o
pensamento a faz salivar, liberando o cheiro salgado dos miasmas que aos pouco da
dimensão prisional se libertam. Matzatea com a força que tem cria a armadilha, feromônios
no ambiente, aos poucos a cavernosa forma, a constituição geográfica da essência,expandindo, metamorfoseando a realidade, reconstruindo uma arapuca primitiva, o
longínquo, o recente, a bela memória de olhos melancólicos no sofá estendida, rindo
enquanto come uvas, Matzatea lembra da mulher que sua ultima real refeição foi, com
apetite e ainda sem energia antecipa com excitação a futura refeição, tudo pronto, aguarda,
não precisa mais aguardar, a porta está sendo aberta Abelardo voltou.
Capítulo Trinta e Três, Entre sintomas e dimensões
Distraido, pelo corredor andando, olhos vagos em pensamentos variantes do exterior
desconectado, porta, que em breve será aberta, porta, em portal transmutada quando a sala
na caverna primordial transformada, chave na fechadura da, porta, sendo aberta, cheiro
salgado e pequeno limbrero correndo assustado, correndo em direção algo que, no lugar,
onde, o sofá, estava, agora pulsa, soltando fumaça como pus excretado em ventosas do que
parecem ser algo com a quasidade de tentaculos, que percorcorrem o ambiente, ora
tentáculos sendo, hora juntos de maneira ao ambiente ser, como carregados de propriedade
holografica, fazendo com que este ambiente que agora vemos em nada tenha de semelhante
com o passado experienciado, Abelardo, está parado, com um dos pés dentro do que
apartamento sido agora uma gruta é, olha, reconhece aquilo que desconhece, atinge
compreensão precisa do que acontece, medo sente, mais ainda, curiosidade, ultrapassada
apenas pelo desejo, emanando, das purulentas ventosas holográficas costurando o tecido da
realidade de uma caverna projetada, do cheiro salgado e carregado, da mulher memoria que
neste momento está sentada em um pedra lendo um livro, o que acontece, profusão emotivacom uma certeza, um dos pés tendo a porta portal atravessado enquanto outra sola obstante
ficando no corredor conhecido, angulos observados, cabeça virada, portas fechadas,
elevador, paredes desgastadas, extintor de incendio, um caminho conhecido, monotono e
previsivel, ali fica o botão do elevador, que leva, para outro lugar que é sempre o mesmo, e
continuará, absrorvendo o desgaste, esperando o próximo boleto enquanto as frutas
murcham na geladeira, entretanto, a pouco, enquanto caminhava de volta para casa, após
tomar dois comprimidos, com uma pastilha na boca, a pastilha deixa lingua e garganta
dormentes, febre não sente, a testa não parece quente, precurta algum sintoma, todos
ausentes, volta a refletir se esta sonhando, entende como essa questão foi superada, está
acordado, o que coloca apenas duas alternativas, uma, o que vê é a manifestação
sobrenatural de alguma entidade mística mágica o que seja sendo ela boa ou má o certo não
se sabe mas o incerto agora é conhecido, outra opção, loucura, delírio, a sanidade perdida e
presentemente uma outra realidade sendo experienciada.
Por alguns momentos nesta posição sustenta, permanece no entre, segurando
pensamentos, buscando uma decisão, que não tarda, é engolida com a respiração. Gostaria
de estar louco, ponderando prefere o atestado médico da convalescença, todavia, os
sentidos suspiram a realidade, sã, frente ao desconhecido, enigma cuja a força gravitacional
em sua órbita mantém Abelardo, atônito, sentindo os dedos fustigar e a coerência escapar.
Entra no apartamento, fecha a porta, agora dentro da gruta completamente está.
Os pés estão cobertos por uma neblina baixa, um tapete uniforme, cinzento e
espesso, escuridão quebrada apenas pela luz fraca que emana do exterior, vindo da entrada
da caverna, onde antes estava a janela. Abelardo pondera o que estarão vendo as pessoas no
prédio da frente, será que veem este ambiente antigo e putrefato, será que sentem o cheiro
doce e salgado, mistura de decomposição e odores selvagens, uma fresta de vento
percorrendo a floresta, tocando as pedras, umidade mineral, andar causa estranheza, o chão
tem consistência irregular, movediço e pedregoso, vez ou outra barulho de algo quebrando,
madeira ou osso. Olhos acostumados, pupilas com a dilatação precisa que permite a visão,
pessoas circulam, aspectos cadavéricos, andando a esmo, parecem não saber onde estão,
circulando o mesmo trajeto sem alterar expressão. Uma pedra emerge na neblina, e sobre
ela alguém lê, é uma mulher, Abelardo a reconhece, com passos cuidadosos se aproxima,
inconspícuo não é visto, agora próximo o suficiente para contemplar detalhes. Sem dúvida
é ela, entretanto parece mais velha e pálida, a pele fina cobre o rosto como uma fina seda
sobre o osso, o vestido longo parece novo, é difícil saber sua cor nesta iluminação, tem
rendas marcando o busto, outra vez Abelardo se espanta com o quanto parece novo, como
recém costurado e passado, ainda que pareça um pouco largo, as mangas param antes do
cotovelo revelando os braços finos causando espanto pela aparente fragilidade enquanto
sem esforço seguram um pesado livro.
Abelardo está no ponto exato onde antes o centro da sala, um ambiente comum,
como a maioria dos ambientes nos apartamentos modernos, utilitário e frio, agora, de onde
está olha ao redor sem acreditar, ao mesmo tempo, tendo plena convicção do que vê. O
lugar é enorme, uma câmara subterrânea, do teto alto estalactites lentamente escorrem gotas
mergulhando na neblina que parece um lago, sombras passam voando ligeiras, morcegos e
outros animais que na escuridão não reconhece, e, até onde consegue ver os mesmo seres
cadavéricos caminham, e tudo embalado por um silêncio suave acompanhado de uma
vibração melódica emanando de uma direção específica onde uma fumaça espessa emana,
mesmo com os olhos apertados é impossível ver além do pulsar opaco do outro lado daespessa cortina da neblina suavizando a medida que se espalha em casacata fazendo a visão
chegar a pedra, vazia, é quando Abelardo percebe ao lado a presença silenciosa que lhe
encara a alma.
Através do olhar tocando a profundeza do ser, ela nada diz, parece incapaz de dizer,
seus olhos são vazios, sem qualquer palavra, dedos finos e unhas quebradas. Abelardo
reposiciona o corpo, fazendo que fiquem de frente. Ela eleva o queixo, estão a poucos
centímetros do rosto um do outro. Ela respira lentamente, segura a mão de Abelardo e leva
até o próprio rosto, frio, levemente ruborizado ao toque da ponta dos dedos suados. Ela
aperta a mão de Abelardo, com força, mais força do que aparenta sua frágil constituição.
Abelardo procura algo para dizer, nada encontra, deixa de procurar, entende que nada
haverá que possa ser dito, os olhos dela comunicam tudo, eco de onde haveriam memórias
e agora vaga um último resquício de vida.
Mas ela ainda está aqui, Maria Teresa Fernanda solta a mão do recém chegado e,
com um gesto, indica o braço, para de braços dados caminharem. A proximidade dos
corpos, passos etéreos pela neblina flutuam, deslizando pela penumbra cavernosa aos
poucos diminuindo, os passos atravessam o espaço no tempo suspenso, deixam a caverna,
estão em uma sala, ampla e bem iluminada, andam até a janela, do outro lado canais
seguem em direção ao mar, estão em Veneza, andando pelo piso de madeira, polido como
um espelho ampliando as dimensões, no chão a figura de uma mulher refletida, reflexo de
uma pintura na parede. Abelardo está olhando a pintura, reconhece a mulher, no intuito de
uma pergunta fazer olha para o lado, quando se assusta, o olhar que recebe é vazio,
entretanto corado, lábios vivos, maçãs do rosto proeminentes.
Durante muito tempo, ou pelo menos o que para Abelardo parece muito tempo,
andando em círculos pelo cômodo, nos primeiros instantes tentando conversar, logo
percebendo ser vã qualquer tentativa, Maria Teresa Fernanda nada diz, e nem irá dizer,
ainda assim, ainda que mesmo no olhar lhe faltem significantes, nela persiste um certo tipo
de charme, um charme que pertence às criaturas melancólicas que flertam com o fim, que
com a finitude e o silêncio ficam a vontade, um tipo de charme que é também um traço de
caráter, nestes detalhes Abelardo encontra contemplação nos olhos tão profundos quanto
tudo o que na vida já viveu.
A materialidade da cena começa a se perder à medida que a solidez escorre como
tinta, outra vez estão no interior da caverna. O doce zumbido agora é audível como um
chamado. A neblina está sendo sugada, é possível sentir a corrente de vento que a carrega,
as figuras cadavéricas sincronizam seus passos, caminhando na mesma direção, morcegos e
criaturas voadoras em uníssono formam fila, tudo no ambiente está sendo puxado para a
espessa fumaça de onde a vibração emana. Paralisados o casal de braços dados no centro
observa, as criaturas voadoras mergulham em direção a fumaça onde desaparecem, a
neblina está sendo puxada como a correnteza de um rio fluindo em direção contrária,
sombras animalescas de diferente tamanho se agitam, a solidez da caverna revela as paredes
constituídas por tentáculos, agora sendo puxados desvelam o apartamento, as ventosas
chupam a neblina, já é possível ver o chão onde vermes e insetos são arrastados como
sujeira sendo puxada pelo aspirador de pó, só que, não há um eletrodoméstico, há alguma
coisa que se revela na fumaça dissipada.
É o sofá, indubitavelmente, é o mesmo sofá de a poucos dias na vitrine visto, para
entender o que neste momento Abelardo enxerga, basta evocar a memória deste sofá e,
acrescentar uma grande ventosa purulenta emergindo entre as almofadas sujas pela gosmaescorrendo de dezenas de tentáculos sendo tragados para o interior onde mergulha toda a
dimensão da caverna. Parecem lábios, lábios gigantescos purulentos e sensuais, sugando os
tentáculos da mesma forma que se come espaguete.
O real tende a realidade ordinária, o apartamento retorna, o ar carregado some
dando lugar ao ar pesado de poluição. O sofá aparenta um sofá ser, tudo para ele foi
sugado, exceto ela, está ao lado de Abelardo, um quase sorriso fino, com face serena. Os
braços dados voltam a revelar a frieza do corpo que começa a andar, Abelardo a
acompanha, temendo o que ela fará, imagina que a ventosa irá abrir, irá sugar, ambos.
Todavia isto não acontece. Matzatea está sem força. A cena há pouco findada é
apenas o prenúncio de sua liberdade, por alguns momentos conseguiu conectar as
dimensões de outrora com o agora, entrementes a força dos selos, para a forma prisional
retorna. A partir deste momento, nesta forma irá ficar até a hora exata, na noite de amanhã,
quando finalmente plena de seus poderes estará. Enquanto isso Maria Teresa Fernanda
retorna ao interior da besta, entretanto, pouca noção disso tem, pois pouco do que já foi lhe
resta. Todas suas memórias, todo seu desejo, todas as suas palavras, por Matzatea
devorados. O que lhe resta é uma centelha de vida sustentada pela dimensão onde o tempo
se divide em paradoxos, sustentando a longeva penitência.
Estes detalhes Abelardo desconhece, assim como o nome e a história desta mulher
que como fantasma categoriza. De alguma forma entende seu fortunio, imagina que ela pela
criatura sofá foi devorada, mas de alguma maneira não morreu, deixando de ser alguém,
sobrando apenas algo. Observando este algo, Abelardo reflete que deveria sentir medo e
agonia, entretanto, sente prazer, agora pensando nisso sente um tipo de vergonha. Perdido
em conjecturas, a visão da realidade familiar, repele a reflexão, passos em direção ao sofá,
onde aterrissa o corpo.
Sirene aguda e estridente, seguida por outra sob um coro de buzinas, sons do caos
costumeiro trazendo a mente a lente do ordinário. Fecha os olhos, com força, aperta as
pálpebras e com a palma das mãos exerce pressão nos globos oculares, assim por alguns
segundos. Sons do exterior, cachorros latindo, a promoção do caminhão do gás, buzinas,
um grito distante, palavrões em resposta, como é inflamável o ar da dúvida, começa como
uma sensação costumeira, como um som costumeiro chamando atenção, a cadeia do
pensamento deslizando para um ponto entrevisto, agora perseguido, encontrando uma
concatenação específica fazendo nascer uma fagulha, suficiente para iniciar uma reação em
cadeia, explosiva e decisiva. Está deitado, no sofá, sozinho, de olhos abertos, refletindo
sobre o cenário há pouco vivido, colocando em cheque a sanidade.
Quer levantar, sair dali, não tenta ou não consegue, o fato, neste momento ficar
deitado prefere, e que seja realidade ou sonho, razão ou loucura, cospe as indagações e
deixa a certeza que pronuncia sem nada dizer, permanecendo deitado, por um tempo de
olhos abertos, agora de olhos fechados, mergulhando em imagens antigas e aspirações não
concretizadas, e de tudo o que brota como certeza é a afirmação do acontecimento. Neste
momento pleno se sente, como nunca antes havia experienciado, flexiona a verbalização
passada, premiada pela falta de sentido, impotência perante ao mundo correndo à sua
revelia, ainda que tente, e, mais do que tudo, aguente, nada muda o que sente, até agora.
Olhando bem é possível ver como está confortável, satisfatoriamente deitado, ostentando o
sorriso pleno de quem com a paz está encontrado.Capítulo Trinta e Quatro, Outrora o presente
Ramon Ruiz com cuidado derrama a água quente no coador, em movimentos
circulares derramando lentamente o líquido quente sobre o café recém moído, quantidade
exata para uma xícara grande. Apreciador de um bom café cuida de cada detalhe, os grãos
vêm de Mogiana, pouco torrados, conservados em potes de vidro escuro escondidos da luz
e da umidade. Um dos aspectos fundamentais para um bom café é moer os grãos na hora, o
fino pó depositado no filtro de pano, o aroma sobe, o café cai na xícara, Ramon Ruiz segura
a xícara, invariavelmente lembra da avó dizendo, Forte e sem açúcar, assim pra acordar é o
que de melhor há. Nos domingos não trabalha, no andar de baixo o antiquário está fechado,
no andar de cima o café sendo apreciado enquanto a televisão ligada sozinha fala. Ramon
está triste, o que toma por coisa de velho que agora se comove com coisas do trabalho,
como não costumava. Anda até a mesa onde alguns papeis estão dispostos, olha a hora,
confere uma tabela, e pondera, Agora Matzatea deve estar consciente, ainda sem força para
se alimentar, mas deve conseguir alterar o ambiente, se alguém estiver suficientemente
próximo, pode ser cooptado pelo seu magnetismo. Continua a cadeia de pensamentos,
lembra de Abelardo, a impressão do garoto foi forte, completamente molhado, com olhos
carregados, dotado de estática .
Um gole de café saboroso e terroso, começando pelos lábios, quentura que num
primeiro momento é tudo, até o momento que cede espaço para o sabor descendo por baixo
da língua até alcançar com notas frutadas de amargor suavizado pelo adocicado mineral
subindo pelo céu da boca a descer quente pela garganta deixando nas papilas a acidez entre
os lábios em frutas partidas na terra. E a doçura saudosista do momento traz a imagem do
garoto molhado, para o velho ele parece tão novo, talvez seja essa sensação infantil
acentuando na consciência o peso antes inexistente.
Todavia precisa ser feito, e fica feliz por situações como esta não serem comuns,
ainda que o legado familiar seja árduo e algumas peças no antiquário tenham grande poder,
poucas são como Matzatea, um ser antigo e imortal, em um baú aprisionado. Neste
momento o velho Ramon Ruiz está rindo, quase entorna um pouco de café, controla o riso,
acha cômica a situação, um ser tão poderoso aprisionado dentro de um sofá, é uma longa
história, relembrando dos detalhes entende, ainda assim acha cômico, e fica pensando o que
estará acontecendo neste momento, volta a olhar para as tabelas, anota números no canto deuma folha usada para rascunho, algumas contas e com o resultado procura a página de um
antigo livro, tomando cuidado para passar a folhas, encontra o resultado, não lê, fecha o
livro, junta os papeis, coloca tudo em uma caixa de papelão, fecha a caixa, mas não
consegue guardar a imagem de Abelardo, precisa do sacrifício que há gerações mantém as
trancas, desta vez, calhou ao mortal Abelardo o destino de ser o cordeiro imolado. Suspira,
o café já esfriou, pensa em fazer outro, suspira, lembra do irmão dizendo, É o trabalho da
família.
Capítulo Trinta e Cinco, Cada um e cada café
Tosse de um cano derramando as últimas gotas de água sobre o pó de café, a antiga
cafeteira elétrica faz muito barulho mas funciona bem. Martinha Queluz gosta do barulho
da cafeteira, é como alguém dizendo, O café tá pronto. E nessas horas, por alguns instantes
não se sente sozinha, e quando enche a xícara e coloca três colheres de açúcar faz para a
cafeteira um gracejo, Uma delícia esse café, que cheirinho bom. A cafeteira responde com
o chiado de uma gota de água encostando na superfície quente do bule de vidro, Martinha
continua o diálogo, Daqui a pouco pego mais um pouco, diz enquanto deixa a cozinha,
deixando a luz acesa, e uma música no quarto, e um incenso na área de serviço, e as janelas
abertas, um livro na mão, não quer ler, uma revista, não quer ler, o celular uns cliques uns
deslizes, perde o interesse, e vaga, pela casa, entrando pelos cômodos a procurar alguém
que sabe não irá encontrar, volta para cozinha, pega mais café, dessa vez não conversa com
a cafeteira, nem mesmo responde quando ela entre ebulições e vapor pergunta se está tudo
bem.
Ainda que a intenção da cafeteira seja boa em perguntar a Martinha se tudo bem
está, sendo um eletrodoméstico antigo, sabe bem que a pergunta é meramente retórica, sabe
também que domingos são os dias mais difíceis, principalmente as manhãs, alguns anos
atrás em uma manhã de domingo comum chegava a fazer cinco bules de café, consegue
lembrar bem a época que chegou nova e reluzente, a novidade da cozinha, Aline e Cláudia
eram adolescentes, as duas adoravam café, na verdade, passaram a adorar café depois que a
cafeteira chegou, Aline sempre dizendo que, O café de vocês nem se compara com o dela.Como fica orgulhosa com esses elogios, fazendo questão de sempre cuidar muito bem do
tempo e da temperatura da água, cuidado para manter o bule aquecido, de jeito que mesmo
que demorem a beber o cafezinho tá sempre quente. Só que hoje em dia um bule dá e sobra,
sabe que o restante ficará até a tarde, normalmente ligada por horas, assim por mais que
consiga manter aquecido, o líquido fica com gosto requentado.
Na sala, Martinha está sentada tomando café, não é coincidência que seus
pensamentos sejam bem parecidos com os da cafeteira. Lembra de outro tempo que tem
saudade, e tais lembranças sempre levam pelo mesmo caminho de martírio e
arrependimento, a solidão de agora é consequência de seus próprios atos. Como de costume
o estado tenso de temor tingido, teme o que sente e o que queria sentir. Quando pensa no
passado, o que sempre aos domingos ocorre, volta para aquele que considera os capítulos
felizes da vida, volta para o casamento feliz, o marido atencioso, as duas filhas, agitadas e
inteligentes, sempre dando trabalho mas também muita alegria, essas memórias tem cheiro
de café, e da mesma forma que o amargor da bebida aumenta à medida que esfria, as
memórias se tornam amargas a medida que o tempo passa. Revolve as mesmas cenas do
começo ao fim conhecidas, sente a tristeza da saudade e neste ponto chega ao ponto
específico onde no pensamento precisa colocar um ponto. Quando começa a pensar que,
naquele momento, não era verdadeiramente feliz, ou, era e não sabia, e, agora, anos depois,
parece apenas uma sutil diferença, tão sutil sendo o detalhe que coloca a dúvida do
arrependimento. Lembra da vida e do vivido, as atitudes que tomou, como por um tempo
viveu uma vida secreta supondo que não seria entendida, talvez, pudesse ter evitado tudo se
com a família tivesse aberto tudo, mas sabe que não seria compreendida, nem mesmo se
compreende. O desfecho feito em uma série de infelicidades, claro, se soubesse tudo o que
aconteceria, neste ponto volta a impotência e tristeza, mais do que tudo, pela solidão atual.
Pega o telefone, procurando uma notificação, esperando uma mensagem de Claudia
dizendo, Oi mãe, estou com saudade, mande notícias. E mandaria notícias, não falaria de
tristeza mas contaria alguma felicidade trivial e convidaria para jantar, ou um passeio pela
praia, no fim de tarde, não gostam de entrar na água, mas apreciam o pôr do sol com os pés
na areia. Sem notificações, um apartamento vazio, clássicos da mpb tocando no quarto
vazio, na área de serviço o incenso chegou ao fim, na cabeça de Martinha Queluz
pensamentos conhecidos são repetidos em um cômodo vazio sem espectador.
Anda até a janela onde o dia segue com cara de domingo, o segundo andar é
próximo da rua, apoiada na esquadria observa o movimento da portaria pouco
movimentada. Um calafrio percorre a espinha, começando na base do crânio findando no
cóccix, por um segundo o corpo tem a sensação de verdadeiro perigo, a mesma sensação
que faz os elefantes correrem para as montanhas sentindo a aproximação de um tsunami.
Enquanto ainda a sensação persiste, Martinha vê na rua chegando o vizinho Abelardo, os
olhos se encontram, os olhares não. Talvez ele não tenha visto ou disfarce o contato, duvida
tirada quando outra vez os olhos se encontram, por uma fração de segundo, o suficiente
para Martinha ter certeza que não há um olhar. Abelardo com uma sacola na mão passa pela
portaria saindo da visão.
Um pensamento intrusivo, seguido de outros, acompanhado de ideias e
elucubrações. Martinha procura entender o que viu e o que sentiu, e, neste momento, uma
cadeia cognitiva à muito parada volta a entrar em atividade. Corre para o quarto, na frente
do guardaroupa coloca uma cadeira servindo como escada para alcançar as portas de cimaonde guarda as roupasdecama e por traz dos lençois uma caixa de madeira, do tamanho de
uma caixa de sapatos.
Dentro dessa caixa estão resquícios de uma vida que deseja esconder, uma vida
anterior, vida esta que também foi um dos motivos do fim do casamento, e, acima de tudo,
vida responsável pela tragédia de Aline.
Com força fecha a caixa, pula tentando na descarga muscular abafar a dor da mente,
sentimentos deveras fortes para serem encarados, e por isso mesmo no fundo do armário
guardados, e mesmo que os domingos estejam reservados para remoer o passado, existem
detalhes que não tem coragem para encarar. Deixa o quarto chorando, arrependida por ter
tirado a caixa do armário. Então. Outra vez sente o calafrio, tão forte que é impossível
ignorar. Engole o choro, volta para o quarto. Rapidamente revira a caixa sem olhar o
conteúdo, procurando algo específico que logo encontrará, assim que encontrado, fecha
caixa e outra vez a coloca no armário. Fica aliviada em ter outra vez guardado, mesmo que
agora tenha em mãos um saco de cetim azul, escuro como a noite.
Na sala há uma mesa pouco utilizada, no fim das contas funciona como uma estante
para tralhas diversas. Boletos abertos e notas fiscais de supermercado, sacolas plásticas
vazias, balinhas recebidas de troco, o jornalzinho distribuído pela igreja no fim da rua,
tampa de caneta, e outras coisas que não tem paciência para descobrir o que são enquanto
junta tudo dentro de uma das sacolas vazia. Sacola no lixo. Álcool e papel toalha, mesa
limpa.
Martinha Queluz está sentada de frente para o poente, no centro da mesa o saco de
cetim, por fora azul como o céu noturno, por dentro vermelho como sangue. O primeiro
objeto a ser retirado é um tecido, devidamente dobrado para caber no recipiente pequeno,
agora aberto sua forma circular ocupa o centro da mesa, sobre o tecido símbolos e formas
geométricas formam um intrincado labirinto com palavras em latim. Sobre o pano o
restante do conteúdo é delicadamente derramado, são sete pedras e quatro cristais. As
pedras são devolvidas para a bolsa de cetim, no momento não serão necessárias. Os cristais
são posicionados, o maior no centro, os outros três posicionados sobre os pontos que
formam o triângulo ao redor do círculo central. Os cristais posicionados, Martinha Queluz
sopra algumas palavras fazendo o cristal no centro emitir uma vibração suave acompanhada
de um brilho rosado.
Sem acreditar na força da vibração do cristal emanando Martinha levanta com um
salto quase tropeçando em pensamentos escorregadios. Atônita pela descarga de adrenalina
de um lado para o outro vaga medindo os próximos passos. Tomada pelo inesperado, quase
volta à caixa no armário mas decide outra abordagem.
Primeiro precisa verificar o que está acontecendo, está tão eufórica que ainda não
sabe do que se trata. Troca a roupa e prende o cabelo, deixa o apartamento, entra no
elevador, está na dúvida sobre qual o andar certo, também está na dúvida do que está
fazendo enquanto é movida por um impulso que prescinde de pensamento racional, lembra
de uma conversa a poucos dias com um vizinho, aperta o botão, a porta de metal fecha, o
elevador sobe, a porta de metal abre. No corredor, de um andar exatamente como o seu,
está quieto, nem um barulho, nenhum movimento. Cada andar tem seis apartamentos, dois
de frente para a rua, como o de Martinha, dois no meio, com visão da área externa do
edifício, dois nos fundos com visão do estacionamento e dos edifícios ao redor, o
apartamento onde Abelardo reside é um destes. Com passo atento em direção ao objetivado
apartamento, de algum lugar sons de explosões e tiros, alguém está assistindo um filme deação, o barulho ecoa pelo corredor, quebrando o silêncio, entretanto, à medida que da porta
de Abelardo se aproxima, o som some, de alguma forma estranha o ar parece rarefeito, e,
prestando atenção, uma fina corrente de ar escorre pelo chão até passar por debaixo da
porta. Alguma coisa está acontecendo, Martinha não sabe o que é, mesmo que tenha
algumas hipóteses. Anos de experiência guardados, uma antiga máquina escondida no
sótão, acumulando poeira, outra vez ligada, as engrenagens meio emperradas, descompasso
desafinado dos objetos parados que outra vez não deveriam ser ligados. Outra vez ligar esta
máquina é descumprir uma promessa que a si mesmo fez, quando decidiu esconder isto que
apenas consegue se referir como uma vida passada. Sobre este assunto com ninguém fala,
das pessoas com quem poderia conversar se afastou, com a família este assunto é tabu, de
tal maneira que agora em volta de pensamentos e atitudes impensadas na frente de uma
porta fechada está parada, sem saber o que fazer, por impulso agindo sem saber o que está
fazendo. Decide voltar para casa, provavelmente a melhor atitude, E também, o que fazer
agora, indaga a si mesma, Tocar a campainha e pedir informação, rindo em um sussurro
baixo diz imaginando o rapaz abrindo a porta, Olá, então, eu tive uma sensação estranha,
uma dessas coisas que não tem muita explicação, mas tenho praticamente certeza que
alguma coisa poderosa e antiga está se manifestando por aqui. Começa a rir, sem conseguir
segurar o riso solta uma alta gargalhada, e acrescenta, desta vez dizendo algo sem se
preocupar em diminuir o tom de voz, Minhas desculpas pela inconveniência, é que em
outra vida fui bruxa e essas coisas entendo. A risada morre, um pesado sentimento toma
conta do peito, apertando a boca do estômago. Respira fundo, decide ir embora quando em
um gesto impensado aperta a campainha.
A campainha não faz barulho, outra vez aperta, desta vez segurando por um longo
tempo sem soltar, nenhum som, deve estar quebrada, bate na porta, primeiro dois toques
suaves, espera, não é atendida, bate outra vez, agora três batidas mais fortes, nada acontece,
bate outra vez, agora com mais força, de tal maneira que a porta ao lado abre, é Simone
quem aparece, com cara amassada e cabelos desgrenhados na pequena fresta feita pela
corrente do trinco de segurança, está dizendo, Bom dia dona Martinha.
As fortes batidas deram a entender que no outro apartamento tocava, rindo diz, Oi
minha querida, desculpe o incomodo, estou chamando seu vizinho, não quis incomodar.
Simone sorri enquanto responde, Incomodo nenhum, achei que fosse aqui, está tudo bem,
pergunta enquanto faz menção de abrir o trinco. Martinha prontamente responde, Está sim,
não se preocupe, provavelmente ele não está aqui, depois eu volto, um bom domingo para
vocês. Simone, responde, Obrigado, enquanto com as mãos faz sinal de despedida e fecha a
porta.
Outra vez no corredor sozinha encosta a orelha na madeira, nada escuta. Olha para
os lados, com receio de começar a chamar atenção indevida, sendo colocada a responder
perguntas que provavelmente a resposta irá lhe enrolar. V olta para o elevador, em direção a
garagem.
No térreo da garagem, de onde está tem a visão das janelas do edifício Ardósias aos
Pés da Torre, com o dedo indicador conta as janelas e andares procurando uma específica,
que, logo tem certeza, acaba de encontrar.
No cenário ordinário de um edifício comum algo chama atenção. Olhando para o
alto é impossível ver dentro dos apartamentos, mas é justamente o que do lado de fora
observa que chama atenção. Com olhar passageiro tudo está como o que se espera
encontrar, todavia, quando com o canto do olho observa, uma nova visão surge. Logopercebe que o que vê não pode ser diretamente encarado, caso olhe para a janela de forma
direta vê apenas a construção civil comum, quando olha de relance o inesperado surge.
Espreme a visão em um olhar distraído, olhando quase por acaso encara uma floresta
suspensa, não exatamente uma floresta, algo como uma imagem projetada em parede
iluminada. Prestando atenção consegue mapear a paisagem, onde deveria estar à janela há a
entrada de uma caverna. Rocha sólida coberta de musgos na sombra de árvores baixas, a
paisagem sustentada em sobreposição de imagens, folhas de papel translúcido empilhadas,
deixando em dúvida em qual folha cada imagem está, ao mesmo tempo formando o todo
coeso. A visão ganha densidade e por alguns segundos mesmo de olhos abertos a entrada da
caverna está ali, indubitavelmente em um lugar onde não deveria estar, tremulando sem
física, alojada em um lugar impossível. A visão não dura muito tempo, em um segundo
desaparece, em velocidade sendo sugada para dentro da caverna outra vez em janela
transformada. Martinha mais uma vez tenta enxergar com a visão espremida, nada
consegue ver. Anda de um lado para o outro, propositalmente procurando algum ângulo
para sem querer observar. Nada. Decide voltar para casa. No curto caminho de retorno
pondera o visto, o sentido, e a luz do cristal, ainda está longe de uma certeza, entretanto,
começa a crescer dentro de si uma ideia.
Capítulo Trinta e Seis, Não plenamente pleno cotidiano
Acaba de abrir os olhos, semi dormindo, acordado pela luz do dia entrando pela
janela. Sistema mentais sendo iniciados, na mesma rotação de quando atualizado sem que
lhe altere o layout. Olhos abertos perto do pico, limite onde a realidade toca as franjas do
nagual. Posicionado em um ponto de entendimento pleno, no entre a lembrança dos dias
anteriores e a virtualidade dos dias vindouros. Talvez seja o momento logo após o despertar,
certamente também há influência da segundafeira, mais inclinado está para os dias
vindouros, de tal maneira que o peso do passado recente pouco influencia na solidezedipiana, olhando para frente, para o labor e o destino, com sentimentos disfarçados
buscando um tom de desdém para olhar o sofá, onde neste momento se percebe acordando,
narrativas mentais, da rotina atividades, iofrencia corpórea direcionada. Está levantando,
caminhando passos suficientes para virar o corpo em cento e sessenta e sete graus, ficando
de frente para o sofá, que, agora, parece tão normal. Então toda a lembrança volta e a
sensação rememora o corpo, como esta sala ontem uma antiga caverna era, uma caminho
mineral em direção ao centro da terra, como aquela mulher foi aliciada, aprisionada pela
entidade maligna dentro do sofá, como agora nada disso parece fazer sentido frente a velha
peça de mobília. Uma memória salta tomando os olhos, noite fria, campo aberto das
paisagens retas interioranas, fim de tarde, sol tombando a pele apenas indiretamente
tocando a medida que no céu duas linhas surgem, o céu escurecendo, se dilatando em
pontos esparsos sem o quando perceber transformando o teto do mundo em uma grande
concha feita de nácar, recheando a visão como se desde sempre estivessem ali, apenas não
sendo vistos pois ofuscados, e no momento em que a visão encontra a frequência luminosa
precisa, o antes invisível surge, como a concha salpicada de uma distância mineral, tão
mineral como um gruta estendia intra crosta terrestre até o centro da terra, onde mora uma
antiga besta, tão antiga que é a própria caverna, algo que não é visto, embora sempre aqui
esteja. Chega um momento que outra vez o sol nasce, a terra completa seu ciclo e a concha
some deixando a visão do céu diurno, chega a segundafeira quando a rotina seleciona os
detalhes ao invisível retornados.
Modo automático cotidiano iniciado, passos da rotinas, cronometração em precisão
algorítmica. Depois das sensações lisérgicas dos últimos dias, volta a experimentar o
mundo de causalidades em blocos encadeados e velocidades da imposta realidade. O
sistema operacional rodando liso, acordar na segundafeira fechou janelas impertinentes,
Abelardo segue a vida nos parâmetros da dúvida ausente.
O quartzo estala, está longe, ligado ao trajeto prescrito, agora, realidade mundana,
dos calendários e relógios digitais, entrando no elevador, saindo do elevador, atravessando
o andar movimentado em direção a baía vinte e um. Aperta o botão que o computador liga,
o deixa iniciando enquanto vai em busca de café.
A área da cafeteria sempre cheia, sem mesas ou cadeiras, arquitetura do movimento,
pensada para manter a necessidade de doces e bebidas quentes. Há muito no ramo contábil
é sabido que o bom funcionamento das engrenagens burocráticas precisa ter como
combustível a cafeína e como lubrificante o açúcar. Assim, disponibilidade constante destas
substâncias é indispensável, e nos minutos na cafeteria gastos aos bomdias trocados,
conversa pequena de começo de semana, mais uma que começa, Abelardo foge das
conversas e para seu próprio cubículo regressa, onde, em cima do teclado, bem
posicionado, está o envelope pardo retangular cujas palavras escritas em letras cursivas
indicam ser Abelardo o destinatário.
Logo reconhece o envelope, é a forma padrão de convocatórias, marcações e avisos.
O mesmo sistema antigo e antiquado, burocrático e truncado, que acima de tudo, constitui
os alicerces da empresa. Está sentado, abre o envelope, o conteúdo indica a presença sendo
solicitada logo que a mensagem for lida.Capítulo Trinta e Sete, Nova demanda
Está andando em direção à sala de Cléston, o gerente responsável por todas as
operações do vigésimo primeiro andar da Conta Conta Contabilidade. Figura alta,
levemente acima do peso, rosto sempre perfeitamente barbeado ostentado a lisa pele cobre
e os óculos de leve armação verde clara com pequenas filigranas em relevo verde, em tom
mais escuro. Sorriso largo e cativante sempre aberto e receptivo. Tem apenas vinte e nove
anos, é de longe em toda empresa o mais jovem a ocupar um cargo de tão grande
responsabilidade e importância. A aparência executiva, a lábia, os bons costumes e o belo
sorriso foram o necessário para galgar os degraus do sucesso, na realidade, pouca ou
nenhuma competência tem para exercer as funções que o cargo exige. Entrou na empresa
por acaso, precisava de dinheiro, precisava urgente. Sem nenhuma experiência e sem
qualquer conhecimento sobre contabilidade vai a entrevista de emprego. Logo de cara
ganha a simpatia do entrevistador, usam o mesmo par de sapatos, o mesmo bom gosto para
ternos, é o suficiente, na semana seguinte está sentado no cubículo com tarefas acumuladas
sem ter a menor ideia do que fazer. Pede ajuda a um colega de trabalho, antigo e experiente.
Com a ajuda consegue dar cabo de tudo o que precisa fazer. O padrão é instaurado, não se
preocupa em aprender mesmo o básico do ofício, por outro lado, a cada dia aprimora mais a
lábia, delegando por baixo dos panos as tarefas que precisa cumprir. Logo a diretoria está
encantada, o jovem prodígio, com pouquíssimo tempo de casa já possui experiência de
veterano. Com o passar do tempo, com o escalar das posições e o aumento dos zeros no
contracheque a estratégia é aprimorada e sua execução facilitada. A pouco promovido a
importante cargo de gerência, sabe exatamente a quem é melhor delegar cada tipo de tarefa,
podendo usar o tempo para coisas que considera mais úteis, longas horas de almoço e redes
sociais.
Abelardo acaba de bater na porta, Entre, diz a voz no fundo da sala. O ambiente é
amplo e pouco mobiliado. Frente a janela, com uma excessivamente grande xícara de café,
diz com sorriso largo e voz zombeteira, É incrível como a cada dia os senhores do andar de
cima criam novas siglas, enquanto fala anda até a mesa, onde pega um envelope que
entrega a Abelardo ao mesmo tempo que indica uma das cadeiras vazias. Sorve um longo
gole de café, senta do outro lado da mesa, a garrafa térmica é o maior objeto presente na
sala, seu exagero é quase decorativo, Cléston enche a xícara até a boca, esperando o líquido
esfriar observa o envelope ser aberto e o conteúdo manuseado, Chegou há alguns dias,
contudo, andei ocupado resolvendo algumas questões externas, acabou ficando misturado
com outra papelada, só hoje me deparei, confesso que fui pego de surpresa, amanhã às nove
da manhã em ponto os senhores do andar de cima convocaram uma reunião, e ao que tudo
indica esse envelope é bem importante. As últimas palavras são pronunciadas com ironia,
sopra a fumaça que deixa a xícara espalhando seu odor por todo o ambiente, com calma e
serenidade Cléston fala, Preciso de uma boa apresentação, coisa rápida, e, impactante, algo
bem visual, você sabe como é.Superficialmente Abelardo está calmo, mantém o semblante imutável e os olhos
fixos nos papeis que folheia, por dentro, é pura irritação, a alma de natureza tranquila
perpassa fúria, principalmente a repetição da situação. Pensa em recusar, dizer não com
uma boa justificativa, tenta o movimento que afirmará a posição, deixa o momento escapar.
Raiva e asco se misturam com a frustração, sabe que não há nada que possa fazer, é uma
briga que não pode se dar ao luxo de comprar, e que nem mesmo tem paciência para
encarar, parece mais uma destas questões sem sentido que a posição subalterna determina, o
que resta é aceitar. Há três semanas passadas, da mesma maneira foi chamado por Cléston,
na ocasião também preparou a apresentação de slides para uma reunião com importantes
clientes, ficou tentado a colocar gráficos sem sentido, ou resultados baixos, ou mesmo uma
figura pornográfica, ri imaginando a cara do fanfarrão tentado explicar o gráfico formado
por um pênis ereto com os dizeres, Resultados tão positivos que parecem uma ereção. No
fim, o prazer da vingança é deixado de lado. Resignado faz a apresentação da melhor
maneira que pode. Não ganha nenhum crédito, nenhum elogio, por outro lado, Cléston
ganha felicitações e um gordo bônus. Ao que tudo indica, a história está se repetindo.
Na xícara o café acabou, mesmo sendo enorme, dez ou doze vezes maior que uma
xícara comum, é rapidamente esvaziada por longos goles. O tamanho da xícara justifica o
tamanho da garrafa de onde vem o refil, entre a fumaça odorosa e as palavras enquanto
levanta da cadeira e senta sobre a mesa, A reunião é amanhã, é preciso apresentar
detalhadamente os resultados, uma grande risada, uma pausa, Preciso da sua mágica,
transformar estes números chatos em gráficos elegantes e pomposos, preciso de coisas bem
visuais, algo que possa apontar e isso ser o suficiente para ser entendido, outra risada, dessa
vez mais comedida, Os senhores do andar de cima adoram o efeito instantâneo de um bom
gráfico, tente colocar gráficos em estilos variados, alguns redondos, outros com picos
agressivos, e não precisa economizar nas cores, pode colocar bastante contraste. Abelardo
outra vez folheia o conteúdo do envelope, outra vez vai da primeira à última página sem
nada dizer. Em oposição ao silêncio de Abelardo, Cléston diz, Essa é a versão impressa, o
pendrive com o arquivo também está dentro do envelope, aí outra coisa que não
entendendo, os senhores do andar de cima são fissurados por papel, uma gargalhada
interrompe a fala, outro gole de café, continua, Tudo vem com uma versão impressa, e tente
dizer que não precisa, que na próxima é só enviar os arquivos por email, outra vez a
gargalhada, Passei por isso recentemente, na vez seguinte dentro do envelope, além das
versões digitais e impressas, havia outro pequeno envelope dentro, com uma carta sobre as
políticas da Conta Conta Contabilidade com relação ao uso dos meios digitais para troca de
informações, e sabe qual é a melhor parte, pergunta retoricamente, enquanto outra vez
gargalha, visivelmente se contendo para não exagerar, A tal carta veio com versão impressa
e digital.
Abelardo sem atenção às páginas continua a virar, não tem interesse pela história do
gerente, sempre se aproveitando de sua boa aparência e bom humor, passando adiante sem
deveres e no fim regozijando o bônus enquanto omite a construção do ônus. Abelardo
percebe que caso em silencio continue o monólogo ao infinito se extenderá, Cléston
contínua entre risos contando suas vinhetas, no raro momento de silêncio entre a gargalhada
e a próxima piada, Abelardo toma a palavra, em tom sério proferindo, É um longo trabalho,
preciso de dois dias, pelo menos, para fazer algo bem organizado. Cléston não se importa
com o argumento e rebate, Não se preocupe com bem organizado, organizado é o
suficiente, os senhores do andar de cima gostam de efeitos instantâneos, preciso de gráficosgrandes e coloridos, capriche no visual que fica tudo certo. Alguns segundos de silêncio,
Cléston complementa, Preciso que esteja pronto hoje, de preferência, antes das dezessete,
não quero ir embora tarde, segunda sempre tem muito trânsito.
Abelardo sente raiva pulsar, tanto pelo superior abusivo quanto por tudo que diz
respeito a profissão que sem qualquer vontade exerce, prefere estar longe, consegue em
segundos enumerar centenas de outros lugares onde preferiria no momento estar, contudo,
estando no indesejável precisa enfrentar da melhor maneira que pode, entre as muitas
palavras ponderadas, nenhuma seleciona, apenas balança positivamente a cabeça. O que
deixa Cléston visivelmente satisfeito enquanto diz, Ótimo, você vai longe rapaz, não
esqueça de acrescentar cores vibrantes aos gráficos, aquelas que parecem saltar da tela
causam um efeito fantástico.
Por fim deixa a sala, nas mãos a tarefa que resignado recebe. Enquanto a passos
pesados e arrastados caminha atravessando o escritório, com seus múltiplos cubículos de
metro e meio cercando cada indivíduo em sua tela. Papeis rascunhados e papeis
interpretados. No âmago do ser ressoa a inconformidade, a injustiça do chefe, mas também,
a própria condição, engrenagem aprisionada, continuando na esperança de que um dia no
futuro virá a recompensa, mesmo que, não saiba ao certo qual será, talvez tenha deixado de
acreditar, guardado em alguma gaveta esquecida, é o exatamente que a alma aflige, a falta
de perspectiva de que algo será diferente. Melancólico chega à estação de trabalho, senta,
joga o envelope sobre a mesa, na tela bolhas de sabão explodem, na mente uma ideia
arrebenta sendo em palavras pronunciada, Não quero estar aqui. O pequeno e claro
pensamento ecoa com três das bolhas saltando da tela para o ar onde são captadas pelas
vibrações desatentas que a mente harpeia. Claro e preciso, é a força necessária para colocar
em movimento o objeto inerte. Levanta. Toma o caminho em direção ao banheiro, é o que
todos veem, apenas mais um fantasma a circular. Próximo aos bebedouros vira a esquerda.
Entra no elevador que convenientemente no andar está parado. Dentro da caixa fechada
reflete, está rindo, a comicidade trágica da situação, os ombros leves a medida que os
andares descem, atravessa o saguão, está na rua, os passos são determinados, olha para trás,
o conhecido edifício, olha bem, firmando os detalhes de seu exterior e interior, sabe que é a
última vez que o olha, pensa em algo relevante para dizer, palavras de despedida, nada vem,
decide apenas acenar, acha melhor não, como nada mais vem à mente, os pés seguem o
caminho.Capítulo Trinta e Oito, Simultaneamente e próximo
Acontecimentos simultaneos costurando o tecido da realidade, no mundo da Conta
Conta Contabilidade vai tudo mais ou menos igual, sorvendo o aroma na borda da xicara
Cléston prepara o repertório de ditos espirituosos e gracejos para a aguardada reunião, duas
batidas na porta Hermeto entra casualmente falando sem cerimonia, do lado de fora da sala
o quadricilado triste das baias, paredes plasticas de um metro e meio permitindo ao andar
observar os corpos imoveis como parte da mobilia, tão vivos quanto uma cafeteira ou um
sofá, absorvidos em telas ou perdidos em documentos timbrados sobre a mesa acumulados,
depois da porta de vidro outros setores e portas fechadas, na antesala do setor de recursos
humanos está em pé Olivia ao lado de sua gerente, tomando notas da conversa com um dos
diretores do setor de setorizações setoriais contabeis, o homem vestido com um terno de
linho bem cortado, azul turquesa, talvez demasiado apertado embaixo dos braços roliços do
biotipo de um homem massudo de um metro e sesenta e cinco, com um lenço seca a testa
enquanto prossegue a história cujos detalhes considerados importantes estão sendo
anotados, um pedaço de fita crepe acaba de soltar da parede onde em algum momento
prendeu as pontas de um cartaz, atrás da fita a parede solta no instante em que uma mosca
pousada prende uma das pernas que é perdida quando levanta voo deixando o membro
tornando o voo erratico, caido sobre os cabelos de Aliane Lima ao caminho da rua onde o
vento forte leva a mosca, dentro do onibus Abelardo olha pela janela a paisagem de um
belo dia, pelas ruas sem transito o trajeto rápido, Abelardo aperta as mãos, sentido prazer
em experimentar o tonus do próprio corpo, experimenta um dos raros momentos onde o
agora é uma sensação de prazer e existir um deleite. Sabe as consequências do que fez, sabe
que Cléston ficará irritado o suficiente para querer demitilo por justa causa, e se for isso
mesmo o desfecho é, de alguma forma que não deixa de estranhar, positivo. E essa
serenidade acompanha esse momento, sem qualquer preocupação com o futuro, apenas,
uma simples e constante sensação de felicidade.
Acontecimentos simultâneos costurando o tecido da realidade, em um apartamento
no edifício Ardósias aos Pés da Torre, outros seres são atraídos pela presença da criatura
que do sofá desaprisiona.
Primeiro foram as formigas, começou quando uma pequena batedora foi cooptada
por certo aroma distante, algo que até então não havia experimentado. O odor, de alguma
forma doce, atrativo, mais do que um estímulo olfativo uma vibração magnética.
Identificada a fonte do cheiro, volta à colônia com a notícia e a expedição é armada. A fila
dos destemidos insetos deixa a brecha nos azulejos próximos à pia, escapando pela lateral
da parede tomam o chão, cruzando a sala, até, o sofá. Tão logo se aproximam todo o
batalhão pode sentir o doce cheiro, quanto mais próximo maior a intensidade, até se
transformar em rítmicas batidas de milhares de pequenos tambores magnéticos finamente
sincronizados com o marchar do batalhão que inicia a subida pelo flanco esquerdo,
escalando o sofá, entrando no espaço entre as dobras.
Atrás do vaso sanitário, uma aranha de longas pernas finas é despertada, as teias
estão vibrando, pela intensidade, mais de uma mosca foi pega, é o que inicialmente pensa,
contudo, nas teias nada há, a vibração vem através do ar. Com seus elegantes passos segue
o faro vibrátil que a sala a leva. Está hipnotizada, passa por uma fileira de formigas, e,
como elas, some nas dobras.Os canos que descem pelo ralo também vibram, levando por todos os dutos do
prédio o delicado convite, baratas, ratos, aranhas, percevejos, vermes, todos que no mundo
de canos habitam, seres criados nos labirintos esgóticos, mesmerizados seguem em direção
a fonte convocatória. Os roedores maiores gritam, presos, grandes demais para atravessar
os estreitos que levam ao apartamento. Do ralo ao lado do tanque brotam todos os pequenos
moradores dos subterrâneos que conseguem atravessar o intrincado caminho acima. Uma
nuvem de moscas acaba de adentrar ao recinto, espiralando em voo zunido através da
janela, onde, duas pombas acabam de pousar, seguidas por um grupo de rolinhas que invade
a sala. Outros pássaros que pela vizinhança passam sentem o convite, todos alvoroçados e
duvidosos, atraídos pela pulsação que vibra em tudo que é vivo, as mais profundas e
díspares sensações.
Na véspera, a manifestação presenciada por Abelardo, apenas uma breve brecha, um
pico de energia manifestada antes do alinhamento. Naquele momento os poderes de
Matzatea ainda estavam limitados, ainda que uma forte indicação do poder de transcender
as dimensões do espaçotempo, a força física necessária para saciar a fome apenas em breve
será alcançada. Aos poucos a energia bruta atrai tudo que tem vida e memória, logo a forma
plena estará liberta, e Matzatea, que neste momento saliva pensando no humano, outra vez
estará livre neste mundo.
Capítulo Trinta e Nove, Entrada
O trajeto para casa é rápido, no meio da manhã as vias citadinas sem o frenesi do
rush deixam deslizar os veículos e seus passageiros. Neste momento está prestes a inserir
na porta a chave, esta, vale notar, prestes a quebrar, que surpreendentemente mais uma vez
completa seu trabalho intacta. A porta é aberta, de dentro do apartamento vem um cheiro
frutado, suave e nocivo, não consegue identificar o odor, é fino e aprazível. Uma vez dentro
do recinto a porta é fechada, as células olfativas em cadência se acostumam com oambiente, que, emana uma espécie de encanto difuso misturado a forte cheiro de esgoto,
entrecrustado, sutil e violento. Tão específico odor obriga os nervos olfativos a decretar
perplexidade, sem outra solução encontrar, sinapeiam órgãos de outros sentidos, incluindo,
toda a molecularidade responsável pela visão. Os olhos não respondem ao chamado, na
mesma medida estão perplexos.
A cena que presenciam é tão esquisita quanto surpreendente. Na janela e pelo chão
toda uma miríade de criaturas estão paradas formando meia circunferência em volta do
sofá. Não se incomodam com a recém chegada presença, ignoram Abelardo, todos,
pássaros, insetos, pequenos camundongos, percevejos de casco oleado, aracnídeos de
protuberante prossoma, opiliões de glândulas repugnantes, escorpiões de aguilhões afiados,
anelídeos excitados, cilíndricos vermes se contorcendo na esférica massa em movimento, e
toda outra vasta gama tão surpreendente quanto incoerente.
Aqui, neste momento, pouco faz sentido, outro mundo nu, exposto, para outra
cadeia significante escorrega. A cena, agora grotesca tomada por todos os díspares seres
que respondem ao chamado de gozo e morte emitido por Matzatea.
Passada a dispersão inicial Abelardo finalmente olha na direção do que os convoca.
O sofá delicadamente vibra, toda a estrutura ressoa, está visivelmente expandindo. Entre
um grupo de percevejos e outro de aranhas Abelardo para, atentamente observando. A cor
da superfície é transmutada, agora é plasmática e espectral, vibrando em conjunto com o
ritmo que transforma o ordinário naquilo que é para além da simbolizável forma. Pelas
costuras borbulham fino nevoeiro de magma violeta, em movimento cadenciado escorrendo
por cada milímetro da superfície. A fina camada está viva, metamorfoseando novos e
indecifráveis contornos. A plateia grotesca continua observando, atenta, mesmo o ar está
parado, apenas o tempo continua a passar, inexoravelmente rumo às vinte horas e vinte dois
minutos, momento onde a transformação terá seu ápice, momento em que os astros
alcançarão o alinhamento adequado, momento quando Matzatea, a criatura aprisionada, terá
breve deleite com a liberdade, momento onde saciará a maldita fome.
Algo novo está acontecendo, a frequência borbulhar aumenta ao mesmo tempo em
que se torna inconstante, o pulsar suave agora é aflitivo. Os pássaros entram em alvoroço,
pela sala voam, sem rumo e sentido, acabam por colidir no ar, piam e gritam, os
camundongos emitem sibilos como uivos, os vermes se contorcem, insetos brigam. O
alvoroço é generalizado, no meio, de todo o caos, extasiado e confuso, Abelardo ignora
tudo o que acontece, exceto, o objeto a frente.
O nevoeiro violeta adquire solidez plástica, está visivelmente maior, os botões são
largas ventosas emitindo magma em forma de línguas, braços, bocas gritando. Pelo sofá
todas estas formas deslizam, espetáculo hediondo, ao redor, o caos permanece.
Eis que um pulso vindo das profundezas sacode a estrutura do espaço, todos os
seres param, voltam a atenção para o sofá. Por algum tempo o silêncio é absoluto no vácuo
instaurado. Outro pulso, desta vez, seguido por um segundo mais longo. Os pássaros, todos,
inclusive aqueles machucados durante as colisões, voam em círculo próximo ao teto, no
chão, toda a miríade de seres, dos maiores aos menores, formam pares de filas, de maneira
organizada e cadenciada começam a marchar. Todos no mesmo ritmo, andando, rastejando,
saltando, voando, mergulhando, todas as criaturas em direção a grande abertura ventosa
rugosa de onde emergem os tentáculos movimentando como dedos de uma mão em
convocatória. As criaturas em coreografia somem no nevoeiro à medida que continuamseguindo o caminho para o interior pulsante, os pássaros voando em espiral mergulham no
centro onde a grande ventosa abre como um buque de orquídeas eróticas.
O ato chega ao fim, a plateia foi engolida, exceto Abelardo. Procurando no que resta
de consciência entender o que está acontecendo, por certo está vivendo algo para além do
imaginável, furado o véu, o outro lado do espelho onde reina aquilo que foge ao reflexo. O
sofá está inchado, parece prestes a explodir, Abelardo afasta alguns passos. O sofá emite o
que apenas pode ser descrito como um monstruoso arroto. Nos tentáculos as ventosas em
conjunto emitindo vapores e refugos arremessados por todo o ambiente, o som colossal e o
cheiro fétido. Aliviado, o sofá volta a vibrar lentamente.
O pequeno banquete foi a entrada. Ainda que de todos os seres consiga retirar a
energia que alimenta, apenas dos seres humanos consegue extrair a real satisfação que sacia
a fome. Em outros tempos, longínquos no passado, se alimentando livremente, deliciosas
noites com um humano para trazer o doce sono da digestão. A forma prisional diminui a
fome, de maneira que passa a maior parte do tempo alimentada de pequenos seres,
entretanto, a fome, constitutiva daquilo que é o próprio ser, esta, permanece. É tão forte
que, alinhada com os astros, consegue a dádiva da libertação, neste momento podendo
saciarse de forma plena.
Após presenciar o recente ocorrido, Abelardo conecta com o desejo do sofá, e, pela
primeira vez, tem a real noção da situação. Sabe o que se aproxima, o momento próximo
onde será levado ao pulsante convite.
A criatura parece dormir, ao mesmo tempo permanece ininterrupto o ritmado pulso.
Alguns tentáculos espalhados em displicente arranjo, aos poucos o pesado vapor
derramando. Ainda é o apartamento, ainda é possível ir embora, sabido é que logo a
criatura despertará, este momento trará a impossibilidade da fuga, agora ainda é possível, e
Abelardo sabe disso. Um entretanto percorre a mente, lembra do dia anterior, do passeio
com a fantasma, e, principalmente, lembra da sensação de paz e plenitude nos olhos dela,
aparência vazia da tranquilidade adquirida, e tal sentimento de realização perpassa
Abelardo que o sente aqui, neste apartamento aos poucos sendo transmutado. Percebe ser
esta uma situação onde a inércia é uma decisão, pondera, ao mesmo, espera que a
impossibilidade não chegue, ou venha como uma suave desculpa. Ainda é o mesmo
momento, e um pensamento vindo de algum lugar toma a mente, chamando para si toda a
atenção. Abelardo de súbito entende, É a última chance, simplesmente sair, atravessar a
porta para algum lugar onde sofás não sejam antigos seres amaldiçoados, atravessar a porta,
deixar trancado dentro do apartamento o sofá, atravessar a porta, deixar toda essa loucura.
Parece um conselho da Razão, e, de fato o é, caso Abelardo estivesse olhando pela
janela, iria ver passar a Razão, está montada em Clapton, o unicórnio alado da oitava
dimensão. Presente situação, a Razão sussurrando de seus belos lábios as palavras sábias
que Abelardo pensa. O pensamento é multiplicado em díspares linhas de reflexões e
emoções. Um lado decide ir, outro, ficar, ir significa voltar para a mesma vida, ficar
significa deixar a vida. Não tem dúvida que o que aguarda no fim da atual sobrestranha
cadeia de eventos é a morte. Entende a fantasma, sabe que logo ela será como os outros
moribundos sem resquício de vida caminhando a esmo pela caverna, sente o sacrifício,
convocado por um estranho prazer, como um convite para o ato sexual que se encerra no
ápice que exaure a vida. A Razão está com pressa, é ocupada, ladainhas e indecisões não
interessam. Mais uma vez sussurra, deixa as palavras, aperta a crina de Clapton e parte para
outros paradoxos.Capítulo Quarenta, Voltando para Conta Conta Contabilidade
, A vista da janela não é grande coisa, conjectura Cléston admirando a paisagem e o
futuro, Boa são as vistas da filial de Santa Catarina, o horizontão aberto a borda das águas
que tangem o infindável. Desde que visitou a filial ambiciona a transferência. Gosta do Rio
de Janeiro, até pouco tempo não se via morando em outro lugar. Foi à vista, pensar que,
Todo dia os funcionários sentados em suas mesas bebem café vendo as nuvens pintando o
fim da tarde, coisa bonita de verdade. A xícara está vazia, não sente vontade de repor o
líquido. Olhar a frente é triste lembrança, com pontadas de inveja, Inveja, se pergunta, De
maneira nenhuma, se a reunião de amanhã for o que espero, pleitear a transferência será
moleza. São bons pensamentos, planos sobre onde irá morar, já pesquisou bairros e
imóveis. Olha para o relógio, em pouco marcará dezessete horas, não pretende demorar,
imagina se Abelardo fez bons gráficos. Tem como parâmetro os slides da última reunião,
estavam ótimos, extremamente visuais, tornando desnecessárias explicações, sucesso.
Lembra das congratulações e do bônus, outra coisa lembra, algo, que, melhor colocado,
ainda não havia elaborado, na época nem mesmo chegou a agradecer, desde então não
havia falado com o jovem, foi a necessidade de nova apresentação que gerou a
convocatória. Decide fazer diferente, desta vez irá agradecer, e, quando concretizada for a
transferência, mandar de Santa Catarina um espirituoso cartão postal.
Deixa a sala, caminha pelo andar olhando um a um os funcionários, distribuindo
sorrisos, parando para fazer comentários, com os mais íntimos dividindo piadas sacanas.
Está prestes a ficar defronte a baía de Abelardo, prepara o melhor sorriso, rapidamente
desarmado quando encontra o local vazio, Deve ter ido ao banheiro ou buscar café. Decide
esperar.
Passados dezesseis minutos a cota de paciência acabou. Para o ocupante do cubículo
contíguo, um jovem pálido de óculos fundos, diz, Boa tarde você é. Vale notar que a frase,
da maneira tonal por Cléston pronunciada, ganha no fim sentidos que poderiam ser
simbolizados tanto por ponto de interrogação quanto reticências. Dessa forma, quando os
últimos fonemas do V ocê é, ainda estão sendo entonados, o interlocutor responde, Evandro
Lessa
Cléston sorri, gosta da resposta rápida, com o mesmo sorriso continua a conversa,
Certo Evandro Lessa, desculpe se atrapalho, De maneira nenhuma, se tiver algo que me
permita ajudar. Evandro Lessa está satisfeitíssimo com a forma como tem conduzido a
conversa, duas respostas rápidas e precisas, sente a satisfação de ver o sorriso satisfeito no
rosto de um superior. Cléston realmente aprecia respostas rápidas dos subordinados, depois
de uma pausa para acentuar o sorriso diz, De fato há, conhece o rapaz do cubículo ao lado,Sim, Abelardo. Mais uma resposta rápida e certeira e ambos os interlocutores parecem
apreciar o rumo da conversa, Cléston continua, Ele mesmo, sabe dizer a quanto tempo saiu,
ou pra onde foi, Para onde foi não sei, bem mais cedo, logo no meio da manhã, voltou pelo
corredor com cara amarrada e um envelope na mão, ficou de frente ao computador por um
tempo e logo saiu, tomou o caminho dos banheiros, mas não voltou mais. Desta vez a
resposta rápida não surte o efeito esperado, Evandro Lessa percebe que a culpa é do
assunto, ao que parece, desagradando o superior, elabora uma frase para desviar o tópico,
quando interrompido por Cléston dizendo, Não voltou mais. Esta última frase pronunciada
de maneira agressiva destoa do tom que a conversa leva. Evandro Lessa em silêncio
procura o que dizer, entretanto, nada precisará ser dito, enquanto com os olhos acompanha
os irritados passos movendo os lábios em repetição de impropérios sem som pelo corredor
em direção ao banheiro. Água no rosto, oxigênio em largas respirações, sangue carbonado,
calma restabelecida. No espelho responde a imagem, procura possibilidades, O garoto não é
irresponsável, terminou a tarefa, enviou por email antes de partir. Verifica no celular, nada
nas caixas de entrada, mesmo verifica o spam, nada encontra, volta a refletir e outra
possibilidade não aparenta. Decide ligar para tomar satisfações imediatas. Precisa ir ao
setor de recursos humanos, lá irá encontrar o número que propiciará a ligação que visa
sanar o atual impasse.Capítulo Quarenta e Um, Desvios e desavisos
Caminha entre as vielas apertadas em curvas intrínsecas da cidade medieval,
labirinto de construções de tijolos de barro e, a maior parte, barracas de bambu e coloridos
tecidos, o mercado fervilha cenário para o importante diálogo, longamente esperado,
trazendo luz ao obscuro passado de misteriosos personagens. Vaga em imagens que
misturam cenas do livro com momentos onde a trama adiciona si como personagem, na
maior parte das vezes coadjuvante observadora na cena, vez ou outra, desembainha a
espada, até então escondida no vestido, imagina a cena em diferentes cenários, sempre
resolutiva para alguma questão premente ao enredo, a rápida carnificina e o momento onde
a heroína pensa no futuro, pintado com o sangue de todos o inimigos caídos.
Olivia está tomada pelo livro que, nos últimos meses, osmõe o imaginativo universo
mágico de batalhas e feitiços. Atraída pela fantasia, presa pelo enredo, sedenta para
continuar a leitura, ao ponto, de, neste momento, a mente vagar pelo imaginário construído,
até ser cooptada pela luz que o celular emite.
O aparelho no silencioso brilha, como a tela indica, Maltizebeque está ligando.
Prefere não atender, sabe como ligações pessoais são mal vistas no horário de expediente.
Discretamente desbloqueia o aparelho, são várias as mensagens de Maltizebeque, dele, e,
de outros amigos, todos divulgando a mesma notícia. O portal de um tabloide de escândalos
divulgou a matéria, o título, Corpo Picado em Pedaços. Segue uma foto, rodeado por dois
policiais as partes de um corpo espalhadas pelo chão. Abaixo está a descrição,
extremamente detalhista, de como o corpo foi encontrado, outra vez olha a foto, olhar pela
segunda vez é o bastante. Olivia fecha a matéria. Abre as mensagens. Não acredita, Péssima
brincadeira apenas isso. Se, e, apenas se, é verdade o que acaba de ler, a notícia trata de um
amigo. A impossibilidade ganha concretude. Nunca se espera. Atônita não acredita, algo
tão terrível com alguém tão próximo. Lembra da última vez que o viu, sábado, a peça, ali
nada sobremaneira hediondo poderia ser previsto, sente no peito um aperto. A dor pelo
amigo perdido alimenta a curiosidade para voltar a leitura da matéria. Por três parágrafos
continua, informação esclarecedora não encontra, apenas, minuciosa descrição de como o
corpo foi encontrado, destroçado. Fecha a matéria, de outra maneira irá se informar.
Mensagens pululam, são os amigos em comum comentando a inesperada tragédia. Olivia
reage em silêncio, tomada de choque e incredulidade. Gostava de Heleno, futuro pastor,
grande boêmio.
Aflições são conectadas, lembra de outro amigo. As sinapses são levadas ao diálogo
do almoço de sábado, lembra ter contado a história da mulher e da montanha, lembra ter
contado uma versão específica. Outra versão conhece, esta contada por Susana, prima mais
velha, certa vez disse, Não foi a moça que se apaixonou pela montanha, foi a montanha que
ficou perdidamente apaixonada pela moça que buscava água no rio todas as manhãs, certo
dia atraiu ela até uma caverna onde deslizou a pedra que a trancou para sempre em pedra,agora, quando desencarnada, pode atravessar o maciço, vagando pelos lugares por onde
passava em vida.
A imagem da prima se desfaz, é transformada na figura de outra mulher, de olhar
melancólico e lábios vistosos. O sonho do sono no sofá, a estranha e excitante energia. Pela
primeira vez lembra o sonho, lembra que no sonho encontrou a fantasma, jamais vira
alguém com olhos tão profundos, lagoa infinita onde nadam os mais díspares desejos e
sentimentos, no sonho está no mesmo sofá, no sonho está no apartamento e ao mesmo
tempo em um outro lugar, um lugar bem decorado, com a aparência dos séculos passados.
Os pensamentos retornam a notícia da morte de Heleno, é surpreendida pela maneira como
conecta este evento com a situação de Abelardo. Imagens sobrepostas suprimem o
entendimento, respirações atravessadas, está sufocando nos próprios pensamentos. Algo
forte e íntimo, próximo de uma certeza, quase uma profecia, sente um arrepio que percorre
a espinha até os ombros. Maus agouros tomam o ambiente, uma ideia fixa, Algo de ruim
acontecendo com Abelardo. Levanta, pretende ir até o cubículo onde o amigo trabalha,
neste momento, a porta da sala é aberta, quem entra é Cléston.
Capítulo Quarenta e Dois, Angela e Cléston
Angela Tapitanga é gerente de recursos humanos na Conta Conta Contabilidade,
cargo adquirido com trabalho árduo e competência, para chegar ao posto passou por cima
da burocracia e do machismo. Viu ao longo dos anos outros menos competentes escolhidos,
enquanto preterida ergueu a cabeça com força e certeza, para chegar onde chegou afirmou
ideais, para além do previsto, escalou a montanha, sem perder a pose e a classe superou a
misoginia, sabe onde está, sabe quem é, sabe como se afirmar perante ao mundo de
diretrizes retrógradas. Neste momento, está sentada dentro do gabinete, localizada dentro da
sala onde trabalham as outras funcionárias que compõem o setor. Sala dentro da sala, a
janela de vidro espelhado permite a conspícua visão do exterior. É através desta janela que
observamos o recém chegado. A reação inicial é misto de desgosto e espanto. Cléston, em
sua prepotência e superioridade, apenas se dirige ao setor quando necessita da ficha de
algum funcionário, este, coitado de sorte, abusado pelas suaves palavras do superior, Não
fosse superior. Angela lamenta, não pode dizer não ao pedido de Cléston, em outro
momento levou a questão ao andar superior, a resposta foi clara, Mediante solicitações dos
superiores, é dever do setor fornecer todas as informações necessárias. Vendo a figura que
anda em direção ao gabinete tem certeza, acertada intuição enquanto espera o demandante.
Angela está em pé quando faz sinal para que a porta seja aberta, Cléston entra com
um largo sorriso enquanto diz, Boa tarde, minha amiga. Angela não gosta da maneira
informal como a conversa inicia, de maneira seca responde, Boa tarde. Cléston bem
conhece a gerente, sabe que com ela a lábia não tem efeito, também sabe que a posiçãohierárquica é suficiente a obtenção da informação almejada, deixa de lado o tom informal
dizendo, Espero não estar incomodando, creio que minha presença não será prolongada,
minha solicitação é facilmente providenciável. Antecipando o que virá, Ângela mantém o
tom seco, O que precisa. Cléston sorri, responde, Nada demais, nada que não seja fácil e
rapidamente resolvível, preciso da ficha de Abelardo, pausa vasculhando os arquivos da
mente, Não sei o nome completo, termina a frase com um sorriso quase mas não
exatamente constrangido.
Por um momento Angela pretende contestar, indagar quais os motivos que trazem a
demanda, dizer que não irá entregar os dados de outro funcionário para fazer os trabalhos
cuja incompetência o impedem. Entretanto. Nada faz. Apenas imprime a ficha o mais
rápido possível para se ver livre da indesejada presença. Contrariada observa o semblante
sorridente deixar o recinto.
Cléston, cruzando o caminho volta à própria sala buscando se livrar da conversa
com Angela, não gosta da gerente do setor de recursos humanos, e, muito bem sabe, o
sentimento é recíproco. Evita ao máximo dirigir demandas, apenas em último caso, como o
de hoje. A imagem de Abelardo deixando o expediente antes do horário, fugindo das
obrigações, ignorando uma ordem direta, tocam fundo no brio. Cléston está ofendido,
agora, com o número em mãos, pretende ligar, cobrar as devidas explicações e completar
com severo e quase humilhante discurso. Sabe muito bem o que irá dizer, está entalado,
palavras prontas a serem da garganta arremessadas.
É interessante notar que, durante todo tempo, o sumiço de Abelardo, não tem para
Cléston qualquer sentido além da fuga da tarefa recebida. Preso no próprio egoísmo não
consegue enxergar para além daquilo que lhe é conveniente, ignora que no mundo fatos
acontecem a sua revelia, que nem tudo a si está ligado. No centro da órbita criada pelo ego
alimenta a raiva para com aquele que parece intencionalmente contrariar e irritar.
Não consegue contato com Abelardo. O telefone está desligado, mensagens
ignoradas, qualquer forma de comunicação é ineficiente. Está possesso, tomado pelo
sentimento que arranha o polido esmalte do orgulho, no ápice da injúria procura calma,
recompor o corpo e a mente, ao que tudo indica, o inconsequente é causa perdida. Depois
irá decidir o que com ele fazer, que atitude tomar, agora, precisa voltar ao plano
pragmático. Na manhã do dia seguinte precisa uma reunião apresentar, o que é mais
urgente, precisa de alguém que prepare gráficos magníficos para apresentação, pensa em
possíveis candidatos, Aqueles competentes e com suficiente finesse, Yumi é promissora,
tem tato e delicadeza, Alcebíades também, velho de guerra com domínio da informática,
excelente combinação, Colanto também, já apresentou gráficos dignos de bela promoção.
Os olhos enchem de água, esquece todo o problema, lembra do vistão, da janela comprida,
das nuvens e do oceano. A imagem tudo faz valer a pena, precisa de alguém certo, refletir
bem é necessário, nada como o patife irresponsável, com ele, depois lidará, sem deixar
barato, não tolera ser desafiado, ignorado ou contrafeito. Irá pagar caro, o preço justo pela
desfeita. Mas, agora, voltando ao urgente, achar alguém para o trabalho. Pensando bem,
sabe a resposta, mais uma vez percorre o labirinto de cubículos em direção ao dezessete,
onde pretende encontrar a competente alma que irá ajudar na conquista da almejada
transferência.Capítulo Quarenta e Três, Vozes do Passado
Martinha Queluz ansiosa segura o celular. Acompanha a passagem dos minutos
aguardando, uma mensagem ou ligação, cada novo minuto repetido em voz alta, Dezesseis
e cinquenta e oito. Coloca o celular sobre a mesa, onde um pedaço de papel está embaixo
de uma ametista bruta, com uma mão segura a pedra, com a outra segura o papel onde três
nomes estão escritos, os dois primeiros riscados, o último circulado.
Precisa de ajuda, e para a ajuda que precisa não existem muitas pessoas a quem
recorrer. Mais cedo no dia de hoje, com o papel em branco e uma caneta, buscando nos
arquivos da memória aqueles a quem pode procurar, logo vem um nome, este prontamente
ignora, deixa de lado, busca o próximo, escreve Penélope, a lembrança do nome, os cabelos
vermelhos como o fogo, São para combinar com os olhos, livros abertos, Mas nem tudo o
que se precisa saber está nos livros, muito mais do que podemos imaginar, experiência
limitada, sentindo o calor nas extremidades esfrega os dedos tentando encontrar o último
encontro, onde estavam, sempre volta a lembrança da antiga sala de leitura, paredes gastas,
o cheiro de cigarro e mofo, mas essas lembranças são tão antigas, e nelas também está
Regina, este segundo nome escreve no papel. Enquanto a mente devaneia a busca parece
sempre levar ao nome que não quer pronunciar, que por desgosto pensa, mesmo querendo
evitar. Olha para a lista, apenas dois nomes, quase acrescenta o terceiro, desiste, irá agir
com a lista que tem.
Tanto tempo que não pensa nas antigas companheiras, em outros tempos
inseparáveis, todavia todas as vias da vida, idas e vindas solidificando a distância. Além do
mais, Martinha propositalmente se afastou das amigas, delas que formam o antigo círculo,
que alguns anos atrás eram como unha e carne, pensando bem não faz tanto tempo, mas é,
como sempre procura Martinha frisar, uma outra vida. Sabe que Penélope e Regina
estiveram no funeral, mas a própria Martinha não esteve presente no funeral da filha, entrou
em tal estado de choque que durante semanas permaneceu internada, catatônica, neste
tempo nem mesmo comida ou bebida tocou, não fosse o auxílio de terceiros, de bom grado
teria definhado até a morte. Desde então não fez contato, depois mudou para onde reside
atualmente, residência que poucos sabem o endereço. Mas hoje um furo no tecido cotidiano
surgiu, e por ele jorra o passado, aspectos mágicos e misteriosos que em outros tempos
moveram uma vida, nos últimos anos ignorada. Agora com a lista com dois nomes procura
em redes sociais usando o celular. A pesquisa é rápida, logo encontra as contas das amigasque havia bloqueado e excluído. Penelope não está no Brasil, nos últimos tempos tem
postado fotos do cotidiano no Canadá. As redes de Regina estão inativas, vasculhando o
perfil de amigos em comum descobre o motivo, dois anos atrás Regina morreu, até onde
consegue apurar os fatos, injuriada em um acidente de trânsito.
Este é o momento quando frustração, tormenta e ansiedade tomam consciência, o
ego atônito observa sem saber como agir enquanto um por um os sistemas orgânicos entram
em pane. Martinha neste momento experimenta um ataque de ansiedade, neste momento
quando tudo parece perdido pronuncia a frase contendo o nome que há seis anos não
pronuncia, Preciso encontrar Cassandra.
V olta às redes, logo encontra, Cassandra mora no Rio de Janeiro. Na agenda do
telefone encontra o número desejado, torce para continuar sendo o mesmo. Martinha
escreve uma mensagem que apaga e reescreve algumas vezes até chegar a uma simples
frase terminada com o número do telefone e Me ligue assim que possível. Depois de horas
ansiosas de espera a mensagem é realizada, o telefone está tocando, Martinha irá atender,
Cassandra dirá Alô e a conversa continuará
, Alô
, Oi, que bom que você ligou
, E como não ligar, depois de tanto tempo uma mensagem sua
, Pois é, confesso que foi difícil, digo, decidir entrar em contato
, Acredito que sim, durante um tempo tentei entrar em contato, mas você
sumiu, depois de tudo nós não conversamos
, Talvez possamos conversar
, Agora, desculpe a risada e a surpresa, mas porque tantos anos depois.
Neste momento Martinha pondera o que dizer e grande dúvida tem, no que a
prende e no que pretende, o próprio motivo da ligação parece confuso, ao mesmo
tempo tem uma nítida certeza de que faz algo que deve ser feito e essa sensação
aparenta ser tão certa que não consegue duvidar que seja um bom caminho.
O silêncio da ligação é quebrado por Martinha dizendo, Preciso de ajuda,
hoje, para algo importante, gostaria que você viesse aqui.
Silêncio de palavras, respirações de ambos os lados ouvidas, Martinha
nervosa aguarda, pensa em dizer mais alguma coisa, desiste, aguarda, a respiração
do outro lado some, silêncio absoluto por alguns segundos até que pela voz firme de
Cassandra é quebrado, Então irei, passe o endereço.Capítulo Quarenta e Quatro, Camaradas
As batidas do sino ecoam pela estrutura de mogno do relógio, produzindo um som
ao mesmo tempo estridente e grave, percorrendo o antiquário, chegando aos ouvidos de
Ramon Ruiz que silenciosamente pensa, Já são dezoito horas. Passou o dia inquieto,
diferente da serenidade habitual, conhece o motivo da aflição, aguarda que tudo acabe, o
que no momento deseja é fechar a loja e no andar de cima tomar um longo banho quente, a
sensação da água escaldando a pele, levando pelo ralo a sujeira e todas as preocupações.
Observa os dois homens organizando uma pilha de caixas de madeira, com felicidade
percebe que estão sendo cuidadosos. As últimas caixas estão chegando, atrás dos dois
carregadores vem o encarregado usando um velho boné. Ramon acha graça do boné surrado
sempre ostentando por Jonas, e hoje não é diferente, e o mal humor vai embora deixando
lugar para uma piada com o velho conhecido, Sabe de uma coisa, meu amigo, esse boné
velho não te deixa mais jovem. Jonas ri, fala alguma coisa com os dois carregadores,
usando uma língua arrastada, após um rápido diálogo os carregadores rindo acenam para
Ramon enquanto deixam a loja cantando. Jonas tira o boné, sopra e com a manga da camisa
age como se estivesse dando brilho a um diamante. Ramon rindo estica dois tapinhas no
ombro de Jonas.
Ramon Ruiz normalmente não faz amizade nos círculos de negócios e trabalho, são
raras as exceções. Uma destas é Jonas, um dos encarregados da Guilda, na prática um faz
tudo, hoje está coordenando uma importante entrega, certificando que a valiosa e frágil
carga chegue corretamente ao devido destino. Ao contrário de Ramon, Jonas procura fazer
amizade com aqueles com quem se envolve por motivos de trabalho, entende que no ramo
onde faz carreira é importante estar cercado de quem se confia. Faz anos que trabalha com
Ramon, e com o tempo veio o entendimento e a afeição, não esconde a admiração pela
sabedoria. E por isso mesmo rapidamente percebe que algo atormenta o velho, e tem
suspeitas de que conhece o motivo. Jonas está dizendo, O semblante preocupado não lhe cai
bem, realça as rugas. Ramon responde mantendo o tom da brincadeira, Na minha idade as
preocupações estéticas acabam, daqui uns anos você vai entender, Vamos com calma,
espero que ainda falte bem mais do que alguns. Risos de ambas as partes, é Jonas quem
continua, Brincadeiras a parte, imagino que algo lhe atormenta o espírito. Sem perder o
riso, Ramon diz, Imagino que rumores circulam pela Guilda. Jonas completa em tom
jocoso, Rumores é uma maneira de dizer, são um bando de fofoqueiros. Riso, seguido de
silêncio, Ramon diz, Não sei o quanto sabe, Não muito, dizem que a forma prisional de
Matzatea está sob seus cuidados, Bem, então na verdade você sabe tudo, pode ficar
tranquilo, e tranquilize aqueles fofoqueiros, sei como passar por um evento cósmico sem
grandes problemas, o sacrifício acontecerá na hora devida, depois de hoje, Matzatea
adormecerá por mais algumas centena de anos. Jonas sorri, estende a mão que a de Ramon
encontra em despedida.Capítulo Quarenta e Cinco, Encaminhamentos
Da matéria primeva move o mundo, extrato maleável das dimensões sobrepostas,
princípio gravitacional expresso na vibração das cordas tecendo a realidade. Manifestações
de uma probabilidade dentro de coordenadas espaço temporais específicas. Instantes,
coincidências formando, pensamentos sobrepostos buscando conexões. Duas dimensões de
acontecimentos na mente de Olivia coincidindo. Pensa na barbaridade, infortúnio atrelado a
lembrança de algo ainda não acontecido, ainda assim parece certo, aquilo que acontecerá
por certo já é acontecido, e toda a preocupação vem pela certeza.
Não importa o tempo, coordenadas podem ou não de maneira mais ou menos
caótica sim e não coincidir, princípio do paradoxo constante, ainda que devido outras leis
universais tenda a existência a pretensa normalidade. Hoje o anoitecer pleno, céu
iluminado, alem da luzes artificiais da cidade, no céu reina a lua cheia, absoluta, rumando
lenta enquanto a noite debuta seu manto negro, no caminho de onibus em direção a casa de
Abelardo, Olivia recolhe no celular as mensagens que compõe o trágico fim de Heleno. No
sábado último, após a peça, parte ao encontro da amante. Tudo bem planejado, o marido,
carismático pastor, figura de central importância na direção do seminário, deixa a
residência no começo da tarde, rumo a congregação de Paracambi, é dia de festa e o pastor
é convidado de honra. Dona Juliana, esposa dedicada, bem conhece do marido os hábitos e
rotinas, dada a distância, certamente lá a noite passará, regressando na manhã seguinte no
trem das cinco e meia. Tudo segue o planejado, sai o marido, entra o amante, logo as roupas
derrubadas no caminho para o quarto, no encontro dos corpos os apaixonados queimam,
derretidos nos braços um do outro, adormecem. Na noite em questão, contrariando o
esperado, o pastor decide voltar, aproveitando a carona de um caro colega. Durante o longo
trajeto a conversa flui em antigas histórias, cumplicidade de quem compartilhou as viagens
da infância. Ao entrar em casa, silencioso para não acordar a esposa, encontra no quarto a
cena que o dilacera, na penumbra do cômodo a alma explode, seus pedaços sujando as
paredes, parificações retráteis do desparafusamento da realidade, resvalando no lençol a
forma dos corpos em vil ato, plenos no descanso que a peleja sucede, o sorriso extasiado,fora por completo, emerso em campo desoxigenado, onde, um corpo desconhecido
esmorece na mulher amada. O mundo desaba, um buraco fundo no peito, estilhaços da alma
esvoaçam no tom rubro dos olhos pesados. Não mais o homem ético e correto, não mais o
homem calmo a seguir o exemplo de Cristo, sem anima e sem território, na cozinha a faca,
volta ao quarto. O movimento da faca é rápido e certeiro, a lâmina passa pelos cabelos de
Juliana no caminho do topo do peito esquerdo de Heleno. O corpo esfaqueado não emite
sons, não teve tempo de sentir a dor, os gritos são de Juliana, acordada em meio ao ato
insano. Ainda nua foge. Enquanto isso, fúria e ódio pintam de sangue o quarto onde a
pouco paixão reinava.
Uma lágrima escorre, na bochecha para, refletindo o momento. Fecha o celular, na
bolsa o guarda, não quer continuar em contato. Retoma o aparelho, abre a tela, mais uma
vez liga para Abelardo, chamada perdida, o telefone é guardado. Está preocupada, não quer
estar, prefere conjecturar descuido e indisposição, todavia, no íntimo, nas bordas da
consciência, tem a certeza, ainda que, sejam confusas as ligações entre certezas e
conjecturas. Não quer pensar sobre, entretanto, tem límpida a afirmação, o sofá e a
fantasma, parte da trama, o inacreditável envolto em concretude. Está assustada, não quer
estar, porém, a intempestiva tragédia de Heleno a todo momento parece se conectar com
Abelardo, como início de algo terrível que se aproxima. Confusa no tornado de
pensamentos que neste momento a mente sufoca. Olivia tateia a situação com grave pesar,
um amigo perdido, o temor por outro, pensa que nesta manhã, quando o dia começava, a
aura outra era, disposição matutina, o dia suave, fecha os olhos.
Capítulo Quarenta e Seis, Aos pés da Torre
Olegário Jucino há quinze anos porteiro no edifício Ardósias aos pés da Torre, nesse
tempo, viu chegar e sair inquilinos, viu a rua da frente mudar de nome, presenciou brigas,
morte e fim de amores. Na pasmaceira do começo da noite reflete, Só não mudou a síndica,
Dona Judith vai continuar sindica mesmo depois de caído o prédio. Ri sozinho da pilhéria a
si contada, tenciona não esquecer, criar a oportunidade de contar a Jorge. Os anos e os dias,
a vida de cada morador, de todos os apartamentos e andares. Questão faz de saber nome e
sobrenome de cada residente, também das vidas privadas, sempre que possível. O que
constantemente o é, graças aqueles como Antunes, todo dia, às sete e trinta e cinco em
ponto, descendo para comprar as baguetes acabadas de sair na padaria Progresso, na volta,
com o cheiro quentinho do trigo a subir as narinas, faz questão de parar para dois dedos de
prosa, quase sempre, encontra Erminda voltando da feira com verduras e peixe fresco,
odores provindos das hortaliças e seres marinhos se misturam com os vapores da farinhaquente. Nas conchas da manhã dedilham a vida alheia, os casos, discussões ouvidas através
das paredes, por vezes, com gritos e ofensas. Jucino relembra a pilhéria, na manhã seguinte
pretende aos dois contar, irá puxar algum assunto propício a deixa, Talvez o dos elevadores,
Erminda vai logo reclamar, oportunidade certa. Uma jovem mulher sobe os degraus que
acessam o hall do edifício, Jucino logo reconhece a figura, não lembra o nome, vem a
procura de Abelardo Fagundes, dela não lembra o nome. Está a se aproximar, procura o
nome, não encontra, diz, Boa noite.
Olivia procura calma, tenta manter o funcionamento padrão sem exacerbada aflição
devida a fatos ainda não constatados, sendo assim, expressar preocupação, com um amigo a
quem está preocupada, e que para sanar esta preocupação, vem e agora percebe que está em
silêncio e ainda não respondeu ao homem parado, respira e com um sorriso diz, Boa noite
sim, provável que lembre mim.
Sim, Olegário Jucino lembra, reconhece a fisionomia, sabe que a moça vem a
procura de Abelardo, mas, e todavia, mesmo na curva do entretanto não lembra o nome, e,
isso o incômoda, e, provavelmente incomoda um pouco mais que as outras pessoas
incomoda, e, percebe que está em silêncio encarando a recém chegada que mesmo quieta
parece ansiosa.
Vale ressaltar que para ambos envolvidos a conversa ocorre de maneira estranha,
ainda que por diferentes motivos. Ambos percebem, e de ambas as partes a conversa passa
para termos pragmáticos possibilitando rápido desenrolar do diálogo, retomado por
Olegário Jucino respondendo, Claro, lembro sim, é amiga de Abelardo Fagundes, certo,
pergunta sorrindo, enquanto por dentro batalha para lembrar o nome. Olivia rapidamente
emenda a conversa, Exato, por favor, diga a ele que estou aqui.
Jucino sorri, tira da parede o interfone, aperta os números que levam a chamada ao
apartamento desejado.
Durante o tempo em que aguardam o chamado não atendido, dois minutos e
quarenta e quatro segundos, Olivia e Jucino permanecem em silêncio imerso nos
pensamentos próprios. Preocupada, ansiosa aguarda, torcendo para o amigo atender e todo
o enredo sobrenatural ser noiástico, perfumado na inverossimilhança dos delírios. Jucino,
chateado, procura o nome. De poucas coisas tem real orgulho, uma delas, ao encontrar
alguém pela segunda vez, sempre, e, invariavelmente, cumprimenta usando o nome, Bom
dia fulana. A falha ainda pode ser consertada, sim, irá lembrar. A chamada morre sem ser
atendida, enquanto outra vez disca o número do apartamento, Jucino diz, Estranho, ele não
atender, deve estar no chuveiro. Pensando em possibilidades, Olivia rebate, Talvez ele não
esteja em casa. Com a prontidão de quem tem certeza de executar o trabalho de maneira
benfeita, Jucino diz em tom cordial, Em casa está, chegou mais cedo do que o costumeiro, é
verdade, com pressa, foi direto para o elevador, desde então não passou por aqui, teria
visto. Olivia procura soluções imediatas, Pode ser que estivesse ocupado, pode ser que
agora atenda. Jucino prontamente responde, Claro, já estou chamando outra vez. A resposta
acompanhada por amável sorriso, na ponta da língua quase vem o nome que outra vez
escapa.
Outra vez sem resposta.
Olivia não esconde a cara de preocupação, Jucino percebe o peso, procura algo para
dizer, não encontra, é Olivia quem quebra o silêncio, Abelardo saiu do trabalho mais cedo,
sem qualquer aviso, desde então não atende ligações ou responde mensagens, por isso aqui
estou, trazida pela preocupação. Olegario Jucino entende as aflições da moça, relembraacontecimentos do dia enquanto conta, Quando Abelardo chegou, mais cedo, resolvi
brincar, eu disse Que beleza seu Abelardo, chegando mais cedo nesse dia bonito, só que ele
não respondeu, o que foi esquisito, ele sempre responde com os bondias, não é disso, foi
estranho mas deixei passar, todo mundo tem uns dias ruins, aí, e agora, pensando bem, foi
esquisito mesmo, não respondeu, e pareceu nem ouvir, tava com os olhos cerrados e
carregados, a cabeça em outro lugar, nem me viu, que dirá ouviu. Olivia escuta atenta, a
preocupação aumenta, a certeza de algo ruim acontecendo, Pode ser que não esteja bem,
precisando de ajuda.
Olegário Jucino está alarmado, situação de tamanha urgência, é preciso agir rápido,
constrói a cena, o corpo convalescente, o primeiro impulso é ligar para os bombeiros,
arrombar a porta, salvar o pobre rapaz, Salvar de que, se pergunta. Respira, está nervoso,
não entende como ficou assim, é a energia carregada da moça, está tão aflita que assim está
o deixando. Decide fazer algo menos radical, abordar a situação de outra maneira, irá
chamar a síndica, Dona Judith saberá como proceder.
Capítulo Quarenta e Sete, A síndica
Judith Souza Magalhães Figueiredo, neta de importante general, conserva nos
hábitos os vícios aristocráticos da elite. Da mãe herdou a consciência cafeicultura, aprendeu
a ver o país em capitanias, a tratar bem os subalternos, realeza a zelar pelos súditos. Além
dos sobrenomes que com orgulho enverga, e, dos hábitos e vícios próprios da classe a qual
pertence, herdou imóveis na capital e no interior. No edifício Ardósias aos Pés da Torre é
proprietária de quatro apartamentos, além da cobertura onde reside. É com mal humor que
atende ao chamado para comparecer a portaria, é com atenção que escuta a história, narrada
por Olivia com os comentários de Jucino, que, neste momento é quem fala, Tenho certeza
dona Judith, depois que o rapaz chegou não tirei o pé daqui, até porque Epaminondas
deveria chegar às dezessete e não chegou, não deu nem pra ir ao banheiro, fiquei aqui o
tempo todo até que a moça chegou. Judith examina a moça em questão, com olhar que
mistura indiferença e gentileza pergunta, se dirigindo a Olivia, V ocê diz que está
preocupada. A resposta é direta e sensata, Sim estou. Judith continua o inquérito repetindo
as informações que tem, Não atende ligações, não responde mensagens, Exatamente. Aresposta de Olivia vem embrulhada em uma única palavra, recuando o impulso de apressar
a esnobe dama que como delegada avalia a situação, Muito bem, o seguinte faremos, me
acompanhe até o apartamento, tocaremos a campainha e na porta bateremos, caso realmente
esteja presente irá atender. Olivia acena positivamente, Jucino, conhecedor do modus
operandi da síndica, aguarda ordens. Sobrancelhas grisalhas, lábios austeros, sentenças no
tom de quem está acostumada a dar ordens, Estamos subindo, entre em contato com
Epaminondas, diga que se apresse, assim que aqui ele estiver, suba e nos encontre.
No corredor do sétimo andar, frente ao apartamento, a porta separa as virtualidades
da concretude. Existência amadeirada onde tambor e pinos selam a passagem. De um lado
da porta estão duas mulheres, a mais velha está irritada com a situação, tirada da novela e
descanso para resolver problemas de inquilinos, Com o agravante de ser em uma peça de
minha propriedade, pensa a dama descontente. A outra mulher, esta, bem mais jovem,
sustenta a preocupação do encontro com o desconhecido. Dividida entre a certeza de algo
sobrenatural acontecendo, a incredulidade ordinária, a curiosidade que ronda o inesperado,
a preocupação de maus presságios.
Judith Figueiredo está tocando a campainha, em um primeiro momento calma
aguardando, logo passando a longos trinados, finalizados com batidas na porta. Com o
barulho surgem moradores de outros apartamentos para averiguar atípica situação que
quebra em ruídos a calma noite. Neste mesmo momento, a porta do elevador abre, é Jucino
quem chega ao andar, é abordado pelos curiosos. Judith Figueiredo se aproxima, tem ar
grave, os cabelos sempre milimetricamente penteados estão levemente espetados, está
visivelmente irritada. Os poucos curiosos percebem a descompostura da austera e
impecável síndica, o que os deixa ainda mais curiosos quanto à situação, entretanto, optam
por voltar para dentro dos próprios apartamentos, que a situação seja resolvida, logo
possam, na portaria, encontrar as informações.
É Jucino quem diz, Epaminondas chegou, pediu desculpas pelo atraso, contou uma
história triste. Judith faz um gesto de desdém enquanto buscando calma pronúncia, Diga
me, tem certeza que o rapaz chegou ao edifício e não mais saiu. Jucino percebe a
importância que terá aquilo que irá dizer, dessa forma, antes de logo formular o dito,
pondera e minuciosamente vasculha na percepção falhas, que não encontra, levemente
consternado com o atual cenário, com voz firme diz, Tenho certeza absoluta, já refleti bem,
não tem jeito, não tem por onde ele ter saído sem passar pela portaria, escada ou elevador.
Judith fala com a voz de quem pensa em voz alta, Muito bem, todavia não nos atende, pelo
escarcéu que fizemos o mínimo que deveria era aparecer. Antes que continue é
interrompida pela preocupação de Jucino, A senhora acha que ele não atende de propósito
ou, será que, aconteceu alguma coisa. Agora é Judith quem sobrepõe a fala, A jovem parece
preocupada, de tal maneira que estou começando a crer no pior. Silêncio. Quebrado pelos
passos de Olivia inquieta, é Jucino quem diz, Acho que temos que chamar os bombeiros,
Não seja dramático, envolveremos as autoridades caso esgotem os recursos que possuímos.
Olívia pergunta, A senhora tem alguma sugestão. A dama responde a pergunta se dirigindo
ao porteiro, Procure o Capitão, peça que por gentileza aqui venha com urgência.
Capitão é figura pública do bairro, desde sempre na pequena loja que herdou do pai
que abriu junto com o avô, chaveiro e cutelaria, uma placa azul em formato de chave onde
em letras cursivas está escrito Souza e Filho. Pela hora a loja está fechada, ainda assim o
celular fica ligado, são comuns as emergências, uma porta trancada com a chave dentro
acaba sendo algo mais corriqueiro do que se tende a imaginar, e quando o cachorro é oúnico do lado de dentro, o telefone do chaveiro toca, e Capitão na sua motinha parte ao
resgate, chega rápido e logo resolve, mas hoje a emergência será outra, quando em breve
três batidas na porta escutar.
Enquanto o apressado Jucino faz o caminho até o segundo andar, simultaneamente,
alguns andares acima, com o lado esquerdo do rosto na porta encostado, Judith Figueiredo
procura decifrar as vibrações que passam pelo pavilhão auditivo. Olivia faz menção de algo
dizer, é calada com o brusco aceno da dama. Algo está ouvindo, pulsos que a cóclea
chegam, estranhas decifrações, sinapses nervosas a buscar significação para os perceptos
sonoros. Se afasta da porta, fala enquanto com a cabeça gesticula, Digame o que escutas.
Olivia se aproxima enquanto a outra se afasta. O que escuta, um zumbido constante, parece
ritmado, por vezes pulsos, na mesma frequência, depois de alguns segundos o corpo
acostumado com o som deixa de ouvir, basta leve movimento, sutil ajeitada, para que, outra
vez, seja percebido. É Olivia quem diz, Parece ventilador, ou ar condicionado, mas não é
isso, talvez algo ligado dentro do quarto, por isso estamos escutando tão baixo. Judith gosta
da ideia, faz sentido, o objeto que emite o barulho está em outro cômodo. Por algum tempo
conjecturam, sem satisfeitas ficar com as explicações construídas. Judith olha o relógio,
impaciente esperando que logo chegue Capitão com a resolução.
Capítulo Quarenta e Oito, O Chaveiro
Coincidentemente, neste mesmo momento, Capitão está a pensar em Judith. É
possível validamente questionar o uso do advérbio que impere na situação o acaso, dado a
simples fato, a frequência com que Capitão na dama pensa. Há algumas décadas a conhece,
durante grande parte deste tempo guardou para si a paixão, a dez anos passados, as
configurações mudaram, a inesperada morte deixou a dama viúva. Esperou o tempo que
achou polido para manifestar sentimentos e intenções. Em troca recebeu palavras educadas
e suaves negativas. Mesmo assim, não desiste, acredita na insistência dos pequenos gestos
para conquistar o coração de ferro. Na mente enamorada circula frequente imagens da bem
querida, fato comum. Outrossim, se não incomum, no mínimo, infrequente, é a ansiedade
de Judith Fagundes a espera do Capitão. Que aqueles que nas coincidências não acreditam
aqui neguem este fato irrefutável, a concomitância dos dois a pensar um no outro, ainda
que, por motivações e sentimentos distintos. Admirados observamos as sutis tramas que se
cruzam para formar destinos. Toda a infinita linha de acasos necessários para que em um
ponto específico do espaço tempo uma probabilidade seja concretizada.
Três batidas na porta e Capitão sorri, reconhece a batida, nenhuma outra pessoa
além do porteiro Olegário Jucino, e, se ele aqui está, a mando está de Judith. Neste instante
enquanto cruza o apartamento em direção a porta ajeita o cabelo sem conseguir evitar olargo sorriso onde a embocadura dos lábios denota a exata mistura de surpresa e felicidade
que no ritmo cardíaco palpita. Porta aberta, saudações trocadas, Jucino que conhece bem o
inquilino sorri e quase faz uma piada vendo o rosto corado como um adolencente, decide ir
logo ao assunto, A Dona tá precisando de você, para abrir uma porta, parece que o garoto
passou mal dentro de casa. Capitão tem o tino veloz de quem há muito lida com problemas
variados, mais do que chegariam a entender a maior parte das pessoas, a mente afiada
absorve toda a informação enquanto a memória muscular já dispara em preparativos
calçando a bota e abotoando o cinto já tendo em mãos a bolsa de ferramentas.
Jucino que já conhece a velocidade e prontidão, caminha falando tendo certeza que
está sendo ouvido, O garoto é Abelardo, você deve saber quem é, ele já mora aqui tem um
tempo, Acho que sei quem é, mas me conta melhor o que aconteceu, A sim, claro, assim,
ele chegou cedo hoje, ele trabalha em alguma coisa no centro, só chegou e subiu direto, e aí
tão ligando do trabalho e ele não atende, e agora não atende o interfone, e nem mesmo o
barulho todo que dona Judith tá fazendo na porta. Neste momento, no corredor do sétimo
andar a dupla chega, do outro lado, Judith solta um sorriso aliviado ao mesmo tempo
carregado de olhar repreensivo frente a tanta demora.
Capitão responde com o olhar que diz Vim o mais rápido que pude, com isso, espera
ganhar o tom compreensivo que não vem, enquanto a dama mantém a mesma postura dos
olhos acompanhando pelo corredor o caminho da mão cortês sendo estendida a Olívia, Boa
noite, não se preocupe, abriremos a porta e tudo ficará bem. Com tom ainda mais
cavalheiresco toma a mão da dama a quem tanto quer, diz, Boa noite minha senhora, estou
aqui à sua vontade. Judith não pode deixar de sorrir, lhe agrada os modos educados, quase
exagerados, Acredito que esteja a par da situação, Sim, Jucino contou, parece que o rapaz
chegou em casa, não atende telefone ou campainha, pode ser que tenha passado mal, ou
dormindo pesado. Poucas palavras, vidros de sensações, paira silêncio, no pulso firme o
relógio parece demasiadamente pesado, incômodo no pulso, trançado enquanto o ponteiro
pequeno permanece parado aguardando a deixa dos apressados minutos.
Capitão percebe a atmosfera pesada que toma o ambiente. A cada instante parece
maior a gravidade da situação. Judith está alterada, parece fora da habitual compostura, age
atordoada. Ar plúmbeo e maus presságios pelo corredor circulam. Abre caminho até a
porta, do estojo tira as ferramentas necessárias. Com grafite e duas chaves em segundos faz
a fechadura emitir o clique que indica abertura. Dois passos para trás, olha para a dama,
Está aberto. Ela responde, Ótimo.
As mãos magras da dama Judith Souza Magalhães Figueiredo pairam sobre a
maçaneta, dedos flexionados em força quase fechados, na palma a percepção do metal frio.
O pulso inicia o movimento de rotação quando é impedido de continuar, a dama algo
estranho sente, tenta ignorar, acreditando, ser apenas medo. Com o medo bem sabe como
lidar, há muito apreendeu coragem significar queixo erguido e punhos firmes, agora a mão
vacila, não é apenas medo. Judith não sabe, e, tempo não terá para descobrir, além do
medo, além de outros sentimentos que a envolvem, escuta com o corpo vibrátil a
campainha do destino, as vibrações do inexorável, inevitável, do ponto improvável tornado
concreto por todas as linhas e porcelanas, cruzadas e quebradas. Quando, nos próximos
segundos, a mão sobre a maçaneta concretizar o movimento rotatório que a porta abrirá, do
outro lado, encontrará, encontrarão, encontraremos, algo completamente discrepante, ímpar
e inimaginável, concreto e visto, mortífero e indubitável.Capítulo Quarenta e Nove, Rituais
Martinha Queluz está tremendo, frente ao espelho encara um reflexo que não
reconhece, ou melhor colocado, não quer reconhecer, nega que reconhece, assim, frente a
negação finge desconhecer a imagem refletida. Fecha os olhos. De olhos fechados escolhe
o que quer ver, apenas por pouco tempo, voltando imagens que não quer lembrar, ainda que
muitas sejam carregadas de carinho, a memória segue um fio espefico que leva a cerimonia
de iniciação, lembra o traje, um longo sobretudo negro até os pés onde rendas douradas
adornam as bainhas e as mangas, o capuz tem o interior vermelho. Lembra como naquele
dia fica surpresa ao descobrir que a veste é completamente adornada por dentro, como
vestila deixa na pele uma suave sensação de poder. Não quer lembrar, não quer nomear,
entretanto, abre os olhos, e o reflexo do espelho é uma mulher mais velha do que a jovem
das memórias, todavia, a veste e a mesma. Deixa o espelho. Anda em direção a sala.
As janelas estão fechadas, a iluminação provém de cinco velas dispostas em volta
do círculo de sal ao redor de Cassandra, a mulher está de joelhos segurando um livro,
dentro do círculo seis cristais estão posicionadas formando dois triângulos com as pontas
interseccionando no centro. Martinha em silêncio observa, tem a sensação de estar
sonhando, um dos sonhos recorrentes quando volta a ser jovem, quando iniciou no caminho
dos poderes da antiga ordem, mas agora não é sonho, e disso sabe, também sabe que está
mexendo com algo muito poderoso, talvez esteja sendo insensata, provavelmente, todavia,
neste momento isto não importa, traçou uma meta e sabe que apenas duas conclusões são
possíveis, ou o feitiço dará certo e será possuidora de um poder pouca vezes experimentado
por um mortal, ou, o mais provável, terá uma morte lenta, dolorosa e sofrida.
Cassandra acaba de levantar, de costas deixa o círculo, deixando no centro, dentro
da intercessão dos triângulos, uma pequena caixa de madeira. Faz sinal para que Martinha
vá em direção a cozinha, onde estão agora, Cassandra tira o capuz, revelando uma bela
mulher, aparência jovem em um semblante maduro emoldurado pela volumosa cabeleiracacheada, está dizendo em voz baixa, Estamos dentro do horário, agora nos resta finalizar o
selo, tudo precisa ser feito no momento exato, mas. Antes que Cassandra continue,
Martinha diz, Irei entender se você não quiser continuar com isso, eu sei o que vem depois
do mas. Cassandra sorri revelando os largos dentes brancos, Nos último anos, depois que
você não respondeu e sumiu, vez ou outra me pegava pensando no que faria se você
entrasse em contato, só não estava preparada para que fosse pedir ajuda para algo assim,
entendo seus motivos, e prefiro morrer assim se este for nosso destino.
As duas mulheres se olham, têm a mesma vestimenta e dividem a mesma sensação.
Irá dizer algo que há muito tempo guarda, quando é interrompida por três batidas fortes.
Logo percebe que as batidas são no apartamento ao lado, em passos leves vai até a porta
onde parada escuta o diálogo do outro lado. Quando o silêncio volta após os passos em
retirada é Cassandra quem diz, É melhor continuarmos, agora começa a parte difícil.Capítulo Cinquenta, Hora que aproxima
Banho quente, mesmo nos dias mais quentes, muito vapor, a pele pitta, fluência
energética deixando o centro para as extremidades, no fim, com o corpo efervescente
dilatado, desliga a água quente, deixando o jato frio tocar o topo da cabeça escorrendo pela
derme, choque térmico, balanceamento da realidade. Depois de um bom banho, Ramon
Ruiz sempre se sente renovado, não hoje. Tem essa preocupação, e apesar do que disse a
Jonas, no fundo teme que as coisas não estejam sob controle, prefere não imaginar as
consequências de Matzatea outra vez livre no mundo, reflete, Pensamento bobo, as teias do
destino estão bem tecidas, o sacrifício acontecerá. A cadeia mental volta a conversa com
Jonas, lembra que esqueceu de perguntar sobre o livro, está curioso pelas observações, não
entende como alguém com as características de Jonas pode estar associado a Guilda das
Luzes. Tem uma relação ambígua com a Guilda, por um lado mantém relação amistosa,
cordialidades na maior parte das vezes facilitada pela relação comercial, No fim são apenas
negócios, tenho que zelar pelos negócios da família, diz em voz alta escutando o próprio
pensamento. Reflete sobre como estes negócios são, sua natureza incomum, um negócio
como o de hoje, envolvendo sacrifício humano para impedir que uma besta voraz atormente
a humanidade, É um fardo, diz em voz alta, buscando nos pensamentos falados colocar nos
trilhos o ser.
Procura um objeto, uma tábua de Lox, uma tábua de madeira, fina como uma folha,
ao toque imagens surgem, parece uma tela, ao mesmo tempo que as imagens em
movimento surgem através da materialidade da madeira. Linhas, formando órbitas,
planetas, relações astronômicas, o objeto revela o movimento dos astros, com o dedo
Ramon passeia procurando os corpos celestes que hoje influenciam o destino, de alguns
humanos ou da humanidade. Com a ponta da unha do indicador traça uma linha, quase reta.
Por um tempo se distrai com o movimento dos astros, ao mesmo tempo tão rápido e tão
longo, ao mesmo tempo o ser do tempo, como a lua, astronomicamente próxima, influencia
nas marés, dos seres vivos e das águas, o sol em seu esplendor e poder, tão pesado
curvando uma grande porção do espaçotempo, de tal maneira que mesmo corpos celestes
longínquos em sua gravidade são afetados, estreita relação entre todas as coisas, uno
primordial no início de tudo condensado em uma singularidade energética, uma grande
explosão, esticando cordas e formando matéria, com a temperatura amena formando vida,
como neste planeta rochoso aquático em uma zona plural nas bordas de uma galáxia isolado
em um canto do universo. Ramon sorri com a digressão, gosta de pensar nos astros, neles
sente o conforto que só adquirem aqueles capazes de ler nas estrelas o destino. Conhecer o
humor dos astros, e, hoje, os astros estão de péssimo humor, por forças ocultas que exercem
grande poder, uma linha poderosa que corta o espaço liberando o tempo em diversas
probabilidades, um ser tão poderoso que não pode ser morto, trancafiado em engenhosa
prisão. Suspira passeando pelo aposento, olha alguns retratos sem de fato prestar atenção,
corre os dedos pela mesa, observa o armário onde livros e objetos dividem espaço, lembra
que está no terceiro andar de uma construção de três andares, este onde reside, o térreo
onde funciona o antiquário, o porão que funciona como depósito, pensa em todos os itens
poderosos por diferentes motivos no porão guardados, vem um pensamento, intrusivo e
recorrente, nesta cadeia específica de pensamentos é um vilão, ao estilo dos vilões clichês
das histórias em quadrinhos, com a intenção de criar o caos, disseminar uma nova era, na
verdade, um retorno a uma era antiga, que a humanidade já esqueceu, cujos resquícios sãoos mitos e histórias passadas por antigas culturas e religiões, onde seres como Matzatea
outra vez vivem. Mas esse pensamento logo vai embora, fica feliz em pensar em todas as
precauções que protegem e selam o porão, Assim que tudo fique lá guardado, diz em voz
alta, tentando lembrar quando foi a última vez em que lá esteve, não recorda, faz muito
tempo, É melhor assim. E volta a pensar em Matzatea, olha o relógio, reflete que neste
momento a criatura deve estar livre, e logo estará plena. Um ser tão poderoso, um risco
incomensurável para a civilização, e poucas pessoas tem ideia de que evento de tão grande
importância hoje está em curso, a reflexão coloca Ramon em questões filosóficas pessoais,
começa a falar em voz alta andado entre os cômodos, Todos vivem na ignorância,
acreditam no sistema, estão confortáveis deixando rodar os programas do sistema,
satisfeitos em tocar apenas a superfície, ignorando a profundidade, agradecendo aos
titereiros a dádiva da sobrevivência.
Procura deixar os pensamentos, sem conseguir, no fim de tudo volta a imagem de
Abelardo, e, Ramon Ruiz se sente responsável pela morte do jovem. Durante o resto da
noite de hoje Ramon ficará preso no vórtice dos pensamentos, o mesmo tema repetido em
diferentes variações, demorará a encontrar o sono, e quando o fizer sonhará com resquícios
dos pensamentos diurnos, apenas no fim da madrugada conseguirá o sono pesado que o
conduzirá até as oito, quando levantará bem disposto, e após conferir os canais de notícia,
ficará em excelente ânimo ao constatar que nenhuma criatura demoníaca foi vista pela
cidade.Capítulo Cinquenta e Um, Matzatea
Entre âmbar e musgo é a cor da névoa que todo o ambiente toma, por ela perpassa a
luz emanando da criatura em leve bruxulear. Chão e paredes estão cobertos de refugos,
irreconhecíveis detritos, carcaças, pedaços de animais a se movimentar como tocados pelo
vento. O lugar não é mais o mesmo, os traços constitutivos do apartamento citadino foram
tomados, subjugados pelo poder da entidade liberta pelos astros. No centro da caverna
primitiva Abelardo estatelado observa o ambiente em mutação. Gosma violeta escorre em
canais, elevando o espectro da névoa, que, agora, é rubra grená pulsante. Abelardo está
enfeitiçado.
Nos tempos anteriores ao aprisionamento, era desta forma que Matzatea**** seduzia as
almas humanas. A caverna é o lar, embrião casco, de tal maneira que a caverna é parte do
que a criatura é. Ela é o próprio espaço. Para degustar o alimento humano precisa
conquistar as presas, seduzir, enfeitiçar, inebriar, as tornar dispostas ao caminho pela densa
floresta em direção ao convite. Traz no cerne divergentes sentimentos, amor e ódio, criação
e destruição, início e fim, símiles divinos que conecta com similares da constituição
humana. Neste momento a arcaica cena é atualizada, o apartamento transformado em
múltiplo da longínqua caverna. Cor, cheiro, restos fantasmagóricos de mil aperitivos, e,
pratos principais, corpos e cacos de almas humanas. Depois de todos os anos aprisionada,
tanto tempo passado desde a última verdadeira refeição, mais do que apenas alimento,
deseja, almeja o momento, e, por este motivo, posterga a presença de Abelardo, o inebria,
brinca com os sentidos, torce sensações, lentamente se deleita com a inigualável refeição.
Abelardo está mesmerizado, a situação é tal inacreditável que outro recurso não há
além de acreditar. A caverna pestilenta, a névoa onipresente, através de seu embaço as
imagens são amorfas, tanto podem ser pedras como restos animais, os reinos se confundem,
o tempo se confunde, vida e morte se confundem. Está no limbo por onde poucos mortais
passam, a percepção de vivo concomitante à perspectiva atemporal dos mortos e imortais.
Observa o grotesco acontecimento com aceitação, assumida a tragédia, acolher o fatídico. É
tomado por lembranças, familiares, amigos, situações, viagens, projetos, amores, em
caleidoscópio fugidio a mente tomam, se apresentando em despedida, puxados pelos
tentáculos se multiplicando compassados, dançando o ritmo pulsional pela criatura emitido,
suave sibilo pelas ventosas, tremor melódico da névoa. Os tentáculos dançam em múltiplas
imagens simétricas atravessando o corpo físico, tocando as íntimas imagens da memória,
rasgando a constituição humana, derramando o ser atraído e sugado pelo beijo das ventosas
na coreografia dos tentáculos. Consciência e alma estão sendo lentamente degustadas,
imagens memoradas à tona, destacadas e digeridas, o corpo sendo transformado em casca
vazia, esquecido de todo outro e exterior, nada existe para além dos contornos da sala em
caverna composta.
A transformação está completa. Não há qualquer resquício da forma prisional, neste
momento reina Matzatea. O ambiente mutado na gruta originaria, nos tempos quando o
pulsar distante atrai viajantes distraídos, camponeses e, vez ou outra, ousados em busca de
saciar a curiosidade. Agora, a sala é a mesma caverna, os astros com o alinhamento
adequado, a forma original plena e exuberante. A forma, assim dita, foge as palavras,
escapa qualquer descrição. Lava pulsante púrpura em névoa rubra alongada materializando
em matéria plasmática amorfa constituindo a grande massa aberta em horrenda boca. Aboca, assim dita, dentes não tem, sim os mesmos tentáculos infindáveis e rítmicos, dentro
parece ir ao infinito, distinta paisagem, complementar a caverna, ainda que outra. Pelas
profundezas do abismo se movimentam corpos como zumbis, trajam vestimentas variadas,
cabelos longos e quebradiços, pele ressecada, mil ou mais anos aparentam, alguns estão
sentados, outros andam. São todos aqueles pela entidade engolidos. São corpos sem
matéria, seres sem mnema. Alguns têm as cavidades oculares completamente secas, são os
mais antigos, os primeiros, outros ainda conservam razoável aspecto.
Atravessando a multidão cadavérica, com olhos carregados está ela, a fantasma,
Maria Teresa Fernanda. Não tem o aspecto jovem e suave das memórias pelo sofá
transmitidas, tem a pele trincada e ressecada. Com dedos esquálidos faz o gesto
convidando.
Os tentáculos imitam o gesto, sincronizados convidam.
O ambiente por completo pulsa. Tudo que compõe as probabilidades espaço
temporais dentro do aposento são convites maliciosos.
Desejo, gozo e destruição.
Abelardo lentamente se locomove, transbordando pensamentos, sentido um delicado
prazer toda vez que uma memória é puxada, sensações variadas e precisas. Olha para a cena
dantesca ao redor, não há metáfora, nenhuma outra figura, significante concreto, deleites do
céu e contorções do inferno na cíclica da realidade, o temor sentido e costurado pelo limiar
de dor e prazer no fim tornado indistinguível. Caminha entregue ao júbilo final.
Pulsações voláteis, o toque dos tentáculos que ao contato com a pele se
desmancham em mil desformas. Zumbido agudo imiscuindo por tímpanos e labirintos
levando sinapses e suas descargas elétricas. Já não tem mais fome. Um violino voando no
éter deve emitir sons delicados e refinados. Laranjas feitas de sol têm o sumo mais
refrescante, desde que, tomadas com perneiras. A lua tem crateras feitas de trampolim, de
onde seus antigos habitantes arremessavam meteoros. Um quilômetro de espuma, molas,
plumas, chumas, almofadas, sedas, algodão. Os andares intermediários do inferno. Milhares
de múmias, cadáveres, seres antrópicos na barriga da criatura. Promessas de amor e prazer.
Beliscos belicosos. Riso, deleite, morte.
Nada é além do que neste momento é, este momento o momento, é,
A porta acaba de ser aberta.Capítulo Cinquenta e Dois, Intrusos
Judith abre a porta. Tosse, o cheiro forte desperta a questão, como não sentia do
outro lado da porta um odor tão repugnante, apenas uma fina separação de madeira,
contudo um portal entre dimensões distintas. A diferença de luz entre os dois ambientes, de
um lado o corredor iluminado, do outro, grossa penumbra impede o avanço da visão. Judith
não compreende por completo o ambiente que a escapa, espera encontrar o imovel já
conhecido, frente ao desconhecido faltam parâmetros para significação, fazendo com que o
cérebro ignore a realidade imediatamente experimentada em detrimento de uma memória,
que, agora, se torna uma visão inventada gerando conforto naquilo que não entende.
Adentra dois, três, quatro passos, para.
O trio do lado de fora observa a mulher desaparecer na escuridão do outro lado da
porta, do lado de dentro, a mulher atônita contempla o embrionário ambiente, sente algo
subir pelo calcanhar, olhando para baixo a neblina rasteira impede a visão, ainda está a
procura de algo racional e racionalizável que propiciará da situação a apreensão. Caminha,
esperando através dos passos encontrar a esperada sala do apartamento, e que os outros a
ajudem a levantar pois certamente está tendo um derrame, mas, a realidade bate mais forte
que os devaneios, algo que não imediatamente derruba, mas faz gritar. Parada no meio da
caverna abissal olha na direção de onde a neblina parece nascer, é quando, vê a criatura,
grita, voz continua na garganta presa, está catatônica, procura a cadência da respiração, não
encontra, inicia sequências rápidas de expirações, artérias arrítmicas, diafragma contraído
batimentos cardíacos em elevada frequência. Braço esquerdo pesado. Falta de ar obriga o
corpo ao chão, ainda assim luta para manter a força das pernas sustentando a coluna o mais
ereta possível. O quanto possível é evita a queda, percebendo a inutilidade de vindouras
tentativas procura no chão algum ponto propício ao impacto.
Capitão é o segundo a cruzar a porta, da mesma forma é surpreendido pelo odor,
pela cor embrionária, pela aparência cavernosa do recinto, pelas criaturas minerais no chão,
pela névoa, pelo pulso, pela sensação de conforto e medo. Alguém grita. O grito tira
Capitão do torpor, percebe que estava sendo iniciado em alguma espécie de transe. Olha
para direção do grito que acaba de ser replicado, no chão, entrevista na névoa com os
braços sendo apertados contra o corpo, o reconhecimento da amada coloca Capitão em
estado de vigilância, com movimentos rápidos vira o pescoço com olhos precisos
escaneando o ambiente. Teme tudo o que neste momento está vendo, acima de tudo, teme
perder a amada. Percebe estar cercado por tentáculos que o tentam seduzir. O instinto de
sobrevivência é ativado, adrenalina banha o corpo, a temperatura sobe. Entre as poucas
ferramentas que tem procura as que acredita serem as melhores para a situação. Por um
instante lamenta a falta de armas mais apropriadas. Lamentação esvai, ação começa. Na
mão direita uma chave de fenda, na esquerda o pequeno crucifixo de prata que sempre
carrega no pescoço, parte em direção aos tentáculos.
Do lado de fora, no ordinário corredor, restam dois, ambos apreensivos trocando
olhares, procurando na expressão do outro alguma indicação do que fazer. Da mesma forma
que Judith, Capitão atravessa a porta e não é mais visto, silêncio e nada dito, nenhum som
ou palavra vem de dentro do apartamento, apenas o cheiro, selvagem como um pantano,cada vez mais forte. Enquanto o porteiro Jucino ainda pondera o que fará, a terceira a entrar
é Olivia.
No primeiro contato com o ambiente múltiplas percepções, cor, espessura, odor,
tatos e todos sentidos estupefatos buscando assimilar onde está e o que acontece. O
presente indubitavelmente real em sua sobrenaturalidade. No meio da cena encontra
Abelardo, alheio a nova configuração disparada pelas novas presenças. Olivia adentra a
caverna, desviando dos tentáculos e das estranhas criaturas no chão rastejando. Chega ao
amigo, ele tem o semblante leve e feliz, ignora todo o grotesco ao redor. Olivia de imediato
entende, Abelardo está hipnotizado, essa percepção lhe aumenta a urgência, carrega a
sensação da chegada em tempo, ainda existe a possibilidade de resgate, kairós a salvar o
amigo. Na certeza oportuna sacode os ombros de Abelardo, esperando a felicidade no rosto
de quem encontra salvação no vale de aflição. O corpo imóvel não responde ao sacolejo,
continua intactamente para frente olhando. Com as duas mãos volve o rosto do amigo na
direção dos olhos, o olhar não encontra outro, são meros olhos de onde o brilho foi sugado.
A nova impressão toma a anterior, a felicidade do encontro é recoberta pelo espanto
inequívoco da perda, kronos o irmão devora. Na língua ensaia palavras, procura o que
dizer, ansiosa aperta o rosto que nada expressa. Com as mãos tenta mover o corpo inerte
enquanto olhos lacrimosos contemplam o inferno. Dentro de si outra explicação não
encontra, ainda deseja o mundo sobrenatural, em nenhum momento preparada para isto que
depara. Um grande pássaro passa em voo rasante, é grande como um gavião, bico longo e
garras afiadas carregando os restos apodrecidos de um pequeno réptil, a ave voa até sumir
de vista em um horizonte curvado onde paredes e janela deveria haver, o ambiente parece
infinito, ao mesmo tempo, estreitando a visão, é formado por tentáculos sobrepostos, como
tecendo uma grande manta de tricô cobrindo a realidade. Fumaça branca toma o ambiente,
vem da direção da porta em sequência de jatos. A fumaça agita a criatura, que eriça os
múltiplos tentáculos transformados em grossos pares. Olivia vê Capitão lutando, com
golpes certeiros destruindo os tentáculos se desfazendo em plasma, sendo pelas ventosas
sugados, ficando mais fortes e agitados. Mais jatos de fumaça branca, é Jucino com um
extintor de incêndio, lutando como pode. Olívia percebe a urgência da situação, não são
páreos para o que quer que esteja acontecendo, precisam fugir, precisam fugir agora. Olha
para Abelardo, ainda imóvel, por mais que a agitação ao redor aumente, nada o afeta,
Olivia, o empurra com força enquanto grita, Precisamos sair daqui agora, você não entende,
precisamos sair daqui agora. Olivia puxa Abelardo que sem mostrar resistência anda pelos
fortes puxões sendo guiado para a direção onde Olívia acredita estar a porta, ainda que não
consiga vêla. Todo o ambiente parece furioso, por todos os ângulos coberto de agitação, os
tentáculos até a pouco harmônicos formando o tecido desta singular realidade, estão
eriçados agindo de maneira hostil. Um destes tentáculos, como um taco, acerta o dorso e
pescoço de Oliva. A dor da pancada é precedida por falta de ar enquanto é arremessada.
Passa voando por Jucino, bate a cabeça contra a porta, caindo sem consciência no corredor.
Está estirada, inconsciente, com a cabeça sangrando e o peito amassado, onde o impacto do
tentáculo três costelas quebrou.
No corredor apenas Jucino resta, está parado a dois passos da porta. Tem certeza
que algo estranho está acontecendo. Olha para a porta aberta, silêncio e escuridão, sente
medo, porque nada escuta, porque até agora ninguém se manifestou. Dois passos dados,
está no limiar, prestes a atravessar, decide apenas espiar, enquanto firmes mantém ficandos
os pés, estica o pescoço para do lado de dentro ver. O que vê faz com que rapidamente volteo pescoço causando desequilíbrio fazendo com que caia no chão do corredor.
Imediatamente levanta com um salto. Esfrega os olhos enquanto caminha, outra vez está no
limiar da porta, com os braços abertos segura as paredes do lado de fora, de maneira a
inclinar o pescoço mantém firme o corpo. Outra vez a cabeça atravessa o portal, desta vez
procura rostos conhecidos, logo encontra, Judith no chão desmaiada na névoa, Capitão
lutando contra os tentáculos com uma chave de fenda, os tentáculos feridos pela ferramenta
desmaterializam e deslizam para os vizinhos, deixando de ser múltiplos e bailarinos em
detrimento a poucos fortes e agressivos, Abelardo parece fora de si enquanto Olívia tenta
movêlo. Está tonto, atordoado e confuso, recua, volta para o corredor.
A diferença entre os ambientes é absurda. No corredor a confusão sensória some,
fora da caverna consegue pensar claramente, precisa fazer algo, pensa em chamar ajuda,
contudo, de algo imediato precisa. Olha para os lados buscando algum objeto ou ideia. A
carência de artefatos torna o extintor de incêndio a melhor opção. Outra vez atravessa a
porta, desta vez, com o extintor em punho investe contra a criatura. Aperta a alavanca,
liberando a fumaça comprimida tomando o ambiente. O susto é geral. Nenhum dos
presentes espera uma densa descarga de dióxido de carbono, nem mesmo Feelìx, o pequeno
duende curioso que pulou o basculante e agora foge assustado pelo mesmo lugar por onde
chegou. A criatura se agita. Em um golpe de vista Jucino vê por entre a fumaça passar
voando Olivia, mesmo com toda a turbulência sonora consegue ouvir o som do impacto da
cabeça na porta, o corpo em rodopio voa como uma boneca de pano. Continua a despejar o
jato do extintor, a pressão com que a fumaça sai agora é menor, sabe que em breve
necessitará de nova estratégia. As conjecturas são interrompidas quando quatro tentáculos
agarram as pernas e os braços. Sente as gelatinosas ventosas sem temperatura, sente a força
que aumenta ao redor dos membros, sente o corpo ser esticado em quatro direções
formando um x, sente afrouxar as articulações e os músculos estirar, por fim, sente o estalo
despresurizador quando os quatro membros são simultaneamente arrancados.Capítulo Cinquenta e Três, Antes que se movam os astros
Matzatea está irritada, até então delicadamente apreciava a refeição, agora, luta com
inconvenientes intrusos. Inicialmente tenta seduzir, usa o hipnótico ritmo para enfeitiçar,
salivante visa aumentar o banquete. A ação não é efetiva. Irá recorrer a violência. Não é a
alternativa que mais agrada. Para verdadeiramente se alimentar precisa tomar a alma e a
consciência, em longos bebericos, mastigar memórias, degustar todas as sutilezas que
constroem o eu. Quando mata humanos não enfeitiçados, pouco extraia do alimento, como
de uma fruta inteira saborear apenas a casca, todo o sumo, toda a energia perdida. Prefere a
comezaina do encantamento, entretanto, parte para a brutalidade.
O grito é inaudível ao sistema auditivo humano. Os tentáculos escutam. Estão de
prontidão. Deixam a rítmica do feitiço. Ganham rigidez. São muitos e agem
simultaneamente. A mulher que tenta roubar a refeição recebe o primeiro golpe, é
arremessada para longe, para fora, para além do campo de ação. Não é a intenção da
criatura, nos próximos ataques age com mais cautela para não desperdiçar por completo o
alimento. Faz uso de quatro tentáculos contra o homem disparando fumaça, puxa os
membros até os separar, usa as ventosas para sugar todo o sangue escapando, sem permitir
que qualquer gota seja desperdiçada, os tentáculos arremessam os membros para o interior
da boca, outro par se encarrega de trazer o restante do homem que desmembrado conserva
os olhos abertos.
O outro homem está armado, a arma é pequena e pouco afiada, ainda assim, o
suficiente para perfurar os tentáculos, que, uma vez vazados perdem a materialidade em
magma escorrendo para os tentáculos vizinhos. Estes novos mais fortes, da mesma forma, o
homem os consegue perfurar. É ágil e determinado, com uma mão maneja a arma, com a
outra segura a corrente que leva aos lábios em reza. Não percebe, três tentáculos estão
esgueirando rente ao chão encoberto pela névoa viscosa. Sobem espiralando pelas pernas,
puxam os membros inferiores derrubando o corpo do oponente. No chão Capitão ainda
tenta se levantar, não consegue, outros tantos tentáculos o envolvem, contornam o corpo
formando espesso casulo. Capitão sente cada milímetro do corpo pressionado, cada
folículo, cada membrana, cada célula, simultaneamente comprimidos. Os músculos
travados não conseguem alcançar o movimento em busca de oxigênio. Asfixiado os
sistemas param, sem ar e sem força Capitão desmaia. O casulo de cilindros escamosos
retorna ao interior da boca, onde o corpo é depositado próximo aos cadavéricos seres que,
indiferentes e alheios, continuam vagando em infinitos círculos.
Judith a custo sustenta um estado de semiconsciência após despertar, está fraca, uma
parte do corpo paralisada. Vê Capitão ser engolido por tentáculos, agora aguarda que
venham em sua direção. Oprimida pela certeza da morte. A bem da verdade, a tempos o
pensamento da morte é figura corriqueira, companheiro da velhice. Da morte fantasiou
situações, de acidentes catastróficos a circunstâncias banais, a que mais agrada é apassagem com Morfeu, um dia dormir, para não mais acordar. A morte no sono, sem dor,
sem agonia, sem questão, pura passagem. Agora tem a certeza da morte em um cenário não
imaginado. Queria o fim doce e tranquilo, todavia, tem a frente o infernal e hediondo, o fim
vivo e ancestral. O enxame de tentáculos a frente se ergue, Judith estufa o peito para o
último enfrentamento. Sincronizadamente assumem posição de ataque, em botes raicos uma
dezena avança para o baque.
Param.
Estão a poucos centímetros dos olhos, para a surpresa de Judith, começam a pulsar
compassadamente. Sutil coreografia. A bela dança cuja música é a respiração da criatura
sedutora, o ritmo traz lembranças infantis, festa junina e quadrilha, a irmã, o vestido azul
com rendas. As lembranças se multiplicam em cristais, em terceira pessoa observa as
incontáveis cenas nos quadros da memória, na mesma medida em que são rememoradas são
levadas pelas ventosas bailarinas. Domingo a tarde de um dia frio de novembro, tio
Eustáquio falando sobre o tempo Trinta anos atrás nessa época do ano era sol fervendo
noite quente. Emiliano é o nome do gato que a irmã ganhou de aniversário ao completar
nove anos. O mais triste velório, Maria Clara, tão nova, o nascimento de um sentimento, os
olhos chorosos. A rapidez dos dedos no curso de datilografia. Incontáveis memórias
formam o fractal infinito dançando em algum ponto exterior a pupila, imagens puxadas em
um rolo de filme feito de névoa e plasma. O medo da horrenda morte some, substituído
pelo desejo do doce fim. Procura forças para se levantar, é auxiliada pelos tentáculos.
Caminha vagarosamente rumo ao interior do execrável ente.
Abelardo nada viu dos recentes acontecimentos. Está encerrado no feitiço, vazio, as
memórias levadas, a consciência lavada, o que resta é a pura energia vital que mantém o
corpo.
Todos os tentáculos bailam no mesmo compasso, o ritmo é o tambor primal atraindo
a vida para o fim, o último desejo, o último prazer, para além do contorno do pélago
chamado eu, última gota da essência humana em sua forma ontogênica, uno que se atualiza
em cada um.
Cortejados e ciceroneados pelos tentáculos, os dois humanos adentram a dimensão
maldita, o interior da criatura que, gorgoregiando, recebe os novos inquilinos.
Matzatea está satisfeita. Saciada. Agora a força que mantém a forma primal começa
a esvair. O enorme dispêndio de energia precipita o retorno à forma prisional. Todo o
ambiente começa a ser puxado para o interior, brisa tragada pela boca pulsante sorvendo
toda a realidade, toda a atmosfera cavernosa, os estranhos seres, a névoa, todas as
partículas, divisíveis e indivisíveis, tudo é sugado para o interior através da boca que, aos
poucos, perde monstruosidade em detrimento a maciez almofadada.
Sala vazia, chão limpo, parede nua, nada além do aconchegante sofá
displicentemente encostado à luz da lua.Capítulo Cinquenta e Quatro, Os caminhos inconformados
Cléston está irritado enquanto pela janela observa a noite silenciosa, vez ou outra
cortada por um som distante. Não consegue dormir. A mente permanece remoendo os fatos
do dia. Conseguiu alguém, tão competente quanto, ou até mais, para preparar a
apresentação, entretanto, o que considera o desacato de Abelardo, continua martelando a
mente, Um absurdo, audácia tamanha, um reles funcionário ignorar o pedido de um
superior, ainda mais de tal garbo e importância como eu. Tem o ego ferido, narciso
arranhado, não consegue imaginar qualquer outra possibilidade além da clara afronta, Saiu
à francesa sem qualquer aviso, simplesmente deixou a tarefa, desligou o telefone, sem
preocupação com qualquer satisfação. Está inconformado. Insone persiste planejando o que
pretende dizer, não deixará impune tamanho disparate.
Começa a ficar preocupado com a reunião do dia seguinte, deveria estar dormindo
para acordar bem e disposto. Sabe que não adianta voltar para cama, será outra tentativa
frustrada. Pega o telefone, mais uma vez disca o número que imediatamente cai na caixa
postal, sem mensagem ou e-mail. De súbito toma importante resolução. Decide. Não irá
esperar para o dia seguinte, nos papeis procura o endereço, irá surpreender o meliante, no
ímpeto da ideia deixa o apartamento decidido a pôr um ponto final no desaforo.
Cruzando a noite o trajeto de táxi é rápido. Acaba de descer do veículo, na calçada
frente ao prédio, um carro de polícia está parado. Por alguns instantes Cléston observa a
situação, dois policiais conversando com um grupo de pessoas. De onde está não consegue
entender o que acontece, decide aproximar, discretamente passar andando, quando este
plano coloca em prática vê os policiais entrarem na viatura e partir. A pequena aglomeração
logo se desfaz para dentro do prédio, aparentemente formada por moradores.
Cléston, determinado a cumprir a decisão tomada, não vê qualquer relação entre a
viatura, a pequena aglomeração e o funcionário que procura, de maneira que, ao conversar
com o porteiro que, prontamente o receberá, ficará deveras estupefato.
Dentro do prédio Epaminondas está distraído com o celular quando depara com a
figura do lado de fora. Parece estar interfonando para alguém que não atende. Espera alguns
minutos. Passados, continua lá. Epaminondas deixa a mesa, caminha para o lado de fora,
desce os degraus levando ao patamar da rua por entre os jardins. A poucos metros do portão
diz, Boa noite.
Cléston vê o porteiro descendo as escadas, esconde a irritação, coloca o melhor
sorriso e responde, Boa noite.
Por alguns segundos em silêncio os dois se olham, é Cléston quem diz, Desculpe
incomodar em tão alta hora, estou tentando falar com Abelardo Fagundes. Neste momento
a fisionomia de Epaminondas muda, adquirindo traços mistos de surpresa, suspeita e
curiosidade, pergunta, E quem é o senhor. Sem mostrar qualquer desconforto com o tom
áspero da pergunta, responde prontamente, Desculpe os maus modos, sou Cléston Coimbra,
deveria ter me apresentado, sou gerente de controle contábil na Conta Conta Contabilidade,gerencio o setor onde o jovem Abelardo trabalha, hoje, acredito que tenha tido algum
problema, deixou o trabalho sem aviso, naturalmente, venho aqui em nome da empresa que
zela por seus empregados, preocupado que algo ruim tenha acontecido.
A fisionomia de Epaminondas muda, agora é de satisfação. Terá a oportunidade de
passar para um interlocutor interessado a história fresca, Acredito que o senhor realmente
não sabe o que aconteceu hoje, ainda a pouco. Cléston estranha a maneira como o homem
coloca a questão, Acredito que não, me diga. Com olhos carregados de satisfação o porteiro
se aproxima molhando os lábios com a língua, passa a mão no canto da boca tirando um fio
de saliva, aquece a garganta, começa a contar, Veja só, mais cedo, era fim da tarde, Jucino,
o porteiro que fez hoje o turno do dia, me ligou, dizendo para eu me apressar que ele e dona
síndica estavam resolvendo um problema, o problema era justamente com seu Abelardo,
parece que uma jovem, que a propósito o senhor deve conhecer, contou que trabalha nessa
mesma empresa. Cléston como em um reflexo coloca a pergunta que interrompe o relato, E
qual o nome desta Jovem. Epaminondas apressado em volar para a narração apenas diz,
Isso não sei. Outra vez a rápida pergunta impede a continuação da história, Como ela é.
Agora com tom de voz firme responde de maneira a deixar claro que não agrada ser
interrompido, Também não sei, não cheguei a ver. Cléston percebendo as intenções
envoltas no tom da resposta apenas comenta, Tudo bem, prossiga. Por alguns segundos
Epaminondas aguarda, tendo certeza que não será interrompido retoma o fio do
pensamento, Certo, quando cheguei, Jucino foi procurar o Capitão, que é chaveiro, para
abrir a porta do apartamento, a garota estava com medo que Abelardo estivesse passando
mal, ou coisa que o valha, e como não atendia porta e telefone, todos ficaram preocupados.
Neste momento o narrador fica em silêncio, experimentando um sentimento de tristeza que
Cléston não percebe, confundindo a pausa com a espera para um desfecho cômico, diz
procurando antecipar a piada, E então, encontram o rapaz de cuecas vendo televisão.
Epaminondas permanece sério enquanto fala, Antes fosse, alguma coisa estranha
aconteceu, isso eu te digo, não foi coisa boa, fiquei na recepção enquanto subiram para
entrar no apartamento, lá pelas tantas para na rua um carro de polícia e segundos depois
uma ambulância, recebo os dois policiais dizendo que haviam sido chamados por um
vizinho do andar, quem chamou a polícia foi seu Rubens, escutou uns barulhos estranhos e
quando abriu a porta para ver o que era se deparou com um corpo ensanguentado no
corredor. Pela primeira vez Cléston entende que há algo mais além de seus próprios
problemas, ainda que seja doloroso chegar nesta conclusão, pondera que talvez, e apenas
talvez, os motivos de Abelardo nada tenham a ver com as pretensões do chefe, espantado
sem conseguir conter a voz esganiçada diz, Como assim um corpo ensanguentado.
Epaminondas respira fundo, continua o relato, Assim mesmo, ele voltou para dentro de casa
e imediatamente ligou para policia, e sabe quem era, a garota. Cada vez mais espantado
Cléston pergunta o que já entendeu, É a garota da empresa que veio procurar Abelardo.
Epaminondas confirma com a cabeça e continua, Ela mesma, e aí as coisas só ficam mais
estranhas, eu subi com os policiais, a pobrezinha estava torta na poça do sangue que
escorria pela testa, chegaram os bombeiros, eles levaram a garota, ainda viva, mas muito
ferida, fora ela, ninguém mais foi encontrado, o que é muito estranho mesmo, o garoto
sumiu, Capitão sumiu, dona Judith sumiu, e ninguém sabe de nada, só te digo uma coisa,
um troço ruim aconteceu, já tem fofoca, já tem a até gente dizendo que os três planejaram o
crime, outros discordam, e mil versões já apareceram, eu, não sei de nada, só sei que isso
tudo é estranho, a polícia olhou tudo e não achou nada suspeito, depois até entraram noapartamento da dona Judith, e lá tava tudo normal, e ai eu te falo, se ela fosse fugir iria pelo
menos uma mala levar, ainda mais ela que anda toda emperequetada num ia sair por aí só
com a roupa do corpo, só te digo uma coisa, aconteceu um troço estranho, e só de pensar
fico arrepiado.
Em silêncio os dois se olham, Cléston fica quieto, procurando digerir a história.
Epaminondas continua, Pois é, a ambulância foi embora, os policiais ficaram, reviraram o
apartamento do Capitão também, sei nem se eles podiam fazer isso, mas alguém tinha a
chave, e não encontraram nada, parecia tudo normal. Outra vez silêncio, profundo e
pensativo enquanto ambas as partes vagam em próprios pensamentos, Epaminondas é o
primeiro a colocar o que pensa, E tem outra coisa estranha, que não entendo, sabe, eu
conheço o Abelardo, é gente boa, mora sozinho, de vez em quando me chama para ajudar
em alguma coisa, sabe como é, fiação antiga, de vez em quando aparece um problema
elétrico, e lembro bem como era a sala dele, simples e limpa, com cara de solteiro, mas ai,
hoje, enquanto tudo acontecendo, reparei numa coisa, a sala, completamente vazia, só um
sofá, grande e bonito, de muito bom gosto, mas fora o sofá a sala tá um grande vazio, nada
no chão, no teto, nas paredes, nenhum outro móvel, antes, semana passada mesmo, lembro
tinha uma mesa, e cadeiras e uns quadros na parede e uns retratos, mas agora lá não tem
nada, nada além do sofá, fora ele o ambiente parece tão vazio que dá até arrepio, eu, não sei
direito o que, só sei que a sensação é de que alguma coisa ruim aconteceu ali.
Cléston assimila recentes informações, chegando a um estado de tristeza e pena que,
tão logo, é superado por fortes sentimentos egoicos retornando a raiva pelo subalterno
fujão. Permanece procurando entender como alguém pode ter ido tão longe apenas para
fugir de uma tarefa. Pensa que, O rapaz deve ser mais esperto do que parece, surpreendente,
enganou até a polícia. O pensamento linka uma ideia, dirige a palavra a Epaminondas, Me
diga, este prédio tem outra entrada além desta. O porteiro percebendo o rumo da pergunta
responde, Não senhor, apenas aqui, o prédio não tem saída nos fundos, o único portão é
este. Cléston coça a sobrancelha juntando ideias, Certo, mas devem haver câmeras.
Epaminondas sorri, satisfeito por encontrar respostas rápidas mantendo a conversa
interessante, Sim, a entrada, a portaria, os elevadores, possuem câmeras, algumas, inclusive
a polícia levou os registros, mas te adianto, duvido que eles encontrem alguma coisa, eu
mesmo achei estranho esse sumiço, fiquei aqui enquanto eles lá em cima estavam, não vi
ninguém passar, depois, ficou um policial na entrada quando os outros subiram, ele não viu
ninguém sair, não entendo. Cléston com as peças que tem, monta um quebra cabeça com a
imagem que deseja, sente que está próximo de desvendar o mistério que nem mesmo a
polícia solucionou, e este pensamento lhe enche de orgulho enquanto diz, Eles não
conseguiram sair, exatamente, certamente ainda estão no prédio. Epaminondas sorri sem
concordar, Acho isso difícil, pois reviramos os apartamentos deles, inclusive com a polícia
junto, e ainda, os policiais bateram na porta de uns quantos moradores, ninguém nada viu,
nada sabe, de um cima a baixo o prédio foi revirado. Epaminondas termina a história
acentuando a última frase com a cabeça balançando negativamente
Os dois se olham. Cléston está confuso. Procura entender, organizar os
acontecimentos de maneira a gestaltiar um tudo de fatos. No momento o relato do porteiro é
recebido como fragmentos. Quando a pouco tomou as ruas da cidade para tirar satisfações
esperava encontrar o jovem rebelde no sono saboroso daqueles que desafiam os mais fortes,
entretanto, agora, tem notícias de um cenário completamente diferente. Por um momento
ejeta da consciência os pensamentos que se debatem. Mais do que palavras precisa verificarconcretamente, ainda acredita que o rapaz está no apartamento, sorrindo zombeteiro da
peça pregada, enganando moradores e as autoridades. Cléston está de tal maneira obstinado
com a situação que olvida todas as partes da história que não corroboram com as próprias
considerações. Os outros sumiços e o corpo ensanguentado somem da mente deixando
apenas a persistente ideia de vingar o desaforo recebido.
Epaminondas recebe de bom grado a sugestão de Cléston, subir no apartamento
para averiguar possíveis pistas, buscando elucidar os fatos, Epaminondas diz enquanto
acompanha o novo conhecido em direção ao elevador, É no sétimo andar, você logo vai ver,
no fim do corredor a porta aberta, eu tenho que ficar aqui embaixo, só vê se não demora.
Capítulo Cinquenta e Cinco, Desfechos antes do sono
No sétimo andar as portas do elevador abrem. Revelando manchas de sangue
secando no chão. Cléston cruza o corredor rumo à porta aberta. Está dentro do apartamento,
a primeira impressão do ambiente é hostil e aconchegante, reflete amor e medo, desejo e
destruição, é o máximo de exterior que pode ser uma imagem íntima.
Com passos precisos busca andar em silêncio, vasculha o apartamento, um a um
esquadrinha cada canto de cada cômodo. Aborda todos os lugares, dos óbvios aos
inusitados, debaixo da cama, atrás da cortina, dentro do guarda roupa, possíveis passagens
na parede, tateia, pensa, move, nada encontra. Nem rastro nem alguém. Desapontado
começa planejar o retorno enquanto a sala volta. O vazio e o sofá. Lembra das palavras do
porteiro sobre um sofá de muito bom gosto, De fato um bela peça, sedutora e exagerada,
uma peça perfeita para uma sala atraente com boas bebidas, não aqui. Estranhamento alerta
a mente. Não faz sentido, O sofá está fora de seu ambiente, não há construção lógica que
aqui o coloque.
Um movimento é visto, Cléston percebe as almofadas mexendo, lenta e
silenciosamente caminha, agora, a medida que do sofá se aproxima, escuta um leve ressoar,
como uma longa respiração, sons de um sono pesado, grave e alongado expirado seguido de
duas pausas. Cléston tem a prova cabal, é inegável, não há senso ou sentido que o contrário
exponha, nem resquício de dúvida que altere uma percepção imediata, quando, no repentino
rompante de luz que faz nascer as epifanias, conclui em alto brado, O salafrário está
escondido dentro do sofá, você enganou os vizinhos e a polícia, não a mim, irá acordar as
esganadas. Na raiva da situação Cléston mergulha no meio das almofadas com as mãos
estendidas.
Sois, luas e planetas, órbitas e movimento. Astros um dos outros longínquos, forças
descomunais extensivas mesmo a remotas distâncias, ubiquidade. Neste planeta cujos fatos
narrados estão a acontecer, uma conjuntura específica abre na janela das dimensões a
presença da entidade que, à medida que determinados astros de determinados alinhamentos
se distanciam, volta a forma prisional onde ficará até que o próximo evento astral ocorra. Já
não tem a forma poderosa que a recentes horas ostentava, em pouco pleno sofá será, noentanto, em um último esforço executa uma última ação, escancara a boca almofadada para
receber a inesperada sobremesa.
A criatura tosse. Está engasgada, Cléston está preso na garganta retornada a
estofado e tecido. O corpo bestial luta contra a força prisional. Parece que vai cuspir, em
um último esforço consegue engolir. Tão logo Cléston é deslizado para o interior de
Matzatea, o feitiço volta a ter plena jurisdição, toda forma sobrenatural encerrada na
pequena caixa, protegida por selos e pelas bentas madeiras formando o esqueleto do
encantador sofá. O ambiente está completamente vazio, exceto, pela aconchegante peça
displicente a meia luz da lua a convidar.
Coda
Quando uma bela probabilidade banha angulosos espaços em sobrepostos tempos, a
luz do sol em estado de graça ilumina em múltiplos tons degradê, tonalidades laranja,
matizes avermelhadas, tons que fogem ao púrpura, pitadas verdes flexionadas pela copa das
árvores formando o teto furado por onde as cores do espetáculo ao chão chegam. Andando
a passos miúdos vai Olivia. Hoje completa um mês que deixou o hospital. Foram quase três
meses, exatos oitenta e quatro dias de coma. Lembra o dia em que do coma saiu, acorda,
meia luz no quarto desconhecido, cama desconfortável, dores no corpo, nada familiar até os
olhos encontrarem a mãe aos pés da cama. A expressão da mãe explode na mistura de
felicidade e espanto que surge nos rostos de fé quando as orações são atendidas. Os gritos e
as aleluias atraem outros ao quarto onde a senhora pula de braços abertos na filha deitada
sem entender o que está acontecendo ou onde está. A agonia dos primeiros minutos.
A mente volta para rua onde caminha, o sombreado das folhas no chão, o barulho
dos carros, a pressa dos passantes, o mundo ainda é estranho. Aqui, a palavra ainda é
colocada para expressar a nova gama de sentidos e sentimentos pós coma. Tem evitado
espelhos, a imagem refletida não reflete a memória na qual o mais intimo eu se refere. São
olhos estranhos, pupilas perdidas no lago íris, solilóquio de cópia imperfeita, sente o que é
ser de si mesma simulacro. A calçada termina no asfalto onde os veículos atravessam o
sinal verde e pedestres aguardam. Enquanto espera o semáforo observa os outros alocadosna mesma situação. Nestes minutos tenta pelas expressões adivinhar seus pensamentos.
Quando as luzes mudam volta ao ritmo das passadas, as pernas ainda doem, nos primeiros
dias a dor é pior, agora, é prazerosa a aflição dos músculos depois de tanto imóveis. É
estranho pensar, sobre o coma, todo tempo deitada na cama do hospital. Na experiência
sente como uma noite mal dormida. Como acordar de ressaca, o corpo doi, a cabeça lateja,
as memórias são confusas, Malditas memórias.
Não foi imediata a lembrança, passados os dias surgiram como peças a se encaixar,
corroboradas pelas noites, onde, sonhos com a hedionda criatura repetem a cena final, os
olhos sem vida de Abelardo e a pancada. A última imagem é o ângulo aéreo atravessando o
recinto com o corpo em posição horizontal, neste momento, duas imagens aparecem
sobrepostas, uma é a caverna ancestral que se confunde com a besta, estranha fumaça
espessa ora incolor ora tons pulsantes cercando mil restos rastejantes de vida suspensa e
tentáculos de fumegantes ventosas. A outra, o apartamento de chão e paredes, em tudo
correto a percepção humana. O voo termina com o impacto. Não sente dor. Dorme. Sem
sonhos, pelos menos daqueles que é possível lembrar. Acorda. A mãe chora, uma médica
ausculta, policiais perguntam. Ninguém acredita.
A polícia tem tratado o ocorrido como crime. Na voz do delegado responsável
, Um crime peculiar, não sabemos ainda exatamente que tipo de crime foi cometido.
Temos uma vítima de agressão e quatro desaparecidos. Nada roubado, nada sumido. A
única testemunha ocular sofreu traumatismo craniano e ficou em coma, agora tem
apresentado pensamentos delirantes. Outra testemunha, o porteiro de plantão na noite em
questão, afirma ter todo o tempo permanecido em posto sem ter visto qualquer movimento
suspeito. Até agora sabemos que o morador do apartamento, onde é a cena do crime, deixou
o trabalho passando mal, a agredida, colega de trabalho, após o expediente foi averiguar o
estado de saúde do dito. Acreditamos que, tendo passado mal dentro do apartamento, foi
necessário a ajuda de um chaveiro, que, juntamente com a síndica, um porteiro e a
agredida, todos visando o bem do indivíduo, se incumbiram do salvamento. O sucedido
ainda não temos exata certeza. Trabalhamos com algumas hipóteses e poucos fatos. Outras
perguntas serão respondidas quando no decorrer da investigação surgirem novidades.
Os padrões da rua mudam à medida em que a caminhada continua. Deixa o sol
banhar a face, os olhos cerrados controlam a luminosidade, a calçada reflete pensamentos,
deixando andar a raiva e a frustração oriundos da descrença de todos. Das autoridades aos
familiares, ninguém acredita na versão dos fatos que possui. Tomaram por consenso levar a
história como fruto do golpe que trincou o crânio e iniciou o coma. Sozinha na versão cuja
única testemunha é. Cansada das reações nada mais conta, frente às perguntas apenas diz,
De nada lembro. O que de pronto é aceito, com misto de pena e compreensão. Entretanto.
Não está satisfeita. Sabe o que aconteceu. As memórias retrocedem aos últimos momentos
com Abelardo, as últimas conversas, a última visita. Ouviu as histórias sobre o sofá, viu a
hedionda criatura, sabe, que, se alguém pode lançar esclarecimento, esse alguém é o
homem que presenteou Abelardo com o sofá, sabe, o senhor que por Ramon Ruiz atende, é
perigoso. Tem por certo e claro que o amigo foi enganado, vítima da trama do comerciante.
Tem um plano, simples, irá visitar a loja de Ramon, olhar, conversar, se informar, não
conhece o velho e, da mesma forma, conhecida não é, dois estranhos, vendedor e cliente.
Pássaros apressados, passos apressados, da calma foge o dia, como vazio é o último olhar
de Abelardo, ainda que, ali ainda estivesse, volta a refletir, pensamentos intrusivos, tanto
quanto elucidativos, remoendo se algo mais poderia ter feito. Algo como um fim, um fimque não acontece pois jamais irá acabar, o paradoxo da condição humana, parcela finita
dentro do próprio infinito, nada irá acabar pois a todo instante tudo acaba. A fatalidade nos
olhos, pondera o que o amigo terá de positivo, ou vantajoso, visto, para afirmar essa outra
realidade. Olívia entre ponderações passadas alguns pontos de certeza encontrou, entre
estes tem por indubitável o desejo de Abelardo, Ele se entregou voluntariamente, ainda que
tenha sido seduzido, enganado na medida que a paixão sempre engana o apaixonado, mas
ele sabia, já tinha entendido, ele sabia. O pensamento é cortado pelo barulho estridente da
sirene de uma ambulância passando, pensamento silenciado, retornando de outra maneira,
levemente espantado enquanto Olívia tenta com a ponta dos dedos apenas levemente tocar
o fim, encontra apenas o agora. E agora, está quase chegando no destino planejado, com a
certeza de controlar eventos próximos, simultaneamente, timidamente desviando de outros
destinos, que não conhece, que não entende, mas que, acima de tudo, agora sente, pode ter
certeza, tem a certeza, o que viu, o que sentiu, agora pode falar de igual para igual com o
avô, e tem certeza, ainda que prefira ocultar os detalhes do ocorrido, irá veementemente
defender o avô quando contando histórias duvidarem, já que ele não está aqui, disso
também tem certeza, tem o descanso merecido das almas que nesta jornada terrena foram
boas. Para outros, outros destinos, retorna a imagem da criatura, pondera sobre o que terá
aos outros acontecido, desaparecidos apenas, qual deles o destino entre os destinos
intrincados ou apenas resvalados, agora distinto, onde reside a categoria outorgada por
sinto, uma rua.
Pela descrição de Abelardo sobre o caminho percorrido no dia de chuva, está na rua
do antiquário, diminui o passo, olha atentamente as vitrines. Lustres, tapeçarias, móveis,
quadros, relógios, pêndulos, na sucessão de mostruários um específico faz soar atenção.
Um quarto de leitura, de um lado a estante com livros e estatuetas ao lado do divã de
ondulado sísmico e veludo marrom, no centro a escrivaninha de boticário onde a bela
cadeira acaju espera ocupante, o alongado abajur ilumina o ambiente, deixando em meia
penumbra o grande urso pardo empalhado com uma enguia na boca. Olivia está parada, tem
certeza, o lugar encontrou. Por alguns minutos espera, através do vidro procura averiguar o
interior, ver algum movimento, expectativa de que a qualquer momento o ancião irá
aparecer. Ramon Ruiz não aparece. Olívia decide entrar.
Dentro do antiquário Ramon Ruiz e Ukobach conversam. Julgado e condenado,
Ukobach foi banido e teve as fontes de seu poder tomadas, no mundo humano anda
escondido, fugitivo procurando restaurar a antiga glória, hoje procura o velho conhecido,
tenta barganhar ajuda. Ramon Ruiz está hesitante, não gosta de problemas, e, um exilado é
problema, ainda mais um que tornou inimigo poderosas entidades. Sabe com os anos e
experiência que os assuntos de determinados seres são intocáveis, recebe de mal grado a
visita e os argumentos de Ukobach. Ainda mais no presente momento, apesar do evento
cósmico envolvendo Matzatea ter ocorrido da forma planejada, no dia seguinte, quando os
carregadores foram buscar, não encontraram o sofá. Pelo averiguado, até tarde naquela
noite o sofá esteve dentro do apartamento, as fotos tiradas pelos policiais comprovam, no
entanto. Misteriosamente o sofá desapareceu, e isto tem torcido a cabeça de Ramon Ruiz.
Envolto nestes pensamentos ignora o que o visitante diz, é neste momento que a porta é
aberta e Olívia entra.
Ramon Ruiz move seriamente a cabeça, Ukobach sem pestanejar responde
afirmativamente enquanto se esconde. O ancião vai em direção a humana. Coloca no rosto
o melhor sorriso e diz, Bom dia, seja bem vinda.Recebida pelo gracejo Olivia responde, Bom dia. O dono do antiquário continua,
Sou Ramon Ruiz, feliz proprietário deste bagunçado recinto, posso ajudar, apenas me diga
se procura algo em especial, ou, apenas, algo especial. Olivia por um breve período pensa
na melhor maneira de proceder, decidido o caminho diz, Algo para minha sala, ela está,
como posso dizer, pouco confortável, outras lojas olhei, nada me agradou, quero algo que
convide o corpo ao descanso, ainda que, não seja exatamente o que procuro, o divã na
vitrine pareceu próximo do que quero, poltrona ou sofá. Ramon Ruiz sorri, Estou convicto
que acharemos algo, irei mostrar o que tenho, aceita uma xícara de chá, termina a frase
perguntando. Olivia responde afirmativamente.
Ramon Ruiz vai até a pequena copa onde a chaleira elétrica ferve a água para a
infusão. Encontra Ukobach estupefato. Uma reação inesperada, Ramon pergunta, O que há
com você. A resposta é surpreendente, Aquela que acaba de entrar possui uma marca, ela
enfrentou um dos herdeiros de Ryl. Ramon incrédulo encaixa as questões levantadas e
ainda incrédulo diz, A humana que acaba de entrar, possui uma marca. Ukobach sussurra de
maneira firme, Sim, ela, tenho certeza, é a marca, ela sobreviveu ao encontro.
Ramon Ruiz vagarosamente retorna a visitante, neste tempo procura assimilar a
informação recebida, em todos os anos vividos, apenas um humano conhece que ao
encontro com um dos herdeiros de Ryl sobreviveu, reflete em voz alta, Deve ser alguma
feiticeira, disfarçando a forma como simples humana, uma pausa na fala e no pensamento,
obtendo o espaço para a epifania sair dos lábios em riso, Nada disso, sei quem é. Neste
momento vem à memória as imagens do noticiário sensacionalista mostrando imagens da
jovem em coma.
Retorna com uma grande bandeja de prata de onde oferece chá e pequenos brioches.
Olívia pega a xícara onde o líquido de espesso odor é despejado, não tem intenção de beber,
sente o calor passando para os dedos através da porcelana quente enquanto aparentando
distração anda pela loja. Ramon Ruiz acompanha, na maior parte do tempo em silêncio, vez
ou outra emitindo algum comentário sobre algo no campo de visão.
Estão parados, frente a tapeçaria estendida entre duas hastes, tem um metro
quadrado, representa um homem vestido com um tipo de armadura formada por quadrados
de ouro no mesmo padrão que os desenhos tatuados no rosto, cavalga um ser cujo corpo é
de gato mourisco, a cabeça de águia e o rabo são duas jararacas. Olivia está encantada com
os padrões e a expressão no rosto do homem. É Ramon Ruiz quem diz, Este é Tupa Yogoco
um feiticeiro do início dos tempos, o nascido entre dois oceanos, percorreu o mundo, em
diferentes continentes protagoniza lendas e histórias. Salvou impérios, outros destruiu,
amansou feras, descobriu as propriedades botânicas de diversas plantas, fabricou remédios
e poções, cujas receitas dividiu com os humanos, derrotou monstros, toda sorte de
poderosas criaturas, e, aquelas cuja imortalidade não permitia a morte, aprisionou.
Olivia está atenta à fala do ancião, é com espanto que recebe a seguinte afirmação,
A criatura cujo encontro você sobreviveu, foi aprisionada por Tupa Yogoco. Todas as
informações giram no vórtice que constroi a mente, frustrado o plano inconspícuo percebe
como foi tola a pretensão, encara os pesados olhos antigos quando pergunta, Como sabe
quem sou. Ramon Ruiz sorri, sem desviar o olhar, Digamos que poucas coisas a um velho
escapam, se tenho o palpite acurado, vem em busca de luz.
A escolha de palavras deixa Olivia atordoada, tanto sentido faz, luz, necessita de um
ponto claro onde possam habitar as ideias. Desacreditada por todos, o que procura é
esclarecimento e compreensão, compartilhar o ocorrido, conversar com alguém que saibaser verdadeiro o que diz. A frequência do que sente é distorcida, na mente pesca frases, Vi a
criatura, o âmago monstruoso da morte, o cheiro pútrido, a fumaça sulfurosa, os tentáculos
pulsando apetite.
Silêncio.
Neste momento algo perpassa o corpo. O silêncio permite a percepção de todos os
micro sons que escapam à experiência rotineira. Como todo tempo é habitado por falas e
ruídos, o silêncio causa espanto. O ventilador desligado quando o volume das hélices havia
sido esquecido. Mil sons percorrem o interior da loja, o ranger da madeira, o trinar dos
lábios, o trinido causado pelo corpo sem matéria dos fantasmas ao atravessar superfícies
sólidas, o guinchar dos roedores, os sons de chocalho seco produzido pelas lepismas se
alimentando de celulose.
Olivia tem outra vez a sensação cada vez mais comum nos últimos dias, atravessa o
espelho onde o novo eu protagoniza, onde a certeza habita a fronteira da sanidade. Sente
desconforto frente a confortável presença do ancião, que, Olivia acertadamente já não mais
vê como humano. Ramon Ruiz é quem diz, com voz modulada de maneira fraternal, Sim
senhorita, a visão da escuridão te radia os olhos, deve estar farta do mundo, cegos, felizes,
esforçados na manutenção dos antolhos da percepção, ignoram tudo aquilo que os foge a
zona de conforto, chamam de delirante a concreta descrição dos fatos, sem dúvida, seus
olhos afirmam, veio em busca de luz, veio em busca da luz vista quando nas trevas com as
trevas lutou.
Olivia nada diz. Tem a clareza do encontro fortuito e o medo inexorável que
acompanha o destino. Nada diz. Não tem o que dizer, palavras fogem, as seguradas são
pueris, falam de monstros e fantasmas, cenas passadas retornam, o instante atualiza
experiências antigas até então isoladas das pulsões, ecos de memórias aparentemente
esquecidas retornam, descalça caminhando sobre os cacos de vidro do espelho quebrado.
Em sua extensa sabedoria, Ramon bem os humanos compreende, empático
acompanha o silêncio, quando, um pequeno ruído vindo de algum lugar do interior da loja
traz a lembrança do visitante. É uma questão que não pode postergar, mantendo o novo
tom, educadamente diz, A senhorita terá que me desculpar, infelizmente, hoje, é uma má
hora, não tenha dúvida, muito gostaria de alongar este colóquio, entretanto, há algo que me
necessita.
Olívia recebe as palavras com compreensão, os caminhos neurais se adaptam a
sugestão, sente a necessidade de ar fresco, o ar viciado do interior da loja é leve incômodo.
Ramon faz com a mão direita a cortesia indicando o caminho enquanto a coluna reta se
curva com os olhos fixos no chão. A reverência, de uma forma estranha e afetuosa, é
graceja. Com um sorriso, Olívia agradece enquanto segue o caminho em direção a porta.
Ramon convida, V olte amanhã, prometo que estarei em completa disponibilidade. Olvia
apenas sorri, os dois riem quando se despedem, um, volta para o interior da loja, a outra
sente o sol tocar a nova face.
Ramon Ruiz tranca a porta de entrada, com a loja fechada procurando assimilar
todas as preocupações. A recente visita é surpresa, mas não inesperada. Acompanhou as
notícias sobre a saga da moça, agredida em um estranho crime, em coma por várias
semanas, chegou a pensar que talvez viesse procurar a loja, entretanto havia esquecido, hoje
pego de surpresa, detalhes a serem considerados em outro momento, agora, algo de maior
urgência demanda atenção, pensa no visitante escondido no fundo do antiquário, trazendoquestões delicadas, importuno e perigoso, Ramon enquanto anda reflete na melhor maneira
de declinar os pedidos de Ukobach, sem de nenhuma maneira ofendêlo.
Neste mesmo tempo, em outro espaço, poucos metros próximo, seguindo pela
calçada do lado de fora do antiquário, outro ser tem o humor pleno e repleto de todas as
fontes redoriais. Olivia sente a ponta dos dedos esbarrar nos sentidos ocultos que energizam
o mundo. Por alguns segundos lembra das missas na igreja frequentada quando criança, os
hinos, a concentração na palavra, agora em similaridade lembra, o estado em que se
encontra é paralelo a beatitude dos santos e santas, compreende, algo simples e triste,
melancolia da certeza, olha a simplicidade do mundo e consegue ver alem, olhos abertos,
enxergando o tecido da existência, sentimento com aquilo que para além se procura religar.
Desentender as coisas para entender a vida, a solidão compartilhada no âmago amargo da
humanidade, de tudo aquilo que por existir tende ao fim, Chegará o momento que tudo irá
acabar. E assim, tal pensamento alívio lhe traz, na esperança da finitude antever o descanso,
lhe permitindo neste instante leve seguir pelo sol, em direção a próxima esquina, onde irá
virar a esquerda, para um inusitado destino encontrar.